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Perturbação

-Eu só preciso de alguns dados seus para dar início ao interrogatório. 
   -Como? Interrogatório? Mas eu nem deveria estar aqui. 
   -Mas você decidiu estar em uma cena de crime, certo? Agora, diga-me o seu nome completo e a sua idade. 
   -Julieta Marsterson. 19 anos. 
   -De onde você é? O lugar que você nasceu... 
   -Em um vilarejo da Itália 
   -E agora, senhorita Julieta, pode começar a falar sobre o caso. 
   -Mas eu já disse o que eu sei. 
   -Você só disse que estava morando com as vítimas. 
   -Sim. Eu disse isso. 
   -Então, explique o porquê. 
   -Eu não tenho nada para explicar. 
   -Bom, se você me ajudar, senhorita Marsterson, eu posso ajudar você. 
   -Isso é uma proposta? 
   -Não. É a realidade. E você pode começar não mentindo. 
   -Não é mentira. 
  Nos conhecemos em uma festa, eu não sabia o nome dele e ele tampouco o meu. Mas no dia seguinte eu recebi uma carta sua que dizia que queria me encontrar próximo ao lago do nosso vilarejo ao pôr do sol, eu fiquei muito feliz. O único problema era que as nossas famílias se odiavam. Mas isso não foi um grande problema, desse modo no dia seguinte eu sai pela tarde e o encontrei. Ele já me esperava quando cheguei. Levou uma rosa e recitou poesias. A nossa poesia. Desde esse dia começamos a nos encontrar as escondidas. Na igreja, no lago, nos jardins das nossas casas, ou em qualquer lugar em que não fossemos percebidos. Não demorou muito a ter nos descobrirem. Algum traidor da casa nos entregou e pegaram uma das cartas deles para mim. Então a partir daí tramamos nosso plano de fuga. Passou-se três dias, ele tinha fugido um dia antes para organizar uma cabana ao sul para servir como nosso refúgio temporário, enquanto eu ainda estava sobre o teto de traidores. Na noite seguinte, quando todos já repousavam, sai as escondidas deixando uma carta no quarto da minha ama, não dizendo com quem e para onde estava fugindo, apenas disse que um dia voltaria para vê-la e caminhei para a noite que me esperava, junto ao meu amado. O nosso ponto de encontro seria a ponte próxima da praça. Mas quando cheguei o corpo do meu querido jazia ao relento, infeliz sujeito que arrancou a vida de sua alma. Então sem saber o que fazer eu corrir, não podia voltar para casa, não queria. Escondi-me na mata por uns dias, sobrevivi apenas comendo pães e bebendo água do mesmo lago ao qual o encontrei no nosso segundo dia.
   -Ele quem? 
   -Valentim, o meu amado, Valentim Belarmonte 
   -Por favor, continue 
  Passado alguns dias, descobri que os Belarmontes tinham se mudado, não sabia para onde, mas estavam tão angustiados que não podia suportar a ideia de viver no mesmo lugar em que o filho morrerá. Então, assim como eles, eu decidi que não podia mais continuar a viver naquele lugar, peregrinei por alguns dias, e encontrei um grupo de ciganos que viajavam ali por perto, pedi que me levassem com eles e assim o fizeram. Foram muito gentis comigo. Viajamos por um longo tempo, isso explica as minhas vestimentas que não se assemelham a nada do que eu vestia no vilarejo. Chegamos a uma vila, não sei explicar, mas senti que deveria ficar ali, com muito pesar eles seguiram viagem e eu fiquei a mercê da minha sorte ou falta de sorte. Do mesmo modo como antes, escondi-me em uma floresta perto daqui e ia para a feira pedir comida para os camponeses.
   -E como você os encontrou? quer dizer, você estava vivendo com os... 
   -Continuarei 
  Não continuei vivendo assim por muito tempo. Um dia quando estava a caminho da feira me deparei com uma figura que me olhava assustada e sem reção fiquei estática até sentir braços rodearem o meu corpo. Era a senhora Belarmonte. Ao seu lado o senhor Belarmonte mais estupefato estava. Não sabia o porquê dela me abraçar, até que começou a falar enquanto chorava.
   -Pensávamos que você tinha morrido, mas está aqui viva, dizia aos soluços a senhora Belarmonte 
   -Se não tivéssemos ido contra o vosso romance, o meu filho não estaria morto, o senhor Belarmonte falava se referindo a Valentim e eu. E eu concordava com isso. 
   -Você ficará conosco. 
  E sem me perguntar nada, levaram-me para uma casinha na vila, que nada se comparava com o esplendor que era a casa dos Belarmonte no vilarejo. Cederam-me um quarto e roupas limpas. Fiquei sem falar por dois dias. Depois de já acostumada com o lugar, descobrir que não encontraram o assassino do meu bem-amado, e tampouco se preocuparam em desvendar tamanho horror.
   -Então, você os culpava por isso? 
   -O motivo do que aconteceu era de responsabilidade deles. 
   -E você não tem ideia de quem possa tê-lo matado? 
   -Se eu soubesse estaria aqui. 
  Eles faziam de tudo para me agradar, não me percebiam ali, eles enxergavam Valentim em mim. Em uma noite amena me convidaram para ir ao circo que chegara na vila havia poucos dias, de bom grado aceitei. Depois de algumas horas assistindo as apresentações, decidi sair para respirar um pouco, tudo me sufocava. Estava sentada em um caixote de madeira quando surgiu um palhaço do escuro, tinha uma risada peculiar e os olhos muito grandes. Levantei-me assustada pela figura que se aproximava sorrateiramente.
   -Calma, criança, não irei machucá-la. 
   -Quem é você? perguntei assustada e tremendo, a noite de repente tornara-se fria. 
   -Ora, eu sou um palhaço - disse entre gargalhadas. 
   -Um palhaço sem graça, eu diria. 
   -Seu senso de humor me faz lembrar de uma pessoa. 
  Senti braços segurarem os meus ombros e uma voz aveludada falar por trás de mim, fiquei estática com a aproximação.
   -Falando de mim? 
   -E de quem mais poderia ser? 
   -Não acredite em tudo que esse palhaço vos diz, criança. 
  Virei-me, afastando as mãos que antes seguravam os meus ombros. Ao olhar, deparei-me com a figura de uma mulher esbelta, suas feições eram finas e tinha maças bem rosadas no rosto. Apesar do escuro pude olhar perfeitamente para a figura na minha frente que trajava uma espécie de roupa de elástico, como aquelas das trapezistas de circo, e de fato ela o era. Eu não sei quanto tempo passou, mas no decorrer da noite pude conversar com os dois sobre a vida no circo e a o desprendimento com as coisas com a qual nem sempre você pode ter. Perto do final da apresentação voltei à tenda para ver a apresentação das trapezistas e a mulher com quem eu falava faria a sua apresentação também. E ela era simplesmente incrível no que fazia. Infelizmente, não consegui me despedir deles, mas seguir para casa com a sensação de que voltaria para vê-los.
   -E você voltou, senhorita? 
  Voltei para o circo no dia seguinte, pela manhã. Não estava tendo apresentações, mas perto de algumas árvores haviam tendas menores armadas, aproximei-me devagar e os vi sentados sobre a sombra de uma árvore. Eles me viram aproximar e acenaram...
   -Sente-se conosco, querida. 
  Eu passei o dia ensolarado a conversar com eles, descobri que antes de trabalharem no circo viviam na rua e sem comida, tinham que roubar pão para sobreviver e que muito antes disso tudo eles eram casados e tiveram uma filha que morreu dois anos depois do nascimento. Eu acho que eles gostaram de mim por isso, se a filha deles estivesse viva teria a minha idade. Na verdade, eu gostei muito de ficar com eles.
   -Senhorita, gostaria de saber o que você disse para o casal do circo? 
   -Como assim? 
   -Se você está falando sobre eles é por alguma razão. 
   -É apenas um fato. 
  Naquele mesmo dia, na tenda deles, eu falei para eles sobre os Belarmonte. No começo eu falei o que realmente tinha acontecido no vilarejo, só isso já foi o suficiente para que surgisse um sentimento de raiva neles. Mas então, depois eu lhes contei sobre os abusos que aconteciam em casa.
   -Abusos? Isso não foi relatado. 
   -Claro que não, não havia abusos. 
   -Então por que você falou sobre isso? 
   -Eu não disse isso. 
   -Continue... 
  Eles me perguntaram o que podiam fazer para me ajudar, então eu pensei que seria uma boa oportunidade para me vingar de Valentim, não era o que eu pensava quando comecei a morar com eles, mas a cada dia que eu acordava naquela casa e olhava para eles, eu só conseguia lembrar da face de Valentim. Não demorou muito, dois dias depois, eu retornei ao acampamento e os encontrei no mesmo lugar, então quando o crepúsculo estava surgindo eu voltei para casa e disse que a porta estaria aberta, a espera deles. Foi quando aconteceu, eu não dormir, então ouvi os passos e gritos. Quando eu entrei no quarto vi duas figuras, erguidas sobre os corpos que derramavam um líquido que parecia ser viscoso, eles estavam vestidos como da primeira vez no circo, com as roupas que usam nos espetáculos. O palhaço usava uma roupa espalhafatosa colorida e a trapezista com aquela roupa que parecia ser feita de elástico. Eles não olharam para mim, apenas continuaram fitando os corpos enquanto riam.
   -Senhorita Marsterson, já chega! Não existe circo, nem palhaço ou trapezista. Tudo o que foi falado é apenas uma invencionice da sua cabeça... 
   -É claro que existe, eu os vi. 
   -Não. O casal que você atacou na noite passada são os Grephins, eles não tinham filhos e nem sequer uma ligação com você. Isso aqui é a vida real e não um livro trágico que você leu. Estamos no século XXI e não no século XV. Não vivemos em um vilarejo e as suas roupas estão perfeitamente razoáveis para o século em que estamos e possivelmente o seu nome e idade estão errados. O crime provavelmente foi sem motivação aparente suscitado por algum surto seu. Eu tentei você fazer você falar a verdade entrando no seu teatro particular, mas pelo visto alguma coisa está errada. Policial Banks? 
  A porta do escritório abre rapidamente e a policial Banks que estava em seu primeiro turno na delegacia local aparece com uma fisionomia cansada, mas disposta a concluir seu horário de trabalho. 
    -Como posso ajudar? 
   -Ligue imediatamente para o hospital psiquiátrico.
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Atualizado em: Seg 14 Jan 2019
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