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O Estranho Passageiro

Ao acomodar-me tão confortavelmente naquela poltrona,no trem noturno que saia de whitechapel, cheguei ,por instantes,a lembrar de minha tão macia e aconchegante cadeira estofada que ficara em meus aposentos,onde com certeza,repousa neste instante minha amada esposa Aurora,sabendo eu,que ambas estarão lá quando retornar de minha viagem.
O movimento dos demais passageiros que subiam apressadamente,e quase lotavam o luxuoso vagão,que pelas próximas três horas me conduziria a Baltimore,cidade que há muito não visitara,fazia a ansiedade da viagem ser felizmente trocada por uma breve euforia.
Estava me dirigindo a terra de meus ancestrais,lembro que quando da minha última estada por lá,era um local um pouco solitário,mas pacífico,o que não deixa de ser convidativo,comparado a correria desenfreada das cidades em acelerado desenvolvimento.
Ao sentir-me devidamente alojado,observei ao meu lado um cavalheiro que pela aparência facial deveria estar na casa de seus trinta anos,trajava um sobretudo bastante pesado,o que era natural nesta época do ano devido a queda relevante da temperatura.Apressava-se em abrir o jornal matutino,exemplar igual  também tinha eu adquirido antes do embarque.
Foi ao tentar  acomodar-me,mais uma vez,na poltrona para iniciar a leitura do jornal,que fui surpreendido por um leve solavanco,e olhando pela janela logo pude verificar que finalmente estávamos a caminho,e enquanto o trem deslocava-se lentamente pela estação,já quase encoberta pela neblina do final de tarde,ainda pude ver ao longe a figura dos lanterneiros com seus bastões de citronela,há acender os pomposos lampiões de rua.
Pela janela,podia ver ao longe a fumaça escura das chaminés das fábricas,era a evolução chegando através da máquina a vapor,trazida até nós por James Watts,que chamou seu invento de máquina de Newcomen.
Durante a viagem pude apreciar as inigualáveis belezas  da natureza ,a relva que parece não ter fim,mesmo coberta por fina camada de gelo nos remete a pensar onde começa e onde termina o universo.
As pequenas janelas do vagão estavam  todas fechadas,  devido ao forte vento que soprara lá fora,causando um leve embaçamento nos vidros,fato este que já a muito tempo não presenciara,e que confesso,deixou-me um pequeno sentimento de nostalgia.
A jornada se tornara agradável,visto que uma das minhas predileções é viajar para buscar inspiração para meus textos,e compelido a revisar os rascunhos, que por mim seriam entregues ao editor do jornal,fui então interrompido pelo cabineiro,homem de elevada estatura,com um surrado uniforme azul escuro,que nem tão escuro era devido ao tempo de uso, que me solicitou o bilhete de passagem,ao qual passei-lhe as mão de imediato.Após fazer um pequeno furo no canto do bilhete estendeu a mão devolvendo-o e em voz baixa e rouca desejou-me uma boa viagem.
Notei uma certa inquietude em meu nobre companheiro ao lado ao lhe ser solicitado seu bilhete de viagem,colocando ao lado da poltrona o jornal,que pelo fato de te-lo manuseado tanto e tão repetidamente já estava em um estado de completo amassamento.Vasculhou cuidadosamente e por mais de uma vez todos os bolsos do grosso sobretudo,mas sem sucesso,percebi então que meu companheiro de viagem passava por um momento delicado e constrangedor.
Tomado pelo impulso e sensibilizado com o fato,perguntei ao nervoso passageiro para onde se dirigia?
-Sant  Merie – respondeu ele,e acrescentou
-Estou deveras envergonhado,parece que perdi meu bilhete .
Olhando  atentamente para mim esperando uma reação favorável,com certeza,o homem nada mais disse..
Perguntei ao cabineiro a valor da passagem até o destino de meu inesperado amigo,e após obter a resposta efetuei o pagamento,passando o tão desejado bilhete as mãos de seu dono por direito.
Um silêncio marcou uma longa parte do restante do caminho,até que o homem levantou-se e erguendo as mãos buscou uma pequena maleta que colocara no porta bagagem na parte superior do vagão.Retornando ao assento retirou da maleta um pequeno livro e estendendo sua mão ofereceu-me o exemplar.
-Descerei na próxima estação- disse ele, e concluiu
-Como o senhor pode ver,estou temporariamente com dificuldades financeiras,agradeço a gentileza de pagar meu bilhete e deixo-lhe o primeiro exemplar de meu livro de contos e poemas.
Colocando o livro sobre a velha maleta,pela primeira vez durante o percurso sorriu brevemente,  para depois entregá-lo a mim.O que após fazer desceu rapidamente em seu destino.
Por alguns momentos fique sem saber o que fazer,se observava o estranho viajante que se afastava rapidamente,ou me dedicava a conhecer suas qualidades literárias,visto que estou com seu trabalho em minhas mão.
Resolvi então fazer da leitura meu próximo companheiro de viagem,já que minha estação de destino estava aproximando-se,o livro que recebera estava em capa dura e  numa cor escura que aproximava-se muito do cobalto e havia apenas a figura de um pássaro,de plumagem escura,ou algo assim na capa,sem nenhuma inscrição como título principal.Apenas na parte inferior da capa o nome de seu autor , meu inesperado e desconhecido amigo de viagem...
Edgar Allan poe
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Atualizado em: Qui 10 Maio 2018

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