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O Refúgio

Sigo em minha montaria, a tortuosa e extremamente perigosa estrada de Derbyshire,que leva até a cidade do mesmo nome,na região Oriental da Inglaterra.O ano era 1890,dirigia-me a clinica psiquiátrica Real,onde meus préstimos como esculápio seria de grande valia,visto quer havia um surto de febre tifóide naquela região.Lá, no mundo dos enfermos e necessitados,com certeza minha aparência não seria empecilho para trabalho humanitário.
Tenho meu particulares motivos,também,para ir a um lugar tão distante para fazer a caridade.Meu rosto não tem um agradável aspecto,as cicatrizes deixadas pelas chamas,durante o terrível incêndio que destruiu a capela da Aldeia de Kemble,deixaram minha face e minhas mãos miseravelmente deformadas.Embora evite os lugares com aglomerações de pessoas,devo eu,me acostumar com a reação delas, olhando-me como  se a um animal em um circo de horrores.Sem falar,certamente,nas terríveis lembranças daqueles assombrosos acontecimentos.
Mas a noite estava chegando,e o céu em um breu assustador,encobre as nervosas ondas do rio Derwent,que se precipitam nos rochedos ao longo de toda estrada ,tocadas pelo vento que a cada momento parece ficar cada vez mais forte. O seu aspeto inspirou-me verdadeiro terror e, ao parar meu cavalo, senti quase o desejo de voltar atrás. No entanto, imediatamente me envergonhei da minha fraqueza e continuei.Saltei de minha montaria e procurei proteção na murada de pedras,mas era inútil.Era necessário encontrar um abrigo,e rápido,pois uma tempestade esta por chegar com toda sua fúria.Raios  precipitavam-se furiosamente no céu.Olhei pela borda do penhasco e vi uma vasta extensão de mar cuja cor escura,e o vento que bramava violentamente me recordou imediatamente o quadro de Pierre August, (A Tempestade).A morte aproximava-se e lançava sua negra sombra sobre mim.
Era o panorama mais espantosamente desolador e assustador que a imaginação humana pudesse por ventura conceber. O ruído mais forte do vendaval, que ia crescendo sobre a muralha de pedras soava como um uivo, de uma criatura diabolicamente feroz,a assustadora. Fui fustigado pela fúria indomável do vento,que fez minha montaria retornar em desabalada carreira.
Era um imenso precipício de granito luzidio e negro. Por nada do mundo me teria aventurado próximo a borda. Na verdade, eu estava tão profundamente agitado pela situação perigosa do momento que me deixei cair a todo o comprimento no solo, encostando-me a alguns arbustos,até que por fim avistei uma construção a frente,queria eu,imediatamente fugir daquela terrível tempestade. Uma luz anunciava que próximo estava de algum abrigo,ou pelo menos assim me parecia,ao aproximar-me constatei que a  construção era como a um arco que cobria toda estrada,com dois andares sobre o majestoso arco,três pequenas janelas,uma delas com uma pequena luz,deveria ser,pensei, um local seguro a um viajante apavorado.
Iniciava ali,a aventura mais extraordinária que jamais relatara algum ser mortal, ou pelo menos tão extraordinária que homem algum pôde a ela contar, e as cinco horas seguintes que passei ali, despedaçaram-me a alma.
A construção toda em enormes pedras,cobria toda estrada,tornando impossível seguir viagem sem por ali passar.Como se a túnel fossemos obrigados a passar para entrar em Derbyshire.
Aproximei-me do inusitado refugio,toda a construção tremia em sua base e o rochedo mexia-se. Deitei-me de bruços, e num excesso de agitação nervosa, encostei-me a parede de pedras próximo ao portal de entrada.
No ano de 1885, no domingo da Sexagésima,o padre Antônio Vieira,de Portugal, presenteou-me com o livro  Semen est verbum Dei (S. Lucas, VIII, 2) ou seja, A semente é a palavra de Deus. Ajoelhei-me ao chão,cruzei os braços segurando fortemente o livro,que tirara de meu alforje,contra o peito,coloquei meu rosto quase ao chão,como a implorar ao senhor um perdão imperioso,pois não queria eu,ali perecer, como um excruciante pecador.
Através de uma pequena janela,um homem,vendo meu intenso desespero,abriu a porta que dava entrada a estranha construção e aproximou-se,mesmo com o vento arrastando quase tudo que encontrava pela frente,o homem parecia agir como se nada tivesse a acontecer, Vestia-se como a um nobre aristocrata Londrino,com uma vasta capa escura,na mão portava uma bengala,com cabo de prata em formato de cabeça de um cão. Ninguém  poderá imaginar o espanto que me invadiu naquele momento.Maior foi ainda minha surpresa,quando ao estender a mão,ofereceu-me ajuda.Arrastou-me,mesmo sendo eu um estranho, para dentro do castelo e sentou-me a uma poltrona próxima a uma das janelas,serviu-me uma taça de vinho. Lá fora a tempestade bramia furiosamente,mas meu anfitrião não mostrava qualquer preocupação.De dentro do castelo,podia observar as águas em convulsões frenéticas, ofegando, borbulhando, assobiando, voltando-se em gigantescos e inumeráveis turbilhões.Buscando alcançar as portas de meu refugio.
Se as furiosas ondas chegassem ao alcance deste local,o  esconderijo  resistiria a elas tanto quanto uma pena a um sopro de vento.Permaneci sentado a poltrona,com as vestes bastante umedecidas pela chuva,e um sentimento de pânico que dominava por completo meu corpo.Gelava-me o sangue.
Observei que a sala formava, no contesto, uma das alas da construção e que as janelas ocupavam assim três lados do estranho refúgio..A porta,por onde fui conduzido a entrar, estava situada no quarto lado. Havia, pelo menos, seis janelas. A mesa achava-se esplendidamente servida. Estava coberta de louça lisa e sobrecarregada de inúmeras espécies de iguarias, jarras com vinho.Pequenos lampiões estavam pendurados nas laterais da sala .  Observei sobre uma pequena mesa, um  Kinetoscópio,uma caixa com um pequeno visor na parte superior,inventada por Willian Kennedy,com a ajuda de Sir. Thomas Edison,neste inovador aparelho era possível reproduzir imagens em movimento através da gravação em uma película.
Rompendo a diafanáta teia de algum sonho,era uma visão de extraordinária magnificência.Uma manifestação de sofisticação e nobreza em meio aos caos.
Após alguns cálices de vinho,em uma taça de prata genuína,com uma cruz templário gravada na parte externa,o estranho anfitrião identificou-se como sendo o Almirante Berthmor,da real marinha inglesa,mas gostava de ser chama de Lorde Berthmor,e durante o decorrer da noite,enquanto lá fora a impiedosa tempestade jogava suas águas nos coloridos vidros das pequenas janelas,fui relatando,mesmo sem entender bem o porque, detalhe por detalhe,as atrocidades por mim cometidas no passado.A calma e a altivez,com que lorde Berthmor ouvia minhas palavras,me deixava um pouco desconfortado,sentado em uma poltrona frente a mim,ele apenas escutava,sem nada dizer.
Prejudicava minha visão examinando o acontecido muito de perto.Podia assim,enxergar um ou dois pontos com rara clareza,mas ao fazê-lo perdia de vista uma compreensão do todo.Ser profundo demais é um risco muito real,a verdade nem sempre esta no fundo do poço.Ao confidenciar episódios de meu obscuro passado ao estranho Lorde,sentia-me ao mesmo tempo desafogado de meus remorsos.
Uma conversa calma,entre trovões e relâmpagos que clareavam o ambiente,trouxe a minha memória fatos,que devo admitir,nada tenho a orgulhar-me em deles ter participado.
---Aproveite o momento ! Disse o Lorde enquanto apreciava calmamente seu vinho.
---- Arrependa-se sinceramente de seus pecados,e ao sair desta casa ,seguindo seu caminho,estarás perdoado de seus mais terríveis atos,sua alma livre de todas as culpas,e suas cicatrizes no corpo e no espírito curadas.
E sem mesmo entender o interesse de Berthmor por minhas irrelevantes aventuras,fui repassando uma a uma,minhas nefastas atitudes, assegurando delas estar totalmente arrependido.
Já quase ao amanhecer,quando a tempestade já havia passado,e deixado como rastro apenas um imenso charco na estrada, Berthmor,creio que já exausto de ouvir minha confissões e lamúrias,ergueu-se de sua poltrona,e colocando sua mão em meu ombro,falou calmamente...
---Meu nobre amigo...sua parada aqui não foi em vão...limpaste teu coração,tua alma,teu espírito.E após descansares iras também limpar teu corpo.Amanhã, certamente entenderas que nada acontece por acaso.
Dizendo isto,jogou-me uma almofada que havia sobre o assento de sua cadeira.
---Durma um pouco..e amanhã serás um novo homem..mas lembre-se...siga em frente,complete sua jornada, e não retornes por esta estrada.
E assim o fiz,recostando-me a poltrona que estava sentado,deixei-me dominar pelo cansaço,e pelo excesso de vinho ingerido durante a conversa.Sem dar maior importância ao comentário feito por ele a respeito de não voltar mais pela mesma estrada e somente seguir em frente.
Berthmor  fechou as cortinas das pequenas janelas e retirou-se do salão,sua aparente calma me deixara apreensivo no começo,mas agora já julgava-a bastante normal para quem ali vivia a muito tempo.
Ao acordar...o sol já havia assumido seu lugar,brilhava intensamente sobre os rochedos,a tempestade tinha se dissipado.Caminhei até a janela para abri-la,e meu espanto deixou-me perplexo,ao segurar o ferrolho da fechadura,notei que minhas mão,que até então estavam deformadas pelo fogo,eram novamente normais,sem o menor sinal de cicatrizes,imediatamente fui até a mesa da sala e ergui o cálice de prata ao qual degustei vinho durante boa parte da noite,e vi refletido minha face,perfeita,como se a um milagre fosse eu submetido.As cicatrizes sumiram,uma paz interior tomou  conta de meu corpo, que outrora tremia de pavor.
Agora entendia porque não podia mais voltar,naquela tempestuosa noite,ao redimir-me de meus pecados,do meu passado,recebi a graça de voltar a ser uma criatura de aparência normal.Pois Deus fez o homem a sua imagem e semelhança.Deveria eu,agraciado pelo acontecido,seguir meu caminho até a Clínica Psiquiátrica Real,meu primeiro destino,e lá dedicar-me a fazer a obra do meu Criador.
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Atualizado em: Qui 1 Mar 2018
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