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O MENINO DO ORFANATO

As dores guardadas no peito de um menino podem ser libertador para outros meninos, porque você passa entender que apesar de todas as dificuldades que um menino pobre possa passar, existem dores que nunca vão acabar independente de qualquer classe social. Esses relatos precisam ser contados como forma de denúncia.
       Uma família de classe média vivia em um dos melhores bairros da cidade de São Paulo, o pai era um homem exemplar para todos que o conheciam, a mãe uma mulher do lar dedicada, esse era o quadro perfeito para todos da vizinhança. O filho Heitor de  seis anos sempre bem vestido com roupas caras e com todos os brinquedos que uma criança possa desejar, porém sempre muito triste. Outras crianças tentavam brincar com ele, mas Heitor sempre muito recluso, com olhar cansado e distante.
         Certa vez uma vizinha perguntou a sua mãe se ele não tinha algum problema, pois era muito tímido.
         ─ Não querida, ele não tem nada sempre foi muito tímido não é Heitor?
         ─ Sim mamãe. Estou bem.
         Por algum motivo àquela vizinha não acreditou, o olhar do menino era um pedido de socorro, mas era algo que não era da sua conta. Como mãe apenas se preocupou com a criança, mas se ele falou que estava bem, então tudo certo.
         Uma noite ela percebeu que o menino chorava muito, ouvia de sua casa, levantou-se e foi até a janela. Não enxergou nada, voltou a deitar pensativa. No dia seguinte logo que viu a mãe do menino perguntou:
         ─ Oi Márcia tudo bom?
         ─ Olá querida, estou ótima.
         ─ Ouvi O Heitor chorar ontem de madrugada, ele está doente?
         ─ Não, não, às vezes tem pesadelo e chora alto.
         A mãe do menino falou bruscamente e foi saindo sem nem dar tchau. A vizinha ficou mais pensativa e desconfiada.
         Heitor já não aguentava mais aquilo, sabia que não era certo. A mãe sempre falava para ele ficar quieto porque o papai só fazia aquilo porque o amava. Mas não era certo. Heitor sabia que não, mesmo no seu mundo de criança onde se enxerga os adultos como poderosos, ele sabia que aquilo era covardia. Naquela noite ele chorou alto, pensou naquela senhora boa que o olhou preocupada, chorou para que alguém parasse com aquilo. Ele sabia que tinha que amar o papai e a mamãe, mas só pensava que seria maravilhoso se eles morressem. Daí tudo aquilo acabava.
        No dia seguinte Heitor não pôde ir à escola, não dava para levantar, seu corpinho miúdo estava dolorido e ele não chorava, só olhava para um brinquedinho de carrossel no chão com o palhaço a sorrir. Sentiu raiva daquele palhaço que parecia rir dele, pensou naquele momento que não gostava mais de palhaços.
        Os dias foram passando e passando e nada mais aconteceu. Heitor estava indo para a escola com sua mãe, o carro parou no farol e ele viu três meninos maiores pouca coisa que ele, os meninos vendiam bala e pediam moedas para comprar comida, Heitor sentiu inveja deles. Que bom seria só sentir fome.
        Passaram-se meses desde aquele dia, a boa vizinha mudou, Heitor ficou triste, não a via mais na rua. Estava brincando na sala, sua mãe estava no sofá com aquele pó que ele odiava, ela dizia que era pra ficar calma, mas ele sabia que quando ela cheirava aquilo ficava malvada. Logo o pai chegou nervoso, Heitor correu para seu quarto e ficou sentado na cama olhando para porta a espera, escutou as risadas e ouviu sua mãe chamar, não respondeu.
         Seu pai gritou seu nome e ele congelou, começou a suar, sabia o que viria depois. A porta abriu e sua mãe, já meio nua entrou totalmente descontrolada, era o pó, estava dominada. Pegou Heitor pelo braço e começou a arrastá-lo, ele tentou resistir e a implorar.
          ─ Por favor, mamãe não faz isso não. Não quero mamãe.
          ─ Cala sua boca menino, você é uma vergonha, se chorar vai ser pior – ela deu um tapa em seu rosto, ele caiu e começou a chorar. Seu pai ouvindo os gritos, foi até ali, no corredor entre os dois quartos, Heitor só teve tempo de levantar o rosto e ver seu pai sorrindo, quis correr, a mãe o segurou e tirou sua roupinha e ali mesmo o pai o violentou, Heitor não gritou, mas resistiu o quanto teve forças. Sua mãe assistia  a tudo e dizia com naturalidade:
        ─ Cuidado querido, não deixe marcas.
        A casa da vizinha estava à venda, Heitor sempre pensou que ela pudesse ser a pessoa que iria lhe ajudar, ficou mais triste, agora ele tinha sete anos, era maior e queria fugir daquela casa, mas sabia que se fugisse o trariam de novo e seria pior.
         No seu aniversário levou uma surra daquelas, o pai bebeu muito e fumando aquele cigarro de folhas ficou louco, chamou Heitor várias vezes, mas ele não foi. Quando seu pai o encontrou foi pior as brincadeiras, ele queimava o Heitor com a ponta do cigarro, como o Heitor não chorava ele repetia.
         ─ Menino fraco, chora mulherzinha – não vendo reação do menino ficou zangado, quando se levantou o cigarro caiu em cima de suas pernas nuas e o queimou nas coxas, ele ficou pulando como um macaco de circo, Heitor riu. Ele deu um soco na boca do menino, Heitor desmaiou.
        Quando ele acordou a mãe estava gritando com o pai, ele ficou feliz, agora ela ia defendê-lo, mas logo voltou a ficar triste ao ouvir suas palavras.
        ─ Você marcou o braço dele Carlos, agora vão ficar fazendo perguntas, quero só ver se descobrirem, temos que dar um jeito nele.
        ─ Cala boca Márcia, ninguém vai descobrir nada não, é só dizer que ele está doente, diz na escola que ele está com catapora, ninguém vai estranhar as marcas, sabe aquele amigo meu médico? – falou rindo debochado – vou pedir uns atestados pra ele.
        ─ Meu amor você é um gênio – ela abraçou o marido rindo e olhando para Heitor.
O menino conhecia aquele olhar, ela era doente, gostava de assistir o que o pai fazia com o filho e se satisfazia com isso, ele sentiu tanto nojo daquela mulher que sem saber o porquê começou a gritar, gritar e gritar, como se sua vida dependesse disso.
       ─ Sua puta descarada, seu monstro, vou matar vocês, o diabo tem de existir pra levar vocês – repetia tudo o que o pai dizia em seu ouvido quando estava em cima dele.
        Os pais surpresos  começaram a gritar, a mãe estava em vias de matá-lo, pegou uma cinta e passou em seu pescoço, o menino esperneava, o pai disse que ia lhe dar uma lição. Com a mãe o segurando e o sufocando o pai baixou suas calças e foi pra cima do menino, mas Heitor se recusou a ceder, mordeu sua mãe e correu para cozinha, pegou a faca. Seu pai veio com ódio e gritou para mulher.
        ─ Márcia, te avisei que esse menino é filho do demônio, vem ver o que o filho da puta quer fazer – e riu de Heitor, aquele sorriso bestial, na hora o menino lembrou do brinquedinho, aquele palhaço. E sentiu muita raiva. Correu como um louco pra cima do pai.
        Mas que defesa uma criança de sete anos tem contra dois adultos monstros? Conseguiram pegar o menino, bateram muito nele e como se não bastasse a surra o pai o estuprou várias vezes naquele dia. Heitor chegou à conclusão que odiava aniversários.
Seu corpinho nu ficou ali na cozinha, o deixaram como um monte de lixo, suas perninhas roxas e o sangue a escorrer no chão. Ele desejou a morte e pensou que ela tinha chegado a lhe buscar quando a campainha tocou.
        Como um anjo a vizinha que havia mudado, apareceu. Com ela trazia o conselho tutelar, pois a professora da sua filha, que também era professora do Heitor, havia lhe contado sobre o texto que leu do menino, no texto ele queria matar os pais, também comentou que estava preocupada porque Heitor vinha faltando muito à escola. A vizinha, junto com a professora denunciou os pais do menino, pedindo para que o conselho tutelar fosse até aquela casa, comentou que quando morava perto ouvia o menino chorar algumas noites e que ali havia sinais de abusos.
        Heitor foi levado, seus pais presos em flagrante por abuso de menor, tráfico e contrabando. Ninguém quis acolher o menino, os familiares diziam que Heitor seria uma criança problemática, então ele foi deixado em um orfanato. 
        Hoje Heitor tem dezessete anos, falta pouco pra ser maior de idade, é um menino estudioso e quer prestar vestibular na área de ciências sociais. Numa entrevista de trabalho quando a atendente perguntou seu endereço e ele passou do orfanato, ela o olhou e disse:
         ─ Nossa que triste viver em um orfanato – ele a olhou sorrindo e respondeu feliz.
        ─ Não é triste não moça, foi o dia mais feliz da minha vida.
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Atualizado em: Ter 11 Abr 2017

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