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Todos de pé, o show vai começar

— Puta que pariu! — Reclama William já atrasado.

De um outro lado da cidade...

— Tchau, amor, depois me fala como foi o exame — Fala Gustavo à sua mulher enquanto fecha a porta.

Em frente às escadarias, William chega já retirando sua câmera da pasta e se preparando para a chegada do grande convidado do dia.

Gustavo está com seu café, no último degrau das escadas, e observa os caçadores preparando seu arsenal, armas brilhantes, capazes de explodir reputações com um dedo.

—Porra, peraê! Wiiiill Caralho! Não é possível, brother!— Guga grita e acena para William.

Will olha para Guga e abre o velho sorriso debochado enquanto se aproxima do policial.

— Vai tomar no cu, mermão, soldado da polícia militar? Gustavo Freitas da Conceição, o famoso Guga 10! — Diz Will durante o abraço.

Guga e Will apertam as mãos e se abraçam como nos velhos tempos.

— O grande, Will, ainda com a porra de uma câmera na mão.

São exatamente 08h27min da manhã, o sol está tímido e quieto, diferente dos dois amigos de infância que começam a relembrar os antigos tempos de escola.

— Quer dizer que tu casou com a Sofia mesmo? — Pergunta Will

— Casei, casei, cerimônia modesta e tal, só tinha mais a família mesmo— Fala Guga justificando de forma implícita porque não chamou o velho amigo.

— Deixe de história, Guga, tu esqueceu de me chamar mesmo, seu bosta — Responde o amigo com um deboche na cara.

Eles riem, sabem que não foram os melhores amigos, nunca passaram muito tempo juntos, mas as suas conversas eram as melhores, xingar não era proposital, era consequência, não dava pra pensar em Guga 10 e Jhon sem ouvir um “puta merda” no meio.

Os amigos conversam e não percebem os minutos que passam. Os assuntos são diversos, a conversa flui e as risadas são inevitáveis, tão inevitáveis como o assunto que os unia naquele dia e que provocara, pela primeira vez, uma pausa entre risadas e insultos amigáveis.

— Cara, o que você tá achando disso tudo aqui? — Pergunta Gustavo

— Eu adoro, quanto mais esse tipo de maluquice acontece, mais fotos eu vendo e mais dinheiro eu ganho — Rebate rapidamente William.

— Verdade, mas eu falo sobre toda a situação do país, cara

— haha eu adoro, quanto mais maluquice, mais foto, mais dinheiro.

— Você não se preocupa, bixo, com o futuro do país ou algo assim?

— Olha, cara, o futuro do país tá na mão do futuro aí. Eu vivo de passado, tá ligado? Meu ganha-pão é vender o passado do melhor ângulo possível. — Responde o fotógrafo já sem seu sorriso no rosto.

— Eu tô pirando com essas coisas, a Sofia tá grávida, sabe? Eu quero um país melhor quando minha filha nascer. Eu preciso de um país melhor. Desde que a gente era moleque, diziam que o país ia melhorar e blá-blá-blá.

— O país tá caindo aos pedaços, isso é tudo que sei, e quero tirar uma foto de cada pedaço antes de tudo se quebrar no chão.

— Porra, não fale assim. Você lembra? Tinha um professor que dizia: “O mundo desmorona em dois pedaços idênticos de tragédia e esperança”. Isso é papo de maluco, porra.

— Seu Airton! Lembra da aula de seu Airton? Ele dizia que o futuro seria carros voadores e comida em pílulas. Mal sabia ele que o futuro é tão parecido com o passado.

— Seu Airton era meio maluco, ele teimava que o homem não pisou na lua, adorava a aula daquele doido.

— Porra Guga! Teu bigode tá igual ao do seu Airton, até falando as mesmas coisas.

— Se aquieta, doido, não quero parecer ele não. Deus guarde aquele maluco lá!

Enquanto olha Guga resmungar, Will gargalha e, em meio a tantos risos, o sorriso lhe desapareceu. Fitando o céu, ele ajeita os óculos e fala com certa tristeza. 

— Ele sempre acreditou num país melhor e olhe onde a gente tá, Gustavo.

— Eu sei, mas eu quero acreditar que, pela primeira vez, o país tá realmente mudando.

— Dizem que é preciso cair pra se levantar.

—Ironicamente, seu Airton morreu caindo da escada do colégio né hahaha— fala Will com seu tom de humor negro.

Enquanto os amigos riam e conversavam, os caçadores sentiram a presença da presa e começaram a se preparar para o ataque.

— Guga, dá licença que a hora do show tá chegando, preciso garantir o dinheirinho do fim de semana. — Diz Will abrindo seu deboche de canto de boca.

— Vá lá e não esquece de me visitar quando a Raissa nascer, seu merda!

Os dois amigos apertam as mãos e se afastam. O convidado especial chega. William aponta a sua arma para eternizar o presente como o melhor passado possível. Enquanto Guga vê um erro e percebe que um mundo está prestes a explodir em várias partes. Ele pensa na frase de seu Airton e completa, falando para si mesmo, murmurando.

— O mundo desmorona em tragédia, esperança e aplausos, seu Airton. O senhor esqueceu dos aplausos. 
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Atualizado em: Seg 29 Abr 2019

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