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Vou Virar Plutão

Com os rostos virados para as estrelas, acho que criavámos uma conexão forte. Como se fossemos estrelaa também. 
Mas então ela se levantou, com o rosto numa expressão agoniada. Passou as mãos pelos cabelos, bufando de raiva. Mas antes que pudesse perguntar se estava tudo bem, ela me atropelou com as palavras.

-Não te deixa bravo que a vida seja só isso!?-ela apontou para nada como se visse a coisa mais ridícula do mundo.

Fiquei quieto, sem abrir a boca, porque sabia que ela me atropelaria com as palavras novamente.

-Não, não! Me corrijo: você não fica indignado de ver que as pessoas aceitam que a vida seja somente isso?

Penso sobre isso. Aliás, a vida era sobre o que? Ser feliz? Fazer o bem? Deixar sua marca? Fazer o que você quiser fazer? Passar no ciclo da vida? Espera...isso era sobre Rei Leão, não fazia muito sentido. 
Mas para ela fazia sentido, porque ela estava agoniada. Parecia que iria ter um surto de raiva e que quebraria tudo em volta. 

-NÃO É JUSTO! PORQUE AS PESSOAS ACHAM QUE TUDO VAI SER DESSE JEITO?

-Desse jeito como?-eu finalmente pergunto.

Ela respira fundo e então olha para mim. Eu a encaro como um aluno querendo aprender, porque tudo que ela fala faz sentido para mim.

-As pessoas elas...elas se conformam que a vida é desse jeito. Nasce, cresce, sofre, trabalha e morre. Cadê...-ela para como se estivesse buscando palavras- cadê todo mundo que não querem ser assim.

Ela estava mais incomodada de estar sozinha ou de todos acharem a vida tão superficial? Eu ficaria com medo de estar sozinho, mas não ela... Acho que ela se preocupava mais com o fato de todos estarem cegos com relação à vida. 

-Puxa-ela diz passando as mãos pelos cabelos, ainda naquela agonia-As pessoas dizem que nossa vida é só um grão e que somos apenas um entre sete bilhões e meio de pessoas... Então porque todos vivem a mesma vida? Se somos tão insignificantes assim, porque todos não tentam ser insignificantes de um jeito único?

Aquilo fazia sentido. E de novo eu me sentia um aluno escutando o professor. Ou melhor, a professora. 
Então por um tempo nós ficamos calados e voltamos a olhar as estrelas. 

-Eu quero virar Plutão-ela murmurou com as pálpebras pesadas.

Eu a olho confusa, mas ela nem se dá conta disso antes de voltar a falar.

-Plutão não é planeta, não é nada...Não é ninguém. Mas mesmo assim as pessoas ainda sabem mais sobre ele do que sobre os planetas de verdade... Não é?-seus olhos se viram para mim.

-Claro-eu concordo-Plutão é o não planeta mais importante.

-Ele é...E eu vou virar Plutão-seus olhos se fecham com o sono. 

Tudo que ela falava fazia sentido para mim, mas eu discordo apenas de uma coisa. Não acho que todos precisem viver uma vida insignificante única, acho que isso só serve para pessoas que querem ser planetas...
Se ela vai ser Plutão eu vou me tornar uma Lua apenas para ela. Vamos viver no futuro, e no passado, e vamos ser insignificantes juntos...Mas ainda assim únicos. 




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Atualizado em: Sex 12 Nov 2021

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