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Poetry - Wrabel

— Vamos cara, está quase na hora da festa.
Tate me chamou por entre as gôndolas de mercadorias, eu segui sua voz. Ele insistiu que viessemos até aqui para comprar alguns itens para a festa, eu não podia ver, mas conhecendo meu amigo, acho que ele apenas queria algumas camisinhas. Ele continuou chamando meu nome até que eu o encontrasse em frente ao caixa. A medida que eu me aproximava pude ouvir duas garotas conversando animadamente, esperei para ouvir meu amigo iniciar as cantadas ensaiadas que ele costuma usar sempre que via uma garota quando uma das meninas gargalhou alto. O som chegou aos meus ouvidos e eu senti meu corpo se aquecer com a beleza. Imediatamente uma imagem se formou em minha imaginação, era como se o sol surgisse em meio a nuvens depois de uma tempestade.
Encarei o espaço a minha frente, olhando em direção ao som, tentando dar forma ao rosto dono de um som tão lindo, não percebi a ironia neste gesto até que uma outra voz me trouxe de volta a realidade:
— Será que você pode parar de encarar minha irmã seu pervertido.
Abri a boca para me desculpar, mas Tate foi mais rápido.
— Ele não está encarando ninguém sua paranoica, ele é cego!
O silêncio constrangedor que geralmente sucedia essa frase se instalou. Meu amigo segurou meu braço e me puxou em direção a porta reclamando baixinho da falta de bom senso das pessoas. Tate sempre fica enfurecido com esse tipo de comentário, bem mais que eu.
ELA:
2 horas depois do ocorrido Helena ainda reclamava do fora que deu na loja. Ok não tinha como saber que aquele garoto era cego, ele parecia tão... normal.
Chegamos a festa um pouco tarde, mas mesmo assim ainda estava completamente cheio de gente. Minha irmã sempre insistia para que eu fosse a essas festas com ela, mas no instante e que entravamos ela simplesmente desaparecia. Resolvi ir direto procurar algum lugar onde eu poderia sentar e colocar meus fones até ela reaparecer quando eu reconheci o rapaz da loja. Olhei procurando o amigo dele, mas não o encontrei em lugar nenhum, decidi me aproximar para me desculpar.
Me aproximei dele ainda um pouco insegura a respeito, toquei seu ombro e ele se virou olhando diretamente para mim, quando olhei em seus olhos esperava ver apenas opacidade, mas os olhos que me encaravam de volta eram azul como o oceano e cheio de imensidão, enigma e possibilidades. 
— Você não vai se lembrar de mim, eu e minha irmã estávamos na loja e minha irmã fez um comentário totalmente sem intenção de ser maldoso sobre você estar encarando, o que não faz sentido nenhum já que bom, você sabe, além disso eu queria me desculpar por ela, tenho certeza que ela se desculparia imediatamente depois do comentário, mas seu guarda costas te puxou de lá tão rápido, a gente nem teve tempo de pensar direito. — todas as palavras saíram em uma avalanche, minhas mãos tremiam e meu rosto parecia estar em chamas. Ainda em silencio ele me encarou com um olhar confuso.
— Você é engraçada. Além disso eu estava encarando, não estava vendo mais estava encarando.
Foi tudo que ele disse, em seguida ficou em silencio, um sorriso maroto dançando em seus lábios. Tentei ler seu rosto, buscando sinais de sarcasmo ou magoa, mais não havia nada disso. A situação foi tão cômica que eu não consegui evitar romper em uma gargalhada alta.
— Sua risada tem som de raios de sol. — ele disse.
Olhei novamente para ele, seus cachos cor de bronze balançando de um lado para o outro em sinal de descrença.
— Como assim? — perguntei a ele.
— É como eu vejo. Na minha cabeça sempre que eu ouço alguma coisa eu imagino alguma coisa, tipo como se eu agrupasse o que eu sinto, ouço e como eu acho que o som deveria ser. É complicado. Um raio de sol foi o que eu imaginei quando ouvi você rindo. Por isso encarei.
Fui silenciada por sua observação. Ele via o mundo com os olhos da imaginação, sem separar o abstrato do real, fiquei intrigada pelo quão bela essa forma de ver o mundo era.
— Bom, você deve estar de perguntando como eu posso imaginar algo se sou cego. Na verdade eu não fui cego a vida toda, tudo aconteceu quando eu tinha 9 anos, então eu tenho muito o que comparar pela memória.
Mas uma vez um sorriso maroto dançou em seus lábios, ele olhou para o som que vinha na direção oposta da que estavamos, e eu me peguei imaginando com o que aquele som se parecia aos olhos dele. Segurei sua mão e perguntei perto do ouvido se ele queria se sentar comigo em algum lugar onde fosse possivel conversar. Escolhemos um canto no jardim onde a musica alta que havia acabado de recomeçar não iria atrapalhar e então eu comecei a fazer perguntas.
Perguntei a ele sobre cores, e ouvi cada palavra enquanto ele me apresentava um mundo completamente novo pra mim. Ele me contou sobre como para ele o mundo sempre iria parecer gigante, e sobre a quantidade de coisas novas que ele imaginava. Ele contou sobre como era sentir as coisas, sentir de verdade, com as mãos, com o nariz, com o corpo todo. Ele me contou sobre o meu mundo, e cada palavra era como poesia para mim. 
Enquanto eu ouvia eu me senti aquecida e protegida. Nunca havia conhecido alguem assim em toda a minha vida. Jamais imaginei descobrir um mundo com tanta cor e beleza atravez de olhos que não enxergavam, mais eu havia encontrado tudo isso com ele.  
Durante a viagem de volta para casa, dentro do carro enquanto eu o levava para casa eu percebi que eu jamais seria capaz de ver a vida em tons de cinza opaco como eu via antes.
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Atualizado em: Seg 5 Jul 2021

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