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Nascimento de um morto

Não tive a oportunidade de me despedir de todos. Fui embora antes de tempo. Eu precisava dele, sempre precisei e nunca me o deram! Porquê! Que tristeza, que sofrimento, que ironia… Só preciso de mais um dia, uma hora ou então um minuto só. Dava tudo para ter mais uma pulsação frágil, um batimento passageiro por mais pequeno que seja. Só mais um dia onde pudesse ver-vos, fazer tudo o que ainda não fiz, comer a minha última refeição, viver. Só mais uma hora em que pudesse voltar onde nasci, visitar os meus pais, aproveitar. Só mais um minuto para poder ouvir cantar, rir e chorar, colher uma última flor, dar aos que estão ao meu lado.
Uns querem mais dinheiro, outros mais amor, outros poder ou conhecimento. Ainda há os que querem ter tudo. Eu apenas queria mais tempo. Só mais um bocadinho. Mas o que se tem nunca é suficiente. Não aproveitei e agora não me pude despedir de vocês, não vos pude pedir desculpa. Não tenho mais tempo.
É tarde demais. 
Em breve ficarei frio, mais do que fui durante a vida toda, frio como o inverno gelado que nos rouba o calor do corpo encolhido. Ficarei indiferente ao que me rodeia, inexpressivo e sem sentimentos. Deixarei de existir. Vou desaparecer sem nunca ter pensado antes que aconteceria inevitavelmente algum dia. Que imbecil ignorante eu sou. Vou perder tudo o que consegui. Vou embora sem querer. 
Já não tenho mais tempo. 
Ao longe ainda ouço o segredo das ondas a ganharem terreno pela areia macia, tentando alcançar as dunas douradas e perigosas. Acabam então por deixar, ao saberem que o sonho não é realizável, e regressam quando a hora chega. Constante como uma respiração sonolenta, a canção da água é infinita. Grandiosas ondas, que sabem aceitar sem dor o destino. Porque não vos ouvi antes como ouço agora?
Lá ao fundo, ainda consigo aproveitar o canto livre de um pássaro e o seu voo calmo e monótono. Sinto-o com sede. Vai molhar o bico num lago pacífico, apenas o tempo suficiente para ficar saciado, e volta a abanar as asas, aproveitando o vento fraco mas presente. Voa o pássaro sem saber onde está nem para onde vai, mas é feliz enquanto o faz. Sem questões, mistérios e enigmas, abandona o sofrimento sem saber o seu significado. Deixou para trás um nenúfar adormecido sobre o lago preso ocultamente. Mesmo sozinho, continua a florir , oferecendo cor à vegetação úmida que o acolhe gentilmente. Pelos esconderijos, volta o vento e passa, desviando-se habilidosamente. Fintando os ramos todos, a totalidade das folhas, os troncos grossos das árvores numerosas e os pequenos nobres seres, providencia um último espetáculo para o meu corpo cansado. Bailarino supremo, envolve tudo o que quer e foge sem qualquer explicação. Adeus, querido artista. 
O cheiro de um cadáver encalhou-me nas narinas e permaneceu durante algum tempo. Antes de fechar os olhos consegui ver, à minha direita, um corpo a ser devorado por outro. Este segundo fixou-me e aproximou-se, curioso, antes de acabar a refeição. Como eu fiz ao cadáver, o animal, com o coração forte a bater e os pulmões animados, cheirou-me, e decidiu guardar-me para mais tarde. Pobre ignorante, não pensou que nessa altura, o seu coração poderia já não estar a bater e os seus pulmões imóveis, e aí, arrepender-se-ia de não ter aproveitado o que lhe foi dado. Animal tolo e sem percepção, se soubesses o quanto gosto de olhar para ti.
Viraram-se-me os olhos em direção ao céu azul. Como um lençol, cobria-nos a todos, protegendo-nos dos mistérios do exterior. Sabia ele, grande sábio, que não iríamos encontrar a solução noutro sítio a não ser aqui dentro. Criamos problemas, lutamos desesperadamente, meros esforços inúteis de ilusões imaginárias. Mestre, despeço-me de ti também, que me ensinaste tudo e eu não quis ouvir. 
Ainda conseguia envolver os generosos grãos de terra que me presentearam sustento para a vida sempre que precisei. Neste momento ainda continuam comigo, absorvendo o que deixo para eles. Que a terra aproveite e se torne mais rica para poder presentear outros. Recebe para poder dar. Terra gentil, percebi agora as tuas lições. Só me resta te pedir para que não desistas, principal monumento da vida, da tua missão e educa outros com sucesso, tal como tentaste comigo. Terra, tu que és o chão que piso, o mundo, o país que cada um diz ser o seu, a mãe dos seres, a purificadora, e de onde vem o início e chega o fim, abraça-me de novo que volto para ti. 
Prestes a desaparecer, veio se pousar no meu invólucro quase morto, uma abelha. Pareceu-me que chamou outros companheiros dos quais não me recordo a identidade. Talvez uma borboleta, uma aranha, um gafanhoto, ou, com sorte, uma formiga. O que sei é que se esfregou na minha orelha deixando um rasto de mel delicado pelo meu pescoço abandonado. Não chorava enquanto me observava a partir. Tentei agradecer e pedir-lhe que ficasse mais um pouco comigo, que não me deixasse ali sozinho, mas não consegui. Roubaram-me tudo, até mesmo as forças. No entanto, não foram precisas. A rainha, tranquila, ficou sobre o nariz até ao fim, sem se mexer, investigando cada movimento até ao último. 
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Atualizado em: Qui 4 Fev 2021

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