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A senhora dos cabelos grisalhos

Era uma tarde de inverno, e a neblina cobria o imenso céu de todo o parque. E eu estava por ali mesmo, sentada, quieta, ouvindo o cantar dos pássaros, como se não houvesse nenhum compromisso com a vida. Estava a ler um livro, que não me lembro mais do enredo, mas que era um bom livro. Estava alegre naquele dia, mas eu não tinha nenhuma razão específica. Eu tinha essa mania, de certos dias acordar com uma imensa alegria no peito, e que ninguém poderia tirá-la de mim.
Passei alguns minutos em silêncio olhando para o céu, não que eu visse alguma coisa, pois a neblina me atrapalhava, mas estava sentindo a brisa batendo em meu rosto. Lembro de olhar para o lado e ver um senhor andando e alimentando os pombos, com um belo sorriso em seu rosto. Já do outro lado, via um casal abraçadinho, que confesso que me deu até um pouco de ciúmes, pois já estava em meus 23 anos e ainda não havia arranjado um para mim.  Mais à frente havia um cachorro que estava brincando com algo que me parecia ser uma borboleta. 
Passado um tempo retomo minha leitura, com muito mais entusiasmo do que quando comecei a ler. Agora a neblina havia abaixado e os sons das folhas das árvores batendo me faziam bem.  Sinto que ao meu lado alguém se aproxima, olho e vejo uma senhora de cabelos grisalhos aparentando oitenta anos. Ela se acomoda ao meu lado no banco e solta um longo suspiro. Eu olho para ela, que já estava me encarando, e fico em silêncio. Consigo ouvi-la dizendo: “ Ah, como eu queria ter essa idade de novo”. Olho para ela e dou um sorriso meio esquisito, sem graça, sem saber o que fazer. Ela continua: “Sabe?” Ela diz, e dá uma longa pausa, “Quando eu era jovem, era cheia de esperanças, orgulho, e principalmente egoísmo. Como eu queria ter uma chance de voltar atrás e mudar tudo, minhas escolhas e palavras.”  Ela me olha de um jeito triste e sereno. 
Após uma longa pausa, que para ser bem sincera me deixou um pouco sem jeito, ela voltou a falar: “Nossa, me lembro da época de quando era menina. Era uma alegria que só. Eu pulava, dançava, cantava e não me preocupava com o que as pessoas pensavam sobre mim. Eu era FELIZ!”. Nesse momento, olho para ela com um olhar de pena. Não sabia se eu deveria dizer alguma coisa, ou somente ficar em silêncio e ouvir. Ela continua: "Ah, feliz, como eu era feliz. Lembro que em algumas manhãs eu acordava com uma felicidade no peito e sentia que ninguém poderia tirar de mim, sabe? Essas manias estranhas e passageiras.” Olho para ela e penso um pouco antes de falar, mas sem perceber, as palavras já estavam saindo da minha boca: “Eu tenho isso também! Hoje mesmo me sinto assim.” Ela me olha e responde: “É mesmo? Que coincidência!” Ela para, mas retoma o assunto anterior como se aquele momento não tivesse acontecido: “Me lembro quando completei meus dezoito anos. Ah, foi uma alegria! Eu achava que a partir dali eu poderia fazer o que bem entendesse. Mas infelizmente a vida me mostrou que não era bem assim. Com o tempo comecei a me sentir muito sobrecarregada. Eu tinha faculdade, trabalho, contas para pagar, entre outras tantas responsabilidades que nem me lembro mais. Foi exatamente nessa época que me tornei a pessoa da qual me arrependo hoje. Era egoísta e não entendia o efeito que minhas atitudes poderiam me causar.” 
Ela olha para as árvores, parecendo triste, mas recupera o fôlego e continua sua história: “Minha jovem, se eu tenho uma coisa para te dizer é que aproveite a vida do jeito que ela é. Nunca tente mudar o que o destino tem para você! Às vezes pode parecer que ele quer te prejudicar, mas certamente está reservando algo bom! Se alguém tivesse dito isso para mim naquela época, eu provavelmente não iria ouvir. Eu comecei a achar que eu era a única pessoa com razão sempre. Nem sei como ainda tinha amigos. Eu era uma pessoa um pouco mimada, confesso." Ela me olha, e com um dedo apontado para mim diz: “Nunca faça isso, você provavelmente vai se arrepender. Sempre mantenha perto de você as pessoas que lhe fazem bem e afaste as que te prejudicam.” 
Olho para ela meio assustada, e um pouco tocada. Ela dá um suspiro um pouco mais intenso do que o primeiro e volta a falar: “Mais uns anos se passaram da minha vida, eu devia ter uns vinte e seis na época e achei o amor da minha vida. Ele era lindo, inteligente, gentil e muito carinhoso. Me lembro que alguns meses depois nos casamos, e tivemos belos cinquenta e um anos de casados. Infelizmente ele veio a falecer, e da pior forma possível... sem amigos, tudo por minha culpa...” Ela para, olha para frente com uma expressão de alguém que está prestes a chorar, mas segue em frente: “Tenho certeza que isso foi uma punição para as minhas ações passadas, mas não quero entrar a fundo neste assunto. Isto me faz mal, me sinto culpada e triste novamente, como se uma adaga se aprofundasse em meu peito. Se eu não tivesse sido tão orgulhosa...” Começo a ficar comovida com a história dela, mas em menos de segundos ela já começa a falar novamente: “Ah, eu tinha tantas histórias para contar, mas sinto em lhe dizer que minha memória não é mais a mesma. Cada dia esqueço mais e mais coisas, e isso está me deixando preocupada e triste. Às vezes sinto lá no fundo que deveria espalhar por aí minhas experiências de vida para que as pessoas não cometam os mesmos erros que eu, antes que eu acabe esquecendo tudo por completo. Não conseguir lembrar de situações que eu mesma vivi é embaraçoso. Queria ter mais tempo para lembrar também, mas receio que isso não irá acontecer.”
Penso um pouco sobre tudo que ela havia falado, e sinto um aperto no coração, queria muito que houvesse uma forma de ajudá-la. Ao meu lado uma folha de árvore cai, e eu observo. Quando viro em direção a senhora para falar alguma coisa, ela não está mais lá. Procuro em meu campo de visão, mas não encontro. Começo a ficar preocupada, vou até um guarda do parque, que estava ali o tempo todo, então deve ter visto a senhora partir. Quando pergunto sobre a senhora de cabelos grisalhos a resposta que eu recebo me assusta um pouco: “Moça, sinto em lhe informar, mas este tempo todo não apareceu nenhuma senhora, como esta descrita, por aqui. Naquele banco só estava você, que ficou ali um bom tempo, mas completamente sozinha.”
Paro. Fico o encarando por um bom tempo, em choque pela resposta que havia acabado de receber. Me viro, e volto para o banco em que estava no início de tudo. Quando acabo de me ajeitar vejo a senhora passando por mim acenando, e logo após desaparecendo. Quando volto para casa, fico pensando sobre esse dia, mas não obtenho nenhuma conclusão sobre tudo, mas no final, decidi pegar as histórias e lições da senhora para dar rumo à minha vida. 
Às vezes não precisa ser um conhecido, mas algumas pessoas entram em nossas vidas, mesmo que por pouco tempo, para nos ensinar lições valiosas, que nem o tempo seria capaz de ensinar. Fico muito feliz que aquela senhora, a senhora de cabelos grisalhos, tenha aparecido para mim, e compartilhado suas experiências comigo. Talvez um dia eu esteja no lugar dela!
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Atualizado em: Seg 1 Fev 2021

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