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Naufrágio

Estou sozinha. Esperando, tentando sentir alguma coisa. A brisa gelada vem de mansinho, acaricia os meus cabelos, o meu rosto. O cheiro do sal me invade e se junta ao barulho do mar levemente revolto de um dia cinza de outono. Sentada eu fecho os olhos, sinto a areia na ponta dos meus dedos.
Consigo dar o esboço de um sorriso. A praia está praticamente deserta, do jeito que eu gosto. Espaço suficiente para deixar os pensamentos fluírem. A brisa vem um pouco mais forte agora e aperto o casaco de linho junto ao peito, ao mesmo tempo que tento amenizar a dor fantasma, sempre presente. Sempre ali. Coração partido dói assim?
Eu sempre amei o mar. Mas por algum motivo ele não parece mais tão bonito, tão vívido. Sempre foi tão cinza assim? Ou isso sou eu? Eu que fiquei tão escura por dentro que não consigo mais enxergar as cores? Olho para os dois lados da praia, uma fina esperança em ver o que eu mais quero ver. Quem eu mais quero ver. O único que conseguiu me ajudar a enxergar de verdade. A sentir de verdade. Mas você não está lá. O mar continua batendo, mais intensamente agora. Vejo de relance algumas pessoas passeando, algumas rindo acompanhadas. Outras abraçadas se protegendo do leve frio. Mas nada de você. Por muitas estações, nada de você.
Você, que ria comigo, de mim e para mim. Você que mudou a minha percepção de vida, de mundo, de mim mesma. Que fazia café e levava na cama, que me acordava com um cafuné. Que fazia planos e mais planos, me incluindo em todos. Em tudo. Por inteira. Que dizia que amava de uma forma que nunca havia sentido antes e depois do susto eu genuinamente acreditei. Que me incluiu no seu “para sempre”. E eu fui feliz, tão feliz. Por muito tempo eu me senti completa. Eu transbordava. Todos os dias. Até que o para sempre virou um “até logo”. Sem sorrisos, sem café na cama, sem beijos roubados em todos os cantos da casa. Da nossa casa. Você mudou. Algo mudou. E eu não consigo entender. Se foi minha culpa, sua culpa. Alguém tem culpa?
Depois de anos, depois de uma vida você voltou nos meus pensamentos e eu me perguntei: “O que aconteceu com a gente?”
Você disse que me encontraria na praia. Você prometeu. Prometeu tanto
Eu só estou tão cansada.
Me levanto da areia um pouco mais devagar do que costumava, mas me ponho de pé. O mar me chama. Parece mais calmo agora, quase como um acalanto.
Eu vou ao seu encontro, como uma velha amiga querendo uma conversa tranquila bebericando um café.
Eu vivi demais e tive mais doses de sofrimento do que posso contar. Uma hora o ritmar do coração não é mais o mesmo.
Afundar me parece a única solução. A única que eu consigo lidar no momento.
Enquanto eu sinto o frio tomar todo o meu corpo eu penso em você e acho que por um segundo eu consigo lembrar de como é me sentir aquecida. E então, o mar me abraça.
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Atualizado em: Ter 9 Jun 2020

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