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A nuca

Não sei por que isso está acontecendo. Beliscando os lábios, retiro pequenos, mas irritantes, acúmulos de muco, ou alguma mutação da saliva, combinada a algo muito específico, não sei dizer. Puxo uma ponta, que segue descamando até se soltar completamente e me deixar em um estado mútuo de repulsa e satisfação, assim como quando esmagamos formiguinhas perdidas nos móveis, ou usamos com muita eficácia o fio dental.
Meu ritual é interrompido por um giro inesperado, revelando o rosto por trás da nuca que encaro o dia inteiro. O que ela diz é indiferente ao desenrolar da história, mas o jeito que o diz faz toda a diferença. Sua voz é uma criança, portadora de um entusiasmo infantil incontido, mas é também uma sacerdotisa, que sabe que cada toque da sua língua nos dentes produz uma parte do encantamento, e sem falar diretamente, entrega sua mensagem, seu convite que não pode ser dito com eloquência aos ouvidos dos estrangeiros.
Ela sai. Poucos minutos depois eu também saio. Nos esbarramos, sem antecipação dos eventos, em um confinamento um pouco constrangedor e intimidador, no qual perdura um meio espaço de tempo onde tudo e nada acontece. Travo pela sobrecarga de pensamentos e dúvidas e incertezas, enquanto ela se decide apenas por ir embora, sem cerimônia, sem olhar pra trás. Eu a puxo pelo braço e arrasto pra dentro de um Box, aonde podemos ceder a tudo o que imaginamos diariamente mas não fazemos. E ali nos entregamos ao antigo, ao puro, àquilo que nos acompanha e ao que matamos.
Retorno ao meu lugar, corrigindo a postura e respirando com cuidado, porque ninguém sabe o que acontece além da superfície. Rabisco qualquer coisa com o olhar vago, absorto, voltado para dentro e para tudo o que se passa e poderia se passar em uma mente tomada por um poder que me era totalmente desconhecido. Diria que tivemos uma irmandade secreta, dividimos segredos velados até de nós mesmas, enquanto deslizávamos pela superfície do que poderia. Crio mais essa memória, escondida de todos que possam mudá-la, até mesmo dela. Retomo a consciência física, e tudo o que mais me interessa ao olhar é uma nuca.
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Atualizado em: Qua 1 Ago 2018
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