person_outline



search

Água em Marte

Joaquim nunca se adaptou. Vira-se para o céu e se entristece ao olhar para as estrelas e perceber sua insignificância perante o universo, diante das coisas da natureza, das instituições, da sociedade, das etiquetas e principalmente diante das pessoas. Joaquim é minúsculo, do tamanho de um grão de areia. Ele nunca se interessou tanto em reportagens nem de TV nem pela tela do seu celular, mas na manhã daquela quarta-feira uma noticia chamou a atenção da sua cabeça cheia de migalhas de pensamento, foi descoberto água em Marte, isso era incrível até para ele, servente de pedreiro nas horas vagas e não vagas, mas quase que totalmente desempregado pelo restante do tempo. Joaquim descobriu a sua curiosidade, percebeu uma vontade imensa de falar de outras coisas que não fosse pobreza, desemprego e cimento entre os dedos no dia de trabalho quase que raro, ele podia agora falar de Marte.
Joaquim nunca se adaptou porque ele nunca gostou de ser pobre, nunca gostou de comer bolacha de sal com um copo de café puro para matar a fome da manhã, nunca gostou de almoçar pé ou pescoço de frango com feijão ralo e nunca gostou de tomar sopa no jantar com restos do frango que sobrou do almoço. Não gostar das coisas para ele era tão comum, que se tornou a única coisa que ele estava adaptado: não gostar da sua própria vida. Mas agora Joaquim tinha interesse em alguma coisa, tinha o olhar voltado para o espaço como se procurasse uma escada para subir aos céus e esquecer do esgoto a céu aberto passando pela porta da sua casa feita de taipa, suja e mal construída, colocada de pé por amigos e vizinhos, onde depois da ajuda teve churrasco e cerveja quase gelada. Ele podia esquecer o medo da chuva que alagava as ruas e fazia aparecer ratos do tamanho de gatos em sua sala, medo do policial abordando seus vizinhos, seus filhos e ele mesmo, perguntando de onde vem e para onde ele vai, maltrapilho Joaquim só pode dizer para o policial que procurava emprego como quem tenta cumprir uma missão, difícil porque ele não concluiu o Ensino Médio, mora longe do centro e o transporte público está 4,50. Joaquim vai a pé, não tem dinheiro, está magro, mas agora pensa na água em Marte, no vermelho daquele planeta distante, o planeta que ele viu no filme e onde o astronauta plantava batata depois de deixar a terra fértil com as fezes dos outros astronautas. A única terra que Joaquim teve para plantar alguma coisa foi a do seu vasinho no fundo da sua casa pobre ao lado do tanque de lavar roupa, onde ele plantou um cacto que ganhou de presente de uma senhora da qual ele levantou uma parede da casa, ou melhor, ajudou a levantar. Ele era ajudante de pedreiro.
Pin It
Atualizado em: Seg 30 Jul 2018

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR
Fone: (41) 3342-5554
WhatsApp whatsapp (41) 99115-5222