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Seu Antônio

O transe. Sempre sempre, desde a primeira lembrança, esse transe. Os pés dentro das meias, o espírito voando...a hora! Atrasado! Olha em volta, procura algum esquecimento tardio e nem se dá conta de que a casa está completamente vazia. Corre, vai pelo caminho de capim muito fino que farfalha como seu pensamento e tenta lembrar a solução perdida de algum indistinto problema. Um problema certamente muito grave. E já não há mais cidade.
Céu azul azul. Sobe um monte e onde está toda a gente que deve percorrer todos os dias este trajeto? Será sempre assim tão solitário? Atrasado! Tudo isto está mesmo é com cheiro e cara de domingo. Apanha o relógio no bolso e os ponteiros explodem ante seus olhos a mais incrível dúvida, talvez a maior das impossibilidades. Maior até que a grande dúvida que é a matéria que compõe agora este universo novo impregnando cada poro e é ela mesma a própria consciência atordoada. Há ainda alguns metros de subida até o destino. Destino?
Nada de alarme, apenas a pressa curiosa em busca de seu próprio sentido. Atrasado! Aperta o passo. No topo do monte encontra um envelope muito envelhecido. Um envelope de carta desses que todo mundo já viu um dia e que é cheio de passado. E senta-se cansado observando com pesar porque a reconhece e sabe mesmo que é uma carta daquelas muito tristes, de ficar horas olhando querendo desesperadamente que não diga o que de fato já disse ou se enchendo de coragem para conseguir dizer o que precisa ser dito. Mas tudo que o papel reflete agora são ruínas, aqui e ali algum pedaço de escadaria ou alguma coluna pela metade tentando se manter em pé. Isto não devia estar aqui. Não devia.
O mundo então respira uma inédita gravidade. O azul que brilhava é tomado lentamente por um amarelo escurecido que enche o espaço de sombra. Pega outra vez o relógio e vai buscar nele a certeza do sentido, encontrada na ausência precisa dos ponteiros. Deixa que o objeto escorregue de sua mão e se perca no solo entre o capim. Então vai ele mesmo definhar até o sumiço enquanto seu pensamento oco é absorvido pela atmosfera suave que o abriga até que tudo possa desaparecer.
E uma certa manhã muito ensolarada os vizinhos estranharam que Seu Antônio não tivesse descido para tomar mate no jardim.
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Atualizado em: Qui 21 Jun 2018
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