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Aperte Play

img 1997Ela coloca os fones de ouvido. Sentada na janela, de um ônibus qualquer, querendo sentir o vento em seus cabelos e esquecer-se de toda aquela dor. Apenas, esquecer seu miserável coração partido e de um desgastado terminal de ônibus. Então, ela aperta o play.
Distraída, andava pelo terminal de ônibus. Com seus cabelos ao vento, apressada ela driblava as vagarosas pessoas na sua frente para alcançar a fila de seu ônibus. Fila essa que crescia rapidamente, fazendo com que ela apressasse ainda mais seus passos. Absorta em seus inseparáveis fones de ouvido, sem sequer notar que passava na frente de um garoto que também tinha como destino a mesma fila.
Um garoto comum que acompanhado de seu amigo sempre espera o mesmo ônibus naquele horário, ele acha engraçado aquele pequeno furacão loiro cortando seu caminho para passar na sua frente na fila. Com um sorriso que não abandona seus lábios, comenta em voz alta: “Caso ela não fosse linda, eu ficaria irritado”. Notando que mesmo com os fones de ouvido, a pequena garota loira sorri para o comentário lisonjeiro.
Coincidentemente, daquele dia em diante os dois sempre se encontravam na fila. Como faziam o mesmo caminho, quis o gélido destino que ficassem mais próximos. E assim, dividiam seu tempo no ônibus lotado, apreciando a companhia mútua e aproveitando para se conhecerem melhor.
Na mente dela ainda ecoavam as palavras dele, em seu olhar estava claro seu interesse no rapaz. Flertavam constantemente, seus olhares, mãos e sorrisos insistiam em se encontrar. Mesmo tendo conhecimento da namorada dele, já era tarde para seu tolo coração. Ela repetia para si mesma, que jamais ficaria com alguém comprometido. Não perderia o controle sobre seus sentimentos, aquilo era totalmente platônico. Era inocente, até o dia que ele simplesmente a contou que não havia mais namorada. Eles haviam terminado.
Não quis demonstrar o peso que aquelas palavras tinham sobre ela, ele permanecia a tratando como uma querida amiga. Não havia porque aquilo mudar, assim seria mais seguro. Gostavam da companhia um do outro, eles riam, brincavam e sempre podiam ser sinceros um com o outro. Até o dia que ele a beijou.
Fora totalmente espontâneo, ela não previu aquele desdobramento. Ele apenas se curvou, quando ela percebeu estava ansiosa para recebê-lo. Seus sentimentos não eram mais platônicos, ansiava por aquele beijo. Simplesmente o correspondeu, não sabendo como aquilo os afetaria em diante.
Quando percebera, seus dias já estavam repletos de mensagens dele, de suas carícias, seus beijos e declarações, que sempre achara tão sinceras de afeto. Seus dias ainda eram montanhas russas de sentimentos, sempre haveria momentos bons e ruins. Contudo, só a presença dele já tinha o dom de arrancar o mais genuíno sorriso de seus lábios. Ele a motivava, a inspirava e sempre a lembrava o quanto era bela aos seus olhos. E quando as palavras saiam de sua boca, ela nunca duvidava de sua honestidade. Tudo que ele falava eram aos seus ouvidos verdades absolutas. Estava mais que apaixonada, estava avassaladoramente encantada tornando a desilusão mais cruel ainda.
Possuía um sentimento arrebatador por aquele garoto, desses que por vezes a assustava. Nunca sentira nada igual por qualquer outro garoto em sua vida e como romântica incansável que lê poesias de amor e sonha acordada, decidiu por deixar esse entusiasmo apoderar-se de seu corpo. Ela jamais poderá dizer que não foi feliz enquanto foi durável, mas a resistência dele em oficializar o relacionamento sempre a deixava com uma desconfiança crescente. Sempre estava pensando quais as razões que o impediam de assumir o que declarava a ela todos os dias.
Parecia que o destino tinha uma confidência a sussurrar para a dócil menina, ele começou a mandar mensagens que pareciam ser enviadas a ela por engano. Já não comparecia a seus passeios e quando estavam juntos sempre sentia que já não compartilhavam daquele sentimento inicial. Queria acreditar que todos os sinais eram apenas uma desconfiança absurda de sua insegurança. E assim, mesmo com aquele sentimento que ainda preenchia todos os seus sentidos, ainda era perceptível que ele escondia algo. Até que descobriu que esse algo, era alguém. Antiga namorada.
Havia sido bem natural toda a descoberta de uma namorada desconhecida, na verdade uma namorada bem conhecida. Ao que tudo indicava ele ainda estava com sua bela namorada por todos os dias que antecederam a descoberta. De coração partido, ela nunca mais falou com o menino.
Passou dias chorando copiosamente em seu quarto, recusando-se a falar com qualquer pessoa que insistia em questionar seus ímpetos de tristeza. Não conseguia concentra-se em seus trabalhos estudantis, não havia ninguém capaz de consola-la. Não compreendia com um amor que a consumia inteiramente poderia causar tanta dor. Fechando os olhos, Ana enxergava somente o rosto dele, sentia seu gosto e até mesmo seu toque suave. Transitou entre o ódio por si mesmo, por todos os outros e até maldisse o amor. E quando achou que não seria capaz de superar, percebeu que a cada dia doía menos. Até o dia que constatou que sempre iria doer, mas que a vida era aprender a conviver com suas desilusões.
E mesmo agora, quando tudo se resume a uma lembrança dolorosa, ainda há vislumbre de uma lágrima solitária pelo seu delicado rosto.
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Atualizado em: Qui 8 Fev 2018
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