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CAÇADOR DE PIPAS

Sentei... Mais um dia de ônibus, encostei-me ao banco, fiz dele minha cama. Estava ensolarado, só por fora, por dentro, assim, onde o monstro cardíaco habita havia nada mais que uma tempestade borbulhante de caos. Doía... cada veia sendo altamente destruída. Veio o faltar insano de fôlego, suspirei, antes de abrir os olhos em um reflexo joguei a mão para o canto como se pudesse expulsar todo o pesadelo; vazio. Quase derrubei o livro de um caçador de pipas. Lá estava ele, um rapaz descabelado, conciso, mal olhou para o lado, meu pedido de desculpas foi absorvido pelo oco de um gesto simples que dizia “ok”. Lá estava... A dor ainda me acompanhava. E, as páginas? Por que não estavam me enrolando em um abraço? Suspirei as fagulhas da linha, a vidraça temperada da linha. A pipa cortando entre a esperança e o desespero. Um amor de dois segundos, entre uma face rubra e um gesto oco. “Fica mais”, pensei, quando o jovem que estava em pé foi sentar na primeira cadeira vazia. “Fica mais”, quase sussurrei. Como se tivesse escutado esbarrou em mim. “Isso... fica mais”, o pensamento repetia. Pegou no meu braço, era outro gesto, menos oco, era seu pedido de desculpas. Um toque de dois segundos. Sentou. As pipas iam circulando uma na outra, cortando... cortando. As veias pulsando. A dor ainda persistia. Quatro paradas depois, o rapaz pegou o livro e a mochila, olhou em despedida, um olhar de dois segundos, outro gesto menos oco, um adeus. Foi-se com as pipas, uma ainda persistia dando voltas sem rumo pela cabeça do moço. E, as páginas? Por que não me abraçaram? A tinta empalha. Aquele amor durou: um rosto rubro, um gesto oco, dois menos ocos, um adeus, algumas pipas destroçadas, um vazio inconstante e um sussurro: “Fica mais”.
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Atualizado em: Dom 31 Jul 2016

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