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O Olho da Cachoeira

Houvera um tempo onde o azul do mar era o mesmo do azul do céu, onde a terra era mais verde que o próprio verde que a envolvia e onde a noite era mais obscura que a mais obscura das mentes.
No meio disso havia um pequeno vilarejo, que acomodava pessoas egoístas, gananciosas e más, de modo geral. Entretanto havia uma jovem solitária que divergia dos costumes dos seus conterrâneos, por ser de família pobre e por ser diferente dos demais ela constantemente sofria abusos, era explorada enquanto tentava conseguir prata pra se alimentar, pois ouro era moeda de ricos. As humilhações iam de xingamentos à cusparadas. 

Apesar dos abusos a jovem era muito bonita, apesar das lágrimas noturnas a jovem era radiante e sorria com o próprio vento, pois amava a natureza. Contudo essa felicidade não duraria por muito mais tempo.
Era uma tempestuosa noite, mais tempestuosa que a mente da jovem. A penumbra envolvia o ar enquanto a jovem voltava pra casa herdada dos falecidos pais com os pães que comprou e que seriam sua segunda refeição do dia. Ao atravessar a noite e passar por um bar local a jovem foi seguida por dois homens embebidos de maldade e preconceito que na primeira oportunidade agrediram-na, rasgaram suas roupas e roubaram seus pães.
Aos prantos chegou em casa e trancou-se em seu quarto. Onde repleta de ódio e rancor decidiu não derramar mais nenhuma lágrima por aqueles selvagens ao qual dividia a cidade. Cansada e com fome, adormeceu. Enquanto dormia uma última lágrima que escorrera de seus olhos, embebida de seu ódio e rancor, voltou ao seu ducto lacrimal. 
Ao acordar, a jovem sentira um dor terrível no seu rosto. Correu desesperada para a cozinha onde havia um balde com água ao qual viu seu reflexo e, perplexa, notou seu olho esquerdo inchado. Continuou sua rotina de trabalho e de humilhação, que só piorara com seu edema. Com o passar do tempo as dores foram aumentando até que sumiram, trazendo então um odor repugnante. Os abusos pioraram ao ponto da jovem não sair mais de casa e racionar a comida que ainda tinha. Mais tempo se passou e o olho da jovem começou a apodrecer e seu rosto adquirira uma feição nefasta. Envergonhada e com medo dos outros a jovem fugiu pela floresta e nunca mais foi vista, nunca mais chorou e tampouco sorriu.
Anos depois, onde o azul não era tão azul e o verde não era tão verde, exploradores resolveram escalar uma cachoeira que encontraram entre a floresta e a cidade. Ao chegar em seu topo encontraram uma ossada em volta de uma pequena poça de água. Perceberam então que dentro dos ossos, flutuando nas águas límpidas, havia um olho humano completamente intacto sem sinal de apodrecimento. Nomearam então de O Olho da Cachoeira.
Não sabiam que outrora a bela jovem que já não era bela, nem jovem, construira uma casa em meio as colinas da floresta. Após uma vida de reclusão, vergonha e rancor a não mais jovem morrera de velhice. Seu corpo naturalmente começara a apodrecer, deixando apenas seu olho direito que, como um ato de desespero e alívio, começou a lacrimejar. De gota em gota as lágrimas preencheram o lugar que antes era o vilarejo forçando todos os habitantes a se mudarem de lá. 
A casa na colina, o vilarejo, tudo fora engolido pelas lágrimas. O que restara foi seu corpo e seu olho, como testemunha do que os outros podem fazer... Ou do que podemos fazer com nós mesmos
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Atualizado em: Ter 27 Jul 2021

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