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Notas sobre meu vizinho serial killer

Eram exatamente 19:25 quando passei pela rua principal e lá estava ele de costas para mim, sempre de costas para mim... Às vezes, olho para cima e vejo mais que costas, talvez um sorriso ou um olhar de soslaio quem sabe. Talvez ele sinta a presença quando me aproximo e olho pro primeiro andar pelo gradeado da varanda, mas faz desdém e mostra as costas; ainda sim, sempre me vem aquela sensação de que no fundo, ele é mais que costas... talvez um peito largo, mãos bonitas com certeza tem.
Meu vizinho não tem nome, está sempre sozinho, na rua anda em passos lentos, como que saboreando cada movimento dos bandos fúteis de jovens, dos risos falsos e alegrias fingidas. Às vezes me pergunto o porquê ele me ignora quando passo e várias respostas me vêm em mente, talvez o fato de eu ser jovem e fútil bastasse, mas não, nenhuma delas soa real ou convincente o bastante para eu poder deixar de lado.

Quando eu era criança sentava na mesa com meus pais para o almoço de domingo, a comida posta, tínhamos que fazer a oração agradecendo a Deus pela benção de ter o que comer, hoje eu já não lembro das palavras que eu repetia por meio de sussurros, mas eu lembro muito bem das moscas que se aproveitavam dos olhos fechados e iam atacar nossa comida. Foi uma das grandes questões de minha infância pois deveria eu vigiar a comida enquanto meus pais agradeciam e ir para o inferno? Ou fechar os olhos e ignorar essa intrusão deixando assim que elas ganhassem?  Ah! Eu me lembro tão bem de como elas esfregavam as patas imundas enquanto se preparavam para o ataque.
Dizem que as moscas só vivem 24h, para mim não, eram sempre as mesmas que perseguiam meu espírito, os mesmos rostos me arrastando para um poço de dúvidas sem fim. Pois bem, meu vizinho também esfrega as patas e essa é a sensação imunda que eu tenho quando estou perto dele. 

Agora são 00:32 da manhã e do meu quarto posso ouvir os anjos cantarem ‘’Tende, pois, piedade dele, ó meu Deus! Ó Misericordioso Senhor Jesus, concedei-lhe o repouso eterno. Amém! ’’.  
Certo dia eu li um livro que falava sobre anjos, os ‘’anjos caídos do paraíso’’ que foram condenados por Deus a viverem como mortais. Condenação pior existe? Creio que não. Segundo os relatos sagrados, Enoch, o homem que andava com Deus e, que também era pai de Matusalém, escreveu em seu livro, que os anjos chamados Vigias eram encarregados de vigiar os mortais aqui na terra, eram invisíveis ao homem e tinham uma pele tão alva quanto o amanhecer. Certo dia, no Monte Hermon, Semjaza, o líder do bando viu as filhas dos homens banhando nuas na fonte e gostou do que viu, sugeriu que todos desposassem as moças, e assim o fizeram. Por se rebelarem contra o Senhor, foram condenados. Às vezes eu também vejo anjos, vejo a morte em seus olhos de fogo, suas mãos largas, suas costas...

Meu vizinho mata mulheres. Certo dia, passando pela rua principal, o vi com sacos plásticos pretos nas duas mãos, mais uma vez ele me ignorou; talvez saiba que sei ou talvez é a forma como ele faz tudo aquilo parecer normal, escondendo as provas do crime onde todos possam ver e ninguém desconfiar. É sempre assim que os bons fazem, mas eu sei, eu sei que sei. Ele mata mulheres, não mulheres como eu, mulheres. Tudo começa com a falta de vigia, almas vagas e flutuantes não observam ao seu redor, ele sabe disso, eu também. Esse é seu ‘’design’’, assim como as moscas, ataca quando fecham os olhos. Nem preciso falar que meu vizinho é um homem lindo, mãos largas, sua pele é o crepúsculo do dia, seu sorriso de canto sabe sempre a hora do lance, ele sente o cheiro das vítimas de longe, observa-as e se vangloria ‘’mais uma’’. Para pessoas bonitas a vida deve ser mais fácil, mas monótona com certeza, seduzir talvez nem seja preciso, um sorriso basta, a autoconfiança basta. Eu o observo sempre de cabeça baixa, sinto seus olhos em mim, sua inquietação, eu sei.
 
Ele as chama para sua casa que fica no primeiro andar da rua principal, em baixo tem um jardim lindo onde as flores são tão vividas! Adubo orgânico, creio eu. Mas meu vizinho é lindo, acho que já disse isso; as mulheres aceitam seu convite tão satisfeitas, tão limpas... mal sabem que irão morrer depois de uma noite intensa de prazer e juras sussurradas. Elas deitam em seu peito e respiram fundo, sentem um cheiro de limpeza no ar, ou talvez um pouco de solvente, o importante é que elas sentem uma paz com ele, ou talvez a melhora que antecede a morte, agora isso eu já não sei.
Um último beijo, devagar, bem devagar, ele sente a vida em suas mãos, tão frágil... na nuca, ela ri, expõe o pescoço para que ele possa melhor trilhar seus beijos suaves, ele ri.

Às vezes eu penso de que maneira irei morrer, particularmente há dois tipos de morte que eu não gostaria de conhecer: acidente de transito ou carbonizada. Mas aí eu lembro de uma uma frase que minha mãe sempre dizia, ’’cuidado com as coisas que você deseja que nunca aconteçam com você, pois podem acontecer exatamente porque você teme’’. A morte sempre me fascinou, desperdiçava horas pensando em como seria o momento da minha ‘’passagem’’, isso sempre me intrigou; alguém vai segurar minha mão quando eu atravessar? A propósito, eu sempre pedia perdão pelas vezes em que deixava de orar para vigar as moscas.
Meu vizinho não é rico, mas como eu disse e repito, é um homem lindo e, para as almas ociosas, isso basta. Ele desliza as duas mãos bem devagar sobre o pescoço dela, ela ri, acha que faz parte do ritual de amor, ele ri, pois é seu ritual de morte. Os olhos clamam por socorro, ninguém a ouve, olhos profundos, ele aperta com força, o corpo pesado sobre seu corpo nu...ela morreu.

Ele a beija sem a vida, porém quente como um beijo de amor. Seus membros são cortados, ele sente prazer, é um dever, seu dever. Nada de guardar a cabeça no freezer como prêmio, meu vizinho guarda mechas de cabelo envoltas em um laço cor de rosa. Não as cozinha nem as come depois de mortas, ele faz adubo para o jardim, outras partes, mistura com seu lixo. Ele é um homem educado, fala com as senhoras que passam na rua, diz bom dia, e compra pão na mesma padaria que eu. Meu vizinho não deixa rastros, não deixa partes que possam ser identificadas posteriormente. Esse é o seu estilo.
Sempre que o vejo, geralmente na rua principal, abaixo minha cabeça, não consigo olha-lo sem imaginar tais coisas. Certa feita planejei roubar um de seus sacos de lixo e comprovar minha teoria, mas sei que por uma obra do destino nada encontraria além de camisinhas usadas e litros de solvente. Me chamariam de louca, e isso eu não aceitaria jamais.
Meu vizinho tem um jardim lindo, todo mundo o inveja.
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Atualizado em: Sáb 13 Out 2018

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