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" O QUE TODOS DEVEM SABER"

 

Mariajosé de Carvalho, musa renegada

A poeta, atriz, cantora, tradutora e mestra de teatro foi figura marcante na cultura paulistana entre os anos 1940 e 1970, mas hoje está tristemente esquecida

por ALVARO MACHADO e ANTONIO CARLOS ABDALLA

 

A performer e escritora, em foto do artista plástico Jacques Douchez, c. 1976

Intelectual da geração de literatos paulistas ativos por volta de 1945 – a Geração de 45 -, poeta concretista, celebrada tradutora de clássicos em seis línguas, a maior autoridade em dicção e estilo que o país conheceu, atriz, cantora e diretora teatral de concepções sempre arrebatadoras, apaixonada ativista em movimentos de renovação cultural.Mariajosé de Carvalho foi musa e mestra – amada e odiada sem meios termos por quantos a conheceram – e esteve no centro da cultura paulistana ao longo de quase 50 anos, até sua morte em outubro de 1995. A "neurose" contra a qual sempre lutou – e à qual chamava "praça pútrida" e "poço de solidão" – era uma dura provação para seus nervos e seu coração atingiu um limite.Raramente se viu neurose mais produtiva. Sustentada por cultura profunda, vontade e sensibilidade incomuns, essa descendente de comerciantes portugueses de Coimbra, criada no histórico bairro paulistano do Ipiranga, alimentou, durante décadas, uma "persona" de temperamento imprevisível e irascível. Verdadeira "caixa de Pandora" das relações humanas, o contato pessoal com Mariajosé reservava delícias e tormentos inolvidáveis. Quase sempre, terminava rompida com amigos e admiradores, para os quais surgia, de início, como autêntico mito. 

Nos anos 1980 a diseuse e cabaretista recolheu-se em sua casa, para cuidar de sua mãe, dona Elvira, gravemente enferma. Dama de fleugma e cultura invejáveis, além de sua mais constante rival ao longo da vida, Elvira vaticinara à filha adolescente: "Eu te dei a vida e, para meu prazer maior, também te dei a morte".Embora semi-enclausurada e pouco visitada desde essa época – punida pelo meio intelectual e artístico por seu excesso de rigor e sinceridade -, nos anos 1950, Maju (como gostava de ser chamada) participou ativamente da segunda onda modernista na cultura brasileira, participando do Grupo Universitário de Teatro, de Décio de Almeida Prado, do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), bem como do movimento da poesia concreta, como intérprete e encenadora de recitais. "Para minha glória e tragédia, sou eclética, e assim, tenho mil compulsões por dia, que levam a mil frustrações por dia", auto-analisava-se. Das inúmeras faces assumidas em sua atividade cultural, a mais conhecida foi a de encenadora e intérprete do "Cabaré do Gato", saraus freqüentados por três décadas, no casarão da rua Silva Bueno, pela intelectualidade paulistana. As concorridas apresentações incluíam música internacional de café-concerto da primeira metade do século e música erudita de vanguarda. A casa era chamada por ela "Domus Domitila", sobradão compartilhada com dezenas de gatos venerados pela "monja laica com veleidades de vedete emplumada" – como se apresentou ao médico e escritor Pedro Nava, em carta datada de novembro de 1981. 

Sua colaboração mais marcante e sistemática foi prestada à classe teatral, com o método de dicção e estilo de interpretação por ela criado na Escola de Arte Dramática (EAD). Ensinou-o em escolas e instituições de todo o país e até do Exterior, como a Universidade de Georgetown e o Brazilian American Cultural Institute (Washington) e universidades do Rio, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará e Maranhão; em oficinas culturais nos Museus de Arte de São Paulo (MASP), de Arte Moderna (MAM) e de Imagem e do Som (MIS). 

Embora célebres pelo rigor, suas aulas de técnica vocal e estilo teatral incluíam momentos de feérica fantasia, calcada em textos clássicos traduzidos especialmente por ela para a prática de seu método. Foram prestigiadas pelos mais conhecidos nomes do teatro brasileiro — entre eles, Fernanda Montenegro, Natália Thimberg, Maria Alice Vergueiro, Renato Borghi, Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio Mamberti e Raul Cortez —; futuras estrelas da TV, como Glória Menezes e Francisco Cuoco; por críticos e encenadores teatrais; por cantoras como Edmar Ferreti e Anna Maria Kieffer; e também por políticos, como Eduardo Suplicy, Franco Montoro e Lula, este último classificado pela professora como "indisciplinado".   

A faceta menos conhecida da intelectual, e também a mais profícua, é a de tradutora de obras-primas da literatura e poesia universais, estudiosa de fonética, filologia e lingüística. Além de muito elogiadas traduções publicadas de Pierre Louys ("Canções de Bilitís"), Flaubert ("Salambô"), Leopardi ("Cantos") e outros, acumulou dezenas de traduções inéditas, principalmente de teatro e poesia. Dos dramaturgos gregos aos clássicos da Idade de Ouro do teatro espanhol, do anárquico Rimbaud ao requintado prêmio Nobel de Literatura C. Milosz, dos poetas negros modernos das Américas, África e Antilhas a T.S. Eliot, traduzia febrilmente e com perfeccionismo. 

"Nasci no dia 27 de junho de 1919. Data de nascimento de Guimarães Rosa, o que já é muito", costumava "explicar". No meio familiar, a incompreensão de seu temperamento e de sua precocidade foi o principal motivo para seu refúgio nas artes: "A única coisa que redime o homem de sua mediocridade é a arte", costumava repetir. Menina, cantou no Teatro Municipal num coral regido por Villa-Lobos. 

Estudou canto, piano e violino no Conservatório Dramático e Musical de SP, ainda então sob grande influência do ex-diretor daquela instituição, Mário de Andrade. Formou-se em Geografia e História pela USP, passando a conviver com poetas e escritores ("Geração de 45"). Entre estes, estreitou amizade com Dora Ferreira da Silva, passando a freqüentar, também, o "grupo São Paulo", academia livre de estudos, paralela à USP, criada pelo marido de Dora, o filósofo Vicente Ferreira da Silva, e visitada por intelectuais como Ernesto Grassi, (discípulo direto de Heidegger), os críticos de cinema Almeida Salles e Paulo Emílio Salles Gomes, o arquiteto Le Corbusier, Oswald de Andrade e Guimarães Rosa. Com Almeida Salles — que alimentou por Maju uma paixão não consumada—, ela traduziu em parceria o "Leviatã", de Julien Green. 

Também em meados da década de 40 começou a se interessar apaixonadamente pelo teatro, ingressando no Grupo Universitário de Teatro pelas mãos de seu criador, Décio de Almeida Prado. "Os anos 40 e 50 eram uma época em que a toda a intelectualidade de São Paulo se conhecia. Os contatos eram mais freqüentes e fáceis, e o núcleo central freqüentava o Clube do Museu de Arte Moderna, a Livraria Jaraguá, o Teatro Municipal. Nesse meio, Mariajosé exercia plenamente a boêmia literária", lembra Décio.   

Conduzida pelo diretor à condição de segunda atriz do Grupo Universitário (ativo entre 1943 e 1948), Mariajosé subiu ao palco do Municipal para interpretar, ao lado de Cacilda Becker, "O Auto de Inês Pereira e do Escudeiro", adaptação de Prado para duas peças de Gil Vicente. Sua relação com Cacilda não era das mais fáceis, como se deduz de uma carta de pêsames enviada à irmã, Cleide Yáconis:    

"Embora Cacilda e eu nunca houvéssemos sido grandes amigas e eu tivesse mesmo dela alguns pequenos ressentimentos de ordem pessoal e fizesse restrições à sua técnica vocal como atriz, sempre lhe reconheci grande talento, personalidade e valor guerreiro, dignos de respeito e admiração".    

Curiosamente, além de Cacilda Becker, Mariajosé armou pinimba com outro mito teatral brasileiro, Sérgio Cardoso. Ao genial intérprete de "Hamlet" endereçou palavras ásperas, por um livro emprestado e devolvido numa edição diferente, via o grande diretor Ziembinski ("Vestido de Noiva"). O episódio foi contornado com Mariajosé elogiando, em carta, a sinceridade e eloquência das explicações de Cardoso.    

No Theatro Municipal —"uma segunda casa, como para todos os intelectuais paulistanos de minha geração", conforme Maju lembra em seu currículo—, integrou por 15 anos o Coral Paulistano, conjunto criado em 1933 por Mário de Andrade. Entre os integrantes desse coral conheceu seu marido, o então cantor e futuro maestro Diogo Pacheco, com o qual engajou-se em estudos de música contemporânea.    

Para Décio de Almeida Prado, "Mariajosé foi, junto a Diogo, responsável por movimento de renovação musical paralelo àquele que acontecia no teatro de então, fazendo o modernismo e as vanguardas chegarem finalmente aos amantes da música". Esse movimento musical, sob o nome "Ars Nova", foi fundado em novembro de 1954 e atuou até 1958, realizando mais de cinqüenta concertos em todo o País.    

No manifesto de fundação do Ars Nova, assinado por Mariajosé, Diogo Pacheco, Alfredo Mesquita, Gianni Ratto, Klaus Dieter Wolff, Sanson Flexor, Willys de Castro e pela cantora Dilza de Freitas Borges, lê-se: "A situação musical em que nos encontramos, incompreensível, não só em relação à própria música, como também perante a atividade brasileira no campo das outras artes, faz surgir nítida a necessidade de um movimento que vise apenas a música em suas mais altas manifestações (…) num setor que se vem mantendo, de modo geral, rotineiro e academizante". O movimento pretendia "divorciar-se da idolatria da música oficializada representada pelo convencionalismo dos conservatórios e da maioria dos programas de concertos (…) e manter contato com os mais avançados grupos artísticos que se tenha notícia".    

Maju e Pacheco eram a alma do movimento. Freqüentavam os cursos de música do revolucionário professor Michel Koellreuter. Juntos, viajaram para Pernambuco a convite de Ariano Suassuna (Movimento Armorial) e de Hermilo Borba Filho (então diretor da universidade estadual). Por intermédio do pintor e compositor Willys de Castro, o Ars Nova entrou em contato com os poetas concretistas de São Paulo, o que resultaria numa histórica série de recitais de poesia.    

O primeiro, em novembro de 1955, era um "programa misto de poesia e música concreta", com as vozes de Mariajosé, Diogo, Klaus Dietter, Dilza de Freitas e Floramy Pinheiro. Incluía a oralização de três poemas do ciclo "Poetamenos", de Augusto de Campos e, na parte musical, composições do austríaco Anton Webern e dos brasileiros Ernst Mahle e Damiano Cozzella. Com recursos visuais criados pelo artista plástico Jacques Douchez, a direção cênica era assinada por Mariajosé. Segundo Augusto de Campos, "cada uma das duas récitas, que aconteceram no contexto polêmico do Teatro de Arena" — onde Mariajosé também dava cursos de teatro —, "teve platéia de 150 a 200 pessoas, que receberam bem essa poesia encenada de forma bastante diferenciada dos recitais tradicionais". 

Com o Ars Nova, Mariajosé chegou a viajar para a África, reunindo-se com o presidente-poeta do Senegal, Leopold Senghor, cujos poemas ela verteu para o português.    

Em 3 de junho de 1957 o Ars Nova promoveu, no TBC paulistano, um segundo programa com os concretistas, anunciado como "primeiro recital mundial de poesia concretista". A expectativa e a polêmica foram bem maiores que para o recital de 55, devido à inclusão, pelo Ars Nova, dos poetas cariocas Ferreira Gullar e Reynaldo Jardim, que já então atacavam os paulistas desde a tribuna conquistada no Jornal do Brasil. Conforme conta Haroldo de Campos, durante um ensaio "Décio Pignatari desancou publicamente o maestro Diogo Pacheco com a força de seus alexandrinos osasquenses". Segundo consta, o maestro não reagiu ao ataque e, hoje, diz "não ter lembrança dos fatos dessa época", e até mesmo de seu longo relacionamento com Mariajosé. Entre os intérpretes do recital, além de Maju, que leu uma explicação inicial sobre os propósitos da nova poesia, encontravam-se Ruth Santos (Escobar), Ítalo Rossi e mais quatro vozes. "Partituras de verbalização" foram confeccionadas por Willys de Castro para 14 poemas dos irmãos Campos, Pignatari, Gullar, Jardim, Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald. Para encerrar a noite, Pacheco regeu a "Sinfonia op. 21", de Anton Webern, à frente de uma camerata de nove músicos.    

Mariajosé dirigiu a encenação de maneira radical, conforme indica crítica de um diário: "Ouviu-se dos próprios autores (que) a leitura dos 'poemas-concretos' não foi completa e a intenção de cantar alguns fonemas prejudicou o equilíbrio das obras". Já o vespertino Folha da Tarde (4.6.57) espantava-se: "Um poema concreto de dez palavras é dito por quase igual número de pessoas, cada uma das quais nem chega sequer, às vezes, a dizer uma palavra inteira. Ora expressa apenas uma sílaba, ora faz somente um movimento de boca para exteriorizar um som, como um rosnar de gato. Ninguém na assistência entende nada de nada. O melhor ouvido consegue, no máximo, distinguir uma palavra de outra. Não há seqüência, nem ritmo, muito menos rima". "Não houve desordem", manchetou o Diário de São Paulo dois dias depois.    

Os intérpretes foram surpreendidos pela enorme repercussão do recital, que ameaçava atrelar definitivamente o grupo à escola concretista, com a qual, aliás, as relações estavam estremecidas. Redigiu-se, então, um documento publicado em suplemento da revista "Ala Arriba" (saudação do fascismo espanhol), editada por Ruth Escobar. O texto elogia as pesquisas formais dos concretistas, mas enfatiza a desvinculação do Ars Nova de "cores estéticas" e "sectarismos estreitos".    

Contudo, a colaboração de Mariajosé com os concretistas paulistas não se encerrou nesse episódio: em meados dos anos 60 ela fundaria a editora Papyrus, que publicou, além de clássicos poéticos traduzidos pelos irmãos Campos ("Traduzir e Trovar", 68). A editora publicou, também, livros de poemas concretistas de Mariajosé, como "Neomenia"

Mariajosé em sua casa, na rua Silva Bueno, bairro do Ipiranga (SP)Mariajosé em sua casa, na rua Silva Bueno, bairro do Ipiranga (SP)

 

 

Em 1954, a professora e atriz foi convidada por Alfredo Mesquita para ensinar na então recém-fundada Escola de Arte Dramática de São Paulo. Mariajosé — que em 61 aperfeiçoaria seus estudos na Academia Dramática Silvio d'Amico, em Roma, como bolsista do Ministério da Educação brasileiro — elaborou para a EAD um método precioso. Apenas no campo da dicção, compreendia: pronúncia ou prosódia; articulação; impostação; dinâmica; timbre; tonicidade; modulação; além de outros 13 itens. As altas exigências e o estilo autoritário da professora chocaram-se frontalmente com a onda de "liberalização" pós-68, e em 1974 Mariajosé teve de abandonar a cadeira criada especialmente para ela. O estopim foi um ultimatum assinado pela maioria dos alunos. Nessa época ela teve de deixar, ainda, classes de música e de história das arte na Escola de Artes e Comunicações da USP. Uma vez que seu método nunca foi registrado por escrito, coube a antigos alunos seus, que se tornaram professores da EAD, como Rodrigo Santiago, dar sobrevida a seus ensinamentos. O rompimento com a universidade provocou em Mariajosé grave distúrbio emocional.Para complicar as coisas, sua discípula Mylene Pacheco assumiu a cadeira da metra na EAD, tornando-se, a partir de então, arquiinimiga de Maju, que não hesitava em emprestar ao caso contornos do filme "A Malvada", de Joseph Mankiewicz.  Entre as atividades teatrais de Mariajosé, registra-se ainda o preparo vocal de diversos elencos e corais em montagens da época áurea do TBC, nos anos 50, participação em júris e comissões estaduais de teatro, crítica teatral nos jornais "O Tempo" (SP) e "A Manhã" (RJ) e também em revistas. Para a companhia teatral da atriz Lélia Abramo, Mariajosé dirigiu uma montagem memorável de "Agamênon". Ela própria adaptou o texto de Ésquilo, a partir de uma tradução francesa de La Porte du Theil (séc. 18). "Um tônus apolíneo com grandes momentos de ruptura dionisíaca foi o principal objetivo da encenação. (…) Empreguei música africana dos watusi, que, por sua grandeza e seu pathos, achei adequada, uma vez que todas as raízes épicas se aparentam", explicava a diretora. Para Lélia Abramo, "Mariajosé foi a maior intérprete e exegeta das tragédias, que traduziu e adaptou para que nós tivéssemos acesso".  Nos anos 60, a "mulher de teatro" fez campanha para a recuperação dos já sucateados teatros paulistas.Com um grupo de intelectuais, "redescobriu", em 1967, o hoje recuperado Teatro São Pedro, na Barra Funda, que então funcionava como cinema. A sociedade teatral em torno do São Pedro durou menos de um ano, pois, segundo Lélia Abramo, "Mariajosé não concordava em alugar o teatro a terceiros, e as dívidas tornaram-se insuportáveis". As contas foram assumidas pelo empresário Maurício Segall (casado com a atriz Beatriz Segall), com os qual o teatro funcionou até a década de 70.  A preservação da arquitetura paulistana era, de fato, uma grande preocupação de Maju. Conforme ela relata em carta a Pedro Nava: "Aqui, no planalto, onde nunca tivemos essa beleza (carioca), havia porém, alguma coisa a preservar, como por exemplo as belas mansões da avenida Paulista, Higienópolis e Campos Elíseos, as famosas residências dos barões do café, e aqui no Ipiranga, onde moro, os palácios preciosíssimos dos libaneses (os Jafet), que juntamente com os ingleses e o belga Sacoman, iniciaram a industrialização do bairro, cuja tendência no século passado era de belas chácaras residenciais. Pois bem, o vandalismo aqui é vertiginoso, furioso, incontrolável. (…) Agora mesmo ando profundamente agoniada com a iminente demolição de um dos palácios do bairro, de arquitetura art-nouveau e decoração da Renascença italiana e século dezoito francês. Uma maravilha, à mercê da infâmia dos alviões. E morrem sozinhos, anônimos, melancólicos, tristes, indefesos em meio a uma população, em sua ignorância e embotamento sensorial, indiferente".  Nos anos 70 e 80, Mariajosé continuou idealizando encenações teatrais (para a EAD e também para companhias particulares). Colaborou com o movimento da Catequese Poética, criado por Lindolf Bell, e apresentou poesia oralizada no Teatro Municipal, Centro Cultural de São Paulo, Biblioteca Mário de Andrade, Espaço Off, Teatro Crowne Plaza, Instituto Cultural Itaú e outros locais. Publicou, entre outros livros, a coletânea poética "Lunalunarium" (76), um volume de poesia erótica ilustrado por Darcy Penteado ("Os Celebrantes", 88), "Romance de Lampião" (91, ilustrado por Aldemir Martins) e uma adaptação teatral do "Retábulo de Santa Joana" (93), de Osman Lins.  Além das traduções de poesia, em seus últimos anos de vida adaptou e encenou em residências de amigos uma série de monólogos trágicos intitulado "Sete Heroínas" ("Fedra", de Racine; "Medéia", de Corneille, "Lady Macbeth", de Shakespeare, entre outros textos clássicos e uma personagem de sua criação, Venusina Valente).  Os alunos de dicção eram cada vez mais raros, e a manutenção do casarão em que morava, e que abrigou tantas reuniões poético-musicais, custava-lhe esforços sobre-humanos. Contudo, até a repentina internação hospitalar, continuou a cuidar diligentemente de seus muitos livros, gatos e plantas de seu jardim selvagem, nos fundos da casa que ela esperava um dia tornar-se "um refúgio para o cidadão paulistano tão cercado de violência, tão necessitado de tudo, inclusive de beleza".  O casarão de três andares na rua Silva Bueno, no bairro do Ipiranga, e todo o seu acervo cultural –biblioteca de três mil volumes (metade dos quais sobre teatro), obras de arte, pianos, adereços teatrais, móveis etc.– foi legado em testamento por Mariajosé de Carvalho à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Sua intenção era tornar o lugar centro público de música, poesia e teatro ou, conforme dizia, "um modesto refúgio, numa cidade tão violenta, para despertar o sentido da beleza, pois nosso povo é tão carente de tudo, de alimento para o corpo e também para a alma". Porém, meses depois da morte de Mariajosé, faleceu também sua testamenteira. O imóvel foi trancado s–os mais de dez gatos criados ali tiveram de buscar outra morada–, até ser entregue, extrajudicialmente, à Secretaria da Cultura. Em agosto de 96, quando a casa foi aberta novamente, pela Secretaria de Estado de Cultura e pela reportagem da Folha de São Paulo, ocupantes desconhecidos fugiram imediatamente pelo comprido jardim de fundos. Parte da biblioteca havia sido retirada, bem como obras de arte e quase todos os objetos. Por sorte, após a morte da poeta, amigos seus haviam entregue à confiança do Estado vinte obras de arte de maior valor –entre elas retratos de Mariajosé, realizados por Di Cavalcanti, Aldemir Martins, Antonio Bandeira e Darcy Penteado.  A Secretaria de Cultura do Estado colocou na casa um vigia e pré-catalogou os livros da biblioteca e documentos, porém afirma não poder fazer uma reforma total e ocupar definitivamente o imóvel, até que a posse definitiva do mesmo seja julgada. O destino da casa, hoje arrolada como bem do Estado de São Paulo, é desconhecido. Após abrigar oficinas de artesanato, em meados dos anos 2000,  foi novamente fechada.

que ânsia imemorial atrai os corpos
de ambarina e amavios impregnados
ossos tendões e carne e sangue nervos?
que impacto os enlouquece tange anula?
que plectro ou lançadeira ou sábia lâmina?
e exangues ao cansaço os abandona?
phallus vulva os seios mãos e boca
e a pele esse tecido permeável
são instrumentos de urdir tecer
e a estrutura imantada aniquilada
é deliquo amplo vôo queda a pique
num abismo do fogo gelo e nada 

(Poema de "Os Celebrantes", 1988) 

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Atualizado em: Qua 3 Jan 2018

Comentários  

#1 LuizaOlinda 26-12-2011 14:16
Realmente nao a conhecida, muito interessante o relato, irei procurar algumas obras dela!

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