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[Excerto] ÁPICE

O ponto é o mesmo. A sensação ao chegar no ponto alto é ainda vigorante. Vejo o negro do céu e as mesmas ruas iluminadas. O lugar está igual, mas a experiência é dissonante. O tempo é outro.
Chego aqui e a vejo.
Com o traje de sempre. É o mesmo jeans claro e a mesma blusa relaxada, bolsa de crochê e livro nas mãos. A assisto desde oprincípio da ladeira. Reparo seu caminhar despreocupado e o cabelo emaranhado ao vento. Ela nunca se atrasa, sempre chega primeiro. 19h30 ela sempre chega. Assim que adentra no recanto, seus olhos caçam. A vejo subir até aqui com uma sede…. é fácil perceber a ansiedade e euforia que percorrem o seu corpo. Ela tenta disfarçar, não quer demonstrar isso.
Com um sorriso contagiante e olhos que sorriem finalmente vê, logo diante de si. A sua respiração fica acelerada, até que calorosamente aquela imensidão a abraça. O seu rosto exala conforto, aconchego. O instante é atemporal. A brisa é suave e intensa. Aprecia até mesmo o cheiro, o devora, lhe é um entorpecente. Acredito que ela até suplica para ter aquele aroma. É fácil perceber que, se ela pudesse, eternizaria aqueles minutos. Vejo as tonalidades de vinho e salmão que a transbordam. O encontro da alma. Ali, ela certamente está onde quer estar. É o instante em que se encontra. Assim que aquela sensação lhe arrepia, se faz nua e crua.
Vejo essas cenas com muita clareza, cada uma delas. Cada uma das noites. As palavras e sensações. A intensidade com que se vivia. Acompanhada e em êxtase por infindos detalhes. Ela queimava tanto em intensidade que, nos últimos dias, não ouvia as badaladas do sino em contagem regressiva.
Sempre teve um temor em dar-se, quando caridosamente fez isso, a dilaceraram. Aquela jovem está morta.
É difícil digerir. Não se aproveitaram de uma mulher, com recentes rugas, mais velha, séria e com cicatrizes o suficiente para conhecer a decepção e não mais ter expectativas para com as pessoas que vão e chegam. A maior sacanagem foi que desintegraram a garota dos olhos que sorriam. E foi tudo tão gradual que enquanto isso acontecia eu fui incapaz de perceber, jamais vou me perdoar por isso.
Hoje, se eu pudesse, salvaria aquela menina. Meses correram, num piscar de olhos. E com cada um daqueles segundos, ela morria aos poucos. Pouco a pouco.
Fervorosamente eu suplico para que ela ainda esteja por aqui. Não sei se isso seria possível, por óbvio. Futilmente, volto ao mesmo lugar tentando resgatá-la, mas não encontro nem mesmo o menor resquício. São apenas as claras memórias. Não mais ouço os seus passos. O seu timbre está ecoando em algum lugar no tempo.
“Cadê você?”
A noite vazia é a mesma. Estou aqui. Sozinha. Não sinto raiva, tristeza, nada. Estações atrás o meu agora seria inimaginável e isso é avassalador. Até parece que aquelas noites não passaram de um delírio. Vejo o fantasma daquela garota e tento abraçá-lo.
“Cadê você?”
Ela foi por eles. Não sei porque e nem pra que e é justamente isso que ela mesma achava bonito. Não exigia nada em troca. A sua pureza e doação neste sentido era justamente o que eu achava bonito. Era tudo sincero.
Quando a sugaram e ela já não tinha mais o que oferecer, quando ela precisava do mesmo tipo de doação, deram-lhe as costas.
“Cadê eles?” Não sei.
“E hoje, quem são eles?” Não sei.
Só lhes digo uma coisa: não esperem nada de mim, já há muito tempo que não espero nada mais de vocês.
Tenho certeza que aquela minha versão, perdida em algum lugar no tempo, não seria capaz de imaginar que eu me sentiria desolada, neste lugar.
“Cadê você?”
Estou aqui. Mas, eu sou o resto ruim. A parte bruta. Sobrou apenas a parte que a gente não gosta e quer esconder.
Estou aqui, sozinha. Uma versão “depois deles”.
Fielmente sozinha. Eu e eu. As coisas que faço são por mim. São os meus medos. As minhas lamentações. As minhas derrotas. As minhas noites. Os meus prazeres. Os meus sentimentos. Os meus amores. As minhas quedas. Cicatrizes. Eu comigo e eu por mim. Se ainda houver alguma doação é exclusivamente para o meu eu.
Em nada tem haver com eles e é por isso que não se importam.
Falar assim parece tão óbvio. Mas, quando se vive isso, fielmente, é que a gente entende o verdadeiro significado. Não digo isso com indignação. Não lamento ou comemoro. Só reconheço que estou verdadeiramente só.
Sou eu comigo e eu mesma. Para onde vou? Quem sou? Não sei. Estou existindo. Neste instante, ouvindo repetidamente “Ordinary World — Duran Duran”, sei apenas onde estou, as horas e que sinto a ventania da noite eriçar os pelos dos meus braços. Não sei o amanhã, apesar de muito o esperar.
Não que isso me cause algum desconforto, na verdade, não me causa nada, só é o que é e ponto.
A minha única indignação é a morte da garota dos olhos que sorriam.
Sabe, enquanto vivia aqueles dias, sentia que aquilo era importante. Talvez eu não tenha aproveitado o quanto gostaria. Mas sabia que aquilo podia ser o meu ápice. Aquela garota era o meu melhor de mim.
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Atualizado em: Qui 28 Out 2021

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