person_outline



search

Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 8. Resignação

Insetos voam desesperados em busca da luz, sabe-se lá o por que eles fazem isso, mas travam uma dança incompreensível ao redor de uma lâmpada e como em um ápice final do espetáculo, eles caem mortos nas superfícies, sem distinção, lá ficam até que alguém os tire dali, os descarte, nada além da carcaça que restou, a alma dançarina já está em outro lugar. Roupa a roupa, preencho minha bagagem, muitas nunca usadas, bonitas demais para a escuridão desse quarto, para o vazio dessas palavras, dessas histórias, para esse lugar, um pijama basta e como se fosse um símbolo, representa a minha decadência, a mediocridade, a incompetência em lutar contra esse câncer que se instalou dentro mim. As camadas de tecido se acumulam e a dor se amplifica, por que sentimos falta daquilo que nos faz mal? Por que vou sentir falta desse lugar miserável, onde passei pelas piores experiencias possíveis, onde a morte me rondou? Acho que talvez não seja necessariamente gostar desse lugar, é do conforto que vou sentir falta, o conforto de sentir as mesmas coisas todos os dias, as mesmas dores e tristezas todos os dias, estar no mesmo lugar todos os dias e não ter que se preocupar com o desconhecido, o novo, o perigoso, desafiador, tudo é igual, mesmo sendo uma merda, é mais fácil saber o que vai acontecer.
A irracionalidade canina faz com que eles não entendam que isso é uma despedida, inocentemente se aproximam, com o mesmo entusiasmo de sempre e me sondam em troca de um carinho e lhes retribuo as muitas horas de conversas, os muitos afagos e companhias que eles me proporcionaram ao longo desse tempo que fiquei aqui e eles logo se distraem por um gato arrogante, por algum transeunte e vivem pelos seus instintos, sem saber que isso é um despedida, seguem suas vidas, curtas e invejáveis vidas, sem saber que amanhã será diferente. As portas se fecham, as bolsas são conferidas e lá vamos nós rumo ao velho destino. Pelas ruas, vislumbro aquele mundo próximo ao meu que nunca explorei, que nunca vi ou conheci e da mesma maneira que me é apresentado ele fica para trás e perde a importância e tudo perde a importância, aqueles desconhecido vivendo suas vidas, os animais passando pela rua em busca de comida, as arvores se mexendo com vento, o cheiro daquele aclive, as frases pichadas nos muros das casas, tudo fica para trás e nada interfere  na minha vida, tudo ganha essa importância repentina, por que nada de bom existe dentro de mim e como um platelminto, sigo de estímulo em estímulo, em busca desse calor, mesmo que momentâneo, de me importar com o mundo ao meu redor.
Todas as viagens contam com uma parada, quase religiosa, na casa da minha avó. Uma casa antiga, cheia de puxadinho que se uniram para formar uma casa maior, um quintal, com arvores e galinhas, o símbolo de um passado que não existe mais, o símbolo da distanásia que insistem em infringir sobre nós, é como olhar o Taj Mahal, um lindo lugar cheio de história que pertence ao passado, os senhores poderosos e a fonte do seu poder não existem mais, mas ele segue lá, imponente, amedrontador, como um dever, devemos manter essa relação moribunda viva, em nome do passado caquético, devemos continuar remediando essa morte, o passado se impõe sobre o presente e tenta tomar o seu lugar e esse é o símbolo máximo disso. Aqueles que antes reclamavam da lotação agora se defrontam com a solidão mórbida e irreversível, penso se não se arrependem do que um dia disseram, do que um dia pediram, talvez. Tudo agora é protocolar, seco, meramente ilustrativo, sem valor, só restou o seu Deus e a velha senhora cristã se despede de nós com um amargor no rosto, como quem sabe o seu destino, o que lhe ronda, mas não pode mensurar as consequências disso. E como os muros pichados, ela fica para trás, é passado e seguimos em frente.
Pegamos a estrada que corta a cidade ao meio e sentimos o vento em nossos cabelos imaginários, o cheiro podre da soja no acostamento, as lojas abrindo, as velhas arvores sendo cortadas, os coqueiros ornando aquele lugar e tudo vai ficando para trás e só o que resta é o que vem a frente, para onde estou indo, na verdade voltando, é para lá que estou voltando, para o lugar que me fez desistir da vida, talvez por ter me feito encará-la, enfrenta-la nu, sem a capa da depressão para cobrir minha derrota de significado, lá, ninguém se importa com a minha dor, ela é apenas minha e não interessa, o fracasso será cobrado igualmente a todos. Depois de meses nesse lugar, não evolui, não repensei nada, não descansei, sei que o me espera depois da curva não é novo e nem doce, sei que será difícil, mas não suporto mais esse lugar e seu silencio intimidador, sua solidão, sua falsa ternura, preciso encarar a vida fora desse vale, preciso me reconciliar com a minha dor. Após a curva a cidade está em um vale logo abaixo e tudo é visível, tudo vai ficando para trás, sumindo de vista, perdendo o significado e só o que resta é o que está comigo, as minhas lembranças, a cicatriz que ainda dói e o futuro a minha frente, a estrada que passa pelo meus olhos e me leva de volta ao inferno, a realidade, a vida. Estou sozinho e sempre estarei, por que ninguém sabe o que dói, como dói, onde dói, essa luta é apenas minha e tudo pode acontecer, posso falhar de novo e voltar para aquele lugar triste, mas quero ter a consciência e usufruir do meu escasso orgulho e dizer que eu tentei, dei o máximo que podia, não desisti, não fiquei trancado no meu quarto esperando o mundo se abrir para mim, aprendi que isso nunca acontecerá e só posso viver essas coisas no inferno, por mais duro que seja, por mais triste que seja.
Resignação é aceitação sem revolta dos sofrimentos da existência, como não posso me livrar dela, como não quero mais fazer isso, me entrego a ele, com toda a alma que me restou e vou até ela, onde as faixas do asfalto me levarem.
Pin It
Atualizado em: Sex 25 Set 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222