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Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 7. Culpa

O frio finalmente chega a esse mundo quente e árido, as nuvens ocupam o céu após semanas de uma ausência sofrida, sem elas o céu exibe seu azul insosso rotineiro e aos pouco vai ficando cada vez mais branco, mais pálido, perdendo a pouca vida que ainda lhe resta, aos poucos ela perde o significado, perde a função poética, é apenas o céu, pálido e sem vida, o céu que reflete nosso mundo e ousa nos mostrar nossa verdadeira face, nossas terríveis mazelas, nossa incompetência e antipatia, nosso egoísmo. Os cães tremem e imploram por calor, a pele dá um sinal de vida e os pelos se arrepiam com o vento cortante do sul, que expõe a solidão e a verdade absoluta que tanto nego a mim mesmo, no ápice da loucura e do desespero, por mais que eu não queira, sou um ser humano, de carne e osso.
A novidade leva consigo a luz, leva a madeira velha dos postes e revela máscara que só podem ser vistas na escuridão, sem nenhuma tecnologia, sem a luz artificial das lâmpadas e das telas, ela está ali, sempre a nossa frente, mas ao mesmo tempo ofuscada por essa luz inebriante que toma o nosso tempo e a nossa percepção e para o bem da fragilidade psicológica, ela existe tão perto e ao mesmo tempo tão longe de todos nós. Sentado no sofá, no silêncio é possível sentir a tristeza do recinto, sentir o cheiro do ressentimento, do arrependimento, na escuridão e possível ver o quanto todos esses que me cercam são tão infelizes quanto eu, afundados na sua vida de conveniências eles se esconde na embriaguez e na voz revoltada dos vídeos de Facebook, são terrivelmente amargurados, consternados com a distancia que percorram nessa farsa em nome da solidez que nunca encontraram, tudo é fluido e frágil, fluorescente no escuro e nas condições perfeitas posso ver seus rostos tristes e preocupados, sem saber até onde isso vai e pedindo a misericórdia atroz do seu Deus, para que os levem dessa vida de uma vez por toda, antes que os vícios percam o efeito e as luzes sejam incapazes de esconder o óbvio.
Quando a claridade volta a nossas vidas tudo volta ao normal, tudo parece aceitável mais uma vez e a vida segue seu curso até onde é possível suportar. Nesse período pseudo sabático que passei aqui descobri que a vida é um fardo, a existência como ser humano parte do princípio que nenhum de nós escolher estar aqui, nenhum de nós escolheu vir onde veio, com as pessoas que nos cercam, mas viemos do mesmo jeito, sem pedir, sem saber, sem entender o por que tudo isso, sob a égide de quem estamos e somos obrigados a viver a vida e suas mazelas em toda a intensidade. Essas coisas geram em mim, acima de tudo, revolta, por não ter tido a escolha e por ter falhado em me livrar desse fardo. A vida é um fardo, repito, temos que ter alicerce psicológico para lidar com esse terrível fato.
É terrível pensar que depois de todo esse processo não evolui uma linha sequer na minha aceitação com essa situação básica que é a vida, viver enclausurado, preso no escuro não ajuda em nada, a solidão e o isolamento distorcem sua visão de mundo e a realidade se apresenta exagerada, drástica, terrível, quanto mais tempo longe dela, mais distante. Olhando para o lado de fora, mesmo com todas as desgraças que perpassam minha vida e daqueles que estão perto de mim, percebo que a vida tem suas benesses, suas boas experiências, conhecendo outras histórias e abandonando a percepção egoísta da vida, percebo que há outras realidades mais difíceis do que a minha, mais difíceis na prática e não apenas em teorias mirabolantes criadas no escuro do medo, não são suposições, são dificuldades reais e que incidem verdadeiramente sobre a vida daqueles que as portam. Por vezes implorei para que minha vida fosse dada a outro que a quisesse viver, mas agora percebo que talvez ninguém queira a minha vida, porque mesmo na merda eles preferem as deles à minha cheia de privilégios injustos. A pergunta que perpassa minha vida nesses dias frios é o que faz com que eu odeie minha vida mesmo tendo tanto e o que faz alguém que não tem nada gostar da sua realidade?
Acredito que eu nunca vou possuir essas respostas simplesmente especulando, olhando de longe, observando o intocável, preciso mergulhar nesse pântano para descobrir, preciso abandonar a margem dos bravateiros, dos especuladores, dos medrosos, devo seguir em frente, o difícil é saber como, é ter energia para enfrentar esse longo que caminho enlameado que o fim a vista não alcança, preciso começar de algum lugar, preciso entender o por que ainda continuo aqui, com os pés fincados nessa superfície tóxica. Minha mente é complicada, pequenas coisas se tornam enormes imbróglios, pequenos deslizes se tornam enormes remorsos e no fim tudo é alicerçado pela culpa, a culpa de ter feito as coisas que fiz, de ter machucado quem eu machuquei e a culpa de continuar aqui, sentado, esperando o tempo passar, a culpa por sentir culpa que me leva a sentir mais culpa, um eterno ciclo que se retroalimenta e que só cabe a mim quebrar.
O passado é um fantasma que paira sobre as nossas cabeças, uma ação passada, sem volta, que é impossível de alterar, as coisas que lá aconteceram pesam em minhas costas e ocupa a minha mente de um remorso perturbador e angustiante, tudo milhões de vezes amplificado pela depressão, uma oportunidade perdida, uma palavra não dita já pode ser motivo para se afundar na culpa quase irracional que pauta meu presente. Entendo que o único jeito de seguir em frente é me perdoando, perdoando todas as coisas que fiz com os outros mas principalmente comigo mesmo, todas as vezes em que me machuquei, em que falhei, entendo que sou um ser humano e cometo erros, por mais que eles me atormentem todas as noites solitárias, o primeiro passo para me livrar desse peso é perdoar e entender os motivos das coisas que fiz e de alguma forma não tornar isso ainda mais pesado, não encher mais essa caixinha de remorsos, o que passou já foi e não será repetido, as cicatrizes no meu corpo e na minha alma sempre irão me lembrar o quão nocivas são essas coisas que preciso me livrar.
No escuro as realidades fluorescentes de tristeza que me cercam, quase radioativas, percebi que talvez tenha sido um pouco drástico com eles, estava tomado eplo ódio e pela descrença e não percebi que a minha família é tão triste quanto eu e passa por problemas parecidos mas com o fardo de ter que gerir toda essa bagunça, a raiva que toda essa dor gera fez com o que eu e os machucasse sem querer, com as minhas ações, principalmente as suicidas. Não sei como recuperar isso, mas não quero mais contribuir para que essa culpa aumente, a minha dor não é apenas minha, ela incide sobre todos ao meu redor e afeta suas vidas como afeta a minha e as vezes a incompreensão disso pode levar a conflitos desnecessários e desgastantes. Preciso seguir em frente e sei que não posso levar ninguém comigo, por uma série de motivos, mas não quero deixar mágoas pendentes e nem as aumentar ainda mais. A culpa é o problema e a solução e aquele sorriso tímido daquela menina me fez pensar que talvez devesse gostar um pouco mais nem que fosse um pouco da minha vida, como em um programa infantil brega, olhar um pouco mais o lado bom do que há nessa experiencia, mesmo que ele não exista, sempre procurar por algo, não me conformar com a morte e com a dor que incapacitam mas que não cegam totalmente. Mesmo que seja apenas ilusão, é preciso ver beleza em alguma coisa, para suportar esse fardo que é viver, suportar os fantasmas do passado, a área movediça do presente e a indefinição do futuro que aparece de relance no fim da estrada e parece tão insosso quanto o céu desse mundo.
É uma construção, vai custar tempo e energia, mesmo que dê errado é preciso tentar, é preciso deixar a falsa ternura dos lençóis para trás, a falsa cordialidade da terra firme, o falso conforto da prisão atrás dos vidros e janelas, por que se isso não for feito eu sei onde irei terminar, mais uma vez naquela posição infame, aqui novamente, até aprender o que devo aprender, mesmo ainda não sabendo direito, ir em frente para ter um vislumbre maior, para ler as páginas além desse livro. A dor não é uma amiga, não é terna como parece, ninguém gosta da tristeza, o que há é o conforto de permanecer nessa realidade, de permanecer no mundo que você conhecer, da zona de conforto, qualquer coisa além disso é ameaçador pois nunca foi visto antes. Por mais brega e tosca que possa ser a esperança, por mais tola que possa parecer, ela sempre deve ser cultivada, já que, pensando bem, gostar do fardo da vida no fim é brega, tosco e tolo, é isso ou viver na espiral que não suportar esse fardo proporciona. Prefiro seguir em frente, mesmo alicerçado em tudo que nessa esperança frágil é melhor do que permanecer aqui, esperando o tempo passar e morte vir me salvar, o que nunca vai acontecer. Não há bondade nessas figuras.
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Atualizado em: Seg 24 Ago 2020

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