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Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 6. Ódio

As palmeiras da cidade passam pelos meus olhos desatentos, meu corpo amedrontado se esconde atrás do vidro escuro, a vergonha, o desleixo estão protegidos do escárnio da mesquinhez daqueles que sentam nos bancos de pedra da praça, não sinto o vento e nem a sua libertação, estou preso por janelas de vidro escuras, que me salvam e me condenam ao mesmo tempo. Não tenho qualquer noção do tempo, mas essa é a primeira vez que saio de casa desde que cheguei aqui, pode ter sido ontem ou há 1 ano, não tenho ideia mas a percepção relativa do tempo faz com que qualquer duração seja imensa, arrastada, estendida no meu caso, mas tudo permanece igual ao que sempre foi, as mesmas pessoas, as mesmas músicas, as mesmas roupas, a mesma cidades, os mesmos lugares e luzes, tudo igual ao que me lembrava e que não muda em nada a minha vida e nem a minha percepção vazia sobre ela, além de que devo me manter longe das pessoas para me sentir seguro, sempre foi assim e deu tão certo que me trouxe aqui, de volta, derrotado, mas com a mesma vergonha de sempre, escondido atrás do vidro, com medo do mundo, com nojo das risadas e as brincadeiras, com ódio das conjunturas.

Não me arrumo para sair, simplesmente saio, pois vou apenas ficar no carro, não me atreveria a me mostrar, vou com as velhas roupas sujas e rasgadas de sempre, pouco me importa o que vestir, nada mudará a minha situação e nem a visão das pessoas sobre mim. O mesmo caminho de sempre é percorrido, há anos é assim e pelo visto nada mudou, as mesmas músicas, as mesmas pessoas, as mesmas observações, a mesma mentalidade que me levou para o buraco estão presentes, na velha pressão em ter que sair para não me tornar um ser isolado do mundo, para ver as pessoas as quais não interessam, mas simplesmente sair e que ontem e hoje, aceito com relutância.

O ódio é simples, fácil, cru, histriônico ou silencioso é sempre um caminho fácil chegar a ele e um ser tão amargurado e catastrofista quanto eu, tem nele um quase uma entidade, quase um amigo. A primeira reação a ver aquelas pessoas se divertindo, sendo felizes, vivendo e perceber que estou ali, envergonhado atrás de um vidro é o ódio, o ódio não deles, pois não tem nada a ver, mas o ódio de mim, por ser como sou e por não conseguir mudar as conjunturas, as circunstancias que me tornam assim, por não conseguir ajuda, por conta de ser como sou, esse ser vacilante, arrogante e vazio que nada tem a oferecer, além do rancor e da tristeza rendida na indignidade da minha situação, o ódio é tão profundo que destrói o que resta de tristeza rendida na indignidade da minha situação, o ódio é tão profundo que destrói o que resta de quem eu sou e torna impossível certas discussões, pois tudo está infectado por essa coisa, por essa besta que toma de assalto todas as partes do meu ser, não sei mais distinguir o que, quem e por que eu odeio, só odeio, não sei se é inveja ou raiva, só sei que reprovo o comportamento daquela gente, tenho asco daquilo, daquela felicidade, daquele cheiro. No fundo eu sei, no resto que ainda existe em mim, que tudo não passa de recalque, só odeio por que não posso ser, posso apenas observar passivamente aquilo e tentar imaginar como é, algo além da escuridão, da névoa cinza da tristeza e da despersonalização, como é viver de verdade?

Um evento estranho percorre todos os espaços, o ódio é resultado até dos arrependimentos e das tristezas, por ser mais fácil de sintetizar, de entender, de apreciar, o ódio se volta contra mim, para minha inabilidade em interagir com o meu mundo e com as pessoas nada e pela incapacidade de gostar da vida, sinto ódio de todos os atores dessa história, mas que no fim é tudo contra mim, pois tudo se passa no palco do meu teatro interno, dissociado da realidade e que só diz respeito mim e que só destrói a mim. O ódio que sinto deles e de suas atividades divertidas e de suas aptidão não mudarão suas vidas, pois não quero, não devo e não penso ferir ninguém, mas muda a mim e machuca a mim, me tornando ainda mais revoltado e desiludido e como numa Síndrome de Estocolmo me deixo sequestrar todas as vezes que eles vem, com seu cinismo, sua visão simples e fácil dos problemas, me leva para um simulacro de mundo, onde tudo faz sentido mas nada é real e no fim, destrói pouco a pouco, o que resta de esperança, pois nada muda, nada se constrói com o ódio, mas muita energia é gasta na intenção de digerir o mundo e a ideia de que mesmo dentro dele, não faço parte dele. 

As risadas relaxadas, que rasgam meu peito cheio de inveja como se fossem direcionadas a mim, ficam para trás junto aos seus donos e suas realidades, tão próximas e tão distantes as minhas, não quero ser como eles e nem ficar perto deles, só queria um pouquinho daquela felicidade, para rir despreocupado, mas agora, mais uma vez nesse quarto escuro e quente, a pergunta que se impõe é, rir de que? Seja qual for o motivo deles, não é o meu e não meu quadro, rir por rir, seria quase uma impertinência, uma imoralidade, que não cabe a mim e nem a minha realidade. Desintoxicado do ódio e mais uma vez vazio, espero o tempo passar enquanto conto as pintinhas estranhas no teto, que nada constroem e em nada garante o meu futuro, são inúteis, mas pelo menos não destroem nada e mantem tudo puro e cristalino, preservado pela banalidade do cotidiano.

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Atualizado em: Sex 31 Jul 2020

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