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Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 5. Solidão

Admirando o que me resta de vista, preso no mundo provinciano que me cerca, preso nas mesmas conversas, na mesmice rasa e previsível daqueles que me cercam, sedento por um pouco mais do simulacro de ternura do algodão dos lençóis, coisa que ninguém pode me oferecer e nem o querem tentar fazer. A vida continua sendo um fardo, mesmo que não seja vivida integralmente, os danos de vive-la são completos em mim e nada pode mudar isso, nem a banalidade do por do sol e nem a extraordinária chuva de folhas secas dos milharais que cercam a cidade e são levadas pelo vento para cobrir a rua daquelas folhas barulhentas e amarronzadas que flutuam pelo seus como uma dança exibida e despreocupada. Não há nada para conversar, não há nada que eu queira conversar, não há ninguém interessante, já que não há nada para conversar, logo não há ninguém. A solidão a qual me refiro é uma solidão diferente, não é a de caráter físico e nem emocional, pois estou cercado de gente olhando para mim como uma espécie de coitadinho que sobreviveu a própria fúria ingrata do seu ego ateu ou coisas do tipo, a solidão que enfrento é a solidão intelectual, a falta de ter alguém para conversar sobre algo além de relacionamentos platônicos e planos de enriquecimentos fúteis, sobre algo que realmente me interessem seja o que isso for.

A tempos não vinha aqui, não ficava sentado na calçada admirando o sol refletido na calçada de concreto, enquanto os cachorros me cercam suplicantes de carinho, não sentava sobre o limoeiro que apenas oferece folhas secas ao chão para alguém limpar e não lidava com tanta ente igual por tanto tempo, não que as pessoas do outro mundo não sejam também bastante iguais e igualmente chatas, mas não precisei lidar com elas por tanto tempo. Passado um tempo da minha internação, as pessoas tem um pouco mais de coragem de me visitar e trazem consigo a sua mesmice, que me gera intensa monotonia, dos seus assuntos e dos seus preconceitos, das suas lições de moral e das suas bravatas que levam a minha paranoia a níveis preocupantemente elevados e sinceramente me dão saudade da ala psiquiátrica, pelo menos lá, tinha um pouco de paz e podia jogar xadrez e andar pela grama, aqui só me resta a banalidade mais fútil e mesquinha, que gera uma imenso rancor e vontade de que o suicídio não tivesse falhado.

Sinto-me a Rose do Titanic, trancada em um navio no meio do oceano, cheio das mesmas pessoas cansativas e vazias de sempre, mas pelo menos ela tinha o Jack, eu não tenho ninguém. Sei que parte da minha solidão deriva da minha arrogância em pensar que ninguém é o suficiente para mim, mas a questão não reside apenas nisso, mas no fato de que somos tão diferente que o dialogo sincero entre as duas partes é impossível, não é superioridade, mas sim, um afastamento horizontal, somos diferentes mas não inferiores um ao outro. A solidão gera uma sensação de vazio e de cansaço em ter que lidar com pessoas tão diferentes e por vezes complicadas e é por esse cansaço que muitas vezes cultivo a própria solidão, mesmo sabendo o quanto isso me faz mal, mesmo sabendo que tenho necessidades, sinto falta de companhia, de alguém para conversar, mas é cansativo demais, ao ponto que não vale a pena preencher o meu tempo com esse tipo de companhia, a solidão é mais segura e coesa.
Estou em uma caixa de concreto, protegida por um portão enferrujado, em uma cidade isolada, sozinho e desiludido, minha cabeça e meu peito doem e o futuro seja lá qual for não parece muito próximo, enquanto o presente se arrasta e o passado paira como uma nuvem cinza e carregada em cima da minha consciência, estou sozinho aqui, sou sozinho lá e em todo lugar, pelos mesmos motivos, por não me sentir a vontade e por não me sentir igual a ninguém, todos são diferentes, ameaçadores e por vezes sem paciência perante as minhas dificuldades. Façopara os outros o favor que espero que façam para mim, que me livrem dos problemas alheios pois eu já tenho muitos e eles se acumulam e se acumulam a ponto de um sobrepor o outro fazendo o tempo passar cada vez mais devagar, se arrastando lentamente e deixando um rastro de destruição por onde passa, a solidão é igual para mim em todos os lugares, por que o problema sou sempre eu, é sempre a minha indissociável personalidade, da qual nunca vou me livrar e o futuro de esperança e equilíbrio que busco e que me faz entupir de remédios fica cada vez mais distante e improvável, pois a minha solidão no fim é um atestado de extrema inabilidade social, em construir laços com outros e de manter esses laços, por falta de vontade ou paciência, não gosto disso, mesmo precisado, mesmo sofrendo com a falta deles.
Os cachorros ajudam com suas suplicas esporádicas, mas logo, como todos, eles se cansam de mim e vão embora e fico só, as páginas dos meus diários e das minhas cartas endereçadas a ninguém não suprem esse vazio, pois esses ninguéns nuca me respondem, pois são frutos da minha imaginação. Não me sinto digno de pedir conselhos, de dividir tristezas pois não quero fazer parte da vida de ninguém, não quero esse fardo, então eu rumino e rumino os problemas, até que o metano produzido por mim me sufoque dentro do meu quarto vazio e me leve de uma vez dessa vida e dessa contradição insolúvel. Preciso mas não quero, não consigo viabilizar e não quero viabilizar, mas sofro por isso, como entender isso e a dor que causa, como não me odiar por não gostar de viver, por pirar 3 vezes ao dia por não suportar mais o presente e não ter nenhum ombro para chorar, por não ter nada para me agarram além do simulacro dos lençóis. Se quero receber devo dar, mas não tenho nada para dar, não quero dar e não posso dar.
No fim, volto para o meu quarto branco e solitário e tento mais uma vez ser alguém, aguentar a dor que eu mesmo criei e procurar desesperadamente a minha personalidade que nem formada foi, que está presa, amedrontada, refugiada em uma concha nos fundos do meu ser, com medo do mundo, da vida, que a qualquer momento pode machucar. Ela lá fica e eu sigo vazio e sem rumo, sem vontades e desejos, me espelhando naqueles olhos pretos que nem lembram que eu existo e nem sentiram a minha falta, pois sou um verme escondido no canto que ninguém percebe a presença, isso aqui, isso lá, em qualquer lugar.
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Atualizado em: Sex 31 Jul 2020

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