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Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 4. Silêncio

Após o declive e a curva, há um lugar, onde aprendi que o glucagon é o antagonista da insulina, que a adrenalina é antagonista da acetilcolina e desse lado do rio, nesse nova vida, sob o sol, cercado do abanar de rabos dos cães, olhando para o passado, entendo que o silêncio é o antagonista do carisma, um bloqueia o outro, um neutraliza o outro, até o ponto que um deles deixa de existir na prática. O carisma é como um bloco de pedra, que se prostra no meio da sala, sob o olhar de todos os presentes, curiosos, indiferentes ou ansiosos e aos poucos o silêncio que instala, age como marretas, batendo incessantemente naquele bloco, até que ele comece a se despedaçar, ate que os seus pedaços se espalhem por todos os cantos e aquele belo bloco, agradável bloco, torna-se algo tosco e desagradável, e alguns podem se retirar ou se tornarem indiferentes ou horrorizados com aquele pedaço de pedra deformado diante deles, mas de algo sei, aquela visão, jamais é esquecida, jamais é relativizada ou perdoada, por mais que com o tempo a tosquice dê lugar a arte por requinte do escultor ou pela mudança do público ou de seus pontos de vista, aquela visão e o desprezo por ela gerada nunca serão esquecidos, o que os meus contemporâneos chamam de primeira impressão.
Tenho inúmeras deficiências e ultrapasso a linha tênue do normal, sou diferente, irremediável e inconvenientemente diferente, passo por situações que sei que outros não passam, por muitas vezes tive que ver esse bloco sendo destruído pelo meu silêncio, por inúmeras vezes vi o olhar de nojo, de desprezo dos outros enquanto admiravam aquilo, o som dos sapatos pisando nas pequenas pedras que se espalharam pelo chão assombram frequentemente meus pensamentos. Entendo o quanto isso me prejudica, mas ao mesmo tempo não sei o que fazer, não há nada que eu queira dizer, argumentar, não quero impressionar ninguém, não quero ninguém perto de mim, da minha realidade, do meu inferno, mas dói, as marretadas na pedra do carisma doem de maneira tão profunda em mim que as vezes penso que não vou suportar e minha cabeça baixa começa a pesar e os olhos começam a molhar, o resto escuro se cora de cores invisíveis e depois do trauma, preciso me refugiar, para digerir e aceitar o meu fracasso.
O silêncio queima todas as pontes, destrói todas as oportunidades possíveis de sair da solidão que assola cada espaço do meu ser, por que este próprio não consegue suportar a ocupação dos seus espaços dessa maneira tão ameaçadora, em uma conversa com estranhos, aos olhos de todo o público, sem apoio, sem satélites, sem possibilidades e rotas de fuga. O silêncio no fim é uma consequência de distorções mais profundas que gera um ciclo de solidão e desprezo que gera mais traumas e mais silêncio, uma rede de retro alimentação que afunda ainda mais as possibilidades de sair dessa crise eterna, de sanar esse incômodo profundo que assola todos os aspectos da minha vida. Sendo como sou, sabendo das minhas limitações, entendo que não posso sucumbir a todas as minhas vontades, uma vez que, a maioria delas são prejudiciais a mim, então preciso entender que vez ou outra devo fazer coisas que não gosto para simplesmente existir, sobreviver nesse mundo, então vez ou outra, treino falas e conversas que posso ter com pessoas, treino assuntos e outras coisas para ter alguma possibilidade e não ser apenas um corpo presente nitidamente desconfortável esperando o tempo passar. Por mais que eu tente, sei que a coisa é mais profunda que isso, mas devo continuar tentando lidar com esse incômodo que as vezes parece vir do mesmo lugar, da mesma força que me fez sair do quarto, parece ser muita próxima da mesma que cria as condições para voltar para ele, para me afundar dentro dele e me deixar ser devorado.
Agora do lado de fora, a conjuntura parece começar a pesar, as opiniões parecem incidir cada vez mais profundamente no meu conforto e tudo começa a ficar mais difícil e o mesmo silêncio que incomodava no passado, incomoda aqui, por outros motivos, são faces diferentes da mesma entidade. O silêncio desse lado da história é vazio, sem sentido e sem significado, é apenas silêncio, que incomoda de outra maneira, por outras vias e gera outras consequências, mas ainda sim é o silêncio. Curioso, o passado se torna cada vez mais distante e o futuro nem aparece no horizonte, estou preso no presente, na conjuntura atual, cercado dos valores atuais, sem qualquer noção do fim, se é que ele existe, sem noção do término, da rendição, sem saber o que esperar. Nesse presente, o silêncio serve como uma corda, para amarrar as estruturas quebradas e fazê-las continuar juntas, o silêncio aqui é a única possibilidade de união, da permanência da conjuntura e da paz da qual ela depende, o silêncio é um Deus e precisa ser respeitado, por que se ousar desafiá-lo, tudo rui e tudo se torna ainda mais sem sentido, mais vazio e agora cheio de culpa, o Deus silêncio é o único que consegue manter essa família unida, como deve ser, como sonham alguns e rechaçam outros, como querem os poderosos desse presente.
Os grilos fazem companhia, o miado atrevido dos gatos, o latido assustado dos cachorros, preenche espaços profundos e irremediáveis por si só, na mesa só o som estridente dos talheres, os bebericar dos copos e o grunhido de prazer pela bela refeição que o Deus dessa terra provê, na madrugada, apenas os sons amedrontadores que no fim são apenas sons normais que são amplificados pelo silêncio, o Deus da Paz. O silêncio nesse Presente contempla tudo, risadas, choros, congratulações e simples cumprimentos, o silêncio é soberano sustentando pela arrogância e pela fraqueza daqueles que não suportam a ideia de que esse Deus deve ser desafiado, deposto e para o bem do que há, para o bem das estruturas, ele deve ser mantido, já que, além do Senhor da Paz ele esconde diferenças tão profundas e irreconciliáveis que sem ele, esse lugar seria um completo caos, ela precisa existir, para o bem de todos.
Lá o silêncio destrói, aqui mantém, só queria conhecer um lugar em que o vazio do silêncio possa construir algo, que a inexistência pudesse ser um fator para a construção de algo novo e maravilhoso. Pura tolice, sei disso e procuro não nutrir tais ilusões, somente a ação é capaz de fazer, de construir, de mudar, de melhorar algo, sei que a passividade do silencio e a perversidade de sua divindade não trará nada de bom para mim e nem para o meu futuro nesse novo mundo que se revela, que parece quase eterno, mesmo não sendo, que parece um purgatório ateu, que sem qualquer moral ou dogma pune em nome do que não existe e mantem estruturas condenadas ao esquecimento.
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Atualizado em: Qui 9 Jul 2020

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