person_outline



search

Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 3. Ansiedade

Deitado, olhando para o teto escuro desse quarto cavernoso, pereço sobre a minha cama, sobre meu velho colchão que mostra os sinais de sua velhice abrindo uma fenda em seu meio, como uma espécie de revolta, de um pedido de descanso, de aposentadoria, mas o que ela realmente tem são meus ossos doloridos, minha carne podre repousando sobre suas fibras, sobre seus ácaros o dia todo, esperando que ele os livre de suas mazelas, mesmo sabendo que é em vão. A escuridão é uma amiga, o cheiro de mofo é a certeza de que tudo continua igual, as cicatrizes em meu corpo são a certeza de que o passado sempre estará em mim, marcado em mim, para sempre me lembrar do meu passado, de quem eu sou, de tudo que fiz. As lembranças percorrem cada centímetro dos meus pensamentos, cada neurônio, cada sinapse, como uma sanção eterna de constrangimento para que eu nunca esqueça e nunca evolua, que sempre seja refém da minha própria incapacidade, das minhas próprias fraquezas.
A luz entra pelas frestas e se arrasta pelo chão tentando encontrar minha pele, caminha pelas paredes derretendo tudo que encontra, destruindo sonhos, destruindo ilusões e mentiras, quando o Sol me lembra que eu ainda existo e que a vida lá fora passa sem demora, me lembra de que sou uma partícula perdida, sou um ser fracassado, que perdeu tudo, até a dignidade que perde seus dias afundado na indignidade, nas risadas momentâneas do humor sujo, nos prazeres tolos das necessidades fúteis da minha condição humana, a vida passa sem demora do lado de fora e os monstros do meu mundo o devoram sem piedade, sem qualquer remorso, como traças famintas, lagartas desesperadas para se tornarem borboletas e poderem voar, ansiosas para deixar esse mundo cinza, cromado, salinizado, sem vida, um mundo raso e rarefeito que agoniza e que não suporta o cheiro de sua própria podridão. Elas querem ir, e eu quero que vá, seja feliz onde quer seja, não quero ninguém preso a minha sentença, preso a esse mundo morto, agonizante.
A agonia se dá nos pequenos momentos, em cada fresta da realidade distorcida desse quarto escuro, a agonia é silenciosa e ao mesmo tempo barulhenta, gritante, é passiva e ao mesmo tempo lancinante, é o pensamento, são as lembranças, a simples noção do que ocorre lá fora, a simples ciência do meu lugar no mundo, de tudo de perdi, de quem eu sou, mesmo me abrigando aqui dentro, suando entre os cobertores pesados, não posso ignorar o que ocorre sob o Sol escaldante, tudo que ele queima, tudo que destrói, da realidade a lembranças e a memória do que um dia fui. A simples noção causa uma sensação estranha, uma necessidade de sair, de tentar mais uma vez, de não me render, mas como vou sair do escuro que já me consumiu e me envolveu, como vou lidar com a luz, com os olhares, os monstros, os toques, as obrigações, mas como posso simplesmente me render, não posso me render, não posso, não posso, não posso, não posso! E com lágrimas nos olhos me envolvo nos cobertores como se eles me dessem alguma força, mas como areia movediça eles me afundam em seu aconchego, em sua ternura, na sua calma e aqui continuo.
Afogado, com os olhos e pulmões cheios de areia, lembro-me do passado e dessa mesma sensação, dessa sensação de desespero, a necessidade de agir na adversidade, a necessidade de lidar com aquela dor, com aquele aperto, com o medo que o gerava e a incapacidade que ela gerava e quanto mais lutava mais apertava, quanto mais lembrava mais apertava, quanto mais tentava mais apertada. Entre lágrimas e andanças desesperadas e dispneicas contando os azulejos e as janelas eu tentava estudar para a prova na manhã seguinte, o que pensariam de mim se fosse mal, o que seria de mim se falhasse, era só o que passava entre os meus passos apreçados, as letras se embaralhavam e a tristeza, a descrença se impunham como sempre fizeram e tiravam a esperança para me humilhar mais. As paredes pareciam cada vez mais próximas, mais opressoras, o ar faltava e aquele cubículo era impossível, precisava sair dali e o ar da varanda entrava pelas minhas narinas como água do mar, rasgando, queimando, me afogando, profundamente tentava encontrar o oxigênio, mas só agua chegava até mim e como um peixe desesperado, me debatia, implorava por ar, mas quanto mais tentava, mais longe estava e de repente, um lufada de ar chega até mim e sei que a superfície havia chegado e me deixo levar pelo instinto, respiro louca e desesperadamente, enchendo os pulmões de ar, pulmões que queimavam, ardiam e a quando o oxigênio chega ao cérebro, soa como uma droga, que me tonteia, me desestabiliza e só quero mais daquilo.
Logo ali, recuperado, a vida volta aos meus braços e o corpo agora lotado de oxigênio volta a operar normalmente e uma dor infernal atinge minhas costas. Nunca entendi essa dor, uma dor terrível em ambos os lados do meu dorso, como se alguém apertasse com força e logo ficar em pé não é mais possível e quanto mais dói ficar sentado deixa de ser possível e deitado, respirando fundo e me concentrando em outra coisa a dor passa aos poucos e logo, como se nunca tivesse existido, ela se vai e olhando para o teto ouço quase como uma voz, a pagina dos livros se mexendo ao vento, me lembrando das minhas obrigações, do que devo fazer e o ciclo recomeça mais uma tentativa, mais um fracasso, mais uma crise e assim até o momento em que a obrigação cessa e posso aproveitar me paz os benefícios da mediocridade.
Aqui, do outro lado da ponte, do outro lado do ato, na consequência, olhando para o passado, tenho dificuldade em aceitar  que esse é o futuro, onde as mesmas coisas ocorrem, em contextos diferentes, o ar falta nessa caverna, o que ainda existe entra em chamas pelas narinas e entendo, olhando pelas frestas, que o primeiro passo para retomar o controle da minha vida é saindo daqui, é enfrentando os monstros e silenciando as vozes doces dos cobertores, o único jeito de retornar a vida, é abrindo essa porta e deixando o ar entrar, mas como? Como posso me levantar, me livrar das amarras, do calor desse lugar, onde nada acontece, onde a vida não precisa ser vivida, onde tudo é simples, como a vida de um bebê, que nada entende, que nada precisa saber, sair desse lugar é como sair do útero, traumático mas preciso é como nascer de novo. A caminho da porta, que não é longe, mas que parece infinitamente distante, as lembranças vem a tona e as memórias, as vergonhas, a tristeza, as cicatrizes gritam em meus ouvidos, todos os constrangimentos, todas as vezes que pedi a morte, tornam a maçaneta distante, pesada, escorregadia e como um sussurro doce, os lençóis me chamam de volta, a vida não precisa ser assim, pode ser um sonho, posso simplesmente esperar a morte, enquanto sonho com a mentira e me deleito dela. Algo, lá no fundo, o que talvez Freud chamaria de pulsão de vida, me impede de me entregar por completo, me impede de simplesmente desistir e o problema se encontra nesse ponto, no choque, no confronto, na indecisão. O que escolher? A doçura fácil dos lençóis ou a rispidez dos monstros da realidade? O que eu quero para mim?
Como uma lembrança viva, posso sentir o oxigênio fugir, posso sentir meus pulmões gritarem, reclamarem de dor, implorarem por mais, implorarem pela vida, o peito pesa e tudo se distorce, logo sento no chão, deito na cerâmica gelada que esgarça na minha cara, meus privilégios, que faz questão de me empurrar para aquela dor surreal, preciso me concentrar, deixar o ar entrar e parar de pensar na decisão que estou prestes a tomar e por anos fiz isso, por anos procrastinei, esperei a hora certa e ela nunca chegou, por que sempre tenho que escolher e escolhas me levam ao chão, a dor, ao sofrimento, como um peixe fora d’agua me debato esperando o ar voltar ou a morte chegar. Aos poucos o ar chega e não preenche de ar somente meus pulmões, mas também minha cabeça, que se esquece do que estava prestes a fazer no que estava pensando.
Esse é o cerne da questão, decisões, o que escolho, o sensato ou o que o que quero, o obvio ou o inconsequente, o que é obvio? o que é sensato? o que é inconsequente? Eu não sei nenhuma dessas respostas quando se trata da minha situação, mas no fim, eu quase sempre sigo aquela sensação, que coça lá no fundo, nas frestas mais profundas do meu ser, que se mexe e gera um incomodo que me lembra, quase instintivamente da minha condição e a única vez que não segui essa sensação, esse instinto, as minhas ações me trouxeram a esse estado deplorável, ao escuro, ao mofo e a falsa ternura dos lençóis, mesmo com dor, com dificuldade, eu me levanto e abro a porta e a luz entra pelos meus olhos, preenche os espaço, mata as frestas, os cantos, os monstros, mata as ternuras e as promessas e como um nascido, caminho de volta para vida, esperando de bom grado o que ela me reserva, ansioso pela próxima curva e preparado para a próxima decepção, pelas peças que a carrancuda vida adora pregar, pelas vinganças e as lições que adora dar.
Pin It
Atualizado em: Qui 9 Jul 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222