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Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 1. Suicídio

Esta história começa pelo final, pela morte, pela chegada, pela consequência, o suicídio é tudo isso, a ultima barreira ate a morte, até a paz das outras dimensões, e o fim das chagas, das dores, dos problemas, do outro lado, longe de tudo e todos as coisas podem ser diferentes e a morte, como uma velha amiga te recebe de braços abertos, com sua hospitalidade fria, com seus lábios azuis, nesse novo mundo, de paz e tranquilidade, poderei desfrutar da dádiva do descanso, sentirei o peso da justiça pairando sobre a minha cabeça como nuvens no céu, alegrando o dia, refrescando com suas gotas frias o ardor infernal do meu destino, afinal de contas, qual é o destino de um suicida, o destino de alguém que desistiu de viver, que não aguentou a dor da realidade, será que a doença sera levada em consideração, será que as gotas de chuva que molham meu mundo são realmente advindas da justiça ou são gotas ácidas que corroem as estruturas, gotas de vingança, de punição, de ódio? O medo toma conta do meu ser perdido, os campos dourados se tornam cinza, a paz se torna o caos e de o vento leva uma voz, uma voz ininteligível e que se avolumam e se avolumam cada vez mais, o desconhecido entra pelo nariz e faz com que o esôfago se preencha de líquido e de repente todo esse mundo se desfaz, corroído pelo meu próprio vômito, pela minha própria incapacidade, incompetência em abandonar o meu mundo, com canos e braços ávidos ele me traz de volta, para o inferno, para a realidade.
Não tive tempo de descobrir nenhuma das perguntas da outra dimensão, nem se quer tive a oportunidade de conhece-la, o que vi de relance lá ficou e jamais voltará e hora de voltar e uma luz branca, estridente, queima meus olhos, um cheiro artificial, estranho, entra pelas narinas e os braços se ligam a máquinas que possivelmente me mantem vivo. Os olhos se acostumam com a luz e a primeira imagem se faz perante eles, os rostos preocupados, indignados dos meus pais, me olhando com incredulidade, até com um certo desprezo, como se pudesse ler suas mentes, sei o que eles estão pensando, sei que o discurso padrão está se repetindo nas suas mentes, a falta de deus me levou a esse fim, a falta de gratidão me cegou para o quanto sou privilegiado. Não queria ouvir nada daquilo mais uma vez e meus olhos se enchem de lágrimas por motivos que não consigo compreender, talvez seja vergonha por ter feito aquilo, por ter fracassado, por ser obrigado a voltar para esse mundo, por inúmeras coisas, coisas essas que em pouco tempo enchiam meus olhos de lágrimas e esse foi meu primeiro sopro na vida nova, um choro copioso, de desespero, quase berrado e olhar impassível dos meus pais, preenchiam a cena, enquanto toda a minha tristeza era parida pela minha garganta e pairava por aquele quadro pitoresco, senti o frio da morte me rodeando e posso quase afirmar que as flores do lado da cama murcharam, não suportaram tamanha carga, a carga de ter que viver rodeada pela morte, pelo desespero.
Depois de uma breve visita de um homem grisalho, que depois descobri ser um psiquiatra, fui transferido para a ala psiquiátrica, um lugar sombrio, estranho e nada óbvio, uma vez que, tudo parece bonito, iluminado, um gramado bem cuidado, camas limpas e aquele uniforme verde horrendo, mas o que tornava aquele lugar detestável era a atmosfera, os seres desorientados que giravam, que andavam em círculos, que consumidos pela vergonha ou pela própria inconsciência se repousavam em um coreto no meio de todo aquele espetáculo, obrigados por seres de branco a jogar incessantemente, xadrez, damas e outros jogos de tabuleiro, enquanto isso, aos olhos dos seus superiores que observavam de longe, arrancavam o que podiam de nós e também acho que isso é uma tática para nos deixar distraídos e cansados, para evitar confusões, o que dá certo. Entre visitas relâmpago desinteressadas e sessões espremidas em um sofá para assistir a pequena TV que repousava em um canto, os dias foram passando e a vida parecia voltar a fazer algum sentido, entre conversas desajeitadas e pretensiosas eu fui melhorando aos poucos, os cortes ainda doíam, meu estômago ainda ardia, mas eu parecia reagir e de fato reagi, não vou negar, já estava me acostumando com aquela rotina, de acordar cedo, jogar xadrez, caminhar em círculos pelo gramado, observar o velho catatônico babar e conversar com aquelas pessoas que me conheciam de algum lugar, só não sabiam de onde e obviamente não disse em elas e nem direi a você. Feito tudo isso, um belo dia, perceberam que eu já estava bom o suficiente para ir embora e aquele dia havia chegado, troquei aquelas roupas ridículas e sai pela porta que foi destrancada especialmente para mim, e esperei em um canto enquanto meus pais recebiam instruções do psiquiatra, as quais não fiz nenhuma questão em ouvir e havia chegado aquele momento, lembro-me de ouvir o som do meu coração, de sentir meu rosto corar, de cabeça baixa, com muita vergonha caminhei por aqueles corredores, os mesmos que já ocupei de maneira orgulhosa, os mesmos que abrigaram minha escassa empáfia, agora assistiam meu constrangimento, os mesmos que aplaudiam meu futuro, assistem a minha queda, o declínio irreversível e a certeza que nunca terei coragem de voltar para aquele lugar mais uma vez e com lágrimas nos olhos, entre as árvores que um dia me deram sombra para ler, me despedia do meu futuro e ia em direção ao meu passado, ao retrocesso, ia em direção aqueles rostos enojados que carregavam minhas coisas rumo ao carro branco e sai para nunca mais voltar, depois da catraca a realidade se impunha, implacável, sob o céu cheio de trovoadas do passado adornado pelo velho cinza que pairava sob meu mundo.
Sempre em silêncio, analiso aquelas ruas que já abrigaram minha mente despreocupada e repito um velho costume, o de sentir saudade de coisas que eu não gosto, nunca gostei de ter que andar por aquele lugar, mas agora sabendo do meu destino, daria tudo para ter outra chance, outra oportunidade de andar por ali, com o mesmo sentimento do passado, mesmo rodeado de trevas, era um oásis em meio ao deserto. Chegando no meu antigo lar, um pequeno apartamento em um condomínio cheio de estudantes, as marcas do horror já haviam se apagado, o sangue, os cacos de vidro, as pílulas que a essa altura já deviam estar bem longe, mas curiosamente um coisa restava, uma pequena gota de chá, que propositalmente derrubei no chão, no momento em que decidi deixar essa vida e sei que agora deve estar se perguntando o por que disso e sinto em te informar que não tenho ideia, não sei por que fiz isso, acho que é uma espécie de marco, para que eu me lembre desse momento, como uma estátua ou um quadro, aquela gota de chá no chão me lembrava o que desespero pode causar, o que a tristeza pode levar, até onde eu podia chegar para me livrar de mim mesmo. Sinceramente, eu não tinha ideia quantos dias tinha passado no hospital, mas uma sensação estranha tomava conta de mim, enquanto olhava pela janela e via aquelas pessoas com mochila nas costas indo e voltando eu percebi o quando havia me descolado daquele mundo, por mais que tenha voltado a vida, aquele velho mundo, que se exibia sem pudor para mim, não me pertencia mais, era quase um escarnio, uma tortura, mas não conseguia parar de olhar, não conseguia parar de imaginar, como seria a vida daquelas pessoas, será que eram como eu ou será que eram felizes, só queria sair daquele lugar, pois já sabia o que me esperava.
Minhas malas já estavam prontas e o carro a postos para me levar de volta para minha prisão, mas antes um pequeno ato de teatro, sentado na minha velha mesa assisti incrédulo aquele espetáculo pitoresco, chorando minha mãe me dava um sermão, não me lembro bem, já que procurei ignorá-la, mas pelo que me lembro ela disse que não entendia o por que tinha feito aquilo, que não entendia o por que um menino que tem tudo como eu tive, tinha decidido desistir da vida e logo concluiu que sou um ingrato, a velha conclusão de sempre. Sinceramente, pouco me importa qual é a opinião deles sobre mim, mas sempre quando estou recebendo sermões, eu choro, sempre foi assim, eu acredito que é indignação, incredulidade pelo fato de não entenderem nada sobre mim, de não saberem de nada mas mesmo assim insistirem em dar opinião sobre a minha vida, muitas vezes opiniões acusatórias e indecorosas mas que tinha que aceitar calado, por medo de represálias, por vergonha e até por simplesmente não saber o que dizer, dada a tamanha incredulidade que me toma.
Havia um longo caminho pela frente, um longo e tortuoso caminho, tentei me refugiar para longe do meu velho mundo e dos problemas dele, mas não foi o suficiente, as garras dele me levavam de volta, sem poder protestar, seguia calado, observando as árvores, as montanhas, os entroncamentos, os caminhos, as pessoas que vem e vão e não pude deixar de sentir inveja, não da vida que essas pessoas levavam, mas sim da oportunidade de ter outra visão de mundo, outra perspectiva de realidade e das pessoas ao meu redor e quem sabe gostar ou ter alguma saída para os problemas que cercam a minha vida. Sempre quis ser outra pessoa, desde quando era criança, queria viver a vida de outra pessoa por pelo menos um dia se quer, nunca soube por que, mas isso sempre me interessou, nunca gostei muito de viver, mas perdia horas imaginando como seria a vida do meu vizinho, do meu primo, da minha tia, pensando em como é ser outra pessoa, não sei o por que sou assim e até penso assim, vejo alguém em um ônibus e divago por horas pensando sobre a vida desse alguém.
A cidade se avizinhava e pensava no passado, em um passado que tinha ilusão de que se saísse daquele lugar todos os meus problemas cessariam, tudo seria diferente, novo e que toda a dor e o sofrimento ficaria ali, no auge da minha ingenuidade eu só esqueci que sentimentos não é como um apêndice ou uma verruga que são extraídas dessa maneira, sem danos, sem traços, sem desdobramentos, me esqueci que as conjunturas acompanham seu portador, uma vez que, seus atos e sua visão de mundo são os feitores desta, a conjuntura é um produto das minhas próprias ações, de quem eu sou e de como vejo e a vida e isso não muda do dia pra noite e todos os meus problemas me acompanham para onde quer que eu vá, pois estão impregnados em mim e os fatores que provocam seu aumento estão sempre a disposição do lado de fora, para que os meus monstros possam se alimentar, as pessoas, seus olhares, suas opiniões, a dificuldade de interação e entendimento, isso existe em qualquer canto, em qualquer lugar e sempre estará em qualquer lugar, não há refúgio e nem escapatória.
Rodando pelas ruas da cidade, a única coisa que passa pela minha cabeça é vergonha, como vou explicar para as pessoas o meu fracasso, eu era a pessoa que conseguiu, que venceu, que alcançou os seus sonhos e se foi rumo a um futuro melhor, mas agora olha eu aqui, de volta, fracassado, mentalmente instável, sem rumo na vida, sem qualquer capacidade de lutar para voltar, o que me resta é abaixar a cabeça e me esconder atrás do vidro para que ninguém perceba o meu desgosto e o meu desespero em estar de volta, ninguém perceba a descrença no ar, a desesperança, a dor de ter retrocedido tanto com um simples ato de desespero, que agora terei de pagar.
Sentindo o cheiro daquele lugar, me lembro de um frase, a pior parte do suicídio é sobreviver, pois quando você sobrevive, tudo muda, tentar uma coisa dessas  é também um carimbo de que algo tem que mudar, para o bem ou para mal e como eu sobrevivi, os beneficio que a liberdade me trouxe foram extintos e voltei a estaca zero, escondido no meu quarto, com medo do mundo, da realidade sob a égide do domínio alheio, prestes a desistir de algo que nem comecei.
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Atualizado em: Dom 5 Jul 2020

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