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[Desabafo] NUDEZ

Adoro banhos. Sou fascinada por banho. Principalmente, quando acontecem após um epílogo desgastante.
Me é inerente, pois tenho a sensação de que a água leva embora a exaustão, o estresse, as mágoas, o choro.
Nestes minutos, estagno o tempo e aquele momento é dedicado exclusivamente a mim. Ao meu suporte. Ao meu corpo.
Definitivamente, me renova. Supervalorizo estes instantes de autocuidado.
Aliás, confesso que muitas vezes não são só premeditados, como também planejados.
O meu banho preferido geralmente acontece aos sábados, quando estou sozinha em casa. Quando tenho a certeza de que nada e ninguém surgirá para interromper o meu momento. A casa quieta e silenciosa. Sem mistura de sons. Sem algazarra.
Escolho a dedos os óleos essenciais, cremes e sabonetes. Preparo a esfoliação. Me atento aos cheiros.
Esse meu banho é quente. No fim de tarde. Com o ambiente à luz natural, baixa. Inclusive, acompanhado de música boa, suave.
E as cores, cheiros e sons tornam o meu momento comigo e a relação com o meu corpo ainda mais intensa e dotada de imensa valorização e carinho.
Gosto de tatear a minha pele. Macia. Cheirosa. Quente. Deslizar cada centímetro do meu corpo, massageando. Apreciando e cuidando de cada pequena parte do meu eu.
Observando as minhas manchas, marcas que escolhi e aquelas que ganhei, as tonalidades da minha pele, a extensão do meu corpo, as minhas curvas…
São nesses banhos que derramo caridosa atenção para comigo. Me tenho com cuidado e entendo a importância da manutenção e zelo pela única coisa física que tenho certeza que estará comigo até o fim dos meus dias. O meu corpo.
Nesses momentos, sou grata a mim mesma pelo companheirismo e até me desculpo, com verdadeiro pesar, pelos episódios não eventuais de desdém, em muitos sentidos. Ora, o cuidado com o corpo não há que se confundir com a vaidade. São coisas distintas.
E é por reconhecer isso que nestes momentos percebo o quanto gosto de mim. Não apenas do meu eu corpo, mas de quem sou. Apesar das inúmeras falhas e cicatrizes.
Sabe, uma vez o meu pensamento caiu de forma ainda mais intrínseca nisso…
Não apenas minha relação com o meu corpo ou a percepção que tenho sobre ele, mas como vejo os corpos de uma forma geral. Indistinta.
Certa noite me doei numa conversa com um amigo. Aliás, amigo esse com quem tenho conversas profundas, que perduram no tempo. Inclusive, com quem não tenho receio de falar absolutamente nada.
Não importa o assunto, seja ele qual for, a conversa tem um outro nível. Isto porque, se tornam muito subjetivos. Eu gosto. Geralmente, os diálogos cessam e fico matutando uma coisa ou outra.
Foi em uma dessas ocasiões que chegamos num ponto nebuloso para mim.
Nebuloso por não ter uma resposta objetiva e imediata para a razão da distinção. Está me corroendo desde então.
Reconheci que tenho dois pensamentos aparentemente distintos, mas de maneira alguma excludentes. E a ambivalência me mata.
Há dias caço uma forma de explicar como a coexistência é válida, mas ainda não descobri ou mesmo inventei uma teoria a respeito.
A banalização da nudez.
A sexualização do corpo.
Há uma linha tênue, bem tênue e que não está associada a algo eminentemente físico, como o corpo.
Isto porque, em algumas ocasiões, um corpo é apenas um corpo. Nada mais que isso. Um corpo humano, nu. Com curvas, manchas, cicatrizes, pelos e volumes. E ajo com imensa indiferença a respeito.
Quero dizer que, na maioria das vezes, ao ver um corpo nu, não tenho qualquer reação. Não me suscita absolutamente nada, haja vista a naturalidade para com o corpo. O humano. O corpo animal. Carne. Vejo tão somente um ser corporalmente frágil.
O mesmo ocorre quanto ao meu corpo nu. Em alguns momentos, expor o meu corpo ou mesmo tirar a roupa diante de alguém ante as necessidades do dia a dia é um ato tão banal e natural que vez ou outra fico questionando a existência de um desdém para comigo neste sentido. Uma humana frágil, um corpo.
Na grande maioria das vezes, não sexualizo o corpo alheio, nem mesmo o meu. Tão menos sinto receio, vergonha ou qualquer espécie de timidez neste sentido.
Outrossim, inexiste aversão, óbvio.
Quero dizer que, felizmente, não sinto vergonha ou receio diante do que é natural e comum a todos nós. O corpo.
Não tenho problemas ou desconforto com a nudez.
Claro, a regra comporta exceções.
Nem sempre um toque é apenas um simples toque. Há um limite, há uma barreira. Há a privacidade e a inviolabilidade.
Assim como em outros momentos, há a intimidade.
Mas, de um instante a outro, por falar em intimidade, instantes específicos, o meu pensamento e a minha percepção e sensação está num polo incrivelmente distinto da banalização.
Especialmente, se tratando do meu corpo.
De um instante a outro, não se trata apenas de um corpo humano. Frágil.
De um instante a outro, o espaço banal dá vazão à intimidade.
É o meu corpo.
O meu corpo. O meu corpo nu.
O meu templo. O meu suporte. A minha casa. Sou eu.
De um instante a outro, torna- se quase impossível dissociar o meu corpo e a minha mente. A menor tentativa de contato com a minha pele é quase uma invasão à parte mais pura de mim mesma.
De um instante a outro, estar ou mesmo cogitar estar diante da observação do olhar alheio me é delicado. Não há receio, mas a sensação é diferente e a percepção dos corpos é diferente.
Aliás, não digo isso exclusivamente a corpos nus. Esse percepção qual me refiro inicia-se antes da nudez e até mesmo da seminudez.
Inclusive, ao dizer nudez, não me refiro exclusivamente às partes do nosso corpo que de um modo geral a sociedade rotula como “íntimas”.
Não há um padrão. Não há um rótulo.
Inclusive, na maioria das vezes, a nudez da minha nuca, das minhas costas ou clavícula, torna aquele contexto tão íntimo, quente e particular para mim… Assim como a exposição do meu pescoço, dos meus pulsos e das minhas coxas.
Nestes instantes, vejo e sinto o corpo como a coisa mais preciosa. Há uma comistão entre ele e a minha essência. Quem sou. A minha história.
Nestes instantes, cada extremidade, marca, pinta, mancha, curva, volume e cicatriz conta uma narrativa diferente. Uma narrativa minha. Dizem muito a meu respeito. São os meus detalhes.
Aliás, o que parece óbvio mas merece caridosa atenção é o fato de que todo esse conjunto formam unicamente o meu eu. O meu corpo inteiro. Formam a mim. É exclusivo, não apenas privativo.
O simples fato de cogitar e de efetivamente permitir a observação e o toque alheio, por si só, já exige a principio respeito, cuidado e sinceridade.
Evidentemente porque não se trata de algo ordieno, tão menos banal. É valioso e singular o momento, o contexto e quem.
Nestas ocasiões, não há como se banalizar a nudez. Sobretudo, a minha.
Inclusive, nestas ocasiões as falas, os olhares, jeitos e suspiros também são dotados de intimidade. E carregam algo mais que não sei explicar. Também se tornam invioláveis.
Como já dito, em algumas ocasiões o simples fato de reconhecer o repouso do olhar alheio pelo meu corpo, me arrepia. Por sua vez, quanto aos toques e deslizes, sinto coisas que nem sei se posso descrever.
Assim com o ato de me despir, tão corriqueiro e despercebido por mim mesma na maior parte dos dias, se torna tão sutil.
Isto porque, me vejo mostrando o meu espaço, o meu mundo, as minhas verdades e mentiras, a exposição não só do meu corpo, mas de todo o meu eu. Literalmente nua e crua, em todos os sentidos.
Me sinto escancarando e gritando quem sou, o que dito assim, de imediato, parece errôneo ou mesmo assustador, de tão impressionante.
Nestes instantes, claramente estou conectada com a parte mais selvagem de mim mesma. Não há filtros. Não há véu.
É óbvio que o convite, a abertura e a exposição do meu templo à outrem não deve ser tratada como vulgar. Uma vez que evidentemente não se é.
Não é um ato singelo, mas sim sobre-humano. Para comigo, dotado de uma tremenda ousadia.
Como um dia alguém escreveu fascinantemente, “eu sou tímida e ousada ao mesmo tempo”.
A exposição do meu mundo, do meu íntimo, justamente por ser ousada, é tentadora. E a ideia me é ainda mais cativante quando o outro ser, privilegiado, reconhecer a preciosidade e singularidade do que há de vir. A conexão entre duas pessoas.
Conexão não apenas corporal. Mas, a conexão da parte mais intrínseca de si mesmos.
Tenho pavor à ideia de ter o meu corpo banalizado, nestes instantes.
Caramba, é o meu corpo. Ao vivo e em cores. A minha pele. O meu cheiro.
Aliás, aproveito e destaco que o meu desejo é aflorado de uma forma radical ao reconhecer, principalmente ao ver, pulsar desejo no outro.
Por questões óbvias e razões infinitas, escolho a dedo aqueles cujo a qual hei de autorizar o toque ou a apreciação. Claro que a ideia de exposição precisa ser tentadora e confortável.
Ademais, evidentemente que tenho para com o corpo alheio a mesmíssima percepção.
Os nossos corpos são instrumentos. É preciso atentar-se a qual instrumento estamos dedilhando e apreciar, com atenção, a melodia que se está criando… a mesma melodia jamais irá se repetir. Especialmente porque, não é apenas sua. Assim como, é de muitíssima importância zelar pelo sigilo das notas e peculiaridades dos instrumentos.
De um instante a outro, os corpos banais são dotados de inúmeras peculiaridades e alvo de fascínio.
É por isso que fotografias e suas variações, assim como monumentos ou até mesmo peças teatrais e qualquer outra forma de arte com o semblante de um o corpo nu, não me suscitam nada. Me causam o mesmo espanto que o fato do cair das folhas. Até mesmo, para com ocasiões em que a fotografia de um corpo nu, por exemplo, pelo contexto, poderia ter condão para me deixar quente.
Isto porque, não elucidam mistério. Não há correspondência. Não há permissão. Não há a possibilidade de toque. Não há conexão. Não há exposição ou contato do que eu entendo por intimidade, neste aspecto. Não há canção.
São questões mais do que justificáveis. Explicam por si só a razão pela qual sou incapaz de desejar o outro tão somente por algo tão banal, como é o caso da imagem.
O desejo pelo corpo está condicionado a algo, que evidentemente não sei explicar. A sexualização de cenas e traços de um corpo ao vivo e em cores é secundária. É decorrente.
O meu desejo, o meu fascínio, o meu zelo pelo corpo, não é apenas carnal. Tão menos visual.
Felizmente, não é apenas carnal.
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Atualizado em: Qui 5 Ago 2021

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