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A cartomante

Às vezes me sinto ridícula.  Antes não muito, mas essa sensação tem se tornado frequente.  Acho que quanto mais o tempo passa, mais ridícula me sinto.  Ou me faço.  Ainda não sei.  Na verdade, acho que desde sempre fui ridícula, mas como o passar dos anos me dei ao luxo de admitir isso e deixar de lado os véus que sempre usei pra me cobrir de mim mesma em camadas sobrepostas.

Envelhecer é deixar a alma pelada, penso eu.  Ou pelo menos o menos vestida possível.  Ouso a pensar que só morre feliz aquele que está tão desnudo na hora da morte quanto o estava quando se desgrudava da placenta de sua mãe.

É isso:  a vida é interregno que se passa entre a nudez do nascimento e a nudez da morte.  Nesse meio tempo vamos colecionando máscaras e véus, peças de roupa de alma que nos cobrem e nos descobrem aleatoriamente, até que um determinado momento da nossa linha da vida o peso se torna tão grande que a derrocada é necessária.  Como em uma curva de função trigonométrica, o ápice precede a caída e para se voltar ao início é preciso descartar o peso das vestes que vão sendo deixadas nos anos que se passam. Então você percebe que é o início do fim.

Com o despir dos anos passei a aceitar certas atitudes.  Não que eu conte isso para todo mundo!  Algumas atitudes continuam vergonhosas demais para serem admitidas publicamente.  Mas não as escondo mais de mim mesma. Me permito até mesmo rir delas!  Ah sim!  Riso farto e desavergonhado misturado com uma vontade de dar tapas no próprio rosto.  Rir de si mesmo é uma arte terapêutica que aprendemos com o passar dos anos.  Ou é isso ou enlouquecemos... a nós e aos outros.
Não sou supersticiosa.  Ou sou.  Não importa mais.  Fato é que eu fui em uma cartomante. Sim senhor! Contra todos os meus preceitos e crenças.  Mesmo fazendo gritar a minha pseudointelectualidade roubada dos livros que se amontoavam em minhas estantes. Mesmo dizendo a mim mesma que eu estava louca e que buscava a resposta no lugar menos provável de encontrá-la. 

Ela havia sido indicada pela funcionária de pouco estudo que estava vivendo uma paixão com um homem casado e que se desesperava de angustia sem saber se o sentimento era de fato correspondido.  Acho que ela sempre soube a verdade, mas que atire a primeira pedra aquele que nunca enganou a si próprio em busca de um pouco de alívio. E eu também não estava a buscar saciedade para a sede na mesma fonte?

Veja que é importante que você preste atenção ao fato de que a minha funcionária tinha ‘pouco estudo’, porque isso torna ainda mais ridícula a minha atitude e mais reprovável o meu olhar julgador sobre toda a situação. Não interessa o nível de intelectualidade de uma pessoa. As palavras e pensamentos são artifícios que utilizamos para abafar os afetos e pulsões de que somos feitos.  Quem era eu para achar que a angústia dela valia menos do que a minha própria? Quem era eu para reprochar a busca dela tendo como único parâmetro o número de linhas que havia lido ou anos que eu havia tolerado a escola?

Um século se passou entre a saída de casa e a chegada ao bairro distante da periferia onde ela vivia.  Estacionei o carro na rua de terra e contei até dez.  Percebi que do outro lado da rua estava parado um carro novo e que certamente havia custado mais do que o meu.  Da porta da cartomante saiu um homem bem vestido, com um belo relógio no pulso e sapatos nos pés.  Sempre dei atenção especial a relógios e sapatos, que a meu ver são objetos da ostentação primeira de todo o ser humano do sexo masculino.  Com as mulheres a ostentação se dá de outra forma, acho eu.

Era a minha deixa.  Esperei até que o outro carro fosse embora, para que minha visita permanecesse anônima e desconhecida.  Contei até dez, respirei fundo e sai do carro.  Toquei a campainha e o portão se abriu com o barulho estridente do mecanismo eletrônico.  Na garagem havia uma mesa simples com duas cadeiras, tampo de granito coberto por uma toalha de renda barata.  Uma caixinha de lata daquelas onde se guarda chá e um maço de Marlboro.

A cartomante desceu a escada, fechando a porta de vidro que escondia a sala onde seu filho assistia um desenho animado na televisão de quarenta e seis polegadas. Certamente a atividade da cartomancia estava rendendo horrores, considerando que ela tinha na sala uma televisão maior do que a minha, rodeada por sofás retráteis que eu não possuía. A inveja é algo cruel, não perdoa nem as cartomantes.

Com calma ela perguntou meu signo.  Respondi: Sagitário.  Ela disse algo a respeito de um parente morto que estaria sempre comigo me auxiliando nos momentos difíceis da vida.  Claro que não soube me dizer quem era, pois o infeliz, morto que estava, certamente não quis se apresentar a ela.  Ele também teria vergonha de admitir que foi a uma cartomante, ainda que para me acompanhar.

Ele me perguntou se eu queria a consulta de vinte ou vinte e cinco reais.  Achei que a segunda seria mais completa e pedi por ela.  Ela me pediu que descruzasse as pernas, pois segundo ela isso atrapalharia o fluxo energético que deveria fluir entre meu corpo e as cartas.  Fui tomada por um ímpeto de sair dali o mais rápido possível, como se a realidade me desse um soco no estomago que me tirasse todo o ar. Mas agora era tarde demais e sair assim, de inopino, seria certamente vergonha maior que permanecer naquele lugar.  Definitivamente eu não queria passar vergonha perto daquela cartomante!

Me agarrei na cadeira e cortei o baralho como ela me pediu.  Com a mão direta.  Muito importante isso!  Ela acendeu um cigarro e fez a grande pergunta:  o que você quer saber?
Naquele momento me ocorreu que eu não sabia o que queria saber.  Em todo o trajeto da minha casa até ali e os minutos em que permaneci dentro do carro antes de entrar, eu não havia pensado em uma pergunta.  Eu não tinha apenas uma pergunta.  Ora, eu era uma mulher com seus trinta e tantos anos e tinha uma vasta coleção de perguntas não respondidas!  Como ela se atrevia a me questionar assim, tão sem rodeios, sobre o que eu queria saber? Foi como se tivesse sido estuprada pela crueza da minha interlocutora, que sem pedir permissão (ao menos expressa) pretendia arrancar de uma só vez todos os véus e roupas, pedindo que mostrasse minha alma nua e resumida em uma pergunta! 

Fiz um esforço hercúleo para me lembrar do que havia me levado até aquele lugar, para começo de conversa. E então ele me veio à minha mente. Ah, qual não foi minha surpresa ao constatar que o mesmo motivo que havia levado a empregada pouco letrada a sentar naquela mesma cadeira e abrir aquele mesmo baralho, era o motivo de toda aquela loucura? Fazer uma consulta com uma cartomante... ah que vergonha!

Ela me respondeu com frases aleatórias que poderiam ser aplicadas a qualquer situação.  Como eu já esperava.  E eu, que me enganava acreditando ter uma suposta carga intelectual considerável, me vi enquadrando os fatos naquelas premissas que me eram jogadas como pérolas e que aquietavam como bálsamo a ansiedade que me ardia pela resposta que eu não tinha. Paguei os vinte e cinco reais para a moça.  Ela havia merecido.  Com seu baralho e a fumaça de seu cigarro ela não havia respondido nada, mas havia me mostrado tudo.

Que eu sou um canteiro onde ambiguidades e incongruências florescem a luz do dia sem maiores esforços, adubados pelos traumas que carrego desde o meu primeiro respirar.  Que é mais fácil se doar a estranhos do que se abrir para aquele que eu acredito que representa algo relevante na minha curva matemática. Que aquele que hoje convive comigo todos os dias me conhece menos do que quando éramos completos desconhecidos. Que para a cartomante eu poderia perguntar tudo o que eu quisesse, exatamente porque ela não tinha a resposta.
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Atualizado em: Qua 3 Fev 2021

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