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Respire

CAPITULO 1

Pergunto-me encarando o espelho: - O que aconteceu comigo? Em que parte da minha vida as coisas começaram a dar errado? Analiso a marca roxa no meu pescoço. Desta vez ele fez questão de deixar marcas, de imprimir toda a sua virilidade “masculina” e de dizer com todas as letras que não sou nada sem ele! Murros, tapas, beliscões e agressões verbais são constantes. Duarte veio para cima de mim com violência, jogou-me no chão e sentou em cima dos meus quadris. Colocou as suas mãos sob o meu pescoço e me sufocou por alguns minutos.

 Juro que todo o meu corpo estremeceu e pensei que aquele seria o meu fim. Quando já estava quase sem consciência e ar uma voz distante veio ao meu socorro em minha mente balbuciando: “RESPIRE”! Respirei como um recém-nascido que acaba de sair do ventre de sua mãe. Usei as minhas últimas forças para afastar Duarte e me encolhi no canto da sala, tentando me recuperar.  Depois do ocorrido me tranquei no quarto e só sai quando já não havia sinal de sua presença.

Eu já estava atrasada para o primeiro dia de aula. Antes de sair tinha que dar um jeito de disfarçar as marcas no meu pescoço. Ninguém iria acreditar em mim se eu dissesse que Duarte me agride. Justamente ele um filantropo, homem católico, o filho amado e o bom juiz da vara da infância e da família. E eu o que sou? Uma professora universitária de Sociologia, que sempre foi problemática na adolescência e agora vive para esconder os hematomas.

Pego a minha bolsa, ensaio um sorriso fraco e checo pela última vez se os hematomas estão bem escondidos.  Mesmo que a minha vida pessoal seja um desastre, a única coisa que me realiza ainda é o meu trabalho. Sorte que as ruas não estão engarrafadas como o habitual. Faltam quinze minutos para as dezoito horas quando chego e, para o meu alivio estou adiantada e os alunos ainda estão chegando. Entro na sala e me dirijo em direção a uma mesa – para ser sincera, o primeiro dia de aula com uma nova turma sempre é intimidante -, olhar rostos novos e os alunos te encarando não é algo que se acostuma facilmente. Sempre se sente aquele familiar frio na barriga.

Como é de costume sempre se começa perguntando os nomes dos alunos, suas expectativas, anseios e o porquê da escolha do curso de Ciências Sociais. Muitos frustrados por não terem conseguido passar em graduações como Direito acabam entrando no curso como “segunda opção”. Todos já haviam se apresentado devidamente quando aparece uma aluna atrasada. Eu com um leve desanimo, esperei que ela se sentasse para fazer novamente as perguntas habituais.

Perguntei o seu nome e ela prontamente respondeu Manuela Pavliuchenko Martins.

Assine aqui, por favor – entrego a folha de frequência. Ela sorri gentilmente para mim, sem dúvidas me analisando como a maioria dos alunos da sala.

- Então, Manuela Pavliuchenko Martins. Pavliuchenko é um sobrenome russo?

- Na verdade, é ucraniano. O meu pai era filho de ucranianos e veio para o Brasil quando era pequeno.

- Por que você escolheu cursar Ciências Sociais? Deixa eu adivinhar você queria cursar Direito, mas acabou decidindo fazer Ciências Sociais como segunda opção. É isso, não é?

- Não. Ciências Sociais sempre foi a minha primeira opção de curso. Gosto da ideia de tentar compreender os conflitos sociais, a construção das identidades e entender as relações entre indivíduos, família e instituições. Quem sabe entender um pouco mais o meu trabalho...E o impacto que ele causa na sociedade.

- O seu trabalho? Que seria?

- Desculpa, professora, mas eu não posso dizer com o que eu exatamente trabalho.

Todos os alunos ficaram surpresos com a desenvoltura de Manuela. Como pode uma aluna do primeiro período ser tão madura, firme e dar respostas tão complexas. Sem falar que ela deixou todo mundo curioso sobre o seu trabalho. Confesso que durante os anos que leciono como professora de ensino superior nunca uma aluna havia me deixado tão intrigada.

Percebendo o clima inquieto na sala, resolvo me apresentar, falar sobre as leituras no decorrer da disciplina, avaliação e seminários. Coisas que fazem parte do mundo acadêmico. Um aluno levanta a mão e pergunta:

- A senhora é casada com o Dr. Duarte Rodriguez?

- Sim, ele é meu marido.

Sento-me, olho para o nada e em seguida questiono o autor da pergunta:

- Por que?

- Por que o meu pai estudou com ele.

Finalmente a aula termina. Finalizo com um não esqueçam de ler o primeiro texto da disciplina que está na ementa. Todos saem apressados como típicos alunos que acabaram de sair do ensino médio e ainda não perceberam que estão na faculdade. Quando escuto:

- Parece que algumas pessoas ainda não cresceram... – Diz Manuela.

- Sim, verdade. Algumas pessoas não são tão educadas quanto as suas contas bancárias – falei olhando para o aluno que me perguntou se eu era casada com o Dr. Duarte.

- Posso lhe ajudar a carregar os livros?

- Sim.

Manuela me acompanhou até o meu carro. Pude observar mais atentamente ela. Jovem, um pouco alta, vestia uma calça jeans azul e uma blusa branca, tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo e os olhos azuis profundos possuíam uma leve tristeza.

- Então, você não vai me falar sobre o seu trabalho? Nossos dedos se tocam levemente quando ela me passa os livros e eu os acomodo no banco de trás do carro.

- Não posso falar. Quem sabe com o tempo a senhora descobre já que serei a sua aluna e com certeza iremos nos encontrar muito pelos corredores do curso.

- Senhora? Sou tão velha assim para ser chamada de senhora? Chame-me de você ou de Laura.

- Desculpa, professora. Eu prefiro senhora. Não é que eu lhe ache velha, mas é por uma questão de respeito e hierarquia.

 - Tudo bem. Tenho certeza que com o tempo eu faço você mudar de ideia quanto ao uso do senhora. Você quer carona?

- Agradeço a carona. Eu já tenho transporte. Até a próxima aula professora.

Entro no carro e recebo uma mensagem de texto de Duarte. “Onde você está? ” – Como se ele não soubesse o meu paradeiro. Manuela passa por mim acenando e pilotando uma moto.

O telefone toca. É Duarte.

- Onde você está? Temos um compromisso hoje!

Que compromisso? – respondo.

- Você esqueceu que hoje serei homenageado?!

-Sim, esqueci! Não tenho obrigação de saber a sua agenda! Não sou a sua secretária!

- Não quero saber se arrume! Hoje você terá que fazer o papel de mulher perfeita e de esposa de juiz! Vire-se! Esteja pronta até às vinte horas. O motorista irá lhe buscar. Eu irei me arrumar no meu gabinete.

- Ok! Vossa Excelência.

Duarte soltou um rosnado e encerrou a ligação com um não se atrase. Entrei no carro e segui disparada para casa. Teria que correr contra o tempo para ficar apresentável e encenar o papel de mulher de juiz. Detesto estar nessa posição. Viver uma vida de aparências que nunca desejei para mim. Todos os dias me questiono o porquê de aturar um casamento de fachada sendo agredida das mais diversas formas.

Em casa, tomo um banho e pego um vestido qualquer. Ainda sentindo as dores do dia anterior. Começo a passar uma base para disfarçar os hematomas e antes do horário combinado fico pronta. Tomava um gole de whisky quando o motorista liga dizendo que está à minha espera.

Chego no local da festa e lá está o cínico do Duarte. Só sorrisos e fazendo a social com todos que vão parabenizá-lo. Espero meio deslocada até que ele acena e vai me buscar encaixando o seu braço no meu. Finjo alguns sorrisos, falo trivialidades com pessoas que não conheço e sussurro no ouvido de Duarte que irei buscar uma taça de champanhe. Duarte continuava entretido e rodeado de puxa-sacos. Pego a taça de champanhe e saio para tomar um ar.

Do lado de fora havia uma viatura parada com três policiais que faziam a segurança da rua. Tomo um gole de champanhe olhando para frente e reconheço um dos policiais. Era Manuela. Ela estava conversando com os dois policiais. Um deles dá uns tapinhas nas costas dela, sorrindo. Manuela se dirige na direção que eu estava e entra no prédio. Dou um respiro de alivio por ela não ter me reconhecido, mas ao mesmo tempo estava surpresa nunca em meus pensamentos havia passado a ideia de que ela era policial. No entanto, para a minha surpresa Manuela volta e caminha em minha direção.

 - Professora Laura? É a senhora?

Sem ter para onde ir ou me esconder dou um sorriso e balanço a cabeça positivamente.

Manuela sorrir e fala da casualidade daquele encontro.

- Agora a senhora já sabe com o que eu trabalho... – respondeu Manuela com um leve sorriso e com as bochechas coradas de vergonha.

- Por que o segredo sobre o seu trabalho? – perguntei.

- Ser policial é uma profissão muito arriscada. Quanto menos pessoas souberem melhor. A senhora não comentar com os meus colegas de sala, não gostaria que ninguém na faculdade soubesse.

- Tudo bem. Também tenho os meus segredos.

- Como assim? – perguntou Manuela.

- Nada. Apenas pensei alto.

- O que senhora faz aqui? Não acho que a senhora combine com este tipo de local....

- Realmente não combino e muito menos gosto. Vim de acompanhante do meu marido. Ele está sendo homenageado.

- Ah, é verdade. A senhora é esposa do juiz Duarte. – disse Manuela com um tom irônico.

Um dos policiais vai ao encontro de Manuela e diz que eles têm um chamado em um bairro próximo.

- Professora tenho que ir. O dever me chama.

- Até amanhã.

- Até amanhã.

Entro no prédio e Duarte ainda estava rodeado de pessoas o parabenizando pela homenagem. Aproximo-me dele e digo que preciso ir para casa, pois tenho trabalho no dia seguinte.

- Duarte estou indo para casa, mas você pode ficar. Irei chamar um táxi.

Ele se aproxima, beija a minha testa e sussurra no meu ouvido:

- Quando eu chegar em casa nós teremos uma conversa séria.

 Saí com um sorriso amarelo me despedindo de todos os desconhecidos.

Cheguei em casa e com medo que Duarte me agredisse novamente me tranquei no quarto. Tomei uma ducha para tirar toda aquela maquiagem que cobria os hematomas e roxos. Olhava para eles fixamente na esperança que na manhã seguinte todos sumissem como mágica. 

Sentei na cama sentindo ainda o corpo dolorido. Passei alguns minutos assim com o pensamento longe. Eles me levaram a lembrar do encontro inusitado com Manuela. Os meus olhos começaram a ficar pesados e dormir profundamente. Só acordei no dia seguinte com o som do despertador. Levantei-me e sob as ponta dos pés verifiquei qualquer sinal da presença de Duarte no apartamento. Nenhum sinal dele. Melhor assim...


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Atualizado em: Seg 4 Jun 2018

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