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A Carta

Estava uma tarde fria, chuvosa e melancólica, igual a uma dessas cenas de filme em que fica tudo escuro e começa a cair uma leve garoa sem motivo. Eu estava em meu quarto, deitado olhando para o teto, apenas pensando na vida, em como às vezes tudo é tão vazio. Enquanto vagava solitário em meus pensamentos ouvi alguém bater à porta.

- Irmãozinho, sou eu, posso entrar? Perguntou meu irmão mais velho.

- Claro! Respondi em um tom meio inaudível.

Ele entrou e veio em minha direção vagarosamente, parecia incomodado com alguma coisa, logo vi que algo estava errado.

Sentei-me para que ele pudesse sentar também e assim pudéssemos conversar melhor.

- O que houve? Disse com uma voz preocupada.

- Nada –respondeu – vim apenas te avisar que estou saindo e não sei a que horas volto, o jantar está pronto, então coma e fique bem.

Com um sorriso, levantou-se e saiu do quarto. Fiquei o observando, foi até o banheiro, arrumou o cabelo e conferiu se estava tudo certo em seu rosto, que prezava até demais. Quando passou novamente pelo meu quarto e estava prestes a descer as escadas percebi que parou e voltou, entrou em meu quarto, olhou em meus olhos e disse sorrindo:

- Esqueci de algo importante.Então, beijou minha testa e saiu.

- Cuide-se! Gritei lá de cima.

E então ouvi o bater da porta da frente, o carro ligou e ele se foi. Para onde estava indo eu não sei e nem quis invadir sua privacidade perguntando, tínhamos isso entre nós, um não entrava na vida pessoal do outro, a não ser que fosse a vontade de ambas as partes.

- Bem... – Pensei alto - Parece que estou sozinho outra vez. Papai e Mamãe foram viajar e só voltam semana que vem, Bruno saiu e não sabe quando volta, por que eu sempre fico sozinho?

Fiquei em silencio por alguns segundos como se alguém fosse me responder, em vão, mas já era de se esperar, não havia ninguém ali, como eu iria obter uma resposta? Minha única reação foi rir.

Desci para a sala de TV para ver se estava passando algo interessante, liguei-a, e como era de costume quando estava sozinho, fui até a cozinha, fiz meu prato e voltei para assistir enquanto comia. A comida estava deliciosa, Bruno cozinha bem, pensei.

Depois de comer, desliguei a TV, fui ate a cozinha lavei tudo o que estava sobre a pia e voltei para o meu quarto. O Videogame me chamava. Fiquei jogando por umas cinco horas mais ou menos, até que peguei no sono.

O dia amanheceu e eu acordei todo dolorido, tinha dormido de mau jeito, além de quase ter esmagado meu controle, então levantei e fui até o banheiro, lavei meu rosto e escovei meus dentes. Quando retornava ao quarto, ouvi um barulho na porta da frente, fui até a escada para ver o que era. Papai e mamãe voltaram mais cedo.

- Nada melhor do que o lar! Exclamou meu pai enquanto abria a porta.

Desci para recepciona-los e ajudar com a bagagem, aproveitei e perguntei o que havia acontecido para voltarem mais cedo, e segundo eles, a viagem estava um verdadeiro tédio. Não perguntei mais nada, apenas peguei algumas malas e subi para o quarto deles.

- Onde está seu irmão? Indagou mamãe.

- Saiu ontem à noite e disse que não sabia quando volta.

- Esse garoto – disse papai – sempre saindo e deixando o irmãozinho solitário em casa.

Pensa que ainda tenho sete anos, já sei me cuidar sozinho. Pensei ainda descendo as escadas.

Enquanto mamãe e papai se trocavam, comecei a preparar o café da manhã. Peguei alguns ovos e umas tiras de bacon e os gratinei em fogo baixo, quando mamãe desceu, fez as panquecas e o café, papai se encarregou das torradas. Foi um bom café da manhã, mas meio vazio sem Bruno, ele sempre tomava o café conosco.

A manhã passou rápido e já estava perto do almoço. Começamos a ficar preocupados com Bruno, ele não tinha dado noticia alguma desde que saiu. Papai tentou nos tranquilizar dizendo que ele devia estar na casa de algum amigo. Não adiantou, fui até meu quarto, peguei meu celular e liguei uma, duas, três vezes, e ele não atendeu. Foi então que desci e avisei meus pais. A Primeira coisa que fizemos foi alertar os vizinhos sobre o ocorrido, logo em seguida, chamamos a policia.

Uma equipe de policias se mobilizou para procura-lo. Disseram que enquanto ele não fosse encontrado todo o departamento policial não descansaria, e realmente a policia da Pensilvania é muito persistente e acima de tudo prestativa aos populares.

Eu muito incomodado com tudo aquilo, resolvi quebrar a nossa promessa e entrei no quarto de meu irmão. Logo da porta, avistei um envelope ao lado do computador. Fui até a mesa, e antes de pegar o envelope, sente-me.

Do lado de fora do envelope dizia:“Top Secret. Apenas quem deve ler esta carta é meu irmãozinho, Henrique.”

Abri então o envelope, e comecei a ler.

Irmãozinho Tolo!

Bem, se estiver lendo isso agora é porque já estou bem longe, ou até mesmo morto. Você é a única pessoa que me compreende, por isso escrevi especialmente para você.

Lembro-me ainda de quando você era um bebê e eu te segurei no colo pela primeira vez, foi incrível, a melhor sensação do mundo. Segurar meu irmãozinho no colo. Foi magico. Mas com o passar do tempo nossos pais prestavam atenção somente e em você, e isso me deixou com um certo ódio, mas calma, já passou (Rsrs). Eu vi você crescer, e ajudei a cuidar de você, o que foi muito bom para mim, me fazia sentir responsável. E hoje, olhe só o seu tamanho, já está maior do que eu. E a cada dia que passa, fica ainda mais bonito que seu pobre irmão. Quem diria, meu irmãozinho tolo com mais beleza do que eu, que vergonha.

Mas o que eu quero dizer nessa carta é algo realmente sério, e eu quero que prometa que a partir daqui, o que estiver escrito você vai entender sem retrucar, sem fazer suas manhas de sempre, apenas leia e entenda o que eu estou falando.

Daqui a alguns dias é seu aniversario, e eu não queria estragar esse momento, afinal você já esta completando seus dezessete anos. Sei que é estranho dizer que eu estragaria o momento, pois sempre comemoramos juntos, e quem exigia a minha presença era você mesmo. Mas dessa vez o motivo é realmente sério. Lembra-se de quando eu disse que papai e mamãe pararam de prestar atenção em mim? Pois é, isso me deixou muito triste e eu até me isolei por um pouco, mas isso não foi nada. À medida que o tempo passava e nós dois íamos ficando mais velhos, eu comecei a sentir algumas coisas estranhas em meu organismo, mas por estar recluso, decidi não falar nada a ninguém. Os sintomas só foram crescendo no decorrer dos anos, e eu não sabia o que era, e nem papai e mamãe, ou qualquer outra pessoa viam o que eu estava passando. Quando você completou doze e eu dezoito, resolvi ir até o consultório do doutor Carl, para saber o que eram aquelas horríveis dores de cabeça que eu sentia. Obtive a pior resposta de todas. Um câncer maligno em estagio avançado. Pedi para que o Doutor Carl não contasse a ninguém. Na verdade fiz ele prometer que não contaria. Depois de fazer vários exames, tivemos um resultado. No estagio em que a doença se encontra é irreversível. Apenas seis meses de vida me restavam.

Depois de saber isso, mudei meu estilo, você melhor do que ninguém deve ter percebido. Comecei a sair com mais frequência com meus amigos, viajei para vários lugares diferentes achando que estava aproveitando tudo, mas agora eu vu que estava errado. Ao invés de sair e sempre te deixar sozinho em casa, devia ter aproveitado mais nossos momentos juntos, curtido mais com você, jogado mais videogame, fazer tudo o que você gosta. Agora me arrependo, sim eu sei que é tarde demais, e por isso eu fugi, saí para que não fazer ninguém sofrer e por mim.No dia em que você completar dezesseis anos farão os seis meses que Dr. Carl disse que eu teria de vida. Não quero morrer na semana mais feliz do meu irmão, ou melhor, morrer perto dele nessa semana.

Henrique, essas são minhas ultimas palavras a você. Quero que saiba o quão grato eu sou por ter um irmão como você, o tamanho do orgulho que eu sinto por ser irmão de uma cara tão chato e idiota assim. Mas acima de tudo, quero que você saiba que a pessoa que eu mais amei, que eu mais quis proteger, que eu sempre quis que estivesse feliz e bem, foi você. Mais ninguém me fez sentir assim. Por isso agora eu quero que todo esse amor que senti por você, entre em seu coração e se transforme em coragem, coragem para seguir em gente com a sua vida. E Por favor, cuide bem do papai e da mamãe, eles vão precisar de você, vão precisar que você os ampare.

Irmão uma ultima coisa. Guarde bem essas palavras que eu não tive a oportunidade de dizer pessoalmente.“Independente das circunstancias ou de onde eu estiver, eu te amarei para sempre.”

             _____________________________________________________________________

Ps: Não pense que esqueci o seu presente. Guardei minhas economias para esse momento. Meu presente desse ano vai ser bom hein. Deixei a você dinheiro o suficiente para tirar sua carta e comprar um carro. Bem, você sempre soube a senha do meu cartão eu sei disso. Ele está debaixo do meu travesseiro. Aproveite bem, irmãozinho tolo.

Atenciosamente, o pior irmão do mundo.

Depois que terminei a carta, meus olhos já estavam ardendo e muito embaçados. Tudo o que havia acontecido com meu irmão. Eu não conseguia acreditar.

- Não, Não! Isso não pode ser verdade. Eu disse a mim mesmo em um pensamento furioso e agoniado.

Enquanto estava lá, sentado e ainda perplexo com tudo que acabara de ler, ouvi alguém tocar a campainha. Esperando o pior fui ate a escada. Meu pai abriu a porta e quem estava lá era um policial. Bruno tinha sido encontrado morto dentro do carro, perto de um penhasco. Era o lugar que ele mais amava. Segundo os policiais não havia nenhum sinal de agressão no corpo, a causa da morte foi natural.

Eu, gritando e me lamentando em prantos, corri para o quarto dele e me tranquei lá. Fiquei por quase um dia sem falar com ninguém, sem querer ver ninguém. Eu sabia que ele só estava morto por minha culpa, se eu não existisse nada disso teria acontecido. E agora eu estava lá em frente à janela olhando para o vazio deixando meu pensamento me levar.

A pessoa que eu mais amava agora estava morta. Meus motivos para viver tinham sumido em um piscar de olhos.

Meu irmão, Bruno, apenas quis me proteger, quis meu bem. Mas ele não estava mais ali. Ele estava morto e eu, um verdadeiro inútil e assassino, não pude fazer absolutamente nada. Então pra que continuar assim, sem mais prazer na vida, sem a fortaleza que meu irmão representava. Sem pensar duas vezes, abri a janela e me coloquei em pé sobre o parapeito. E ali eu decidi acabar com todo o meu sofrimento, com toda a agonia que eu estava sentindo.

Lancei-me ao ar, e depois, bem... Depois eu não vi mais nada, absolutamente nada.

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Atualizado em: Qui 8 Jan 2015

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