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Judith

A Luger era uma arma bonita, como não se fazia mais há um bom tempo. Gostava de andar com ela, mesmo sendo ilegal. Era elegante, eficiente e pouco dada à andar na sujeira da gentalha, assim como ela. Não que gostasse de nazistas, ou algo assim, apenas mantinha um ar elitista o bastante para parecer antipática.

Desmontou com cuidado a arma duas vezes mais velha que ela e começou a limpar as peças. Tinha tempo, o dia mal apontava no horizonte poluído de São Paulo. O notebook tocava uma fuga de Bach enquanto a flanela oleada polia as peças. -- Tupi or not Tupi? -- murmurou enquanto encaixava as molas de volta no mecanismo.

Assim que terminou guardou meticulosamente as escovas, a flanela e o óleo. "Alguns tesouros devem ser bem preservados", pensava enquanto colocava as balas no pente. A água do chuveiro estava muito quente como gostava, enchendo o banheiro de vapor. Depois que reclamou com a gerência do hotel da água fria logo cedo fizeram algo para consertar o erro. Tinha ficado abismada com a temperatura máxima da água em um hotel com a diária custando mais de trezentos reais.

Enquanto a água quente ardia em sua pele lembrou da primeira vez que viu São Paulo pessoalmente. Nove anos atrás, saltando de um velho cadilac na marginal para gritar com o empresário. Sorriu ao lembrar.

-- Você quer que eu grave nessa cidade horrorosa? Tem dezenas de cidades na Europa onde a gente pode gravar esse disco. Acabou se acostumando com a cidade e voltava de vez em quando para encontrar sua feiura planejada ou acidental. Saiu do banho ignorando as toalhas como sempre e começou a se vestir. Roupa branca, como se dizia há algumas décadas, camisa, coldre da Luger, Luger, jaqueta, meias, saia, cinto e botas. O cabelo encharcado escorria pelas costas encharcando a roupa. Olhou no espelho de corpo inteiro com um sorriso de aprovação.

-- Você está muito gostosa hoje fräulein Judith. É melhor andar armada senão vai acabar sendo atacada quando sair nessas ruas tão perigosas. Voltou até a mesa para pegar seu moleskine e caneta. Junto da porta de saída estava a bolsa pendurada no cabideiro onde guardou suas armas antes de sair do quarto excessivamente caro. No elevador havia um homem de terno, que não pôde evitar uma contorção da boca assim que ela entrou, mas que logo sorriu diplomático, fingindo que não havia nada de errado.

-- Já reparou que todos os hotéis caros são assim estupidamente bregas, com esse excesso de tapetes, veludos e quarentões de terno sem um pingo de senso estético? -- perguntou com um sorriso para ele.

Fez questão de falar com sotaque alemão, mesmo sendo brasileira de nascença e criação. "Bang. Você perdeu", pensou satisfeita enquanto ele sorria sem graça com os olhos subitamente interessados no painel do elevador.

Do saguão ligou para o táxi enquanto observava o movimento de pessoas que se achavam elegantes e bem vestidas. O que a irritava não eram as roupas ou o ar esnobe, mas o comportamento de manada. Eventualmente havia alguém que tinha uma aura de poder, irradiava mana, mas na maioria dos casos eram cascas vazias recobertas de mais luxo que as outras e nada mais. Ontem mesmo no bar tinha achado um senhor já dos seus cinquenta ou sessenta que irradiava poder, que tinha uma vida e uma consciência ao invés de ser tido por uma série de coisas. Tinham conversado um pouco enquanto bebiam vodca. Por fim a noite acabou com um comentário tão mais divertido quanto mais sincero. "Uma pena você não ser uma daquelas garotas que eu costumo encontrar. Perdi uma noite de sexo. Mas uma graça você ser assim. Isso foi melhor que sexo".

-- A nossa espécie se reconhece. Está no cheiro. -- murmurou enquanto abria a porta do táxi. -- Rode por aí. Quando eu encontrar um lugar interessante te mando parar. O motorista já estava acostumado. Sabia que ela gostava de conhecer o recantos da cidade, mas odiava os centros comerciais tanto quanto as favelas. Uma vez chegou a rodar mais de duas horas antes de mandar parar. Enquanto o carro andava folheava o moleskine a espera de chegar em uma área desconhecida. Lá estavam as anotações de outros dias. Rascunhos de música, esboços de partituras, alguns desenhos. E mais importante. Estavam os nomes e telefones de todos que tinha valido a pena conversar.

Há alguns anos atrás não queria saber do Brasil. Teve até um auto exílio na Alemanha onde viveu absurdamente feliz por três anos. Então um dia descobriu que precisava voltar, mesmo que não fosse para ficar. Estava há cinco anos no país. Talvez ficasse só mais uns meses. Precisou voltar porque por mais que fingisse não tinha sangue germânico em sua alma. Por mais que fosse sedutor não era ela que estava nas ruas, no espelho das retinas. Precisou voltar para sua terra e encontrar um sangue que fosse seu para encontrar uma voz mais autêntica. Quem falava hoje plea boca de Judith? Alguém mais madura com certeza.

"É normal que cantores executem em seus shows músicas de toda a sua carreira. Porque faz três aos que você não executa nada dos seus primeiros dois discos em público?

"Porque as músicas eram uma merda de uma garota revoltada de 17 anos que achava que colocar palavras em alemão na letra ia fazer dela uma guria muito inteligente. Eu não consigo ouvir nada daqueles dois discos. É infantil, ridículo. Tenho pena do tipo de gente limitada que ouve estas coisas.

"No entanto foram os disco que mais venderam.

"Nirvana era uma merda e vendeu como água, não é?

"Ou... Como estamos polêmicos hoje

"Só mencionei Nirvana porque se parece com o que eu fiz naqueles dois discos. Não o som, mas o sentimento. Poderia dizer que qualquer modismo massificante é uma merda, mas sertanejo, pagode... é tudo muito diferente de mim. Nirvana se parecia comigo. E é muito ruim.

"Por que 'Nirvana é muito ruim'?

"Pensei que esta entrevista fosse sobre mim, mas tudo bem, eu respondo. Nirvana é uma merda porque é sobre um idiota limitado no mundinho de faz de conta dele onde ter raiva do mundo faz ele se sentir menos parte desse mundo. Nós estamos imersos na merda do mundo até o pescoço, porque adivinha, nós somos parte dele.

-- Pare aqui.

-- Vinte e sete. Entregou displicente três notas de dez e saiu sem esperar pelo troco. O cortiço tinha um ar decadente, mas ainda guardava um certo ar e dignidade. Tinha três andares e uma fachada que um dia tinha sido imponente. Talvez os restos de um sobrado dos tempos do café.

"Glória de dias passados
Gloria futuro em ideal
E o que raios, o que raios,
o que raios o que raios
é a glória afinal?
Sonhos de grandeza doentes
para aplacar os desejos

Domina, Dominus, Imperator
Eu decido o alvo
Meu alvo faço você querer

Domina, Dominus, Imperator
Minha violência
Seu desejo
Sua alma
Meu ensejo

Toda glória, toda história
A virtude é uma escolha
Mas quem escolheu por nós?
Mas quem escolheu por nós?
Mas quem escolheu por nós?

Domina, Dominus, Imperator
Rex, Papa, Cardeal
A sua escolha o mestre escola
Sua vontade travestida
Nem você mais sabe
Pode escolher

Domina, Dominus, Imperator
Rex, Papa, Cardeal
A sua escolha o mestre escola
Sua vontade travestida
Nem você mais sabe
Pode escolher"

-- O palco é um transe, quase uma transa. Mais que uma transa. Minha relação com a música é a seguinte. Quando eu ouço uma boa música ou sinto uma boa música é uma experiência mística. No sentido antigo da palavra. Não existe mais eu. Existem signos. Esses signos são sonoros e podem ser palavras ou notas. Eu não sou uma cantora. Sou uma bruxa.

-- E porque o cortiço?

-- Acontece. Acho que o principal foi ver as crianças indo para a escola. Escola, sucesso, glória. É uma associação livre. Mas eu sei que escola e sucesso raramente andam juntas. Um pouco porque a escola é uma merda, mas também porque sucesso é uma definição além da conta bancária.

-- Não consigo entender o que uma pessoa como você faz por aqui, e ainda mais como tira inspiração deste amontoado de falta de futuro.

-- E o seu futuro Marcos? Você mora aqui.

-- Eu sei. E estou tentando sair daqui há alguns anos, sem conseguir.

-- Então deve conhecer mas algum lugar interessante para me mostrar.

-- Mais algum? Onde achou um. Ou por um acaso achou este daqui interessante? Por um acaso é sádica para achar este lugar interessante?

-- E quem consegue viver neste mundo sem ser sádico? Você por um acaso não é?

-- Só em sonhos.

-- Já é alguma coisa.

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Atualizado em: Qua 14 Dez 2011

Comentários  

#1 Akuma 15-12-2011 01:29
Achei interessante. A personagem é bem viva e crível. Você lançou umas ideias legais. Um texto de qualidade, sem duvida. Só acho que ficou sem conclusão.

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