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O CIPRESTE
O movimento das pás, rastelos e escavadeiras era grande. De acordo com o projeto aquele lugar se tornaria uma grande praça ladeando a Prefeitura. As velhas árvores seriam preservadas, mas era preciso remodelar o ambiente para dispor os canteiros, bancos e caminhos ornamentados com basalto e arenito. Nos jardins seriam plantadas aningas e lírios, pau-rei, coqueiros, ipês roxos e sibipirunas. As pás ao adentrarem a terra traziam consigo, muitas vezes, ossos, cabelos e crânios dos antigos moradores da cidade. Aquele local, hoje centro da cidade, havia sido um cemitério. Os ossos eram coletados e despachados para o ossuário agora no Jardim das Hortênsias em bairro afastado.
Alguns diziam que o lugar era assombrado e muitos contavam ter visto luzes emergindo da terra e bolas esverdeadas que circulavam entre as palmeiras imperiais. Também falava-se de um senhor de elevada idade caminhando por ali e afugentando as pessoas do local. Os mais velhos evitavam passar por ali e viam nas escavações uma profanação. “Estavam mexendo com os mortos e isso não era bom”.
Visando atender ao projeto se fazia necessária a derrubada de um secular cipreste mexicano. A árvore era respeitadíssima, quase que venerada pela população. Movimentos começaram a acontecer: faixas, protestos, artigos em jornais, debates nas rádios locais. Apesar das reivindicações a árvore veio abaixo. Sua queda, porém, ocasionou terrível acidente. A árvore caiu sobre três trabalhadores, o que despertou ainda mais a fúria da população. A Prefeitura foi apedrejada, um carro acabou sendo incendiado, lojas foram saqueadas. A cidade viveu momentos de caos, sendo as atividades de construção da praça temporariamente suspensas.
Uma semana após, ao arrancá-la do solo, outra surpresa, as raízes trouxeram consigo um ataúde belamente decorado. Dentro dele repousava um esqueleto provavelmente de uma mulher.
Os detalhes ornamentais da urna funerária e a misteriosa mulher despertaram inúmeros interesses. Quem teria sido ? Como se chamava ? O que significavam todas aquelas curiosas inscrições talhadas na madeira e que atravessara tanto tempo, além talvez dos primórdios da cidade. Alguns especulavam que o cipreste deveria ter sido plantado sobre o caixão quando fora enterrada.
Um grupo de historiadores se reuniu para um estudo mais aprofundado. O caixão foi transportado para uma sala vazia em uma das alas do museu, afim de se garantir um estudo mais detalhado e preservar o achado histórico. Silas era o mais empolgado, recém formado, cheio de energia e planos via no ataúde uma oportunidade de deslanchar sua carreira como pesquisador.
Agora as conversas nas esquinas, os programas de rádio e os jornais tinham como assunto a mulher do cipreste.
Recém chegada na cidade, morando na pensão da Dona Carmelita, Isadora era uma senhora de meia idade, cabelos negros, sempre vista em trajes sociais, discreta e culta. Ao ler nos jornais sobre a descoberta e as entrevistas de Silas, interessou-se e pelo assunto e decidiu procurá-lo. No final da tarde abriu o portão de ferro do museu, solicitando ao vigilante que a conduzisse ao historiador. Dada a aparência da senhora, não se fez de rogado conduzindo-a instantaneamente.
- Sou Isadora, tenho lido sobre o ataúde e seu trabalho. Acredito que poderei colaborar. Estou me colocando à disposição.
Silas exteriorizou um aberto sorriso de felicidade. Apesar de toda agitação na cidade, poucos se interessaram efetivamente em um estudo mais aprofundado. Entusiasmado conduziu-a até o esquife. Era de madeira de lei, talhado com figuras e inscrições enigmáticas, embora desgastado pelo tempo alguns desenhos pareciam ter sido dourados, outros azuis e pretos. Abrindo a tampa podia-se contemplar a mulher que repousava com longos cabelos, um vestido já bem esfarelado e os pés descalsos.
- E veja, revelou ele animado, ela usava jóias. Encontrei estes anéis, este colar e estas pulseiras. Parecem ser de prata, mas vou precisar da ajuda de um ourives...
Isadora aproximou-se da caixa contendo as relíquias da senhora. Olhou cada anel, traziam também símbolos curiosos. Manteve-se em silêncio tumular fitando e copiando os desenhos.
Houve um grande identificação entre eles. Combinaram encontrar-se todos os dias ao final da tarde para discutirem o assunto.
As figuras no caixão assemelhavam-se a serpentes, labaredas, luas e folhas, incluindo as inscrições enigmáticas. Nos anéis via-se besouros e rostos estilizados adornados por pedras semipreciosas.
Desde o ataque à Prefeitura muitos homens começaram a ser encontrados mortos, esfolados, o que foi atribuído a grande onda de violência que tomou conta da cidade. O primeiro corpo foi encontrado perto do rio. Era jovem talvez com uns dezoito anos. Estava nu estendido junto à margem e irreconhecível. Sofrera um ataque de picadas de abelhas. Os ferrões atingiram especialmente a área genital. Provavelmente estava nadando quando foi surpreendido pelo enxame que o dilacerou.
Cerca de meio dia depois um homem teve a pele arrancada. Havia sido amarrado a uma castanheira-do-pará e esfolado. Possivelmente havia sido arrastado até lá, onde teria ocorrido o crime. Demonstrava também pouca idade.
Passado não muito tempo a polícia foi novamente acionada. Outro jovem havia sido encontrado. Havia sinais claros de tortura com espetos de bambu enfincados por debaixo das unhas e na uretra, arranhões por todo o corpo como garras afiadas.
O office-boy do hotel da cidade foi identificado como outra vítima. Havia sido empalado. O poste com o corpo havia sido fixado na calada da noite onde a árvore fora arrancada.
A cidade estava aterrorizada. Já era possível catalogar onze pessoas. Todos já demonstravam ter medo de sair de casa, em especial os rapazes, pois aparentava serem eles o foco dos assassinatos.
Ao meio-dia seis mulheres com quase um século de idade sentaram-se na modesta sala de Dona Casemira. Haviam conversado e precisavam fazer alguma coisa. Eram as mais antigas da cidade. Dona Casemira já completara cento e dois anos.
- Nós sabemos o que está acontecendo, resmungou Dona Casemira, enquanto distribuía xícaras de chá de melissa. Precisamos romper nosso silêncio, nossa cidade e nossos meninos estão ameaçados.
- Você acha mesmo possível que seja ela ?, questionou um tanto incrédula, Dona Guilhermina, apoiando-se na bengala para roubar um pedaço de bolo de milho disposto sobre a mesa central.
- Estive pensando nas muitas histórias de minha avó Isaura, comentou Dona Deolinda, sobre aquela mulher. Será mesmo que ela foi despertada e está matando nossas crianças ? Um dos mortos era neto da Natalina...um bom menino.
- Minha finada mãe sempre falava dela com total desprezo, uma mulher capaz de qualquer atrocidade. Temo que ela tenha retornado da terra dos mortos e está aqui conosco. E se for ela, como poderemos nós, pobre velhas, impedi-la?, disse Dona Edwiges, arrumando o lenço na cabeça e beijando o crucifixo que trazia espetado próximo ao coração.
As outras mulheres pareciam rezar, balbuciando palavras incompreensíveis, recostadas na poltrona e com olhar perdido na memória do tempo.
- Sim, amigas, estamos falando de Lubaya. A poderosa Lubaya, senhora que dominou nossa cidade e toda região a sua volta até os confins, ninguém sabe até onde reinou. Ela está conosco, repetindo os mesmos desvarios de outrora.
Lubaya havia sido uma escrava africana comprada por Otacílio Fernão Pinto, Barão de Muribara, destemido Senhor de Engenho, trazendo-a para mucama em sua fazenda. Ela foi batizada com o nome de Maria do Carmo e aos poucos evidenciou-se na família. Otacílio se via cada dia mais apaixonado e, com a morte da esposa, não tardou em substituí-la. Logo a poderosa negra ordenava a todos, castigando impiedosamente os próprios escravos, com requintes sádicos. Não demorou a ser temida por toda a região. Conta-se que as pessoas se curvavam com sua passagem, inclusive os brancos.
As estórias circulavam a boca miúda narrando os abusos de Maria do Carmo, como usar uma pasta de pimenta nas relações sexuais, entre outras maneiras de ver seus amantes sofrerem. Picadas de marimbondos, espancamentos e mesmo os instrumentos de tortura dos escravos como a roda alta, o cavalete, a berlinda eram usados enquanto copulava com eles.
Sua preferência era por jovens rapazes. Especulava-se que ela se nutria da vitalidade deles e suas almas eram seu principal e predileto alimento.
Quando assumiu o poder retomou seu antigo nome africano e exigia que a chamassem dessa forma, sem que a fitassem nos olhos. A desobediência era punida com a morte, sempre de maneira a servir de lição a toda comunidade. O cenário era montado onde fora sepultada e ali mesmo eram enterrados.
Morreu idosa e cruel. Ao morrer todos se apressaram em enterrá-la e o cipreste seria a porta impedindo-a de retornar um dia. Agora a árvore estava arrancada e seu caixão aberto. Ela iria destruir a todos! Dia a dia mais corpos masculinos seriam encontrados.
O cachorro começou a latir persistentemente, levando Dona Casemira à porta.
- Desculpe o atraso, mas perdi-me no tempo, analisando os símbolos estampados na urna, justificou Isadora enquanto cumprimentava a todas as senhoras e se sentava, demonstrando conhecê-las de longa data.
Contrariando as orientações da mãe, Maurício saiu, ia de encontro de outros colegas. Jurou inúmeras vezes que tomaria cuidado, evitando locais ermos e sem iluminação, buscando andar em lugares movimentados. Dentro de si ria das preocupações da mãe e das estórias que circulavam pela cidade. Haviam combinado de comer lanche logo atrás da matriz.
Caminhou displicente e logo próximo a estátua de Santa Izabel de Portugal, protetora da cidade, enfiou a mão no bolso em busca do maço de cigarros. “Que sua mãe não soubesse disso”. Acendeu e prosseguiu.
Na escadaria da igreja avistou uma bela garota. Podia admirar seus seios quase expostos saindo do vestido de tecido leve, suas coxas roliças e olhar triste. Os hormônios da adolescência logo despertaram.
- Moço!, chamou ela olhando-o como se pedisse ajuda. Não tenha medo, você pode me ajudar ?
- Claro, disse Maurício soltando baforadas de fumaça com ar de machinho, e olhando nos peitos da mulher.
- Não sou daqui e me perdi...estou com muito medo !, disse ela languidamente.
Maurício sentou-se ao lado da moça e pegando em suas mãos, procurou acalmá-la, solicitando maiores informações sobre como teria parado ali na escadaria da igreja. Ela narrou que seus pais haviam visitado a cidade e ela se afastara com toda a confusão na cidade não encontrando mais a família. Sabia apenas que eles estariam no sítio dos Mendonça, mas não sabia como chegar lá.
O menino avaliou a distância e entendeu que poderiam chegar lá a pé, embora tivessem que caminhar um bocado. Ela insistiu que ele a levasse até lá. Sensualmente por várias vezes tocara o rosto e as coxas do rapaz, o que o levou a acompanhá-la também por outras intenções. Ela possuía apetitosos lábios carnudos e sua pele negra a enchia de exótica atração.
A lua brilhava no céu iluminando a estrada. Aos poucos a moça foi ficando mais descontraída, solta, dançando e cantando no meio da estrada deserta. O rapaz contagiou-se.
- Que morro é aquele ?, perguntou ela aconchegando-se a Maurício e acariciando seu peito.
- Chamam de Morro do Uivo. Falam que lá há noite se ouvem ruídos como de lobos, esclareceu olhando-a com desejo.
- Você já fez amor lá ?, intimou ela sem rodeios.
Maurício abaixou a cabeça envergonhado, respondendo um não quase inaudível.
- Vamos até lá ? Deve ser incrível fazer amor olhando as luzes da cidade lá embaixo...não quer ir ?, e dizendo isso disparou na frente correndo como um veado mateiro na grama em direção ao morro.
Maurício encorajou-se e a seguiu, mas era impossível alcançá-la. Por instantes temeu entrar naquele pasto com tantas notícias de assassinatos, mas o impulso sexual era mais forte.
Quando atingiu o alto do morro pode ver a moça nua sentada sobre seu vestido.
- Tire a roupa !, ordenou ela demonstrando querer não perder tempo.
O rapaz despiu-se timidamente e ajoelhou-se ao lado da moça para beijá-la.
- Estamos aqui e nem sei seu nome...refletiu ele.
- Lubaya..., disse acariciando o corpo delineado do rapaz, e já que estamos no Morro dos Uivos, quero que você seja um lobo e sejamos animais.
Entre uivos, arranhões, Maurício entregou-se a algo que nunca havia vivenciado antes. Lubaya sobre ele o levou a quase asfixia proporcionando estranhos prazeres. Quando ejaculou com incrível agilidade Lubaya usando uma faca de bolso decepou o pênis de Maurício, mantendo-o dentro de si.
Já tardava quando um grupo de garotos encontrou o corpo de Maurício totalmente desmembrado. Dona Deolinda desmaiou quando soube que seu bisneto também fora apanhado pelo fantasma.
Silas estava inconformado, entrou no museu abalado. Abriu a porta da sala onde estava a urna e deu de topo com a jovem negra. O processo de sedução iniciou-se com os trejeitos, olhares e corpo escultural da moça.
Isadora chegou a tempo e visualizando os dois abraçados, disse em voz alta:
- Ogrando oco bafolu inuri chamarim !!! Atachi belorum dextruorum...
Lubaya olhou-a com pavor e diluiu-se nos braços do historiador. “Temos muito o que conversar”, revelou a mulher.
Isadora narrou-lhe a estória de Lubaya, falou das anciãs e que ela fazia parte daquela cidade. Sua mãe havia lhe preparado para esse momento, descendia de uma escrava que vivera ao lado de Lubaya e ela própria havia feito o encantamento para que não mais emergisse da sepultura. Quando soube da descoberta apressou-se em chegar a cidade e contactar Silas.
O fato parece ter irritado profundamente Lubaya que destroçou em uma só noite cinco rapazes. Era um aviso sobre seu poder. Cada uma das senhoras do círculo de anciãs caiu morta. Uma atacada pelo cachorro, outra escorregou da escada, outra atropelada, acidentes aparentemente naturais provocados pela vingativa anciã com corpo de uma jovem. Enquanto se banhava Isadora sentiu mãos invisíveis a asfixiando, não teve como pronunciar as palavras que iriam afugentá-la. Foi encontrada caída no banheiro.
Silas desesperado arrastou o caixão até sua pick-up. Iria se livrar daquilo. Após várias tentativas conseguiu fazer o carro pegar. Em alta velocidade dirigiu-se a um descampado onde poderia queimá-lo. Lubaya surpreendeu-o atravessando a pista saindo do nada. O carro sem direção desceu uma ribanceira incendiando junto a altos eucaliptos. O caixão foi atirado longe, preservando o corpo de ser queimado. Em pouco tempo a urna estava de volta ao museu.
Os historiadores identificaram o cadáver como de Maria do Carmo, uma Senhora de Engenho, que vivera ali nos primórdios da cidade. Uma senhora poderosa e influente e da qual o prefeito descenderia.
Por determinação do prefeito o caixão foi levado ao cemitério local, onde foi depositado no jazigo da família, com honras militares. Uma missa foi encomendada para que aquela alma tivesse paz.
Na porta da capela, Lubaya sorria. Ela teria paz...a cidade talvez não.