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A MENINA, A FLOR E A GUIMBA DE CIGARRO

E lá vem a garotinha - corpinho delgado, vestido vermelho e longos cabelos castanhos - em direção ao pai, trazendo cuidadosamente entre os dedos indicador e polegar uma pequena flor branca colhida em um jardim ali ao lado. “Pra você, papai”, diz ela entregando a flor ao homem esparramado no banco da praça, distraído com a guimba de cigarro cuja ponta desprende uma fumaça azulada e densa. Diante da indiferença do pai ao seu gesto, ela insiste: “pra você, papai”. O homem então pega a flor com total desinteresse e, através de um grunhido quase inaudível, manda a garotinha se sentar ao lado dele, calada. Nem mais um movimento, nem mais uma palavra. A menina observa o fluxo humano que segue apressado na calçada da Praça da Sé e imagina que cada uma daquelas pessoas sorriu ao vê-la presentear o pai com a pequena flor branca. O pensamento a reconforta e ela então apoia o corpo esguio no braço do homem que continua inerte no banco, absorto na guimba de cigarro cuja fumaça, apesar de conservar a densidade, tem agora o mesmo tom cinza dos prédios antigos que circundam toda a extensão da praça.
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Atualizado em: Sáb 4 Jul 2020

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