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tudo bem se você não gostar

ontem no ônibus eu vi uma senhora usando um daqueles chapeus meio triangulares-não-poliedros que os chineses usam nas plantações de arroz. ela vestia também uma bata laranja cheia de tampas de latinha. achei tão curioso, e mais ainda porque ela puxou assunto comigo. pensei que fosse ser eu, mas foi ela. ela perguntou se eu era vegana porque eu estava tão elegante, e disse sem mais nem menos que a médica dela deu a noticia de que ela nunca mais vai poder comer carne porque carne da câncer. é claro. enquanto conversávamos, ela pediu pra eu falar mais alto porque a audição dela não estava das melhores. me senti encabulada em falar alto demais dentro de um ônibus lotado de silêncios, mas falei alto. eu estava mesmo bem elegante. mais tarde a vi de novo com "ele não" escrito no rosto, usando o mesmo chapeu não-poliedro, no meio do bloquinho de carnaval, que fica no meio de curitiba, que fica no meio do mundo. hoje eu conheci um homem que tem mais de cem diplomas. cem. me mostrou seringas antigas enormes de vidro, dentro de latas quentes pelo sol, me explicou como eram, antigamente, as esterilizações. só com fogo e água quente, e funcionava. ele apontou pra uma seringa que estava de lado e disse que era a mais rara de todas, olhei, era igual as outras. mas também não era igual. me mostrou penas e tinteiros velhos, o que me deixou com vontade de escrever. tinha também um vidro com um pó alaranjado, e quando eu perguntei o que era ele disse que não sei, melhor não mexer, vai saber o que tem aí. eu não mexi. ele adivinhou meu nome do meio sem nunca ter me conhecido antes. eu poderia ter tantos nomes do meio, mas eu tenho o que eu tenho, e ele sabe o que ele sabe. cheguei a conclusão que as caixas de fósforo antigas são muito mais interessantes que as de hoje em dia, e que as pessoas deveriam estar pensando é nisso. as páginas que falam sobre a guerra no meu novo livro favorito estão enrugadas de água da chuva, parecem lágrimas, mas não as minhas. é que eu nunca saio de guarda chuva. sujei minha bolsa branca com molho de pimenta porque eu ainda não aprendi a segurar pastel de palmito, vinagrete, molho, bolsa, livro e gentilezas, ao mesmo tempo, só com duas mãos. fiquei pensando que eu não conheço de verdade os meus pais como pessoas, a não ser como "pai", ou como "mãe". será que alguém conhece o próprio pai como ser, ou qualquer familiar como ser, além de todos os termos familiares convencionais? será que alguém conhece alguém? nenhuma das fotos 3x4 que eu tenho foi roubada, ao contrário do que algumas pessoas pensam. se tivéssemos o tamanho que ficamos quando usamos pernas de pau, teríamos que ter bem mais que dois joelhos. hoje é domingo, tem gente que não gosta. mas eu adoro adoro adoro, e tudo bem se você não gostar.
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Atualizado em: Qui 7 Fev 2019

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