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O Mar e o Navegante

As crianças choram tormentas alheias no mar de melancolia. Profundo, seu interior é escuro e frio. Os pequeninos lamentam a falta dos pais, cujos braços e pernas foram presos por enormes algas que os puxaram mar adentro. Sem respirar, o pai e o pai se asfixiaram na agonia de estar submerso.
Um navegante, em seu pequeno barco, tomou como decisão a tentativa de descobrir o sentido da vida. Saiu vagando oceano afora. Choveu, ventou, a agua agitou. Navegante até tentou lutar com as ondas que o empurravam para o abismo aquático.
Ainda da superfície, mesmo na escuridão noturna, conseguia enxergar todos que se permitiram o triste naufrágio, se espremendo nas lagrimas infantis e tentando se aquecer com uma chama pequena de uma vela branca caída no fundo.
Navegante pensou em desistir. Seus dedos gelados e doloridos começaram a ceder ao barco que já se via tombado e prestes a afundar lentamente junto aos outros desistentes. O granizo machucava sua testa que se apontava ao céu e seus olhos miravam as crianças que gritavam mais uma perda.
Pensou em orar, pedir à deus que o salvasse em troca de devoção. Lembrou, porém, que nem Deus está ao seu lado, nem a própria fé. Ele se encontrava sozinho, prestes a se juntar com milhões de homens e mulheres igualmente sozinhos.
Não fechou seus olhos em nenhum momento. Enquanto seu corpo congelava nas aguas cada vez mais frias, ainda conseguia enxergar pelo menos uma das crianças que chorava soluçando a tormenta que o fez afundar.
Quase na escuridão total, já não enxergava nada. Tentou se concentrar em tudo que lhe fizera bem, sua cor favorita, seus companheiros de viagem, sua família. Mas em cada pensamento bom, ele encontrava um ruído que o fazia lembrar que estava no fundo de um oceano infinito de almas afundadas.
Com dificuldade de se concentrar em pensamentos leves, ele foi ficando pesado e seus pés amortecidos tocaram a areia do fundo marítimo. Já era impossível afundar mais. Focou na sua dificuldade de respirar, seu corpo foi ficando tensionado e seus músculos foram contraindo. Sozinho, no fundo do oceano, o único que ainda queria voltar para a superfície, tentou gritar, tentou quebrar alguma coisa, mas ninguém o ouviu. Ninguém o ouviu quando disse estar indo para o mar. Ninguém nunca o ouviu.
Pânico, ansiedade, medo, desespero, tristeza, raiva, angustia, decepção. Tentou movimentar os braços a fim de que voltasse a superfície. Mas ainda amortecidos devido ao frio, sua falta de ar só aumentava e seu desespero em querer voltar para cima o deixou ainda mais petrificado.
Com muito esforço, conseguiu repetir uma mesma sequência de movimentos com os dedos das mãos, que o deu esperança de uma baforada de oxigênio em seu rosto. Ele focou toda sua atenção nos movimentos dos dedos e buscou expandir aos braços. Imaginou que seus dedos estavam quentes, visualizou os movimentos chegarem aos pulsos, aos cotovelos, aos ombros...
Fracasso. Seu barco que ainda se encontrava na superfície, ao desistir mais tarde, atingiu sua cabeça logo que chegou mais abaixo do nível das aguas. Sua consciência se perdeu e seus olhos finalmente fecharam. Silencio. Nada mais se ouvia, nada mais se via, nada mais sentia. Desistiu finalmente e relaxou os músculos. O peso que habitava em seu peito o ajudou a deitar na areia fria. Seu último suspiro aguentou chegar até a superfície soltando um grito leve e sutil, com som baixo e angustiado, esquecido ou ignorado, perdido, no mar de melancolia.
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Atualizado em: Qua 11 Abr 2018
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