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O caminho do mendigo - Capítulo 2 - A retomada da dignidade

Depois que passei a separar os lixos de comida, notei que aquele homem não ia mais de manhã na padaria pedir moedas, que não ia mais nas portas dos estabelecimentos pedir nada e que aquela comida que eu separava para ele era bastante para alimentá-lo e parecia que ele passou a contar somente com ela nos seus dias. Na próxima vez que desci com os lixos de comida separados e entreguei as da sacola para ele, perguntei: moço, afinal seu nome é Júlio ou Adriano? Ele deu uma risada e respondeu: sempre falei pra minha mãe que esse nome daria confusão, é Júlio Adriano dona e obrigado pela comida limpa, agora eu consigo comer. Aproveitei mais que depressa a oportunidade daquele homem falante e me precipitei em mil perguntas! De onde o senhor é? Sua família é daqui? Qual sua idade? E ele cheio de ironia me disse: a senhora é muito enfiadeira de bico na vida alheia né não?! Fiquei envergonhada com minha ânsia e minha precipitação. Pedi desculpas e disse: calma Sr. Júlio Adriano, eu só quero saber se posso ajudar em algo além de te dar sobra de comida limpa todo dia. Ele respondeu: e qual interesse a senhora tem em me ajudar? Prontamente respondi: interesse não tenho nenhum, mas não custa nada perguntar se eu posso ser útil, afinal gentileza e humanidade são gratuitas. Ele ficou em silêncio uns segundos e depois disse: ajuda boa seria um banho, mas a senhora não vai me levar na sua casa pra isso não né?! Fiquei paralisada. Realmente eu não teria coragem de levar aquele homem naquela condição pra minha casa, mas àquela altura do contato eu já estava envolvida em fazer algo então não tinha mais volta, eu tinha que fazer alguma coisa. Imediatamente me ocorreu que eu poderia pagar uma diária numa pousada que ficava naquela esquina onde ele dormia e ele lá poderia tomar banho dignamente. Pensei que eu também poderia comprar na lojinha em frente a pousada uma camisa e uma bermuda novas que seriam baratinhas para ele colocar depois do banho, afinal roupa nova e/ou limpa depois do banho refaz a dignidade de qualquer pessoa!!! Propus a ele fazermos assim e ele, desconfiado, aceitou. Levei-o até a pousada, paguei a diária que iria das 17h daquele dia até às 14h do dia seguinte, ou seja, ele poderia tomar banho e ficar lá, dormir lá numa cama e ver tv, acordar no dia seguinte e tomar café no refeitório da pousada e almoçar no restaurante de lá como qualquer pessoa digna. Intimamente fiquei pensando, como é simples fazer algo por alguém que lhe confira dignidade! A gente oferece a quem não tem, coisas simples do dia a dia que fazemos todos os dias e nem nos damos conta do valor que tudo isso tem, como certamente dará valor alguém que mora na rua e de repente pode ter isso tudo. E agradecer pelas coisas simples e básicas da vida foi minha segunda lição tirada desse contato.
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Atualizado em: Qua 23 Jan 2019
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