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O caminho do mendigo - Capítulo 1 - O Contato

Antes de me envolver diretamente com o homem, fui até as pessoas conhecidas e perguntei se alguém sabia quem ele era, se conheciam a história dele, se ele era agressivo, se era viciado... enfim, tentei fazer um histórico, traçar um perfil com base nas informações das pessoas que eu conhecia, mas ninguém sabia de nada sobre ele. Apenas me diziam que ele estava ali naquela esquina há mais de 1 ano, que apareceu do nada, que não deveria ser da região porque ali ninguém conhecia nem ele nem ninguém que pudesse ser ligado a ele. E me avisaram que ele é manso a maior parte do tempo, mas que quando alguém pergunta sobre a vida dele, o nome e outras perguntas que sejam pessoais para tentar conhecê-lo, ele ficava agressivo. Fiquei com medo de qualquer aproximação e segui meu dia, mas ele não saía dos meus pensamentos, como se aquele encontro entre ele e eu não fosse casual, fosse uma conspiração da vida porque ali haveria algo a ser apreendido entre nós. Dois ou três dias se passaram, eu sem coragem de abordar o homem, mas com ele em meus pensamentos o tempo todo. Nos encontrávamos na padaria de manhã, no lixo do restaurante na hora do almoço quando eu descia com os sacos de sobras e restos e quando eu saía às 17h. Ele sempre "fussando" o lixo de comida. Às vezes eu o via comendo algo, mas quase sempre ele "fussava" e não comia nada. Nos dias que se seguiram, tive uma ideia para provocar um contato, resolvi separar a comida que ia pro lixo: os restos dos pratos de clientes eu coloquei nos sacos de lixo pretos e as sobras dos rechauds que era comida limpa coloquei numa sacola plástica branca e escrevi do lado de fora da sacola: comida limpa, sobras. No primeiro dia, quando eu desci com os sacos de lixos de restos e com as sacolas brancas de sobras, ele já estava lá aguardando. Joguei os sacos pretos num canto do passeio e entreguei as sacolas nas mãos dele. Nos olhamos nos olhos e ele acenou com a cabeça como um agradecimento, foi para um canto do passeio, abriu a sacola e comeu como um animal faminto! Era assustador de ver... No segundo dia, ele pegou a sacola de sobras limpas e riu pra mim. No terceiro dia tomei coragem e perguntei: qual seu nome moço? Ele me olhou como se eu fosse a materialização do demônio! Assustada dei uns passos para trás, achei que ele fosse voar em cima de mim e me agredir, pois o olhar dele era de quem queria me matar. Mas, ele não foi agressivo e respondeu entre dentes: Júlio. Deu uns passos pro canto do passeio e antes que eu me virasse e subisse a escada ele falou: Adriano. Subi as escadas pensando: homem doido! Afinal ele chama Júlio ou Adriano? E segui o resto do dia pensando em como é difícil acessar o outro! Como são grandes as dificuldades de conhecer o outro e de se deixar conhecer! A gente na verdade tem que querer muito para transpor a barreira que o outro impõe quando queremos conhecer a ele e sua verdade. Talvez seja por isso que as pessoas desistam de conhecerem a fundo umas às outras, talvez seja por isso que as relações hoje em dia sejam tão líquidas, descartáveis e superficiais. E essa foi a primeira lição que aprendi naquele contato estranho. A primeira de muitas que ainda viriam...
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Atualizado em: Qua 23 Jan 2019
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