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O Diário de Melissa

"- Eu me chamo Melissa, tenho 20 anos e não faço a menor ideia do que escrever em um Diário. Ganhei você no meu aniversário e, infelizmente, acabei te jogando no fundo da gaveta pelos últimos dois anos. Quando algumas coisas ruins começaram a acontecer na minha vida, acabei não entendendo bem o que fazer e, ao ir à um psicólogo, ele me aconselhou: escreva.

Eu não poderia começar a escrever sobre outras coisas sem antes avivar o meu passado. Sabe, Diário, sinto-me culpada por muitas coisas e, entre elas, culpada por falhar e por não saber me impôr nos momentos certos. Mas, o que fazer?

Há alguns anos atrás, tive meu futuro decidido. Meus pais me colocaram em uma escola particular, depois seguiram para me pôr em uma faculdade e cá estou, no meu último ano. Por quê não me impus? Quanto tempo eu perdi fazendo o que não queria? Quanto tempo eu teria investido se eu já soubesse o que fazer? Eu me sinto perdida, diário. Não estou feliz com o que faço, logo, não me sinto disposta o suficiente pra continuar. O que está acontecendo? Tudo tão confuso.

Lembro-me de alguma vez na vida ter tido sonhos como querer ser uma Cozinheira Chef e ter meu próprio restaurante, ou trabalhar o meu corpo suficiente para ser uma modelo. Mas, logo que isso passa pela minha cabeça, hoje, só consigo pensar que o meu tempo não volta atrás e está cheio de arrependimento. Que tipo de pessoa eu vou me tornar, desse jeito?

Mas, as escolhas de meus pais não foram tão ruins. Guiaram-me pelo caminho certo, levaram-me à igreja, foram gentis - embora ausentes - e principalmente estiveram lá para me ajudar. Sei que deveria retribuí-los, mas isso é uma coisa que não consigo engolir. Diário, não sei se amo tanto assim meus pais. Como humanos, cometeram muitos erros e, entre eles, o erro principal que me assombra até hoje é o fato de que cortaram minhas asas. Eu não pude voar, minha imaginação não pôde sobreviver e, hoje, estou a te escrever.

Perto do fim de meu curso, não penso em "deixar pra lá". Penso em ganhar com isso. Mas, já não sonho mais e já não possuo objetivos. A vida parece fácil e ao mesmo tempo incompleta. Mas, esse é só um dos primeiros capítulos da minha vida, vai passar. Ainda assim, sou grata. Grata por ter sido repreendida, mas ingrata por não saber como voar, por não conseguir imaginar e ser incapaz de sonhar.

Sabe, Diário, meus pais não souberam lidar comigo e eu os entendo. Nunca fui do tipo calma e gentil. Mas sim hiperativa e solitária. Eu nunca tive ninguém ao meu lado. Encontrei amigos dos quais hoje arrependo-me de ter me envolvido e acabei carregando cicatrizes até hoje. Não considerava amizades femininas, uma vez que sempre acabavam falando mal de mim pelas minhas costas ou me abandonavam sempre que descobriam algo desagradável em minha personalidade.

A maioria de meus amigos eram homens e, eles me entendiam, mas, preocupavam meus pais. Meus pais sempre foram do tipo machistas o que, de certo modo, acabou me detonando à longo prazo. Diziam coisas desagradáveis e justificavam que a religião me proibia de envolvimento acima do necessário com qualquer tipo de homem enquanto que colocavam meus irmãos, por serem homens, acima do patamar e sem regras. Aquilo me enojava.

Sempre fui restringida de tudo e todos. Meus irmãos eram livres para fazer o que bem entendessem. Sempre odiei essa regra. Hoje, acho que a restrição excessiva acabou comigo mais do que me ajudou. Ela fazia com que eu me sentisse um pássaro preso em uma gaiola, com uma vontade voraz de libertação. Fugi e escapei das regras várias vezes e, sempre que saía, mesmo que não fizesse nada, ao voltar eu era julgada.

Mas, sabe diário, acredito que os melhores momentos da minha vida vieram com aquelas fugas. Eu fugia, sentava em algum lugar perto da praia e ali ficava o dia inteiro, respirando ar puro, sentindo o gosto de uma falsa liberdade. O horário de recolher me entristecia como nada faria: era hora de voltar pra cela e enfrentar o castigo que fosse.

Mas, acho que não foi só isso. Meus pais tinham aquele péssimo hábito de não me reconhecer, o que perdura até os dias de hoje. Dentre os três irmãos, ainda que eu obtivesse mais êxito em alguma área, o crédito sempre era deles de alguma forma. Porém, acredito que não seria o que sou hoje sem todas essas vivências. Eu cresci.

Sei que cresci quando, hoje, olho para os meus pais, com os mesmos velhos hábitos amargurantes e já não sinto nada. Sei que já não sou tão imatura a partir do momento em que não imagino mais uma cela todas vezes que chego em casa. Sei que não sou uma má pessoa no momento em que eu decidi perdoá-los por essas pequenas coisas e seguir em frente.

Eu nasci ali, cresci ali. Não tem como dizer que, acima de tudo, não os amo. Acho que, todas as famílias possuem seus problemas, mesmo que pareçam tão perfeitas no exterior. Sei, hoje, que todas as pessoas possuem seu jeito único de amar, mesmo que em silêncio. E, eu os amo em silêncio, porque as palavras simplesmente não conseguem encontrar um jeito de sair.

Acabei notando que, eles também, me amam em silêncio. Não conseguem dizer, por algum motivo. Mas, acabam demonstrando através de pequenas coisas, pequenos cuidados. Obrigada por tudo, pai e mãe. E obrigada à você também diário. Cheguei em uma conclusão: está tudo bem, eu estou bem."


- Capítulo 1: Meus pais
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Atualizado em: Qui 17 Nov 2016

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