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Apenas um corvo sob a chuva

Já estava amanhecendo só percebeu observando a claridade intensa pela janela do avião, o amanhecer visto de cima das nuvens era espetacular um misto de luzes e cores que jamais em sua vida conseguiu pensar que havia. Por um instante olhou para sua esquerda, na poltrona ao lado queria se certificar de que também estivesse vendo, devia aquele momento a ele afinal quem mais em sua vida conseguiria faze lá entrar em um maldito avião, suspirou cansada ao constatar a poltrona vazia por um instante deteve seu olhar nas nuvens a lembrança daqueles olhos, jamais o havia visto tão infeliz antes, se culpou novamente se ao menos daquela vez tivesse cogitado fazer a vontade dele, se seus planos não fossem tão inabaláveis e seu futuro tão precioso e perfeito, agora tudo seria muito diferente, se não fosse ao menos não estaria naquele maldito avião.

Odiava voar, o som surdo da aeronave a assustava, os leves solavancos a deixava enjoada, confusa quase desorientada, sua cabeça dava voltas em toda a situação em como havia chegado aquele ponto, nos motivos que a levaram a agir daquela forma e mais uma vez se questionava como teria sido se as coisas tivessem sido diferentes.

O Choro de uma criança ao seu lado tirou a de seus devaneios, quase que instantaneamente, observou a mãe que agora amentava uma criança de colo que estava choramingando de fome ao Ha algumas poltronas de distancia.

Lembrou se de uma tarde quando estava exausta, naquele dia haviam feito amor por horas a fio, descansava seu corpo satisfeito e exausto abraçada a ele enquanto o mesmo descansava a cabeça em seu peito, com os longos cabelos negros jogados sobre sua pele, lembrou se imediatamente do cheiro dele, o cheiro do suor dele, o cheiro daquele manto negro de cabelos que ostentava e que sempre achara lindo. Naquela semana especifica chovera muito, estavam observando pela janela ao lado da cama aquela chuva que caia mansa do lado de fora, ele sorriu voltou seus olhos para seu rosto:

- Nós podíamos ter uma filhinha, o que você acha? Parecida com você e com os olhos como os meus.
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Ela sorriu passando a testa sobre a dele, apertando o contra o peito, os olhos azuis dele brilhavam cada vez que fazia esses planos:

- Sim, daqui alguns anos, quando estivermos casados, em nossa casa.

- Por que temos de esperar tanto? Você sabe que minha família é rica,  possuo uma fortuna, meu amor. Devíamos casar logo, nos amamos. Temos de ficar juntos.

A urgência que ele tinha de fazer as coisas, de ver seus planos concretizados sempre os levava aquela situação, ela já conhecia bem onde aquela conversa os levaria, insistiu tentando expor seu ponto de vista:

- Amor, não é assim que funciona. Preciso me formar ainda e você tem muito que apreender sobre os negócios da sua família.

Ele girou os olhos estava mais uma vez contrariado, levantou se da cama abruptamente, desfilando nu pelo quarto ate desaparecer pela porta do banheiro, não sem antes repetir o questionamento que sempre fazia:

- O que uma coisa impede a outra?

Ela suspirou, como sempre repetiu a pergunta que na época ele havia feito:

- O que uma coisa impede a outra?

Essas lembranças sempre a faziam sentir pior ainda sabia que no fundo a infelicidade dele era parte sua culpa, nunca conseguira entender a urgência das necessidades que ele sentia a verdade nunca conseguiu entender nada sobre ele, era profundo demais, intenso demais, único demais para ser entendido por ela. Com o passar do tempo ela só teve mais certeza de sua incapacidade. O vazio e seu remorso eram frutos disso, de seu despreparo e arrogância em tentar fazer as coisas saírem exatamente como desejava. Parou sua habitual tortura quando a voz da aeromoça anunciou o pouso em alguns minutos.

Assim que pousaram desceu a passos firmes e sem pressa depois de mais de uma década teria de estar ali frente a frente, estava decidida a dizer tudo que estava entalado em sua garganta, só desejava pedir perdão, dizer que o odiava... Não, com certeza não conseguiria dizer que o odiava, e que o culpava, o papel de culpada de sua vida miserável, da infelicidade dele e de o que houve devia apenas a si mesma, aceitava resignada toda a culpa e o arrependimento.

Desceu no aeroporto, comeu qualquer coisa na primeira lancheira que viu, um rapaz de cabelo comprido e escurou passou próximo de onde estava alheio a mulher que parecia hipnotizada por ele, na verdade tudo que ela conseguia pensar era em como estaria ele agora, podia estar mais lindo do que quando estavam juntos, poderia ter cortado os cabelos que tanto amava, talvez ate estivesse careca e cheio de filhos, casado com uma garota loira com cara de boneca e cérebro de amendoim ...Não definitivamente, não. Nunca isso aconteceria a ele, não era aquele tipo de homem que o tempo destrói, com certeza a sua ausência não seria tão nociva assim... Ou talvez fosse não havia como saber. A verdade era essa jamais saberia.

Irritada com suas ponderações sobre o que haveria acontecido, dirigiu para o local onde sabia que encontraria, estava ainda sem a menor pressa, sabia que acontece o que fosse depois daquele encontro uma parte dela estaria enterrada para sempre, iria resolver por fim o assunto pendente daquele dia, de anos atrás, aquele maldito dia em que ele pediu que ficasse um pouco mais.

Pegou um taxi, falou o endereço rapidamente para o motorista, sem sequer olhar para o mesmo, a medida que se aproximavam podia ouvir mais claramente as batidas de seu coração, parecia que esse iria parar a qualquer segundo, ou ainda que explodiria em seu peito, por segundo a imagens de uma das raras vezes que o viu sorrindo veio a sua mente. Sempre achou estranho esse fato, embora fosse uma criatura muito doce, ele quase nunca sorria os lindos olhos azuis sempre foram melancólicos, distantes e ate frios.

Sentiu sua coragem lhe abandonando quando o carro parou, desceu com alguma dificuldade, o chão parecia querer fugir de sob seus pés. Respirou fundo, ajeitando os cabelos atrás das orelhas e fechou o casaco negro, colocando imediatamente a mão nos bolsos, subindo pelo gramado com cuidado para ir encontra ló afinal não estava muito longe dali.

Fazia muito frio, parecia que ate a natureza havia decidido aumentar sua agonia, podia sentir a ele de seu rosto doer em contato com o vento gelado. Aquele local era típico dele lindas arvores estavam por todos os lados, sobre o gramado bem cuidado de um tom de verde exuberante, os pássaros pareciam estar por todo o lugar, havia vida por todo o lugar que os olhos alcançassem.

Não pode deixar de achar curioso, era menos deprimente do que estava imaginando não demorou muito até avista ló, sobre um grande carvalho, aproximou se olhando para o chão, devagar tentando ser o mais forte que pudesse não queria chorar, não queria nada dele, apenas queria dizer o que estava cravado em sua alma, e foi o que fez. Ficou de pé próximo a uma estatua que lembrava uma imagem sacra algo como um anjo ou um santo, sequer teve coragem de levantar os olhos, sentiu o perfume dele no ar, depois de todos aqueles anos, aquela aroma mexia com seus instintos ainda. Tomou folego e iniciou falando:

- Há quanto tempo, não é mesmo? Dezessete longos anos... Eu odeio o fato de não ter vindo antes e nem avisado ninguém que eu viria, mas eu não consegui você me conhece, sabe que eu nunca desejei vir te ver, evitei o máximo que eu pude... Mas te devia isso, não é mesmo? Se servir de consolo, eu entendo agora o que você queria me dizer e por que da sua pressa, em viver tudo comigo... Parece que você sempre teve uma bola de cristal, não sei exatamente quando viu o que nos aconteceria... Você não imagina quantas vezes me perguntei se eu tivesse feito como você queria se hoje as coisas seriam diferentes. Se hoje nós tivessemos a filha que sonhávamos... Os nossos filhos, a nossa vida.

Olhou para cima por um instante ao sentir os primeiros pingos da chuva, sorriu, voltando seus olhos para o grande carvalho, ascendeu um cigarro e continuo a dizer:

- Eu acho que no fundo tinha esperança de ver seu rosto, e descobrir que esses anos todos foram só uma mentira... Todos os dias eu rezei para acordar e descobrir que foi só um pesadelo... Um maldito e longo pesadelo. Daria minha alma para que isso fosse verdade, mas agora é tarde. Eu sei que você deve estar pensando, é eu mudei, mudei muito, acho que envelheci mais do que amadureci... O que eu desejo dizer, eu só queria poder dizer que se algum dia... Qualquer momento, você puder me perdoar pela minha fraqueza, pelo meu despreparo, pela minha incapacidade de te dar amor e deixar você me amar, eu então ficarei em paz, tudo o que desejo é o seu perdão... Eu devo muito a você... Sim, a culpa foi minha eu sei, por isso eu nunca vou conseguir me perdoar, talvez por isso eu esteja aqui te dizendo isso.

A chuva apertou um pouco mais, já molhava lhe o pesado cabelo, ela sorriu e disse:

- Só podia ser assim não é? Você, eu e a chuva, sempre fomos assim, só nós três. Não fique triste e não se preocupe comigo... Eu não vou achar alguém como você, tenha certeza disso... E tambem eu não vou mais tentar ser feliz sem você. Eu vou sobreviver... E quem saiba um dia possa até viver novamente. Meu amor, eu só desejo o melhor para você, quero que fique em paz e seja feliz... Eu sei que precisava ouvir isso para poder seguir em frente, que precisava saber... Saber que do meu jeito eu te amei cada segundo... Eu ainda te amo não do jeito que costumava ser, mas com um jeito de quem ama o melhor momento de sua vida... Eu tive o homem dos meus sonhos do meu lado nem que fosse por um breve instante, e fui muito feliz ao seu lado, só não fui mais por culpa minha.

Sorriu apagando o cigarro sobre um pedra, questionou meio que em tom de brincadeira:

Será que se fosse hoje seria diferente?  E quem sabe... Nós nunca vamos saber não é.

Ela sorri sentando se próxima a estatua, na verdade um lindo anjo de mármore branco as assas abertas e as mão sobre o peito, voltou seus olhos junto aos pés dessa, passou a mão para tirar a mistura de poeira e pó da lapide dele queria ao menos ver mais uma vez aqueles olhos azuis que tanto guiaram seu caminho e que hoje lhe faziam falta, continuou:

- Por favor, não se esqueça de mim, se você puder... Não tenho concisões de te exigir nada, nunca tive. Vou lembrar-me de você sempre, a cada momento que eu seguir em frente... E dos seus olhos que eu vou lembrar, os mesmos olhos azuis que iluminavam o meu caminho... Agora eu preciso partir... Preciso te deixar ir... Adeus, adeus meu grande amor.

Quando disse aquelas ultimas palavras sentiu vontade de chorar, mas não derrubou nenhuma lagrima, sentiu um nó se desfazer em sua garganta como se houvesse vomitada algo que lhe oprimia o peito, levantou se devagar, olhando cuidadosamente para o tumulo no chão, abaixo do grande carvalho, como que fazendo uma fotografia em sua mente para guardar aquele momento em sua mente. Naquele momento o som de gralhar de corvo a tirou de seu pensamento, o pássaro negro estava pousado sobre a lapide, batia o bico sobre a lapide insistente e a olhava como se estivesse ali para carregar suas palavras em suas penas.

Ela sorriu, dizendo a ave:

- Pássaro negro de mau agora... Vai levar minhas palavras aquele dorme nesse frio tumulo? Tranquilize o seu espirito, por mim...

Como se tivesse entendido o animal voa veloz passando muito próximo a ela, mesmo sobre a forte chuva que caia, deu um meio sorriso vendo o animal se afastar, olhou mais uma vez o tumulo e saiu em silêncio como havia chegado. A única diferença e que em seu peito havia a certeza agora... A certeza de nunca mais, precisaria se torturar de uma forma ou de outra, havia lhe pedido o perdão. De uma forma mais estranha ainda podia sentir em sua alma, ele a havia perdoado, e que agora eles estavam livres em fim para partir, cada qual em sua direção.

 Ele teria enfim seu descanso e ela ...
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Atualizado em: Qua 20 Abr 2016

Comentários  

#2 TEMPLARIO 18-06-2016 15:40
EMOCIONANTE PARABENS
#1 PauloJose 25-04-2016 21:04
ESSE ANIMAL É CONSAGRADO POR DEUS SEGUNDO OS HISTORIADORES E SOCIÓLOGOS, FILÓSOFOS E TEÓLOGOS

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