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O cumprimentos de missões

Aquela sim era uma viagem longa. As condições de travessia eram precárias. Além do mar constantemente revolto e somando com a sua estréia como passageiro de um navio tornava uma experiência atormentadora.

Deixou lá atrás momentaneamente, em Portugal, a sua alegria de ser um missionário de Cristo. “Estou com medo e assustado horrendamente” era o que dizia constantemente para seus botões. A viagem por mais que fosse encorajada pelo capitão torna-se cada vez mais inexplicável para si. “De todos os novatos recém-batizados por eu fui o escolhido para catequizar numa terra tão longe e, conforme os relatos recentes, tão selvagem?”.

Colocaram-no com a batina, uma bíblia, uma sandália e uma série de missões a serem cumpridas. Nada mais. O pagamento da viagem e de seus direitos como passageiro foram pagos diretamente para a companhia que realizava a empreitada para o rei de Portugal.

Nessa travessia iam degredados, militares, funcionários da corte e ele como o único representante da igreja. Padre Joaquim era o seu nome.

Pelo que comentavam apesar de ser uma terra selvagem era bela e bem assistida pela natureza. Um continente com muitas riquezas vegetais e minerais. Suas florestas eram enormes e habitadas por povos indígenas que não tinham a mínima idéia do tamanho territorial em que moravam.

Os militares diziam que a principal missão era escravizar os silvícolas para trabalhos braçais e também entregá-los para a igreja para aprenderem o temor a Deus.

Os degredados seriam enviados para as regiões interiores para povoarem e servirem de desbravadores para futuras expedições colonizadoras.

Aos funcionários caberiam os gerenciamentos provisórios do que chamavam de capitanias que estariam já sendo criadas.

Ele procurava participar ativamente das conversas, mas o balanço do navio acabava nocauteando-o. Tinha vômitos constantes e era obrigado a se manter recolhido na cabine malcheirosa e infestada de insetos e roedores que lhe arrumaram. Nem os serviços religiosos que pediam, como, as confissões, missas e as extremas-unções devido às diversas mortes que ocorrem durante essas expedições, sempre causadas pelas condições mínimas de higiene e segurança, eram realizados, por ele, com esmero.

Com esse recolhimento obrigatório só lhe restava rezar sobre a puída bíblia que ganhara do seu padrinho e estabelecer votos de obediência ao Senhor visando, a bondade, a caridade e o amor para aqueles que fossem colocados sob a proteção de sua missão de clérigo.

Foi o passageiro que mais se alegrou quando o vigia anunciou a visão de terras. Correu, como todos, ao tombadilho. Todos iam gradativamente vislumbrando o novo mundo conquistado pela coroa portuguesa.

 

Desembarcaram em um local chamado Capitania de São Vicente. Ao desembarcarem foram recepcionados pelas altas autoridades locais com festas. O bispo do local, Dom Aureliano, veio em sua direção dando vivas juntamente com crianças indígenas de várias idades e tamanhos. Para ele foi um choque inicial, pois estavam todos nus, com enfeites de penas de aves apenas nas cabeças. Meninos e meninas simplesmente nus. Sentiu-se envergonhado e evitava olhar. Mantinha-se atento ao senhor bispo que percebendo sua estupefação lhe disse amigavelmente que se acostumaria logo mais.

Seu superior depois o levou para uma igreja construída de madeiras mostrando-lhe o seu aposento provisório, que seria somente por três dias aproximadamente, até a chegada de um capitão-do-mato que está sempre a serviço das autoridades locais.

“Esse capitão-do-mato levara você para uma região recentemente desbravada para ser habitada por degradados e oficiais da milícia local. No futuro essa região se tornará um povoado” disse o seu superior.

Indagado se queria algo mais, revelou por menores o quanto sofrera na viagem e respeitosamente solicitou ao seu superior a permissão de se recolher em definitivo para um banho e depois dormir. Prontamente foi atendido por ele. “Você não imagina o que eu passei na minha viagem” disse o senhor bispo.

Assim que se sentiu na sua intimidade, banhou-se longamente na tina de água quente preparada pelos criados indígenas a serviço do clero local.

Dormiu profundamente perdendo lá fora o espetáculo dos raios dourados do sol que se recolhia no horizonte sem não antes pintar também de dourado os brancos grãos de areia da praia.

 

Acordou somente quando os primeiros raios do mesmo sol aqueceram sua rede. Estava dolorido, mas o sono aconchegante provocado pelo silêncio do local e da brisa suave que na noite toda soprou, estava agora pronto para iniciar verdadeiramente a sua vida missionária. Tudo até agora eram aulas teóricas e o momento da prática tinha se anunciado.

Seu superior o aguardava sentado numa varanda externa de sua choupana de sapé onde serviam de bancos vários pedaços de troncos de arvores.

Como ele, igualmente trazia também uma bíblia que lia concentrado. Esperou um pouco afastado esperando que fosse chamado, o que ocorreu imediatamente através da indicação do banco a sua frente. Assim acomodado iniciaram uma longa conversa como a descrição do local, os hábitos da corte, dos escravos indígenas, das riquezas, das tristezas do povo pelas saudades do reino, e principalmente da missão religiosa catequizadora que estavam empenhados.

“Estou lhe alertando também dos perigos da floresta com os seus animais e dos índios ainda não catequizados longe da intenção de amedrontá-lo, mas sim para prepará-lo aos perigos que nós os civilizados não estamos acostumados” enfatizou muito bem o senhor bispo.

Alertou sobre a política gananciosa das autoridades preocupadas que, além de explorar gananciosamente a riqueza local para a corte e para si mesmo, estavam sempre atentos a se livrarem dos que se opunham às atrocidades que se escondiam atrás do poder.

Levaram horas de conversas interessantes e grotescas, naturais na região ainda tão selvagem. Nem perceberam que a hora do almoço já se anunciara.

Convidado a entrar percebeu uma residência simples, mas muito bem cuidada. A refeição já estava posta pelos criados sob a orientação das beatas que sempre se revezavam aos cuidados da maior autoridade eclesiástica no local. Uma mesa completa com muitas frutas, raízes cozidas, mel, doces e pães. Fartou-se como se fosse a última refeição.

 

E começa a cumprir seus deveres enquanto aguardava sua viagem.

Realiza pequenos serviços religiosos como o atendimento aos queixumes da população, orientações religiosas, catequese das crianças indígenas. Ao mesmo tempo procurava com elas aprender sobre os costumes das tribos de onde foram brutalmente arrancadas em nome de um Deus que não conheciam ou temiam. Esforça-se também a aprender as primeiras palavras daquela língua a principio estranha, mas gradativamente se tornando atraente e interessante.

Conforme previamente anunciado dois dias depois chega ao povoado o tão esperado capitão-do-mato trazendo acorrentados e amarrados com cipó vários índios, meninos e meninas na sua maioria. Todos tinham marcas de maltrato aparentes. Com certeza tinham sido submetidos a varias sevícias e somente Deus saberia a sua real extensão. Foram colocados sentados em frente à casa do bispo que fora chamado. Sete eram fugitivos e doze recentemente escravizados. Todos pelas marcas devem ter lutado muito para tentarem conseguir a liberdade.

Assim que o seu superior chegou o capitão falou aos ouvidos do religioso que sorriu discretamente. Dirigiu-se aos prisioneiros selecionando três meninas e um menino. Deu ordens e expressou gestos mandando que fossem separados e levados ainda amarrados para dentro de sua casa. O restante seguiu com os capangas em direção a pretoria local.

Padre Joaquim achou todas as atitudes, principalmente o de seu chefe, no mínimo estranha, mas não deu trelas por se achar desconhecedor dos hábitos dos locais. Deduziu que talvez aqueles que foram escolhidos pelo senhor bispo seriam os mais arredios, merecendo mais atenção para uma pronta catequização.

Esqueceu o assunto quando no período da tarde se aplicou nas tarefas que recebera para desempenhar.

Rezou as missas programadas, atendeu para as confissões, ensinou na pequena escola local, ensaiou canções religiosas com várias crianças e recebeu a visita do capitão-do-mato informando-o que sairiam antes do nascer do sol e que viajariam por dez dias pela mata. Era depois do ocaso quando recebeu essas noticias.

Esperou que passasse a hora habitual do jantar do seu superior e para lá se dirigiu objetivando deixá-lo ao par das informações que recebera e dar ciência das suas tarefas cumpridas.

A casa estava aberta e como todas as do povoado só tinham duas entradas e geralmente ficavam com as portas entreabertas. Chamou respeitosamente pelo nome do superior e como tinha sido autorizado se postaria no primeiro cômodo aguardando até ser recebido. Estranhamente como não foi percebida a sua presença, fez mandado pelo seu bom-senso que se fizesse anunciar novamente. E novamente prevaleceu o silencio no local. “Deve estar no seu quarto a repousar” deduziu.

Já ia se retirando quando escutou estranhos ruídos vindo dos cômodos do fundo. Pareciam choros, ou lamentações na língua indígena, como reclamações de dores. O som era abafado, mas sugeria alguma atividade estranha. Pensou que talvez o seu superior estivesse doente e sendo cuidado pela criadagem. “E se ele estivesse só e doente?”.

 

Resolve entrar e para sua surpresa o quarto dele está vazio. Aguça seus ouvidos e percebe que vem lá de dentro, depois da cozinha, numa pequena despensa de alimentos. Dirige-se cautelosamente procurando não fazer barulho e vê no compartimento a luz de uma lamparina. Quando vai se aproximando ouve mais gemidos de medo e dor. Aproxima-se e olhando pelas frestas fica estarrecido. Não sabe o que fazer.

Lá dentro seu superior nu está deitado sobre uma das meninas índias que ele apartou na chegada da comitiva. A menina estava amarrada ao pé direito da construção e ele tapava sua boca com uma das mãos enquanto violentava a pobre e indefesa vitima.

 

Com lágrimas nos olhos se retira também em silencio. Não consegue dormir a noite inteira. Chega a se arrepender de ter escolhido sua profissão. Chega a se arrepender também de não ter tomado na hora uma postura de protesto contra tão brutal comportamento. “Eu sendo tão novo como convenceria outras autoridades de serem verdadeiros os meus relatos? E se mais autoridades participassem igualmente de atos semelhantes com o bispo?”. Nenhuma noite passada durante as várias tempestades no navio se comparou como essa.

 

Antes do amanhecer está a postos para empreitar a sua jornada. Refletiu sobre o que viu a noite toda e depois de muita decepção se agarrou na sua porção de fé e decide continuar a sua missão. Ia rezar pelo irmão superior para que se reencontrasse com as suas verdadeiras convicções. Encontra-o junto com o capitão acertando detalhes relacionados com a segurança para a missão prestes a se iniciar.

Sem olhar nos olhos recebe dele as últimas orientações e ordens. Partiu rumo ao interior. Nunca mais se veriam, pois seis meses depois o bispo morreria de febre, uma doença comum nessa região.

Assim que soube da morte retornou ao povoado. Realiza todas as providencias necessárias. Como mandava a sua obrigação escreve à corte comunicando o ocorrido. Passado meses chega um novo bispo. Na apresentação entrega as incumbências que assumiu provisoriamente. Na sua primeira confissão com o seu superior relata o ocorrido. Pede perdão pelo antigo superior e a si mesmo por ter sido, em sua opinião um covarde.

Padre Joaquim continuou na sua fé verdadeira e nunca cometeu erros como presenciou e nem outros, tendo como exemplo a decepção que sentiu pelas ações do irmão.

Desencarnou em idade avançada sentindo-se realizado.

Eu o recebi na Aruanda, ao qual pertenço e, procurei agradecer pelo cumprimento da missão tão bela. Eu era o seu mestre espiritual, seu tutor, antes dele reencarnar como missionário.

Comentei com autorização dos Guardiões Superiores que aquele filho, o bispo, pertencera à mesma Aruanda e pelos seus erros foi recebido pelas escolas correcionais, julgado e que estava paralisado em estabelecimentos próprios cumprindo pena pelos seus atos.

Hoje eu falo ao amado cavalinho, como uma lição, que a vida missionária tem muitos percalços, armadilhas perigosas. Narrei essa história como exemplo e deixo isso revelado para que você, meu atual instrumento, se mantenha fiel a sua árdua missão. Aquele filho antes de ser bispo foi um fiel servidor das leis divinas, acumulando muitos atributos e qualidades sensacionais pela sua dedicação.

Perdeu-se no seu caminho recebendo o que lhe cabia de merecimento e, agora, regressou a árdua tarefa de auxiliar os necessitados pelas pátrias afins. Ele rodeia ainda as nossas Aruandas da querida Umbanda recebendo missões como guia. Veste-se na linha de baiano, esperançoso de um dia retornar para as vibrações seguras do nosso meio sagrado.

Ele atualmente trabalha com meu amoroso cavalinho quando incorporado com nome de Baiano Genival. Logo mais deve receber seu merecido premio e se revestirá com certeza como um caboclo, preto-velho ou criança. Isso ele já tem somado na própria aura. Dificilmente perderá esse direito.

Que assim seja ensinado.

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Atualizado em: Dom 6 Mar 2011

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