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Quando Deus fala ao Coração

Capitulo I

Vera caminhava totalmente transtornada pelas ruas. As lágrimas lavavam o seu rosto, estava sem saber o que fazer com seu coração partido, arrasado e destruído. Tinha apenas um pensamento, se vingar de todos que a humilharam.

Enquanto caminhava sem rumo pelas ruas, seu ódio aumentava e a revolta lhe consumia. Desejava ardentemente vingar-se de todos que a destruíram e a enganaram, que abusaram de sua inocência para enganá-la daquela forma. Enquanto caminhava pelas ruas, pensava no filho que carregava no ventre, fruto de um amor mentiroso. Vera não sabia o que fazer.

A única coisa que sabia é que sua vida acabara, estava sozinha em uma cidade que pouco conhecia, sem emprego, sem um lugar para morar, sem dinheiro e ainda para piorar, estava grávida. Quem lhe daria um emprego nas condições que ela se encontrava?

Pensava como pode ser tola a acreditar em contos de fada, já que ela é uma moça simples, do interior... poderia se casar com um moço rico da cidade. Isso só acontece em contos de fada, na vida real nunca iria acontecer. Como foi burra em acreditar nas promessas de amor que Raul lhe dizia, já que ele era um moço rico e educado. Jamais se casaria com uma simples empregada. Mas estava apaixonada e deixou se levar pelas promessas de Raul, agora estava sozinha, grávida e sem emprego. Não sabia o que fazer e nem para onde ir. Não podia voltar para casa naquele estado, seu pai não iria aceitá-la.

Sentou-se em um ponto de ônibus, secou as lágrimas, respirou fundo e ali permaneceu durante algumas horas, revivendo os últimos instantes que passou com Raul. Novamente se pôs a chorar. E pensou que a única solução era se matar, já que não tinha mais saída. Estava abandonada, sem nada e ainda por cima levava no ventre um filho indesejado, e cada vez mais sinta que sua única opção era dar fim neste sofrimento. Tomou coragem e pensou em se jogar na frente do primeiro carro que passasse. Assim daria fim à vida miserável que estava tendo.

Foi então, que começou a pensar em sua vida desde o tempo de criança. Era a mais velha de oito irmãos, vivia em uma casa de dois cômodos. Com doze anos tinha que trabalhar para ajudar a mãe nas despesas da casa. Sua mãe era uma pessoa generosa e bondosa e nunca ouviu uma reclamação da situação em que viviam. Trabalhava como lavadeira para colocar o que comer na mesa, enquanto seu pai passava os dias a beber e a reclamar das coisas. Sempre que chegava em casa bêbado reclamava da comida, do barulho, das crianças e muitas vezes ele batia em sua mãe. Vera ficava em seu quarto com os irmãos escutando tudo, desejando que acabasse. Então ouvia seu pai sair outra vez para beber e escutava sua mãe chorar por horas. Vera não entendia por que sua mãe aceitava tudo isso calada e por que não o enfrentava, já que ele não fazia nada, só atormentava a vida dela e dos filhos.

Muitas vezes Vera conversava com a mãe, pedindo para que ela o deixasse e lhe perguntava por que não se defendia.

-Por que permite que ele lhe trate assim?

-Vera, você é muito nova para entender.

-Entender o que mãe?

-A senhora se mata lavando roupa, enquanto ele enche a cara e ainda por cima lhe agride. Isso não dá para entender mãe, me desculpe. Eu o odeio, quero que ele morra.

-Não fale assim, filha, ele é seu pai.

-Ele é tudo, menos pai. Um dia eu vou sair daqui, estudar e vencer. Voltarei para buscá-la com meus irmãos.

Sua mãe lhe abraçou e disse que era muito criança pra se preocupar com essas coisas.

-Vá trabalhar, pois você sabe que dona Tereza não gosta que se atrase.

-Tá bom, mãe.

Vera lhe deu um beijo no rosto e saiu para mais um dia de trabalho.

 

Agora Vera estava ali sentada em um ponto de ônibus, grávida.

-Como pude ser ingênua, ao pensar que vindo para a capital seria feliz e realizaria todos os meus sonhos. De que iria ser alguém, tendo um diploma de doutora. Como Deus pode ser tão injusto? Como deus permitiu que ela passasse por tudo isso?

Ela pensou que Deus não existe. Se sua mãe que era tão generosa, que possuía uma fé inabalável e confiava em suas palavras a abandonou...Que Deus é esse?, pensou Vera. Chorou intensamente e lembrou das palavras de sua mãe, quando saiu para trabalhar e estudar na capital.

-Filha, se é o que deseja, o que posso fazer senão te abençoar e ficar aqui rezando para que você consiga realizar todos os seus sonhos? Que seja muito feliz. Vá, que Deus na sua infinita bondade lhe orientará. Que ele lhe proteja! Saiba que eu me orgulho por ser sua mãe e te amo. Vá com Deus!

Como sua mãe, ela era simples. Agora estava ali sozinha, cansada, infeliz e acima de tudo desprezada e grávida. Não havia mais saída, a única solução era a morte. Colocaria um fim em seu sofrimento, era isso mesmo que tinha que fazer e estava resolvida. Viu as luzes de um farol de carro vindo em sua direção, levantou-se e ficou ali esperando o carro se aproximar. Pensou em sua mãe e pediu perdão. Jogou-se na frente do carro e sentiu uma dor horrível em todo o seu corpo, tudo ficou longínquo.

-Eu não sei o que aconteceu, de repente ela apareceu do nada, não tive tempo de frear.

-Chame uma ambulância!

-Será que ela morreu?

-Ela está muito machucada?

Ela não ouviu mais nada, pensou que tinha acabado. Vera abriu os olhos, sentiu uma dor imensa em seu corpo e mal conseguia respirar. Olhou ao redor e percebeu que estava em um hospital. Ouviu uma voz tênue e gentil quando acordou.

-Você sofreu um acidente e está em um hospital. Meu nome é Carmem, sou a enfermeira que atendeu você quando chegou. Está dormindo há uma semana. Venho todos os dias para ver como estás, pois já havias acordado, mesmo nos dias em que não estou de plantão.

-Sabia que você conseguiria e queria estar aqui quando acordasse.

-Agora fique calma não fale muito. Você não pode se cansar.

-Amanhã eu volto para te visitar.

Vera ficou observando Carmem se retirar do quarto, e pensou por que a salvaram e não a deixaram morrer. Sentiu uma raiva muito forte, não entendia por que ainda estava viva e por que Deus fazia isso com ela. Adormeceu. Era cedo, quando Vera abriu seus olhos lentamente, sentia muitas dores em seu corpo, mas isso não a perturbava. Pois, a dor maior e insuportável era a que vinha do seu coração. Novamente ouviu aquela voz doce e terna de dona Carmem.

-Bom dia, minha menina, como se sente hoje?

Vera custou a responder, ainda sentia muita raiva por estar viva.

-Por que não me deixou morrer? Por que permitiu que eu vivesse?

-Filha, ainda não era sua hora, quem decide é Deus, não eu. Não nos cabe tirar a vida. Em um momento de desespero você achou que a morte iria atenuar suas dores e aflições, mas filha, atentar contra a vida só nos traz mais dores e angústias.

Às vezes, quando estamos passando por problemas, não conseguimos ver o que está em nossa volta. Por que estamos submersos com nossas dores, não percebemos o auxílio que Deus nos envia, mas tenha fé em Deus, pois ele nunca abandona um filho. Temos que aprender com nossos sofrimentos e tirar deles todo o aprendizado possível, pois as dores e dificuldades que enfrentamos no decorrer de nossa existência é nada mais do que uma forma de evoluir na espiritualidade de nos aperfeiçoarmos.

-Filha, Deus nosso Pai não castiga e não pune ninguém, ele não nos julga nem condena, nós e que nos desesperamos diante das dificuldades. Não temos paciência e compreensão para entender o que nos acontece em determinado momento de nossas vidas. O dia em que pudermos enfrentar as dificuldades e adversidades com sabedoria e resignação e vê-las como uma forma de aprendizado, não haverá desespero. Deus tem tantas coisas boas pra nos ensinar...basta termos tempo para ouvir e resolvemos aceitá-las. Bem, agora tenho que ir, pois tenho mais pacientes para medicar, fique na paz de Deus.

Vera ficou observando dona Dalva se afastar em silêncio e antes que ela chegasse à porta falou:

-Como podes entender o que sinto? Como podes saber a extensão do meu sofrimento alheio? Suas palavras formam um amontoado de besteiras e de tolices. Só quem sofre pode saber. E me diga o que de bom se pode tirar da miséria? E do sofrimento? É fácil falar palavras lindas, cheias de esperança, cheias de fé, mas na realidade não sabem nada, pois tem uma vida repleta de glórias, em amarguras. Nunca passaram fome ou foram menosprezados, sempre tiveram conforto e facilidades para tudo. Se nada sabem o que é sofrer. Não preciso de piedade de ninguém e muito menos de esse seu Deus, tão bondoso e atencioso.

Dona Dalva se voltou para Vera e com um sorriso tênue lhe disse:

-Filha, é compreensível que estejas revoltada e com raiva de tudo e de todos. Eu entendo que muitas vezes a vida é dura e implacável e que em determinado momento pensamos que não conseguiremos, entendo a sua dor. Mas, Vera, nada aqui é por caso, nada é sem razão, tudo tem uma explicação, um motivo. Vou te contar uma parábola de Jesus, que ele nos deixou, como um exemplo para que até hoje leiamos. Então disse Jesus aos seus discípulos:

O reúno dos céus e semelhante ao homem que semeia boa semente no campo: mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou o joio no meio do trigo. E quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor não semeastes no teu campo boa semente? Por que tem, então, joio? E ele lhes disse: um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres, pois que vamos arrancá-lo? Porém ele lhes disse: Não para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até a ceifa, direi aos ceifeiros: colha primeiro o joio e atai em molhos para queimá-lo: mas o trigo, ajuntai no meu celeiro. O que entendemos por separar o joio do trigo? Em primeiro lugar é difícil separar coisas semelhantes sem conhecê-las, pois o joio é semelhante ao trigo, e se não conhecemos as diferenças podemos arrancar o trigo pensando ser o joio. Devemos deixar crescerem juntos, pois, ao crescerem a diferença fica mais visível. Assim, são nossas vidas, precisamos deixar que o joio cresça entre nós para depois podermos diferenciá-lo e ceifá-lo, deixando assim só o trigo. O joio são as nossas aflições e dores e o trigo nosso aprendizado. Conforme o joio vai crescendo junto ao trigo temos mais facilidade de identificá-lo, porque conforme ele cresce junto ao trigo vamos aprendendo a diferenciá-lo do trigo. Por trazer consigo algumas diferenças visíveis a nós. Assim, temos como corrigir, ceifando o joio e deixando o trigo. Bem, agora tenho que visitar outros pacientes, fique na paz de Deus. E lembre-se, tudo na vida é passageiro, tudo pode ser renovado. A dor passa, as lágrimas secam e o sol nasce todo o dia. Portanto, escute e supere com grande sabedoria e fé, aprenda tudo o que puder dessas dificuldades e peça auxílio a Deus. Quando desistimos de viver, não sabemos o que fazemos, pois acreditamos que acabamos com os sofrimentos... Esse é um engano doloroso e muito difícil. Achamos que os sofrimentos acabam com morte física do corpo. Enganamos-nos. Boa noite minha filha.

-Boa noite dona Dalva

Vera ficou pensando em tudo que dona Dalva havia lhe dito, como ela poderia ter tanta certeza que de seus problemas não teriam fim com a morte.

-Amanhã vou perguntar como ela sabe que os problemas não acabam com a morte, pois quando a morte chega é o fim de tudo... como poderia afirmar com tanta convicção e veemência que continua tudo após a morte?

Quanta tolice, pensou Vera. Isso se daria pelo fato de ela trabalhar em um hospital e lidar com a morte todos os dias, para fugir dessa realidade e dar esperança àqueles que estão morrendo e vão continuar a viver após a morte do corpo.

-Isso é mentira, ela mente para os coitados e ainda por cima acha certo enganá-los até na hora da morte. Isso prova que não existem mesmo pessoas boas, todos querem enrolar, mentir e enganar de todas as formas possíveis e imagináveis.

Vera pensou com ternura em sua mãe, pois era a única pessoa simples, sincera e honesta que conheceu e que suportava tudo com fé, resignação e esperança ,sempre disposta a ajudar a todos que necessitassem. Mesmo sofrendo, ela nunca recusou a ajudar alguém, estava sempre feliz e esperançosa. De onde ela tirava tanta força e bondade? De onde vinha aquela vontade da ajudar e auxiliar ao próximo. Ela, que muitas vezes não tinha dinheiro para pôr na mesa. Admirava aquela mulher, admirava a forma como ela amava os filhos, a maneira que ela os orientava, sempre com muita fé e esperança, com palavras de conforto e acima de tudo, na simplicidade de uma lavadeira. Sempre tinha palavras reconfortantes para mostrar de uma forma salutar os momentos conflitantes de todos em casa e mesmo dos outros, que lhe recorriam quando necessitavam de um conselho ou simplesmente ouvir suas palavras. Sempre fazia da escuridão, a luz, a transformação. Como mesmo ela dizia, a “transformação de tudo nesta vida: da noite se faz o dia, da chuva se faz o sol”. Nada fica parado no universo, tudo se move, tudo se modifica. Basta sabermos usar e como transformar, pois de uma folha de erva podemos transformá-la em cura para várias doenças. Mas, para isso temos que respeitar a mudança. Sempre a ouvia quando criança, sem entender o que ela dizia, como até hoje ainda não compreende.

-Sei que a deixo triste, sei que vou decepcioná-la, por essa razão é que definitivamente tenho que por um fim nisso tudo, mãe. Por favor, me perdoe. Por favor, me desculpe por não ser assim como você, forte e esperançosa. Por favor, desculpe a minha ignorância e incapacidade de entender o que você quis dizer.

Vera adormeceu com seus pensamentos e lembrou-se de sua avó. Era estranho, pois já fazia muito tempo que não se recordava mais dela. Sentiu saudades e desejou que ela estivesse ali com ela. E adormeceu num sono profundo e sonhou que estava andando por um jardim ensolarado com várias espécies de flores. Era engraçado, pensou Vera, ao mesmo tempo em que eram familiares. Vera tinha a sensação que elas possuíam algo diferente, eram semelhantes as que ela via todos os dias em praças e jardins, mas ali, elas se diferenciavam com as que ela estava acostumada a ver. Exalavam um perfume que ela jamais sentira em todo a sua vida. Ficou ali por um tempo a observá-las e sentiu uma paz, uma sensação de liberdade e leveza por alguns instantes, se sentiu amada e protegida. Sentia-se assim quando era criança, junto à sua avó. Continuou a caminhar pelo jardim. Eram estranhas para Vera as sensações de felicidade, uma paz interior invadia todo seu corpo e mente. Vera pensou que ali deveria ser o paraíso que sua avó falava. Desejou não sair dali, sentou-se embaixo de uma árvore e lembrou-se novamente de sua avó. Desejou que ela estivesse ali junto, pois sua avó sempre cantava uma canção quando Vera se sentia triste ou se machucava.

-Estranho, faz anos que eu também não me recordava canção, como era mesmo?

Vera tentou se recordar.

 

Estou ouvindo estou ouvindo vem lá do céu...

Estou ouvindo suas asas a deslizar...

Pelas nuvens lá do céu.

Estou ouvindo, ouvindo suas asas a deslizarem lá no céu...

Vem correndo vem correndo a me escutar...

Vem correndo vem correndo lá no céu a ouvir a ouvir o meu chorar.

Estou ouvindo estou ouvindo a suas asas a deslizar lá no céu a me procurar.

Vem correndo vem correndo lá no céu

A ouvir, ouvir o meu chorar...

Vem chegando, chegando devagar.

Vai levando, levando o meu chorar.

Estou sentindo, sentindo a paz voltar.

Estou ouvindo lá no céu as asas a deslizar

Estou sentindo, sentindo a paz voltar...

 

Vera chorou, mas dessa vez foi de felicidade. Como era bom ouvir novamente essa canção!

Assim seja.


Capitulo II

Passava das três horas da madrugada quando Raul chegou em casa. Acendeu a luz da cozinha e levou um susto quando viu sua mãe.

-Mãe, já passa das três horas da madrugada! O que você faz acordada até essa hora?

-Estou te esperando, Raul. Você tem chegado todos os dias em casa essa hora e alcoolizado. Filho, que você está fazendo da vida? Acha certo faltar à faculdade? Já está na hora de você começar a ter juízo e responsabilidades. Eu e seu pai estamos preocupados com você. Não pode mais ficar concertando seus erros ou encobrindo sua falta, não está certo Raul.

-Mãe, deixa isso para depois, estou cansado e com sono, quero ir para cama. Boa noite, mãe.

Deu um beijo em seu rosto e subiu as escadas. Marta ficou observando Raul se afastar e pensou no que havia feito de errado na educação de seu filho, pois cada dia que passava se tornava mais irresponsável e inconseqüente.

-Talvez quando ele ficar mais velho tenha mais responsabilidades.

Raul entrou em seu quarto e pensou em Vera. Quem ela pensa que é para tirar assim sua tranqüilidade?

-Se ela pensa que me importo com ela está muito enganada, não significa nada para mim. É só uma aventura. Que se dane, não vou mais pensar nesta tolice. É bem capaz que vou me apaixonar por uma matuta, era só o que faltava...

Tirou a roupa e caiu na cama, em instantes estava dormindo profundamente.

Viu-se em um lugar frio e escuro. Alguém o perseguia e torturava, quanto mais Raul tentava fugir. Ele sentiu um medo horrível, queria fugir dele e corria, gritava, estava completamente apavorado.

-Por que você está fazendo isso comigo? O que lhe fiz? Deixe-me em paz.

E o homem lhe respondeu com os olhos cheios de raiva e rancor.

-Conhece sim. Agora que eu te achei não pense você que vou te deixar. Conheço-te muito bem, Jonas.

-Por que me chamas de Jonas? Meu nome é Raul.

-Não tente me enganar Jonas, dessa vez eu vou me vingar de você por todo o mal que me fizeste. Sei bem quem você é e não importa a forma como o encontrei, sei que é você e vou destruir sua vida assim como fizeste com a minha, tenha certeza disso. Tenho muito a cobrar de você e não terei pressa em me vingar, será a melhor de todas as vinganças, vou destruí-lo.

-Não sei quem é esse tal de Jonas, já te falei. Por favor, me deixe em paz, você é louco, cara.

Raul acordou assustado, estava tremendo de medo e jamais esqueceria aquele olhar cheio de raiva e ódio. Custou a adormecer novamente, pois tinha medo de ter o mesmo pesadelo. Já passava do meio dia quando Raul se levantou e se olhou no espelho. Estava com uma aparência horrível, sua cabeça doía e lembrou do pesadelo que teve. Já vinha tendo esses pesadelos há algum tempo, mas ultimamente eles estavam mais assustadores. Tomou um banho se vestiu e desceu.

Estava rezando para que seu pai já tivesse ido trabalhar, pois não estava nada bem e não queria ouvir os sermões dele. Tinha problemas demais e não estava afim de ouvir o mesmo sermão de sempre. Dona Rosa foi ao encontro de Raul.

-Boa tarde, doutor Raul, posso lhe servir o almoço agora?

-Não, Rosinha, obrigado, estou atrasado e não quero encontrar com meu pai.

-O doutor Lauro almoçou cedo e saiu, pois tinha um compromisso importante para ser resolvido.

-Graças a Deus!

-Sua mãe como sempre deu uma desculpa para o seu pai. Disse que você não estava bem, tinha acordado indisposto e achou melhor deixar o senhor dormir até mais tarde.

-Que bom, Rosinha, pois você sabe muito bem como é o doutor Lauro de Queiroz e Sá. Sempre com seu sermão de que eu não faço nada, que sou um "boa vida" e só fico por aí vagabundeando e arrumando confusão.

-Mas não é para menos, doutor Raul, ultimamente anda fazendo coisas que não são corretas. O doutor me desculpe eu falar assim, mas sabe que eu gosto do senhor como se fosse meu filho. Já trabalho aqui há mais de vinte anos e me preocupo com o senhor.

-Lá vem você de novo com a história da Vera.

-Doutor Raul, o que o senhor fez com a coitada da Vera não se faz com ninguém, ainda mais sendo ela uma menina ingênua e simples.

-De ingênua ela não tem nada, até queria dar o golpe da barriga, vocês é que pensam que ela é uma santa. Rosinha, vamos deixar esse assunto para lá, já está tudo resolvido mesmo, agora deixa eu ir embora que tenho muito que fazer.

-Mas o doutor não vai comer nada? Vou pegar uma maçã lá na cozinha.

-Onde está a mamãe?

-Ela foi à casa de dona Eulália, me parece que ela está com problemas com sua filha Eunice.

-Aquela mesmo nunca foi bem certada da cabeça.

-Não fala assim doutor Raul.

-Ela é esquisita mesmo, sempre aonde vai arruma problemas. Ouvi falar que na casa dos Mendonça ela arrumou uma confusão e tanto, disse que o pai do Olavo estava lá. Assustou todos. Começou a falar umas coisas esquisitas, dizendo que o morto é que falava. Foi muito constrangedor para o senhor Douglas. Eles até pediram desculpas por ela.

-Crus credos, doutor, essas coisas de fantasma eu tenho medo.

-Rosinha fantasma não existe, é coisa de gente ignorante, e as pessoas que dizem que vêem e falam com os mortos são doentes mentais, tal como a Eugênia.

-Bem Rosinha, a conversa está boa, mas tenho que ir.

Raul deu um beijo em Rosa e saiu. Ela pensou em rezar à noite para essa menina.

-Coitada. Se ela diz que fala com o morto é bom mesmo que o senhor Lauro consiga um bom médico para ela.

-Deus me livre!

 

Dona Eulália esperava ansiosa a chegada de Teresa.

-Que bom que você veio, Teresa, não sei como lhe agradecer. Você deixou suas obrigações assim que eu te liguei...

-Não é nada, Eulália, não precisa me agradecer por nada. Sei bem como é... e não me incomoda em nada vir aqui lhe ajudar neste momento tão delicado que vocês estão passando com a Eugênia. Sou mãe e sei como e difícil nesta hora. Somos como irmãos, nossa amizade é de muitos anos e neste momento de aflição é sensato estar aqui junto com você para te ajudar. Gosto muito de Eugênia.

-Lauro, foi conversar hoje com o doutor Augusto para falar do caso de Eugênia. Lauro me disse que o doutor Augusto é um dos melhores psiquiatras do país e temos certeza que ele irá ajudar Eugênia nesta fase ruim que ela está passando. Graças a Deus, Teresa. Não vejo a hora que Eugênia melhore e deixe essas tolices de lado, seja uma moça normal como qualquer uma da idade dela. A cada dia que passa ela piora, vem com aquelas besteiras de falar com os mortos, de que vê gente morta, estou ficando apavorada com ela, já fiz de tudo mais ela ainda insiste nisso. Teresa, como ela pode ser assim? Por que Eugênia não pára com isso?

Eulália caiu no choro.

-Não chore, ela vai ficar boa e logo você vai ver ela bem com o tratamento do psiquiatra.

-Deus te ouça, Teresa. Já não tenho mais coragem de ir às festas, pois sei que eles falam que tenho uma filha maluca, sei que eles ficam com pena de nós por termos uma filha totalmente desequilibrada. Não está sendo nada fácil para mim e Francisco. Ele acha uma boa levá-la ao psiquiatra, disse que ele irá ajudá-la. No começo eu era contra, mas agora sei que é o melhor para ela. Você sabe como são os comentários maldosos. Quando descobrirem que Eugênia está se tratando com um psiquiatra... temos que enfrentar isso. Não vejo a hora que Eugênia se torne uma garota normal, como as meninas da idade dela. Passa todos os dias trancada naquele quarto, não tem amiga, não conversa com ninguém, estou apavorada e com medo. Ela é bem diferente do irmão. Mas vamos deixar de falar em Eugênia. Como está Raul? Não tem mais vindo aqui em casa. Soube que ele está namorando a filha do senador Gomes, ela é de uma boa família, se ele casar com ela vai fazer será ótimo. Os Gomes são bem conceituados na sociedade paulistana, uma família de posse e nome. Fico feliz por Raul.

-Não sei Eulália, ando preocupada com ele, tem tido umas atitudes que me desagradam. Anda chegando em casa tarde e alcoolizado, não tem mais ido à faculdade, só quer saber de andar com a turma do Lauro. Você sabe que ele não é bem visto pela sociedade, tenho medo que Raul se prejudique por isso.

-Fique calma, Teresa. Isso é coisa de rapaz novo logo, ele vai tomar juízo. Sempre foi um rapaz de boa índole e você o educou muito bem. Logo ele vai se cansar dessas noites e bebedeiras.

-Você não tem mais notícias de Vera?

-Não e nem quero saber daquela impostora. Quase destruiu a vida de Raul. Ainda bem que somos influentes e conseguimos abafar o caso. Quero ela bem longe da minha família, só nos causou dor de cabeça.

-Mas você não pensou na possibilidade de ser verdade que ela esteja grávida de Raul? É um neto seu, teria seu sangue

-Não tenho neto com esse tipo de gente. Não pertencerá nunca a nossa família. Não quero mais falar desse assunto, está morto e enterrado para mim. Você soube da recepção que os Albuquerques vão dar pra receber o embaixador da França Molly, de la Fronrrer?

-Eu recebi o convite, será na mansão deles em Ubatuba, na próxima semana.

-Vai ser o evento do ano. Não se fala em outra coisa na alta sociedade. Até fiquei sabendo que tem gente fazendo qualquer coisa para ser convidado para esse evento.

-Lauro me falou que recebemos o convite, mas eu não prestei muita atenção... então vou ter que me preparar, comprar um vestido novo, mandar retirar do banco algumas jóias. Vou providenciar um horário no salão. Temos muito que fazer essa semana, vai ser corrido. Como está Raul na faculdade? Ele será um bom médico, como o Lauro.

-Não sei Eulália, ele não queria fazer medicina, foi Lauro quem o forçou. Acho que ele não tem a menor vocação para ser médico. Ele queria mesmo era ser agrônomo, mas Lauro disse que isso não dá futuro para ninguém.

-Pois Lauro deseja um futuro brilhante para Raul.

-Sinto medo que Raul não corresponda às expectativas de Lauro.

-Você se preocupa muito, deixa as coisas acontecerem. Você verá que Raul será um bom médico, rico e famoso, ele nasceu para brilhar como Lauro. Afinal você se esqueceu que já fomos jovens e que tivemos alguns conflitos? Nem por isso nos desviamos do caminho.

-È, tens razão, Eulália, agora vamos nos dedicar à produção para o tal evento do ano. Afinal, temos que fazer jus ao nosso nome e prestígio.

-Somos mulheres de classe, sempre nos apresentaremos com a roupa adequada para a ocasião. Afinal, fomos educadas na maior e mais importante escola do país. Vamos para a sala de estar que o chá está servido.

-Claro. Eugênia já desceu?

-Não dona Eulália, ela não saiu do quarto ainda.

-Por favor, chame Eugênia para tomar chá com a gente.

-Sim, senhora, com licença.

-Eugênia, sua mãe pede para você descer e tomar chá com ela e a dona Teresa. Elas lhe aguardam na sala de estar.

-Diga à mamãe que já vou.

-É bom você descer rápido, Eugênia, você sabe que sua mãe não gosta muito de esperar.

-Eu sei Clara, mamãe se implica com tudo que eu faço mesmo.

- Ah! Aí está ela.

-Boa tarde, dona Teresa.

-Oi Eugênia, que bom que você resolveu fazer companhia para nós, fico muito lisonjeada com sua presença.

-Sente-se, minha querida.

-Obrigada dona Teresa, a senhora é sempre muito gentil.

-Eugênia, você vai à festa? Será o evento do ano e terá muitas pessoas importantes por lá.

-Eu não sei se vou, dona Teresa, não gosto muito dessas festas. Só vou se papai e mamãe me obrigarem a ir.

-Mas Eugênia, você é uma jovem muito bonita para ficar trancada em casa. Deve ter um monte de rapazes que querem namorá-la, tem que sair mais e se envolver com jovens de sua idade. Ir ao cinema, essas coisas que jovens gostam de fazer.

-Eu sei dona Teresa, mas eu gosto mesmo é de ficar em casa. Não me incomodo com isso, tenho pensamentos diferentes deles, não gosto de perder meu tempo com roupa e rapazes, prefiro mesmo é ler um bom livro e caminhar junto à natureza. Isso é bem mais proveitoso e sadio. Tenho outras concepções e desejos que diferem um pouco dos deles. Não que eles estejam errados, mas eu prefiro uma boa conversa e um bom livro do que sair para conversar coisas fúteis e banais. Sabe dona Teresa, não me enquadro no círculo de amizades que mamãe e papai querem. Elas são frias e egoístas, só pensam no poder e dinheiro. Usam de qualquer artimanha para conseguir o que desejam. Para mim, dinheiro não é tudo. Quero mais do que isso, quero ser feliz e poder ajudar as pessoas. Com esse dom que Deus me deu, sei que posso, essa é minha missão aqui na terra. Ainda não sei como, mais vou descobrir. Eugênia, pare com isso, não quero que comece com suas tolices. Eu já proibi que falasse nisso.

-Que coisa é essa de dom? Não faltava mais nada...

-Já estou cansada dessa sua insistência em falar sobre esse assunto, já lhe proibimos de você falar sobre esse amontoado de tolice.

-Com licença dona Eulália, o doutor Lauro está no telefone, deseja falar com a senhora.

-Obrigada, Clara, vou atender no escritório de Francisco.

-Alô.

-Oi Eulália, tudo bem com você?

-Tudo, doutor Lauro, está tudo bem.

-Estou ligando para avisar que estive hoje com aquele meu amigo psiquiatra que havia mencionado, passei o caso de Eugênia para ele, dizendo ser a filha de um grande amigo meu e pedi que tratasse. Você não precisa se preocupar, ele é um ótimo profissional e bem visto na sua are. Tenho certeza que Eugênia estará em boas mãos.

-Eu sei que sim, doutor Lauro, tenho plena confiança, por essa razão pedi que o senhor o indicasse. Sei que me indicaria um de sua plena confiança.

-Ele concordou em ver Eugênia e já deixei agendado um horário com ele. Claro, se isso se não trazer transtornos.

-Claro que não, doutor Lauro, quanto mais cedo Eugênia começar o tratamento, melhor.

-Está marcada para quarta-feira, dia vinte às duas horas da tarde, mas a senhora tem que ligar para a secretária dele e confirmar a consulta. Vou lhe passar o número do telefone e o endereço do consultório dele. Você pode anotar, por gentileza?

-Claro, só me deixe pegar uma caneta. Um instante, por favor. Pode falar, o número do telefone.

-338-20-58, fica na Avenida Paulista, 1584 sala 1.204.

-Obrigada, doutor Lauro.

-De nada. Não vou tomar mais o seu tempo, por favor, avisa a Teresa que vou mandar o motorista buscá-la, dentro de meia hora.

-Claro, pode deixar.

-Mais uma vez obrigada doutor Lauro.

-Não tem do quê, até mais

-Até, um abraço.

-Tenho notícias boas. Doutor Lauro marcou consulta com um médico amigo dele para quarta feira às duas horas da tarde.

-Mãe, não estou doente, não preciso de médico.

-Eugênia, eu te avisei que se continuasse insistindo com essa maluquice eu iria levá-la a um psiquiatra para você se tratar.

-Mãe, quantas vezes vou ter que lhe dizer que não sou louca? Não é delírio meu.

-Chega, Eugênia, já está tudo resolvido e não se fala mais nisso.

-Você tem se comportado feito uma desequilibrada, não tem condições nenhuma de tomar qualquer decisão. Está agindo como uma louca, como vai saber o que é melhor para você.

-Vamos terminar nosso chá.

-Eu já acabei, vou subir para o meu quarto.

-Foi um prazer ter conversado com a senhora, dê lembranças minhas ao doutor Lauro.

-Vou transmitir a ele sim. Obrigada.

-De nada.

-Você viu como não quer ir ao médico? Ainda me enfrenta.

-Tenha paciência, Eugênia, tudo será resolvido. Ela ficará boa.

Eugênia subiu as escadas correndo, estava prestes a desabar em lágrimas. Não entendia por que sua mãe agia assim, nunca a escutava, sempre ela era a desequilibrada, a maluca. Nunca dava a menor chance de ela explicar o que estava sentido.

-Nunca se importou com ela, nunca a amou como filha, só o Lucas. Esse sim ela se importa. Não era agora que ela iria ficar ao meu lado...Seria ingenuidade pensar que sim.

Deitou em sua cama e chorou, se sentiu triste e sozinha, não entendia por que sua mãe a ignorava, por que a sua presença a incomoda tanto.

-Talvez tenha uma razão para ela agir assim, uma explicação que na hora certa ela saberá.

Orou pedindo auxilio do plano espiritual e logo foi socorrida. Sentiu-se mais confortada e renovada. Agradeceu a Deus por mais uma vez ter suas orações atendidas.

-Eugênia, você está ai?

-Entre, Lucas, estou aqui deitada um pouco, antes do jantar ser servido.

-Você e mãe brigaram novamente?

-Você sabe como é Lucas, a implicância que a mãe tem comigo tudo o que eu faço a irrita.

-Não dê bola, Eugênia, ela é assim mesmo. Você vai à consulta que ela marcou?

-Tenho que ir.

-Faça isso mesmo, assim ela lhe deixará um pouco mais em paz. Sabes que eu acho um exagero essa implicância, que eles têm contra esse seu Dom. Tentei interceder junto a eles por você, mas eles não deixaram nem eu terminar de falar. Dê um tempo a eles que logo vão entender que isso é normal e não é loucura sua, dê um tempo mais a eles.

-Claro que sim, Lucas, não se preocupe quanto a isso.

-É por isso que eu te adoro, você é a minha irmã preferida sabia.

-Ah seu tolo, sou a única irmã que você tem. Agora deixa eu ir tomar meu banho se não me atraso pro jantar, aí você sabe...terei problemas.

-Te adoro viu mana

-Eu também Lucas.

-Agora venha cá dar um beijo no seu irmãozinho, pois estou muito carente.

-É eu sei, carente você? Agora vai que se não a dona Eulália terá um chilique.

-Tá bom. Você sabe que podes sempre contar comigo, mana, tenho o maior orgulho de ser seu irmão. Você não se deixa levar pelas coisas fúteis da vida e luta pelos seus ideais, gostaria de ser assim como você, ter coragem de enfrentar todos por aquilo que acredita mesmo sendo considerada louca. Você é muito especial.

-Obrigada, meu querido irmão, você sempre me dá forças, e lembre-se que lutamos por tudo aquilo em que acreditamos mesmo o mundo sendo contra nós. A força vem da certeza que vamos vencer as adversidades, as barreiras impostas, e você é muito forte. Só não despertou dentro de você, mas está lá esperando o momento certo. Pois nesta vida, tudo tem seu tempo, nada é por acaso. Pois Deus não nos fez para sofrer e sim para sermos felizes, para amar e ser amado, para levar a luz e a paz a todos.

-Nossa, Eugênia, que lindo isso!

-Espera, Lucas, leva isso e lê. Aqui tem uma grande explicação por que passamos por dificuldades e conflitos. Toma.

-Obrigado mana, vou ler quando for dormir.

 

Dificuldades.

 

As dificuldades por nós sofridas.

As dores e lamentações que assolam a nossa existência.

É uma premissa.

As dificuldades que encontramos em nossas vidas nos levam a crescer e evoluir

Dificuldades que nos atingem, que nos assolam, que nos desnorteiam.

É um aviso de Deus, que algo não está bem.

Que precisamos mudar.

A dor é um grito de alerta.

As lágrimas a degladeração fazem sofrer.

Deixa-nos amargurados.

Deixa-nos odiosos.

Deixa-nos rancorosos.

Deixa-nos perversos.

Deixa-nos sem amor.

Deixa-nos sem esperança.

As dificuldades que outrora nos atingem não é um castigo de Deus.

Ela é a voz do pai dizendo ao filho que algo está errado.

A nos orientar a nos guiar.

No decorrer de nossa existência, o pai nos fala à alma, de diversa maneira que nos orienta, que nos intui e nos fortalece.

Deus, nosso amado pai, não castigue seus filhos.

Deus, nosso amado pai, nos orienta e fortalece.

Deus na sua pragmática.

Ampara-nos,

Fortalece-nos,

Guia-nos,

Ama-nos

Perdoa-nos

Intui-nos,

Eleva-nos.

Devemos observar a nossa volta o que está acontecendo,

se as dores nos afligem e nos atormentam é porque é algo que não está bem na alma.

Devo amar mais?

Devo perdoar mais?

Devo ser mais caridoso?

Mais benevolente?

Mais humilde?

Mais austero?

As dores, as injustiças, as perseguições já sofridas, são um aprendizado e uma evolução.

As dificuldades que enfrentamos.

As injustiças que sofremos.

As perseguições que sofremos.

Elevam-nos e fortalecem,

Amparam-nos.

Orientam-nos no caminho do bem.

As dores são avisos do pai.

De que algo não está certo.

Deus na sua dádiva e na sua bondade infinita, não castiga, não pune.

Deus, nosso pai.

Orienta-nos,

Intui-nos,

Ampara-nos e nos envia seu mensageiro do bem para que nos auxilie nas horas difíceis que passamos.

Deus, nosso pai, é um amor imensurável.

Deus, nos pai, é possuidor de uma bondade suprema.

Que nosso pai e a sua bondade infinita continuem a nos enviar esses bálsamos de paz e orientação.

Que nosso pai continue a nos orientar e nos guiar nessa trajetória para a evolução.

Que nosso pai continue a nos esclarecer e nos guiar.

Que ele continue a nos enviar esses irmãos de luz e amor.

Para nos orientar e nos ajudar nesta nossa escalada para a luz da compreensão.

Que assim seja.


Capitulo III

Era quase duas horas da tarde quando Renato entrou no Austrália Café. Gustavo já estava esperando.

-Bom tarde Gustavo, desculpe eu te fazer esperar mais é que tinha que despachar alguns processos e isso demorou mais do que eu imaginava.

-Sem problemas Renato sei que você e muito ocupado, além do mais não se atrasou, pois ainda não está no horário.

-E aí, você vai hoje à reunião lá no centro?

-Claro que sim, estou gostando muito da palestra. É muito instrutivo e esclarecedor.

-Hoje sou eu quem vai dar a palestra. O assunto vai ser sobre o amor. A gente houve muito por aí sobre o amor, mais e algo raro ouvir falar do amor desprendido... bem não vou ficar aqui falando sobre minha palestra, pois você vai ao centro mesmo.

-Renato, o que está te deixando agoniado? Qual o motivo desse encontro? Algo sério?

-Gustavo não sei nem por onde começar, talvez você vá achar que seja loucura minha, mais preciso conversar e saber de uma explicação lógica para isso.

-Fala Renato, estou ficando ansioso.

-Bem você sabe que há umas semanas uma moça se jogou embaixo do meu carro, se lembra?

-Sim, lembro. Você me ligou na mesma noite após levá-la ao hospital.

-Ela não resistiu?

- Graças a Deus ela está bem.

-Bem vou te explicar o caso. Somente encontrei com ela duas vezes no dia do acidente e quatro dias antes da visita no hospital. Mas desde o dia do acidente não consigo tirá-la do pensamento... é como se eu já a conhecesse. Desejo estar com ela, ficar ao seu lado... tenho a impressão de amá-la...de uma forma que não sei explicar. Parece que eu já conhecia o jeito como ela caminha fala e sorri, a forma como ela ajeita o cabelo. Por favor, Gustavo não ria. É sério estou assustado. Como posso amar alguém assim se apenas tive com ela duas vezes? Isso é insano... não existe.

-Claro que não vou rir de você. Isso é fácil de explicar. Você dois já se conheciam em vidas passadas e por alguma razão decidiram voltar e continuar o que sentiam um pelo outro, talvez tenham uma missão juntos...

-Então você está me dizendo que eu já a conhecia em outras vidas? E por isso que tenho a impressão de conhecê-la dessa forma como eu te descrevi?

-Sim, com todo certeza. Vocês já se conhecem de outras existências e voltaram juntos a terra para uma missão ou para resgatar algo.

-Será que ela sente o que eu sinto por ela? Como farei pra me aproximar dela?

-Calma Renato, tudo tem sua hora. Não foi por acaso que ela se jogou embaixo do seu carro, tinha um propósito. Tenha paciência que você saberá conduzir tudo de maneira correta. Confia em suas intuições, pois elas são amigas espirituais que nos falam como agir.

-Sei que tudo isso para você é novo, e sem lógica, mas tenho certeza que a espiritualidade auxiliará o tempo todo e muitas de suas perguntas serão respondidas em intuições e sonhos. Não tenha medo que tudo dará certo, e quero que saibas que eu estarei sempre ao seu lado, ajudando no que você precisar. Que Deus te abençoe e te ilumine, Renato, para que possas conduzir com sabedoria e resignação a tua missão.

-Gustavo, muito obrigado, você é mesmo um grande amigo. Hoje nos veremos lá no centro e me desculpe, mas agora tenho que ir. Daqui à uma hora tenho uma audiência. E mais uma vez obrigado por tudo.

-Não precisa me agradecer, Renato. Até mais amigo.

-Até mais Gustavo.

 

Vera permanecia inquieta aguardando a chegada de D. Dalva. Ela não desgrudava os olhos da porta, à espera que de uma hora para outra ela entrasse, como fazia todos os dias desde que Vera estava hospitalizada. Era estranha essa sua ansiedade. Dalva tinha um jeito de falar com ela que confortava e a deixava mais amparada e segura. Deveria ser por isso que estava se sentindo assim e definitivamente não haveria outra razão. Foi com grande alívio que ouviu a voz que vinha da porta.

-Como foi minha querida?

-D. Dalva.

-Já não esta na hora de você para de me chamar de dona? Quer me deixar mais velha do que sou?

-A senhora desculpa, mas você não é velha não.

-Sei que o espírito não envelhece, só o corpo físico. Sempre somos jovens e imortais.

-Bem, hoje não posso ficar muito com você, pois tenho um compromisso. Só passei por aqui pra deixar esses livros pra você ler. Agora tenho que ir, pois não posso me atrasar.

-Você vai hoje ao centro espírita?

-Sim, minha querida.

-O que se faz em um centro espírita?

-Vamos ouvir a palavra de Deus através de palestra e tomamos passes para que possamos renovar nossas energias, além de recebemos bênçãos de luz e paz.

-O que é um passe?

-Terei um grande prazer em responder todas as suas perguntas, mas hoje não dá. Nos livros que eu trouxe tem uma explicação bem mais ampla e que você vai entender melhor do que se eu te explicar.

-Agora fica na paz de cristo e que Deus te abençoe.

-Boa noite Vera.

-Boa noite Dalva.

 

Já passavam das sete e trinta da noite, quando Dalva chegou ao centro onde trabalhava a mais de dez anos. Quase Todos os trabalhadores da casa já se encontravam e ela ficou feliz ao ver que a casa estava cheia. Todos permaneciam em silêncio aguardando a hora de ouvir a palestra. Havia harmonia, sintonia e uma paz enorme a invadiu. Ela desejou que Vera também recebesse essa paz que ali se encontrava e orou por ela.

Dalva deu as boas vindas a todos que ali estavam, proferiu uma prece e deu por aberta os trabalhos daquela noite. Anunciou o palestrante da noite, Gustavo, que por sinal era um orador de muita luz e conhecimento e possuía uma sabedoria. Sua palestra falava sobre o Amor.

O amor...

O amor que sentimento é esse que move a humanidade...

Que muitas vezes nos faz tão sublimes e outras vezes tão odiosos

O amor e o antônimo do ódio.

Que amor e esse que nós faz muitas vezes aprisionar a quem se ama?

Que nos faz odiar ao mesmo tempo quando assim não somos correspondidos da nossa maneira.

Que amor é esse que muitas vezes ou centenas de anos nos leva a persistir na escuridão?

Que amor é esse tão lúdico e devastador?

Tão promissor e ao mesmo tempo destrutivo.

O amor e um só.

Nós é que deturpamos o significado e o sentido verdadeiro desse sentimento que o pai nos deu.

E o mesmo amor que nosso irmão Jesus Cristo sentiu e sente

Só que por nós ainda não conhecido na sua máxima, na sua plenitude e sua real conotação.

É simples amor.

O complicado é compartilhar e aceitar as diversas faces desse sentimento.

Ou por assim dizer, às formas que transpormos a ele.

A maneira que o vivenciamos, que compartilhamos.

O amor está aí e aqui.

Sinto por todos nós encarnados e desencarnados

Vivenciados dia a dia, hora a hora minuto a minuto.

Amor: palavra que descreve o sentido e este sentimento tão sublime e caridoso.

Amor é simplesmente caridade humildade, paciência, desprendimento, compreensão perdão.

Amor é simples e austero.

Benigno.

Desprovido de qualquer sentimento de troca ou permuta

Amor...

E leve...

E desmedido...

E somente amor.

Palavra esta, que antecede ou nos dá uma bifurcação de dois sentidos ou sentidos opostos

Amor este que convivemos e nos leva a ter sentimentos e atitudes errôneos, que nos leva a desviar do verdadeiro sentido do amor.

Este amor aqui vivenciado por nós é uma tangente, de desorientação, desespero de dor.

Mas...

Este amor aqui por nós vivenciado pode ser...

O amor que Cristo nos ensinou a vivenciar.

Amor desprendido, amor caridoso, benevolente, austero, que não julga não condena.

Simples...

Humildade...

Exemplo a nos levar a ver e ouvir nossos irmãos.

E é dar e compartilhar

É receber e dividir

Não é esperar nada em troca

É simplesmente amor.

É fazer por fazer

A ouvir por ouvir

A ajudar sem ser ajudado.

O sorrir quando assim nos fazem chorar.

E amar a quem nos odeia

É amparar aquele que nos causou dor.

É perdoar a quem nos humilhou e perseguir

É entender as razões dos nossos próximos

É levar aquele que não tem conhecimento, o conhecimento.

É dar a luz a todos que estão na escuridão do ódio e rancor.

E levar...

A todas...

Aos que esperaram da terra o verdadeiro significado do amor.

Esse amor que o pai nos deixou.

Que é tão simples e tênue.

Tão desprovido de dor e ressentimento.

E ódio e mágoas.

Que nos leva os anos de sofrimento e lágrimas.

Mas que está aqui nesta existência a tantos milhões de anos.

E nós ainda não o entendemos.

Não vivenciamos na sua totalidade.

Na sua essência.

Tão singela.

Que é o amor.

Assim como Deus, nós amamos e nos aceitamos como somos e nos amparamos.

Sem nunca ter julgado

O verdadeiro amor será encontrado por nós, quando abandonarmos e deixarmos de ser egoístas e orgulhosos. Aí sim entenderemos e compreenderemos o amor sublime na sua íntegra.

Abandonarmos quer dizer...

Assistir sempre nosso próximo.

Ver através de nós...

Das nossas fraquezas e dificuldades.

Abandonarmo-nos quer dizer:

Evoluir.

Apreender.

Compreender.

Perdoar.

Amparar.

Colher.

Sermos pacientes e humildes

Ouvir e falar.

Aceitar.

Modifica a nossa essência e fraquezas.

E acima de tudo amar nós e nossos irmãos

Abandonar essa idéia que merecemos, mas:

Por ter sido isso ou aquilo

Abandonarmos

Quer dizer...

É caminhar na estrada da evolução e aprendizado.

Caminhar para a luz

Caminhar para a benevolência

Caminhar para a minha jornada que é tão simples, mas para nós ainda ocultas.

Que esse amor de milhões de anos atrás.

Possa ainda ser sentido e vivenciado por nós e nossos irmãos.

E que outros possam também encontrá-lo e sentí-lo através de nossos exemplos de fé e humildade.

Que esta possa ser a direção para o desprendimento do nosso coração.

Que assim seja.

 

Quando Gustavo terminou sua palestra Dalva foi felicitá-lo por suas palavras de amor e perseverança.

-Gustavo, se você tiver um tempinho gostaria de falar com você sobre uma paciente que precisa muito da nossa ajuda.

-Claro, Dalva. Só me dá um instante, pois vou falar com Renato e já volto para poderemos conversar.

Gustavo se aproximou cumprimentou Renato. Parabenizou-o pela brilhante palestra que ele acabara de dar.

-Renato, preciso te falar algo... você conhece a Dalva?

-Sim, falei com ela algumas vezes aqui no centro, por quê?

-Ela é enfermeira da Santa Casa. Não é lá que a Vera esta internada?

-É sim.

-Agora mesmo Dalva me comentou sobre uma paciente que esta precisando de ajuda. Acho que é sua garota, vamos lá conversar com ela e ver se é a mesma pessoa que estamos falando. Se for, pensaremos em uma maneira de auxiliá-la.

-Então vamos, Gustavo. Estou ansioso.

-Dalva, você já conhece o Renato?

-Sim. Tudo bem Dr. Renato?

-Tudo, mais me chame só de Renato, pois é menos formal. Você não concorda?

-Como quiser Renato.

-Dalva, você se importaria que Renato participasse da nossa conversa? Pois acho que ele também tem por objetivo maior ajudar sua paciente. Ele tem uma ligação de vidas passadas com ela. Depois explico melhor a você.

-Sem problemas, Gustavo. Então, isso explica às vezes que tenho visto ele no hospital? Nunca tive a oportunidade de conversar com ele.

-Sabe Gustavo tenho conversado muito com Vera a fim de explicar que a morte não é o fim dos nossos problemas. Se a provocarmos ela aumenta ainda. Mas acho que não tenho ajudado ela em nada e sinto que ela vai tentar de novo o suicídio pelas coisas que me fala. Ela está mesmo muito revoltada com a situação que se encontra. Não me disse nada, mas eu tenho a certeza que o pai da criança não vai assumir os dois e acredito que ela esta sem emprego e não tem onde morar. A única coisa que me passou foi que sua família é o interior e não tinha ninguém aqui. Vera está sozinha, grávida, sem emprego e acredita que sua única saída é a morte. Foi por essa razão que ela se jogou embaixo do carro de Renato, mas felizmente conseguiu se salvar. Deus a colocou em nosso caminho para que possamos auxiliá-la a enfrentar suas provas com esclarecimento e fé. Tenho que ajudá-la e essa também é nossa missão.

-Você tem razão Dalva, temos que ampará-la e devolver-lhe a esperança e a fé em Deus. Temos que estar ao seu lado auxiliando-a baseados no verdadeiro caminho para a felicidade. E o caminho nos leva a Deus, pois sem Ele em nossas vidas, somos eternos sofredores. Sem o amor e a caridade de nosso irmão Jesus Cristo em nossa jornada e não podemos auxiliar e perdemos tudo, pois como vamos enfrentar as dificuldades da vida? As injustiças, as dúvidas, as injúrias, sem a fé em Deus? Sem os ensinamentos e o exemplo do Pai, isso torna tudo mais difícil mais revoltante mais desesperador e não vemos mais saída. Cometemos erros e até mesmo tiramos nossa vida.

-Dalva, você não acha melhor conversamos com ela a fim de ver se ela esta precisando de um trabalho e se tem algum lugar pra morar?

-Posso oferecer a ela uma emprego no meu escritório. Estou mesmo precisando aliviar a Lurdes, pois ela está sobrecarregada.

-Isso mesmo Renato. Lurdes sempre comenta em casa que não está mais dando conta do trabalho, sendo assim ela não ficaria sobrecarregada e Vera teria um trabalho. O que você acha da idéia, Dalva?

-Perfeito! Amanhã mesmo vou conversar com ela sobre esta proposta de trabalho. Mas Renato, você sabe que ela está grávida. Teria algum problema pra você?

-Claro que não tem problema o fato de ela esta grávida. Quero que Vera tenha todo a assistência médica possível durante a sua gravidez.

-Espero que ela aceite sem maiores problemas, pois quando estive no hospital para vê-la ela me pareceu um tanto decidida.

-Confie na espiritualidade, Renato. Ela nos colocou frente a frente com Vera. Devemos confiar que eles nos instruíram a fim de sabermos exatamente o quê fazer e o quê dizer, por isso, devemos orar pedindo sempre auxílio da espiritualidade e eles viram em nosso auxilio.

-Bem, agora que já esta tudo certo, vamos embora. Amanhã temos muito o quê fazer. É que Deus, nosso Pai, nos intuiu a fim de agirmos corretamente e que saibamos como conduzir nossa jornada juntos, um auxiliando o outro. Para podermos cumprir o quê no plano espiritual nos comprometemos. Que saibamos ter paciência e humildade. Que assim seja!

-Que assim seja! Boa noite pra vocês dois.

-Boa noite, Dalva.

Assim, foram embora com a certeza de que a espiritualidade os guiará na direção certa, os intuindo no amor de Deus. Para que juntos, possam auxiliar essa irmã em sua jornada, na sua evolução e crescimento moral. Os irmãos da espiritualidade, que permaneciam juntos a eles, auxiliando-os com seus pensamentos e intuições e os conduzindo ao que deveria ser feito, saíram felizes. Eles sabiam que suas intuições tinham sido ouvidas, e se jubilaram. Vera agora estava começando a voltar a ter fé e esperança com o auxilio desta equipe terrena, que a guiará para a perfeição de Cristo. Assim, regressaram ao plano espiritual com a certeza de que a paz e a felicidade brilharão em seu caminho e que ela se perdoaria e perdoaria principalmente àqueles que a magoaram e humilharam.

 

 

Vera já estava deitada quando resolveu ler o livro que Dalva lhe trouxera.

-Não há razão pra que eu leia. Não acredito nisso mesmo, mas preciso ocupar a minha mente, pois se não vou enlouquecer. Sentou-se e abriu o livro com o nome de Evangelho segundo o espiritismo. Abriu a primeira página e leu. Quanto mais lia, mais sua vontade de ler era maior. Parecia que algo a prendia naquele livro e leu umas 10 páginas. Até marcou alguns tópicos que achou de suma importância e que não havia entendido. Talvez Dalva pudesse explicar melhor, já estava com sono quando fechou o livro. Sentiu vontade de orar, quem sabe ela se sentiria melhor e mais amparada, quem sabe se realmente ouvisse a tal voz que Dalva se referia ela teria uma nova chance e uma razão pra viver e deixar o filho viver. Então começou a orar.

-Deus, se você é mesmo o quê Dalva me contou, ajuda-me. Estou perdida e sozinha, estou com medo, pois não tenho mais saída. Se estiverdes me ouvindo, vem e me ajuda a tirar de dentro do meu coração essa mágoa, essa dor intensa que me consome. Vem até mim no auxilio de uma luz. Dalva me fala tão bem de você. Deixa eu te conhecer melhor, permita que eu consiga ouvir a tua voz dentro do meu coração assim com outros ouvem. Como Deus nos fala ao coração, estou aqui pronta a te escutar. Alivia a minha dor. Se eu te abandonei, por favor, não me abandona. Permita que eu volte à tua casa, à tua proteção e amparo. Mostra-me o caminho que me conduzirá a ti.

Quando Vera terminou de orar, estava chorando e havia uma paz dentro de si, uma esperança lhe arrebatava o espírito. Sentiu-se amparada e protegida. Parecia que suas lágrimas lhe lavavam a alma. Então sentiu que alguma coisa tocara dentro dela, uma força e uma certeza que não sabia ao certo o que era. Os irmãos da espiritualidade que ali estavam com ela agradeceram a Deus por sua infinita bondade. Agradeceram por dá-la uma nova chance, um novo caminho e ficaram ali por um instante emanados em Vera, com bálsamos de luz e de paz. Seu quarto todo estava envolto com uma luz incandescente, uma paz reinou naquele instante. E foi nesta paz que Vera adormeceu. Na paz de Deus.

 

Raul entrou em casa totalmente embriagado e foi direto para seu quarto, como sempre fazia. Entrou, fechou a porta e sentou-se na cama. Pensou em tudo, como tinha sido a sua vida até aquele instante. Nunca fora feliz na infância e vivia sempre isolado. Não tinha amigos, com exceção de Lucas. Sempre foi um garoto com problemas, pois começou a beber muito cedo para poder aliviar suas frustrações, e cada vez mais sentia a necessidade de beber mais. A bebida já não amenizava mais suas dores. Sentia muita raiva de si e de seu pai, que sempre o humilhara e o desprezara. Nunca foi seu amigo e sempre o criticara. Nunca era bom o suficiente para ele. Raul queria agora acabar com tudo. Já não tinha mais nada a perder, pois nunca soube o que foi amar e ser amado, até conhecer Vera. Ele a amava. Como foi deixar que ela se fosse daquela maneira? Como pode deixar seu pai conduzir mais uma vez a sua vida? Como permitiu que ele lhe tirasse assim Vera de sua vida? Seu pai não amava ninguém e só se importava com o poder. Não se importava com os sentimentos das pessoas. Só lhe importava o bom nome da família. Como poderia fazer isso com seu filho? Como poderia tratar Vera daquela forma? Expulsando-a como fosse um ser desprezível. Ele ainda podia ver a expressão de medo e decepção no rosto de Vera, pedindo que ele lhe defendesse. Ainda podia ouvir a sua voz trêmula e atordoada pedindo que a defendesse das acusações e insultos que seu pai a acusava. Sem ao menos dar-lhe uma chance de se defender, Vera lhe pedia que a ajudasse, pedia que contasse a verdade que ficasse ao seu lado, aquelas palavras não saíam de sua cabeça e ficava ouvindo repetidas vezes, sem parar.

-Raul, diga, por favor, a seu pai que nós nos amamos.

-Diga que vamos nos casar e ter nosso filho, que não sou uma impostora e não pode me tratar assim. Por que você está calado. O que aconteceu? Fala, por favor. O que está acontecendo pra você agir assim comigo?

Mas, como sempre, ele se acovardou, deixou-a sem ao menos dar lhe uma explicação. Deixou que ela partisse pensando que ele não a amava e que não queria o filho que ele levava no ventre. Vera implorava que ele ao menos lhe dissesse que tudo o que aconteceu entre eles não era uma mentira e que ele lhe dissesse ao menos que a enganou e usou daquela forma, mais nem isso foi capaz de dizer. Foi um covarde, um canalha. Deixou que ela partisse sem saber a verdade.

-Mais uma vez eu senti medo, mais uma vez me acovardei diante do meu pai e cedi, permitindo assim que ele agisse como sempre. Ele usa o poder para intimidar e obter o que deseja. Acovardei-me como sempre e permiti que ele conduzisse sempre à maneira dele, onde só o interesse dele conta. Onde pessoas são vistas como objetos, sem sentimentos. Quando, quem não tem dinheiro e status, é considerado por ele como uma pessoa de raça inferior e sem direitos, sem dignidade.

Seu pai não tinha escrúpulos a ele não possuía um coração. Era desumano e não tinha sentimento dentro dele. Como uma pessoa assim era médico? Ele só tinha um objetivo: ter fama e poder. E nada o impedia de alcançá-los. Para isso, utiliza meio sórdidos e cruéis e se for preciso mandar matar alguém, ele o faz. Foi assim que ele chegou aonde chegou, utilizando meio ilícitos e criminosos, destruindo tudo a sua volta. Tirou das pessoas, dignidade, amor, respeito e os transforma em morto-vivos, roubando-lhes tudo! Foi assim que ele fez com o filho. Chorou por ter sido injusto com Vera desejou ardentemente voltar no tempo, mais era tarde. Ele jurou que nunca mais iria permitir que seu pai destruísse a vida de ningúem nem que pra isso ele precisasse matá-lo. Neste instante ouviu uma batida na porta e uma voz por trás da porta lhe chamar.

-Raul, meu filho, está tudo bem?

-Sim, mãe.

-Posso entrar?

-Entre.

-Até que enfim você chegou meu filho. Estava tão preocupada com você. Saiu daquela maneira feito um louco... temi que lhe acontecesse algo. Não via a hora que você voltasse pra casa. O que aconteceu, está chorando?

-Nada mãe eu estava aqui pensando nos últimos acontecimentos e vejo que toda a minha vida é uma mentira, uma ilusão.

-Não diga isso, meu filho. Eu te amo muito.

-Você está passando por um momento difícil, só isso. Logo vai passar, você vai ver.

-Minha vida inteira é um momento difícil. Não consigo mais suportar, não consigo mais disfarçar que está tudo bem. Não tenho mais o controle e não dá mais para suportar viver com mentiras, entende mamãe? Minha vida foi sempre assim e a sua também. Aceita tudo o que ele faz, sem questionar. Viva a sombra dele, deixe-o conduzir nossas vidas e destruir o que temos de melhor. Eu quero que ele morra. Eu o odeio.

-Você está fora de si. Não sabe o que está falando. Tome um banho e vá dormir. Amanha você estará melhor. Agora vai que eu vou pedir para Rosa preparar algo pra você comer.

-Mãe eu não quero nada. Por favor, deixe-me aqui sozinho, em paz.

-Filho, você sabe que está sendo difícil lidar com seus conflitos e que está indo por um caminho que não vai ajudá-lo. Só ira lhe trazer mais dores e sofrimentos, pois a bebida não irá atenuar em nada suas dores, precisa enfrentá-las e tentar resolvê-las, da melhor maneira possível. Se você concordar, eu o levarei a um médico para te ajudar a parar de beber.

-Não quero médico nenhum, não preciso de mais nada. Por favor, deixe-me, eu já pedi e quero que saia agora do meu quarto. Sai, anda, já daqui!

 

Teresa ficou assustada com a reação de Raul, pois ele estava fora de si e parecia que iria atacá-la. Ele estava enfurecido, tomado pelo ódio e fora de sua razão, totalmente transtornado. Teresa tentou acalmá-lo, mas não conseguia. Quanto mais falava mais ele ficava violento e caminhava pelo quarto de um lado para outro, feito um animal enjaulado. Teresa pedia que ele se acalmasse, tentava abraçá-lo e ele se esquivava, sem se importar com suas lágrimas.

-O que está acontecendo com Raul? Por que ele está agindo assim? Preciso levá-lo ao médico para ajudá-lo. Não posso mais esperar, está resolvido.

Iria levá-lo ao Dr. Augusto, mesmo que Lauro não concordasse. Dessa vez ela iria enfrentá-lo. Não abandonaria seu filho como sempre faz por medo de seu marido, para não contrariá-lo. No fundo Raul tinha razão, e não iria dar as costas como sempre fez para o filho, iria ajudá-lo com ou sem a aprovação de Lauro. Entrou no escritório do marido feito um furacão.

-Lauro, preciso conversar com você sobre o Raul. Ele está descontrolado e com sérios problemas. Precisamos ajudá-lo, ele não irá suportar e temo que o pior aconteça.

-Teresa, o Raul é o problema. Já não agüento mais as suas crises. Desde que nasceu vive me dando problemas e não sei por que você ainda vive dando ênfase a ele e suas crises. Não tenho mais paciência e tão pouco tempo para me preocupar com essas besteiras de Raul. Não quero mais falar sobre isso, você entendeu?

-Lauro, ele é seu filho! Como pode ser tão frio e egoísta? Ele está sofrendo e anda bebendo demais. Se continuar a beber assim vai acabar se matando. Tenho que tomar uma atitude, vou levá-lo ao Dr. Augusto. Ele é psiquiatra e saberá o que fazer.

-Você está louca? Quer que todo mundo saiba que eu tenho um filho desequilibrado e ainda alcoólatra? Isso esta fora de questão, não quero mais ouvir você falar sobre isso. Se ele continuar, mando ele para uma clínica e o deixo lá.

-Se você pensa que vou deixar que destrua definitivamente a vida de Raul está bem enganado. Eu vou fazer tudo o que for possível para tirá-lo do vício com ou sem a sua ajuda. Não vou mais permitir que me de ordem e não farei mais o que você quer. Eu sempre soube que você não suporta Raul que viveu sempre o ignorando e permiti que isso continuasse... mas agora chega. Não tolero mais essa sua atitude com ele.

-Teresa, o que você pensa fazer? Queres jogar nosso nome na lama? Pois é isso que vai acontecer se insistires com essa besteira.

-Lauro, para você seu filho e uma besteira?

-Chega! Não quero mais falar sobre isso. Agora saia, tenho que estudar um caso importante e não posso mais perder tempo com os problemas de seu queridinho filho.

 

Teresa se retirou do escritório de Lauro totalmente decepcionada com a atitude do marido. Como era possível ela agir assim? Como poderia virar as costas dessa maneira? Como poderia ser tão insensível e tão egoísta dessa forma? Ela não acreditava que ele pudesse chegar aonde chegou, a ponto de ignorar seu próprio filho. Como pode não amá-lo e abandoná-lo no momento mais difícil da vida dele?

-Meu Deus, o que está acontecendo com meu filho? Por favor, me ajude!

Neste momento tocou a campainha da porta. Logo em seguida Rosa lhe informou que Eulália a aguardava na sala. Teresa enxugou as lágrimas, retocou a maquiagem e desceu.

-Desculpe-me, vim sem avisar. Mas é que estava passando e resolvi vir aqui para saber como vocês estão, pois já faz algum tempo que não soube mais noticias de vocês. Lucas e Eugênia me falaram que viram Raul e ele não estava nada bem...

-Ah Eugênia, que bom que você veio! Vamos sentar. Preciso mesmo conversar com alguém, estou muito preocupada com Raul, ele anda bebendo muito e está muito mudado. Tem tido discussões horríveis com Lauro, não dorme direito à noite e quando dorme acorda aos gritos para não deixar o pegarem. Acho que ele está com problemas psicológicos. Conversei com Lauro para levá-lo ao Dr. Augusto, mas Lauro é contra. Já não sei mais o que fazer, Raul está ficando desequilibrado e se não ajudá-lo, pode perder a razão e se afundar de uma vez por todas no vício. Estou com medo.

 

-Calma, Teresa, tudo vai dar certo é só uma fase ruim que ele está enfrentando. Ele sairá dessa, você vai ver. Se você quiser podemos conversar com Dr. Augusto. Eulália tem consulta amanhã às duas horas da tarde e se quiseres passo aqui para te pegar e irmos juntas. Assim, você conversa com ele antes de levar o Raul.

-Você faria isso? Estou tão perdida e com medo, mas me prometa que Lauro não pode saber se não ele não permitirá.

-Diremos a ele que vamos às compras.

-Combinado então, agora tenho que ir. O motorista está me esperando e não posso me atrasar, pois vou receber para jantar uns convidados de Francisco e você sabe como ele gosta de tudo bem organizado.

-Obrigada, Eulália. Até amanha, então.

-Até! Fique calma, tudo será resolvido. Dr. Augusto é um excelente médico e irá ajudar Raul.

 

Teresa não via a hora de poder conversar com o Dr. Augusto e ter um parecer médico, pois já não suportava mais ver o estado em que seu filho se encontrava. Subiu as escadas e foi direto ao quarto de Raul, entrou e viu seu filho caído no chão do quarto desacordado. Chamou-o, mas ele não respondeu e correu em sua direção. Tentou levantá-lo, mas não conseguiu e saiu correndo para pedir que alguém a ajudasse. Encontrou Rosa no meio do caminho.

-O que aconteceu, D. Teresa? Ouvi seus gritos.

-Depressa Rosa, Raul está caído no chão do quarto. Temos que colocá-lo na cama. Está desacordado de tanto beber.

 

Entraram no quarto, o levantaram e o colocaram na cama. Raul estava todo sujo e cheirando a bebida. Teresa o abraçou e chorou por vê-lo naquele estado. Pediu a Rosa que lhe trouxesse roupas limpas e que lhe preparasse o banho. Teresa clamou por Raul.

-Acorde! Precisa tomar um banho e comer algo, você está todo sujo e cheirando a bebida.

Mas Raul não respondia. Ela o sacudiu e não teve resposta, foi então que percebeu que ele mal respirava, seu coração batia lentamente, correu até Rosa ao gritos.

-Rosa, chame uma ambulância. Raul esta passando mal, depressa, por favor.

Chorando e pedindo a Deus pela vida de seu único filho, ela permaneceu ali junto ao filho, segurando-o como se fosse uma criança, orando que o socorro chegasse a tempo.

-D. Teresa, o médico chegou.

-Por favor, doutor, não deixe meu filho morrer.

-O que ele tomou não sei. Eu o encontrei caído no chão. Quando entrei aqui achei que tivesse desacordado por causa da bebida, mas ele não acorda.

-Calma, senhora, vou examiná-lo. Temos que levá-lo urgentemente para o hospital, ele está em coma. Deve ter tomado algum remédio. Por favor, procure no lixo do banheiro algum frasco de remédio. Quando encontrarem, liguem imediatamente para o hospital avisando. Agora temos que ir.

Teresa não acreditava que seu filho teria tentado se matar. Disse à Rosa que iria com ele e pediu que procurasse em toda a parte os frascos do remédio e assim que encontra avisasse. No caminho para o hospital, Raul teve uma parada cardíaca e os paramédicos o reanimaram. Sentada, Teresa observava, vendo o seu único filho ali quase sem vida. Pensou em Deus naquele momento. Aproximou-se de Raul e lhe falou baixinho:

-Lute, filho, não desista. Pois, a partir de agora, eu não vou desistir de você. Vamos procurar ajuda para ambos e tenha fé em Deus. Só não desista, por favor, pois eu não vou desistir de você nunca mais. Chegaram ao hospital e levaram Raul para a sala de reanimação. Teresa rezava ardentemente pedindo a Deus que poupasse a vida do filho e que lhes desse mais uma chance para poder consertar os erros que cometeu. Ela queria poder ter a chance de mostrar a seu filho o quanto o amava.

-Deus, permita que eu repare meu erro. Hoje eu me dei conta que tudo que fiz nesses anos todos, tudo que acreditei não é nada, pois tenho dinheiro e poder e não posso salvar a vida do meu filho. Só você pode Deus.

A partir daquele momento, algo tocou no coração de Teresa, algo a modificou e a fortaleceu. Era o amor de Deus tocando-lhe, dizendo que as dores ficam mais fáceis, quando se tem Deus dentro de si. Teresa chorou, mas dessa vez, de felicidade. Mesmo não tendo noticias de seu filho, ela sabia que seria diferente da li para frente. Ela sentiu o amor e a benevolência de Deus. Ficou ali maravilhada apesar da dor. Algo a confortava. Quando o médico se aproximou, ela disse baixinho:

-Ah! Senhor, que se faça a tua vontade e não a minha. Hoje eu descobri que a dor é amenizada se estamos na tua presença. Respirou fundo e foi ao encontro do médico.

-Como está meu filho, doutor?

-Bem, o quadro dele ainda e crítico, mas estamos fazendo tudo o que é possível para salvá-lo. Ele é jovem e isso conta muito, tenha fé que ele conseguirá. Mas eu aconselho levá-lo a um psiquiatra, pois ele tentou o suicídio e se a senhora demorasse mais um pouco seria tarde de mais.

-Graças a Deus, doutor. Vou procurar ajuda sim, obrigada por tudo.

-Vamos até meu consultório? Gostaria de conversar com você mais tranquilamente, se você não tiver nenhuma objeção.

-Claro que não, doutor.

-Então, por favor, me siga.

Caminharam em silêncio pelos corredores do hospital. Teresa se indagava o que ele queira lhe falar. Será que teria mentido para ela sobre Raul? Será que ele não resistiu e morreu? O trajeto parecia não ter mais fim. Foi quando o doutor quebrou o silêncio e disse que era ali. Teresa perguntou o que estava acontecendo.

-Por favor, aconteceu algo mais grave com meu filho ele não resistiu?

-Por favor, sente-se e tente se acalmar. Não escondi nada sobre o estado do seu filho. Ele está bem e tudo vai depender dele agora. Bem, a senhora sabe que seu filho tentou se matar, que ele tem problema com a bebida e está necessitando se tratar. Posso lhe indicar alguns psiquiatras bons para ajudá-lo, através de intervenção médica adequada, mas só isso não irá resolver. Sendo médico, acredito na ciência, assim como também acredito que nem tudo a medicina pode resolver. Existem outros fatores que nós médicos e cientistas até hoje não conseguimos explicar. Por mais que tentamos, não encontramos as respostas. Estou falando como um médico. Agora ouça bem o que vou lhe falar. Pode parecer algo estranho, louco, mas durante muitos anos a medicina vem tentando de todas as formas dar uma explicação plausível a fatos e acontecimentos que não podemos comprovar. É algo totalmente obscuro para nós. A ciência é baseada em fatos concretos, reais, que podemos comprovar, através de fatos e teorias. Mas existem coisas que fogem e nos intrigam e que por mais que tentemos explicar, não conseguimos. Por mais que procuramos as respostas, não as encontramos dentro da ciência. O que eu quero dizer é que não estamos sozinhos. Vivemos cercados por espíritos, por irmãos que ainda permanecem na escuridão e que não aceitam a morte física, que não se perdoam e nos perdoam. Vagam entre as duas dimensões, vivem anos e anos. Muitos de nós possuímos o dom de se comunicar com eles. Uns, através da visão, outros através da audição, intuição e percepção. Seu filho Raul, está sendo obsediado por um irmão que ainda não encontrou a luz e que tem muito ódio em seu coração. Isso leva Raul a beber e a tentar o suicídio. Se ele não for procurar ajuda espiritual, temo pela vida dele.

-O senhor está me dizendo que fantasmas existem?

-Fantasmas, não, mas espíritos, sim. Todos nós temos um corpo fluídico quando estamos encarnados. Possuímos um corpo. É como se fosse a nossa roupa que veste o espírito, quando desencarnamos, voltamos para o plano espiritual, onde estudamos. Isso, para voltar a terra, se assim precisar. E tem esses irmãos que ainda não tem a compreensão e vivem na escuridão, se alimentando do ódio, da raiva, da miséria espiritual. Muitas vezes nós os encontramos, cheios de raiva e rancor e nós prejudicamos a nossa evolução, como é o caso de Raul.

-Doutor, estou confusa. Não sei direito o que o senhor está falando, é algo totalmente inaceitável para mim. Mas isso vem de Deus?

-Sim, Deus nosso pai nos ama e quer que sejamos felizes. Ele nos ampara e guia para que sejamos fortes e benevolentes, caridosos e revestidos do amor desprendido da matéria, e pasensioso nos dá o tempo que for necessário para que possamos evoluir e aprender. Não nos julga e condena. É um pai austero e amoroso. Temos muitas das respostas que procuramos dentro da doutrina espírita, aprendemos que sofrimentos e dores são necessários para que haja a evolução moral e espiritual, mas também aprendemos que é mais fácil quando temos o amor dentro de nós. Se desejares, posso levá-la ao centro onde freqüento, para que escutes as palestras e participe do grupo de estudo. Lá, você terá mais aprendizado. Agora tenho que voltar para examinar alguns pacientes. Se você mudar de idéia, sabes onde me procurar. Fique na santa paz de Deus.

Teresa se dirigiu a Unidade de Terapia Intensiva, onde Raul estava para saber mais notícias dele. Lá, lhe informaram que o quadro permanecia o mesmo. Perguntou se podia entrar para vê-lo.

-Sim, mas só alguns minutos.

Ela entrou e viu seu filho todo cheio de aparelhos, se aproximou da cama pegou na sua mão e lhe disse:

-Raul, é a mamãe, filho. Estou aqui, sei que você pode me ouvir, quero lhe dizer que errei muito com você que fui negligente e egoísta, nunca parei para escutá-lo, não fui uma boa mãe. Se estais aqui é por que eu o abandonei, não ouvi seu grito de socorro. Mas hoje eu percebi todos os erros e falhas que cometi com você, percebi o quanto você é importante e que não existe neste mundo nada que substitua você, filho. Deus vai nos ajudar e nos colocar no caminho certo. Hoje eu aprendi que podemos consertar o que estragamos, mas eu preciso que você me ajude também e não desista para juntos caminharmos na estrada da felicidade. Espero-te, meu filho, por favor, me perdoe. Quando você ficar bom, vamos mutuamente evoluir e aprender dentro do ensinamento de Deus. Eu prometo a você que tudo será diferente, pois descobri que existe um Deus que é generoso e bondoso eespoos conci eudar, vai nórro,e está à espera de nós.

Ela o beijou e ficou ali por algum tempo a observá-lo. Secou suas lágrimas e quando iria se retirar notou que havia mais alguém na sala.

-Desculpe, eu não percebi sua presença, estou tão nervosa que não consigo prestar atenção em nada.

-Tudo bem, meu nome é Dalva e sou enfermeira. Vou cuidar do seu filho enquanto ele permanecer aqui. Não pude evitar ouvir o que a senhora disse ao seu filho. Pode ter certeza que ele a escutou. Às vezes precisamos nós perder para podermos nós encontrar, que bom que você percebeu seus erros e quer consertá-los junto a seu filho. Hoje você deu um grande passo que foi reconhecer seus erros, aceitá-los e querer corrigí-los. Foi um gesto muito benevolente pedir perdão a quem magoamos e ferimos. Estás no caminho certo, confie em Deus que ele lhe amparará e tenho certeza que vocês dois conseguirão. Hoje você reconheceu e aceitou e esse é o primeiro passo para a jornada do crescimento e da evolução.

-Engraçado, já e a segunda vez hoje que ouço isso, você também é espírita?

-Sim, sou. Nesta vida nada é por acaso, tudo é regido na mais perfeita condição e se hoje estais aqui passando por tudo isso, é porque era preciso. Para que pudesses encontrar aqui as respostas de muitas aflições e angústias. Se a espiritualidade que tudo faz na máxima perfeição e sabedoria trouxe você até aqui, porque era preciso para que você e seu filho descobrissem o verdadeiro amor que Deus tem por nós. Que bom que você entendeu e aceitou. Agora tem que percorrer a estrada junto a teu filho e juntos evoluírem e aprenderem para que também possam auxiliar aos que necessitam do esclarecimento, do amor, do perdão, da paciência e da sabedoria. Não pense que será fácil, pois nesta vida nada é fácil. Será mais instrutivo e menos doloroso quando temos o amor de Deus e a fé dentro de nós. Tudo o que enfrentamos se torna mais ameno quando podemos tirar de tudo isso um grande aprendizado, não nos desesperamos tanto e se converte em benção e evolução. Que Deus, nosso pai maior, possa continuar a te amparar nesta jornada para a luz e sabedoria.

Teresa chorou intensamente com as palavras de Dalva, feliz por te aprendido tanto em tão pouco tempo e por conhecer esse mundo onde o amor ao próximo e a prioridade onde se vivencia dia a dia, hora a hora, a caridade. Onde se dá sem nada receber, se ensina o que aprende e auxilia.

-Quero agradecer a você e ao doutor por tudo o que fizeram por mim e meu filho. Mesmo sem saber quem somos se propuseram a nos auxiliar, sem interesse algum. Apenas com o intuito de mostrar a beleza da vida quando se tem Deus dentro de si.

-São filhos de Deus assim como nós, portanto merecedores do amor incondicional de Deus, isso que importa.

-Obrigada mesmo, por tudo. Vou avisar meu marido, pois não tive tempo diante de tantos acontecimentos. Onde posso encontrar um telefone?

-Na recepção peça a uma das telefonistas, que elas irão fazer a ligação para você.

-Mais uma vez, obrigada!


Capitulo IV

 

Teresa se dirigiu à recepção, pediu a uma das recepcionistas uma ligação urgente para seu marido. Ela lhes passou o número e foi informada que se dirigisse a sala ao lado. Assim que fosse completada a ligação, seria transferida. Ela agradeceu e dirigiu-se até a sala, pegou uma revista em cima da mesa, se sentou e começou a ler, mas sem prestar atenção no que estava escrito. Estava ali aguardando a sua ligação quando ouviu a porta se abrir e os passos vindo em sua direção. Acreditava ser uma das telefonistas avisando de sua ligação e se levantou de súbito. Para sua surpresa não era a recepcionista, mas Vera. Permaneceram as duas frente a frente, sem acreditarem no que estavam vendo, ficaram assim por alguns instantes. Foi Teresa quem quebrou o silêncio:

-Vera, o que estais fazendo aqui? Como soube de Raul, se ninguém ainda sabe?

-Não sei do que a senhora está falando? O que aconteceu com Raul?

-Ele está internado aqui na U.T.I.

-O que aconteceu com ele? Está correndo risco de morte? Fale D. Teresa, por favor.

-Ele tentou se suicidar, mas agora está instável e precisa de cuidados. Por essa razão está no centro de tratamento intensivo.

-O que fizeram com ele? O que o levou a tomar uma atitude dessas?

Teresa iria responder, mas a recepcionista avisou de sua ligação. Ela foi atender ao telefone e deixou Vera atordoada. Ela estava completamente transtornada com o que acabara de saber e saiu correndo em direção ao centro de tratamento intensivo. Precisava vê-lo, saber como ele realmente estava.

-O que aconteceu Teresa, por que estais chorando?

-Raul sofreu um acidente, por favor, vem pra cá. Estou nervosa, você é medico e pode saber realmente qual o seu estado...

-Teresa eu não posso me ausentar, tenho reuniões importantes e não posso desmarcar.

-O que é mais importante que o seu filho?

-Assim que eu me liberar, vou. Qual hospital você está?

-Na Santa casa.

-Agora tenho que desligar, pois já estou atrasado.

 

Teresa desligou o telefone. Não estranhou a atitude do marido, pois ele sempre agira assim. É sempre frio e inabalável, como se não houvesse nada dentro de si. Tudo o que mais dá valor é a sua posição social, seu poder e fama. Esse era o único objetivo de seu marido. Sempre foi negligente com sua família. O importante, o primordial era sua carreira. Mas não poderia só condená-lo, pois também teve grande responsabilidade. Ela agia assim, sem muito se preocupar com o filho. Sempre estava envolvida com a sociedade, em festas, eventos sociais, e sempre achou esses eventos beneficentes sem valor social. Agora era a momento de começar a concertar seus erros, mudar seus pensamentos e atitudes. Sabia que não seria nada fácil, pois durante sua vida inteira até aquele momento, só havia semeado dor e ódio, teria que lutar muito, ter muita fé, paciência, força e muita vontade de sanar todo o mal que plantou. Ela estava decidida, pois encontrou o verdadeiro e único sentido da vida, que era a evolução moral. Iria galgar essa estrada junto com seu filho. Estava perdida em seus pensamentos, quando ouviu alguém chamar seu nome.

-Teresa, por favor, o que aconteceu? Vim assim que soube... como ele está?

-Você já avisou o Lauro?

-Ele já está fora de perigo, Lauro já sabe de Raul.

-Por que ele não está aqui com você?

-Você o conhece bem... disse que virá quando tiver tempo.

 

Eulália se aproximou de Teresa e a abraçou, confortando-a naquele momento de dor e angústia. Elas permaneceram assim por alguns instantes, sem nada a dizer. Apenas o silêncio falava à alma de Teresa, que atormentada pela culpa gritava por perdão. Necessitava naquele instante era se perdoar e se libertar de todas as culpas e injustiças que causou aos outros, mas as marcas permaneceram dentro de si, condenando-a. Ela precisava se perdoar e começar uma nova etapa, como se hoje ela renascesse e que os erros que cometeu se tornassem exemplos de ensinamentos e crescimento moral. Disse emocionada:

-Agora sei Eulália, que a tentativa de suicídio de Raul fez despertar em mim muitas coisas que eu não sabia. Hoje aprendi muito, como por exemplo, que tudo na vida tem uma razão e um porquê. Nada é por acaso. Aprendi da maneira mais dolorosa possível e neste momento eu sei que tudo é mais fácil de suportar quando se vive o amor de Deus, e isso nos torna fortes diante das dificuldades que enfrentamos. Descobri o quando era ignorante por viver num mundo onde não se prega o amor e a caridade. São aprendizados que modificam a alma, “o espírito” que nos edifica e eleva, e acima de tudo, nos conforta e nos auxilia nas horas de aflição.

-Teresa, você precisa descansar um pouco, pois não está mais conseguindo raciocinar direito. Venha, vou te levar para casa. Você precisa comer alguma coisa.

-Obrigada, Eulália. Mas estou sem fome e não vou sair enquanto Raul não acordar. Quero estar ao seu lado. Vou pedir a Rosa que providencie roupas limpas, alguns objetos pessoais e pedir que o motorista traga até aqui.

-Se assim preferes, Eugenia e Lucas pediram que lhe avisasse que vem amanhã visitar Raul. Acharam melhor não vir hoje, já que você ainda está abalada.

-Raul ficará muito feliz em saber que eles estiveram aqui.

-Bem, agora eu preciso ir. Já está ficando tarde e amanhã virei junto com os meninos. Se precisar de alguma coisa, por favor, me ligue.

-Eulália, obrigada por tudo amiga, por vir até aqui neste momento tão difícil.

-Não agradeça, até amanhã.

 

Teresa solicitou à Rosa o que precisava para passar a noite no hospital. Pediu que mandasse o motorista trazer-lhe o mais rápido possível e desligou o telefone. Foi ver como estava Raul. Quando começou a caminhar pelos corredores se lembrou de Vera. Não havia terminado a conversa com ela...

 

Vera permanecia parada em frente à porta da U.T.I. Sem coragem de entrar, ela permanecia ali, revivendo os últimos acontecimentos junto a Raul. Sentiu raiva de si mesma. Como poderia estar preocupada com ele, depois do que ele lhe fez? Que tolice dar a volta se afastar, quando D. Dalva a chamou...

-O que você faz aqui Vera? Devias estar descansando em seu quarto, e não rodando por aí. Assim, sua recuperação será mais demorada. Você veio até aqui para me falar

-Não, Dalva, só resolvi caminhar um pouco e acabei me perdendo. Mas já estava saindo, quando me chamou.

-Vera, tem certeza que foi isso mesmo o que lhe trouxesse até aqui? Parece- me que estás me escondendo algo...

-Não há nada para esconder. Disse a verdade. Agora, preciso ir.

-Espera. Já que está aqui, gostaria de conversar com você.

-Claro que sim. Sobre o que quer falar?

-Estive conversando com Dr.Renato e com o Gustavo na quarta-feira e descobri que Renato está precisando de uma moça para auxiliar a sua secretária que está sobrecarregada. Aproveitei a oportunidade e sugeri que ele lhe contratasse. Ele concordou em contratá-la para o cargo. Claro que tudo isso só será possível se você aceitar o emprego.

-Dalva, quem me dará um emprego neste estado que eu me encontro sabes que estou grávida. E além do mais, não tenho experiência nenhuma com escritório, sempre trabalhei como empregada doméstica.

-Vera, tente ao menos pensar que tem condições. Sei que vais conseguir pois é uma moça inteligente e esforçada, e quanto ao fato de você estar grávida, não há nenhum problema. Disse a ele que a levaria para uma entrevista assim que você estiver melhor. O que você acha?

-Bem, vendo por esse lado, não tenho nada mesmo a perder... Mas eu não prometo nada, apenas vou tentar.

-Já é um grande passo, minha querida, vou avisar o Renato assim que eu tiver um tempinho, ele ficará feliz em saber que você concordou.

-Dalva, obrigada por tudo o que você vem fazendo por mim. Você é uma boa pessoa, tenho medo de decepcioná-la.

-Você tem que tentar não decepcionar a si mesma, agora vá descansar para se recuperar mais rápido, pois tem muito a fazer no escritório de Renato.

 

Vera se retirou envolvida por um sentimento de ódio que a dominava e quase não conseguia suportar tanta raiva e mágoa. De toda a humilhação que sofrera, o que ele passou não foi nada diante do que ele lhe causou. Neste instante, ela agradeceu por não ter morrido. Se isso tivesse acontecido, só daria a eles alívio por ter se livrado dela. O melhor é ficar viva e destruí-los, fazer que eles sofram e humilhá-los. Assim, tal como fizeram, esse emprego veio em boa hora e a partir dele, ela começaria a sua vingança com a família Mendonça de Sá. Entrou em seu quarto e começou a planejar a sua vingança. Começaria por destruir Raul, depois o resto da família.

 

Teresa tomou um banho, trocou de roupa, comeu algo e foi ver como estava Raul. Também estava ansiosa para falar com Dalva e saber mais sobre a doutrina espírita, iria pedir-lhe que a levasse em uma reunião para poder ter maiores esclarecimentos e aprendizado. Ao chegar, viu através do vidro que Dalva estava ao telefone. Resolveu esperar que ela terminasse a sua ligação, assim não a interromperia. Mas de onde Teresa estava, mesmo que não quisesse, podia ouvir o que se falava do outro lado. Mesmo não querendo, ela pode ouvir que Dalva falava sobre uma moça cujo nome era Vera. Seria a mesma que ela conhecia? Só poderia ser, pois ela estava também internada no mesmo Hospital. Quando ela terminou a ligação, Teresa entrou e a perguntou sobre o estado de Raul, se havia mudado algo desde a última vez que ela estive ali. Dalva relatou que seu estado era o mesmo, sem alterações nenhuma, mas que Raul era jovem e forte e ira resistir. Tinha fé em Deus.

-Eu confio sim, Dalva. Gostaria de conversar com você em particular. Prometo que serei breve.

-Claro que sim, vamos até aquela sala onde podemos conversar mais tranquilamente.

-Gostaria de lhe agradecer por tudo que a senhora fez por mim e a meu filho, por me fazer conhecer esse caminho que me levará à perfeição moral e à evolução. Sei que tenho muito a percorrer, muito que aprender, mas é por isso que estou aqui. Gostaria de ir a uma reunião com você no centro, pois quero ter mais conhecimento e aprendizado.

-Claro que sim, vou todas as reuniões, são nas quartas-feiras às oito horas da noite. Fico imensamente feliz por você ter aceitado o que Deus tem a te oferecer: o seu amor, a felicidade, a sabedoria para trilhar na estrada da evolução moral. Você tem muito a aprender e a ensinar.

-Então está combinado, irei na próxima semana. E não se aproveitando da sua bondade, eu não pude evitar ouvir o que você falava ao telefone, desculpe a intromissão. Ouvi quando a senhora mencionou o nome de Vera. Você se referia a mesma Vera que está internada aqui?

-Como sabe que Vera está internada aqui?! Você a conhece?

-Na verdade, só fiquei sabendo que estava hospitaliza hoje, quando a encontrei. Desde que ela foi embora de minha casa não tive mais noticias dela.

-Então, era na sua casa que Vera trabalhava?

-Sim.

-Sei que agi errado com ela e queria lhe pedir perdão, e poder ter a chance de concertar todo o mal que lhe causei. Fui muito dura com ela, disse-lhe coisas que a feriram e magoaram. Abandonei-a e seu filho, que ela carrega no ventre e é meu neto. Quero pedir que me perdoe e que me deixe concertar tudo. Mostra a ela que estou disposta a mudar.

- e desejas mesmo ajudá-la, ore por ela, peça a Deus que a guie e a ilumine. É o mais certo a fazer, pois ela está muito revoltada e com ódio em seu coração. Dê o tempo necessário a ela e deixe que a espiritualidade os guie e no devido momento tudo será resolvido. Mas você terá que ter muita paciência e resignação e amor para com Vera. Se conseguirem cumprir o que lhe foi confiado, que Deus na sua infinita bondade possa lhe intuir e lhe amparar minha irmã. Confie na espiritualidade que tudo sabe e que tudo vê, e siga a tua jornada para a luz e entendimento, mas para isso precisa primeiro cuidar de você. Um doente não pode cuidar de outro.

 

Era quase meia noite, quando Vera conseguiu dormir. Estava eufórica com a idéia de se vingar de Raul e sua família e adormeceu com esses pensamentos. Caminhava por um lugar ermo, frio e escuro, e não sabia onde estava, mas seguia uma voz que lhe chamava.

-Venha essa é nossa chance de nos vingarmos dele, agora nos uniremos em um só intuito para a destruição. Jonas lhe esperava e sabia que podia contar com você, ele não pode ficar sem levar essa lição. Pensa que vai ficar imune? Vamos unir as nossas forças, você de onde está e eu daqui. Só teremos que unir nossos pensamentos em um só objetivo: Jonas.

Vera não entendia o que aquele homem lhe dizia e não conhecia nenhum Jonas. Sua vingança era Raul.

- Não conheço nenhum Jonas? Não sei o que você esta falando.

-Conhece sim, ele lhe humilhou, usou e depois a descartou como se fosse um lixo. É assim mesmo que ele faz, estamos falando da mesma pessoa. Nós sofremos e fomos usados e destruídos por ele, agora é nossa vez, agora vamos lhe dar o troco.

-Jonas é Raul? Como pode ser possível?

-Pensa que acaba depois que morremos?

-Não continuamos a viver aqui no plano astral, só o corpo morre, a inteligência permanece e com ela, todas as lembranças de vidas por nós já passadas. Alguns espíritos pedem para a espiritualidade maior voltar a terra para se evoluir, mas isso é algo muito difícil e às vezes sucumbe. É o caso de Jonas, que não conseguiu ser mais forte que seus vícios e eu o descobri e você também, só que estamos em esferas diferente, mas nada nos impede de nos unirmos. Seremos muitos fortes.

Soltou uma gargalhada que Vera sentiu medo. Mas, pensou, por que não? Se ambos tinham a mesma intenção, só ganharia com essa união. Era o mais certo a ser feito, e lhe disse:

-Eu aceito a sua ajuda.

E ambos começaram a rir descontroladamente. Ela acordou com suas risadas e pensou na estranheza de sonhar que tinha encontrado um homem e com ele se aliado para destruir Raul.

-Isso era loucura! Foi apenas um sonho. Foi por que dormi pensando nesse assunto e continuei em sonho, se fosse mesmo verdade seria mais fácil e rápido.

 

Eram nove horas da manhã quando Eugênia e Lucas chegaram ao hospital, acompanhados de sua mãe, para visitar Raul. Foram encaminhados até o centro de tratamento intensivo onde Raul ainda permanecia em coma e conversaram com a enfermeira encarregada do setor, que lhes instruiu que sobre a entrada de pessoas. Seria um de cada vez e só por um minuto. Lucas pediu que fosse o primeiro a entrar. Entrou aproximou-se da cama de Raul e lhe falou:

-Oi Raul, sou eu, o Lucas. Será que podes me ouvir? Espero que sim, pois quero que saibas que estou torcendo para que você saia dessa. Vou ficar aqui torcendo por você, pois somos jovens e temos muito que fazer juntos, vou te esperar. Bem, agora preciso ir, pois mamãe e Eugênia esperam para entrar. Voltarei todos os dias amigo. Dizendo isso se retirou. Quando foi a vez de Eugênia entrar no quarto sentiu um arrepio que lhe tomou todo o corpo. Ela sentiu a presença do homem que sempre vira com Raul desde que eram crianças, fez menção de voltar, foi interrompida por uma voz que lhe disse:

-Sei que podes me ver e ouvir, assim também como sei que tens medo do que vês e ouve. Já lhe disse, não se intrometa em meus assuntos, menina. Também posso pegá-la, assim como faço com ele. Vês o sofrimento que causo a ele? Não desejas isso pra você e sua família? Eugênia nada respondia, sentia medo, mas dessa vez algo lhe fez falar e o enfrentá-lo.

-Não o temo mais, pois não sou mais criança e não permitirei que você continue a agir assim, deixe-o em paz.

-Deixá-lo em paz? Quem você pensa que é?

-Só por que podes ver, não quer dizer que tenha a força e o poder. Sabes que uso exatamente isso contra você, pois como ninguém acredita...vêem-te como louca. Não lhe dão créditos e se não queres parar em um manicômio feito uma louca, como muitos que tem por lá esquecidos e maltratados só por terem a condição de ver o plano espiritual. Posso intuir os pensamentos de sua mãe e lhe dizer que você está cada vez mais louca. A única saída é o manicômio. Você não pode nada contra mim. Eu posso muito contra você.

Eugênia estava parada sem saber o que fazer, mas neste momento veio-lhe uma forte intuição para que proferisse uma prece e a fez. Começou a orar intensamente e pela primeira vez sentiu-se segura. Algo lhe fortalecia, mas não sabia exatamente o que era. Continuou assim, até que o espírito obsessivo de Raul fosse embora e a deixasse em paz, mesmo que fosse por pouco tempo, pois sabia que ele voltaria. Agradeceu a Deus por ter dado a ela a força suficiente para enfrentá-lo, ao menos uma vez na vida. Lembrou-se das palavras que ele lhe dissera e sentiu medo, mas teria que ser forte, pois não era em vão, o fato de ela poder ver e ouvir espíritos. Mesmo que ela lesse a respeito era muito vago e ela sabia, tinha que encontrar alguém para ajudá-la. Uma vez agradeceu a Deus e falou a Raul que não tinha medo.

-Você tem que ser mais forte do que ele, tem que lutar contra suas vicissitudes e só assim terá êxito no teu progresso espiritual. Assim poderá cumprir a sua missão, fé em Deus e em você mesmo, e acredite que tudo pode ser vencido se tiver amor e caridade. Esse é o caminho que levam a Deus, sem eles ficará perdido e desorientado. Estamos aqui para auxiliá-lo, mas precisa ouvir o seu coração e só assim ouvirá a nós. -Que Deus te abençoe nessa tua jornada meu irmão.

Dizendo essas palavras, Eugênia se retirou. Ao sair do quarto estava branca e assustada, pois o que ocorreu lá dentro do quarto a deixou sem ação. Só sabia que tinha que ajudá-lo. Teresa estava junto a Eulália e Lucas, quando ela saiu do quarto e Teresa lhe perguntou se estava se sentindo bem, pois estava pálida. Iria falar-lhe, mas resolveu não comentar nada, pois lembrou das palavras do espírito. Foi ela que lhe perguntou se estava se sentindo bem, pois estava pálida.

-Estou bem, D. Teresa, não gosto muito de hospital, já passou.

-Tem certeza, Eugênia?

-Sim, obrigada.

 

Eugênia permanecia calada envolvida em seus pensamentos. Ela vivenciou uma nova experiência, que jamais havia experimentado. Ela não sabia que o pior havia nascido, hoje ela descobriu Deus, para poder ajudar aos espíritos que ainda se encontram nas trevas, na escuridão da raiva e do ódio. Eles permanecem lá por anos, sem evoluírem, e perdoar aqueles que lhe oprimem, que lhes magoam. Foram injustos, mas hoje ela sabia que essa era a sua missão. Ainda estava atordoada, pois não sabia como fazê-lo. Se for por essa razão que ela veio, ela sabia que Deus lhe guiaria para o caminho certo. Teria que ter paciência e na hora certa Deus lhe mostraria.

-Eugênia, você está tão calada. Não falou quase nada desde que esteve com Raul.

-Desculpe, estava aqui pensado que hoje é o dia que tenho que ir ao psiquiatra e acho isso desnecessário. Mamãe insiste que eu continue.

-Sabe minha querida, às vezes, nós mães agimos de maneira que vocês desaprovam. É por amar vocês, que muitas vezes os sufocamos. Se eu tivesse tido mais cuidado com Raul quem sabe ele não estaria onde está. Sei que cometemos erros, muitas vezes não permitimos que vocês se expressem e que falem o que sentem. E mesmo sendo mãe, podemos cometer erros também. Não estou dizendo que você cometerá o mesmo erro que Raul, mas é bom que vocês conversem com quem os ouve. Eu aprendi muito com essa atitude de Raul, aprendi a dar valor a coisas mais importantes, como por exemplo, o amor, a compreensão, a caridade e o perdão. Aprendi que tudo nesta vida tem uma explicação e uma razão, basta que nós sejamos humildes para entendê-las e corrigí-las. Hoje, ao vê-lo ali, percebi que precisava chegar onde chegou para me despertar, que o erro não era só dele, mas também meu. Agora eu vou procurar ouví-lo mais e entendê-lo, pois se Deus me confiou um filho dele, era para que juntos resgatássemos o que ainda havia a ser resgatado e que fomos em outras vidas, inimigos. Juntos, decidimos voltar como mãe e filho para um perdoar o outro e nos melhorarmos. Eu como mãe, tenho a responsabilidade de orientá-lo, educá-lo, repreendê-lo e também amá-lo, acima de tudo. A maior responsabilidade é a minha. Não se pode mudar ninguém, se não mudarmos a nós mesmos. Isso se chama exemplo. E agora que descobri vou procurar fazê-lo.

Eugênia nunca tinha ouvido Teresa falar assim, tão profundo e cheio de ensinamentos. Ela precisava conversar com ela longe de sua mãe, pois o que ela falou já havia lido em alguns livros espíritas e não acreditava que Teresa estava falando de vida após a morte. Tinha que descobrir a verdade, se essa era a resposta que ela esperava. Foi Eulália quem interrompeu os pensamentos de Eugênia.

-Bem, precisamos ir, pois senão vamos nos atrasar para a sua consulta. Teresa, amanhã eu venho com mais tempo.

-Obrigada, Eulália, por tudo o que tens feito por nós. Nunca vou esquecer seu carinho.

Ela abraçou Eulália e se despediu de Lucas, beijando-o no rosto. Quando abraçou Eugênia, lhe falou em seu ouvido que precisava muito lhe falar, mas que mamãe não podia saber.

-Por favor, me encontre amanhã às duas e meia da tarde na praça XV. É um lugar muito lindo, e me traz muitas energias boas. Espero-te até amanhã.

Beijo seu rosto e saiu. Teresa ficou pensando no que Eulália teria para lhe falar, pois elas nunca trocaram mais do que duas ou mais palavras. Será que ela tinha algo a dizer sobre Raul?

-Eulália vivia me falando que ela via fantasmas que na verdade são espíritos, mas eu nunca acreditava. Também acho que Eugênia era perturbada para não dizer louca. Mas agora sabia que se isso acontece com pessoas que são médiuns e tem o dom. Será que é isso que ela lhe deseja falar?

Estava curiosa e ao mesmo tempo ansiosa para chegar logo o dia que se encontraria com Eugênia, mas teria que ter todo o cuidado para que Eulália não descobrisse. Ela desaprovaria a sua atitude e proibiria Eugênia de falar-lhe novamente.

-Teresa, me fale o que aconteceu com Raul. Falaram-me que ele não sofrerá acidente nenhum, podes me explicar o que está acontecendo?

-Vamos sentar, Lauro. É uma longa conversa.

-Sabes que não tenho muito tempo, por isso prefiro ficar em pé mesmo e que sejas breve, sem maiores detalhes.

-Bem, se é assim que preferes... o fato é que há muito tempo Raul vem bebendo em demasia. Conversei com ele sobre isso várias vezes, mas não ajudou muito. O álcool e a depressão lhe fizeram tomar uma atitude: tirar a sua própria vida. Tomou remédios para dormir, que estavam em minha gaveta. Por sorte cheguei a tempo de salvá-lo, mas eu ainda não sei direito bem qual é o estado dele. Sei que teve três paradas cardíacas e está em coma. O último boletim médico era que o seu quadro permanecia estável, mas você como médico pode ter acesso aos detalhes.

-Eu não acredito que ele chegou nesse ponto. Só faltava essa mesmo. Já aprontou tudo que podia, agora me arruma mais essa... imagino como será e repercussão na imprensa se descobrirem que o único filho do Dr. Lauro de Sá, o conceituado cirurgião, tentou se matar. Não quero nem pensar, preciso falar com o diretor, que é meu amigo, para que não deixar isso vazar.

-Lauro eu não acredito no que estou ouvindo. Seu único filho tentou se suicidar, não sabemos se ele vai sobreviver. Você não veio ontem lhe ver e tão pouco ligou pra saber como ele estava, e só agora que aparece. E sua maior preocupação é o que a imprensa vai divulgar? Não imaginava até onde você seria capaz de ir em nome de sua ambição, de sua arrogância. Mas vejo, que muito mais longe do que eu pensei. Sem ter o mínimo de sentimento por seu filho. Pedirei a Deus que tenha pena de você, pois é um ser totalmente materialista a ponto de trocar o amor das pessoas por coisas materiais e colocar a frente de seu filho, sua reputação e nome. Só isso que lhe interessa mesmo...

-Ora, vejam quanta decência. O que mais me assombra é o fato de você até ter mencionado o nome de Deus em seu discurso tão infamante, em nome do amor. A quem você quer enganar, passando por mãe amorosa e dedicada ao filho problemático? Não tem o direito de me jogar isso na cara, pois você é como eu, sempre pensando em si, em que roupa vai usar, onde será a nova viagem ao exterior e adora ver seu nome na coluna social. “A socialaite Teresa Mendes de Sá”, isso é o que você gosta realmente, portanto minha querida, não venha me dar sermão. É tão pouco me dizer que ama e se preocupa com Raul, pois nunca foi mãe e nunca será.

-Sei que errei sim, por pensar que dando a ele as melhores roupas, estudando nos melhore colégio e freqüentando os melhores clubes da cidade substituiria o amor e a atenção, mas eu cometi um erro. Sempre o amei, mesmo nunca tendo demonstrado a ele. Agora eu percebo que não é assim que deve ser. Mas será que você algum dia sentiu alguma coisa por ele que não fosse a indiferença? Eu te digo não, nunca é tarde para mudar nossos corações. Podemos e devemos mudar para melhor. Eu estou disposta a fazer isso. Não será fácil, eu sei, mas não vou desistir da melhor coisa que tenho: meu filho. Sei que o magoei, o abandonei e o decepcionei, mas vou mostrar a ele através de atitudes e mudanças, que posso ser outra pessoa.

-Seu discurso me deixou enjoado, mas para me livrar de você, vou conversar com o médico de Raul e depois irei resolver esse problema, que mais uma vez seu filho idiota e imprestável me causou. Sabes me dizer onde está o médico que está cuidando de Raul?

-Sim, Dr. Dorival.

-Onde posso encontrá-lo?

-Vamos até o consultório dele. Se estivermos sorte, ele estará lá, pois sempre sai para visitar seu paciente quando está de plantão.

-Ainda tem isso... estou perdendo tempo e você sabe que tempo é dinheiro.

-Pare de reclamar e vamos logo, pois assim terá resolvido tudo mais rápido e podes voltar a seus afazeres.

-Assim espero.

No caminho para o consultório do Dr. Dorival, encontraram Dalva que também se dirigia à sala. Teresa a cumprimentou e lhe apresentou Lauro como seu marido.

-Dalva este é Lauro meu marido.

-Dr. Lauro de Mendonça e Sá.

-Muito prazer doutor. Ouço muito falar do senhor, é um médico bem sucedido.

-Obrigado, mas quero lhe pedir que não comente nada que meu filho tentou se suicidar, pois se isso vazar me trará muitos aborrecimentos. A senhora sabe que os jornais estão loucos por escândalos dessa proporção, ainda mais se sou eu, um renomado médico. É inaceitável que tenha um filho perturbado.

-Quanto isso pode ficar tranqüilo, não comentarei nada com mingúem.

 

Seguiram em silêncio até a sala de Dorival, bateram na porta e entraram. Ele estava estudando alguns casos, mas parou ao vê-los entrarem. Lauro foi logo se apresentando, não como pai de Raul, e sim como o famoso médico. Dorival tratou-os, sempre sendo atencioso com todos. Não lhe interessava se eram pobres ou ricos, para ele todos eram filhos de Deus e a sua função era salvar vidas. Como médico de Raul, falou do estado de saúde, quais as complicações que poderiam ocorrer devido à ingestão dos medicamentos que tomou e disse que já tinha efetuado os procedimentos necessários para neutralizar os efeitos que o medicamento causa no organismo, quando se toma em grande quantidade e das possíveis complicações decorrente do excesso dessa substância no organismo. Assim, explicou todos os riscos que Raul ainda corria e de todos os procedimentos que iria tomar, caso ele apresentasse mais complicações. Mesmo percebendo que Lauro não demonstrava muito interesse nas possíveis complicações que seu filho poderia ter, continuo a explicar sem se incomodar com a atitude que ele demonstrava. Continuou, pois sabia que Teresa absorvia todas as informações que ele apresentava. Por fim, apresentou seu parecer como médico. Assim que terminou, Lauro agradeceu-lhe pelo relatório e pediu que ele enviasse todos para seu consultório. Era complicado pra ele vir até o hospital todos os dias, pois tinha muitos compromissos que não poderiam ser adiados. Forneceu o endereço do seu consultório para onde deveriam ser enviados os boletins médicos, sobre o estado de Raul e agradeceu. Retirou-se e com ele também Teresa, deixando Dorival com seus pensamentos.


Capitulo V

 

Estava imensamente agradecido a Deus por compartilhar com outros irmãos a verdadeira felicidade e amor que só é encontrada quando se pratica a caridade e o amor de Cristo. Mesmo tendo uma longa jornada pela frente, ele iria percorrê-la. Pois compreendeu que as aflições e dores que enfrentamos são decorrentes do aprendizado e da evolução em busca da nossa perfeição moral. Essa nova estrada que começou a galgar, mesmo estando repleta de injustiças, de ódio e rancores, lhe será como bálsamos a auxiliar, pois tudo o que enfrentamos mesmo nos momentos de desespero será a eles mais tênue. Com a fé inabalável e imutável em Deus tudo passará com resignação e paciência, tirando de tudo, o ensinamento necessário para a evolução. Não havia mais nada gratificante no seu ponto de vista, quando um ser aceitava a se modificar e a evoluir, mesmo que não conseguisse. A semente foi plantada e iria germinar se fosse regada com amor e paciência, se fosse alimentada com generosidade e tolerância. Ela iria brotar, cresceria forte e dela seria colhido bons frutos. Pois somos filhos de Deus criados, à imagem e semelhança dele podemos ser generosos, bondosos, amorosos e caridosos, só que ainda não nos damos conta disso. Deixamos muitas vezes a vaidade, prepotência, orgulho e o desejo das coisas fúteis ofuscarem nosso verdadeiro ser. Estava perdido em seus pensamentos, quando Dalva entrou em seu consultório.

-Boa tarde, D. Dorival, posso entrar?

-Sim, claro D. Dalva.

-Dorival, como está seu trabalho na casa de Recuperação de drogas e alcoolismo? Quando o Raul se recuperar poderíamos falar-lhe do programa sobre reabilitação de alcoolismo.

-Falaremos primeiro com Teresa, passaremos todas as informações do trabalho desenvolvido com os jovens dependentes. Dalva, eu ainda me assusto com o rumo que muitos jovens tomam em relação à droga e o álcool. Cada vez mais cresce os incidentes de jovens no mundo das drogas. Muitos deles não chegam à idade adulta. Quando não morrem de overdose, morrem de acidentes ou são assassinados, mesmo tendo o conhecimento dentro do espiritismo e dentro da medicina. Eu ainda me questiono o que faz cada vez mais os jovens se perderem no submundo das drogas e do álcool. Nós procuramos trabalhar a auto-estima desses jovens dando mais credibilidade e mostrando-lhes que podem se recuperar e se tornarem exemplos a outros jovens que estão também fazendo uso de algum tipo de drogas. Fizemos um trabalho árduo e de muita paciência. Muitos deles conseguem e outros não, porque têm a recaída e voltam a fazer uso da droga ou do álcool. Tentamos mostrar-lhes que o fato deles terem tido uma recaída não quer dizer que não conseguem, pois cada vez que voltam a tentar largar o vício, se tornam mais fortes. O dia no centro de reabilitação é feito de trabalhos de desintoxicação, junto com um acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Oferecemos vários tipos de trabalhos manuais e atividades físicas e palestras, que são expostos os riscos de se fazer uso de drogas e álcool. É um trabalho bem gratificante, pois ver um jovem que estava perdido no mundo das drogas e álcool se libertar e se dedicar a ajudar os outros, é uma recompensa. Muitos desses jovens são assediados por irmãos, que ainda necessitam das coisas terrenas e se aproximam por perceberem que as fraquezas do espírito encarnado ficam vampirizadas, cada vez mais. Também são feitas reuniões, que eles escutam, tomam passe e é feito um trabalho de desopressão. Você tem que nos fazer uma visita e ver como funcionam os trabalhos junto com os jovens que estão internados lá se recuperando. O Dr. Gustavo está fazendo um ótimo trabalho com eles dentro da psicanálise, levando-os ao alto conhecimento e a superar suas limitações e medos. Tudo isso dentro da ciência e da espiritualidade. Está sendo muito instrutivo e auxiliador explicar-lhes que para podermos crer de verdade, antes temos que compreender que não se pode crer cegamente, pois a crença tem que ser raciocinada e antes de aceitarmos algo como verdade tem que ser analisada. A vida aqui na terra é uma oportunidade de reajustamento para o bem. As escolhas que tomamos trazem conseqüências e nos mostram se foi para o bem ou para o mal. Se hoje estamos sofrendo é resultado que advém dos erros anteriores. É a lei da ação e reação. Portanto, se fizermos o mal, cedo ou tarde o colheremos. Quando podermos entender isso, ficará mais fácil aceitar o que estamos passando, pois saímos da condição de injustiçados. Se hoje passamos mal, é por que fizemos aos outros. Isso tem ajudado muito na recuperação deles. Claro que isso é um trabalho que requer muita paciência, amor, humildade, resignação. Dando-lhe a eles a chance de se evoluírem estamos fazendo um trabalho de autoconhecimento, levamos palavras de conforto e esperança a eles. Mostramos que Deus os ama e os espera e lhes ensinamos e serem mais fortes e resignados. Devolvemo-lhes a esperança, o amor, a dignidade, que muitos perderam com o uso da droga e do álcool. Dentro da doutrina cristão e da ciência tem tido ótimos resultados, pois ele divulga e vive os ensinamentos de cristo, aliados ao que aprendeu aqui na terra como psiquiatra. Cada dia mais auxilia esses jovens que se perderam nas estradas enganosas das facilidades terrenas.

-Então vamos mesmo falar com Teresa sobre o trabalho que Dr. Gustavo está desenvolvendo com os jovens. Eu sei que ela irá aceitar e conversar com Raul.

-Dalva, você sabe que não podemos esquecer, que se ele não aceitar temos que respeitar, pois ele tem o livre-arbítrio e nada podemos fazer se ele não estiver disposto. Tudo depende dele.

-Eu sei, D. Dorival, mas se ele não aceitar ao menos ficará a semente, e um dia ela germinará.

-É verdade. Isso é o que nós faz continuar, pois sabemos que a semente foi plantada dentro de seu coração.

-Bem, D. Dorival, já tomei seu tempo de mais, agora vou passar para ver meus pacientes, principalmente Vera. Hoje descobri que Raul é o pai de seu filho. Ela está muito desorientada com a presença dele e isso mexeu muito. Ela ainda está com muito ódio dentro de si, teremos que ter muita paciência com ela e principalmente orar muito. Ela precisa entender que ninguém é vitima e que quando nos encarnamos temos o esquecimento das vidas passadas. Isso é uma dádiva que Deus nos dá, pois se soubéssemos, não teríamos condições de viver entre eles. E Vera tem que resgatar, se perdoar e perdoar Raul e sua família, pois foi ela que pediu para passar por isso, para que evoluísse mais rápido. Para isso ela precisava aceitar e tentar reatar os laços que foram cortados em outras existências.

-D. Dorival, eu gostaria de saber qual o dia que o senhor faz as reuniões em sua casa, pois estava pensando em convidar Teresa para assistir.

-Claro que sim, Dalva. Seria um prazer ter vocês participando, sempre são realizadas nas quintas feiras às 20:00 horas. No Centro de Recuperação Lar e Carinho, com a participação do Dr. Augusto e de alguns internos da casa. Vou te passar o endereço e espero poder contar com a sua presença e de Teresa, amanhã.

Despediram-se e Dalva foi medicar os pacientes. Passou pelo quarto de Vera que acabara de almoçar e lhe esperava, pois sabia que era o horário que Dalva passa para medicá-la. Tomou os remédios e disse para Dalva que retornasse mais tarde para poder conversar um pouco.

-Sim minha querida, eu voltarei, mas primeiro tenho que medicar os outros pacientes e terminar meu serviço. Quando estiver tudo certo venho até aqui, agora descanse um pouco, amanhã o D.Dorival passará aqui para lhe ver. Falou-me que se você continuar assim em mais uma ou duas semanas, lhe dará alta. Poderá voltar e retomar sua vida.

-Que bom Dalva, já estou cansada de ficar presa aqui.

-E você, tem lido os livros que eu lhe trouxe?

-Sim, li algumas páginas e parei.

-Depois continuamos tenho que continuar a medicar, pois se atrasar o horário dos medicamentos terei problemas e isso não é nada bom para os pacientes. Fique com Deus.

 

Era quase duas horas da tarde, quando Eugênia chegou acompanhada de sua mãe no consultório do Dr. Augusto. Estava ainda nervosa com os acontecimentos ocorridos pela manhã. Sentou na poltrona e esperou que a secretária avisasse que ela já havia chegado. Ouviu a porta abrir e viu a paciente que ele estava atendendo, sair. Agora era sua vez, pensou ela. Viu quando a secretária se dirigiu à sala e logo voltou lhe comunicando que podia entrar.

-Dr. Augusto lhe aguarda.

Ela agradeceu e entrou.

-Boa tarde, D. Augusto.

-Boa tarde, Eugênia, você pode sentar ou deitar no divã, fique a vontade.

Sentou-se em uma cadeira em frente ao Dr. Augusto.

-Semana passada eu lhe expliquei como serão e quem conduzirá. Se quiser conversar, estarei aqui para escutar. Durante a seção toda ficarei em silêncio, não quero lhe pressionar, você tem que se sentir a vontade.

-Obrigada, doutor. Eu não sei por onde começar.

-Por onde você quiser, ou por onde você se sentir mais vontade de falar.

Eugênia permanecia calada, não sabia por onde começar a falar, pensava em tantas coisas... mas ficava muda. Quanto mais o tempo passava mais nervosa ela ficava e não conseguir ordenar seus pensamentos e estabelecer um assunto. Foi quando Augusto lhe deu uma sugestão.

-Por que você não começa pelo razão que lhe motivou vir até aqui? É só uma sugestão, pois percebo que você não sabe por onde começar. Aceite se quiser.

Mas ela ainda permanecia calada, pois era exatamente por onde não queria começar. Sabia que o médico lhe acharia uma louca, uma pessoa que vive fora da realidade. Suas alucinações e visão se tornam parte do seu mundo imaginário, onde só ela poderia ver e ouvir. Para a medicina, as visões são geradas pelo inconsciente, devido a um estado emocional ou existencial do ser humano. Mas, pensou por onde iria começar e quanto mais pensava mais perdida se encontrava. Ficou cada vez mais impaciente, pois via que o Dr. Augusto estava ali esperando que ela resolvesse falar. Ele permanecia calmo como se isso fosse normal e não lhe demonstrava impaciência, apenas aguardando que ela começasse. Respirou fundo e começou a falar.

-Hoje eu fui visitar um amigo de infância no hospital! É estranho vermos uma pessoa que todos os dias vemos conversar e se movimentar, e de repente o vemos ali deitado, estático, sem movimentos. Percebi o quanto somos frágeis e vulneráveis.

-O que sentiu?

-Acho que senti raiva e medo.

-De quem você sentiu raiva?

-Dele por ter feito o que fez e de Deus, por ter permitido.

-O que ele fez exatamente?

-Tentou se suicidar. Já vinha apresentando problemas com a bebida, mas achava que ele superaria isso sem maiores conseqüências.

-E você se sente culpada por isso?

-Talvez eu tenha certa culpa.

-Por que você se sente culpada por ele ter feito o que fez?

-Por que desde a infância eu tenho medo dele. Não me sinto bem ao seu lado.

-E por que sente medo dele?

-Não é exatamente dele.

-De quem então?

Parou de responder de súbito, sem dar-se conta de que a conversa estava indo exatamente para o assunto que ela não queria falar. Quase caiu na conversa dele.

-Eugênia, você não me respondeu de quem você tem medo.

-Se não se importar, prefiro não responder.

-Do que você tem medo? Qual razão para não responder a essa pergunta? O que há de tão obscuro em me responder? Já lhe disse, não estou aqui pra julgá-la. Mas, sim para ajudá-la a encontrar as respostas às suas dúvidas e medos. Se eu não souber quais são, não terei como ajudar a encontrá-las. As respostas só você é quem vai achá-las. Quero que confies em mim.

-Eu ainda não estou preparada para falar sobre isso. Acho que nunca estarei, por mais que eu leia a respeito não consigo entender.

-O que você não consegue entender exatamente?

-Por que isso acontece?

-Eugênia, o que acontecesse com você?

-Vamos fazer o seguinte, quero que você deite no divã. Relaxe seu corpo, todos os músculos e solte os músculos dos braços lentamente. Agora das pernas, inspire e expire tranquilamente, continue até que você se sinta mais tranqüila. Isso, está conseguindo se acalmar.

-Sim, estou. Obrigada por tudo doutor, já estou me sentindo melhor.

-Se você desejar, podemos parar por aqui.

-Sim, prefiro.

-Tudo bem continua na próxima semana. Se você não se importar, suas consultas serão todas às quartas-feiras, duas horas da tarde. Tudo bem para você?

-Claro que sim, sem problemas. Então até a próxima quarta-feira.

-Não precisa agendar um novo horário, depois eu passo e confirmo com a secretária os seus dias.

-Então, até mais doutor.

-Até Eugênia.

Assim que Eugênia saiu da sala, Eulália veio ao seu encontro, louca para saber o que tinha acontecido lá dentro. Mas ela não lhe falou nada, ficou calada diante do interrogatório que sua mãe fazia. Uma pergunta atrás da outra. Sem receber nenhuma resposta, pegaram o elevador e Eulália continuava sem parar.

-Mamãe, por favor me deixe em paz.

-Eugênia, você não me fala o que acontece.

-Mamãe, o doutor já te falou que a hora que for preciso ele vai conversar com você, espere e pare de me fazer tantas perguntas.

-Eugênia, não fale assim comigo, sou sua mãe e estou preocupada com você. Não quero que aconteça com você o mesmo que aconteceu com Raul.

-Mãe, não vai me acontecer nada, fique tranqüila.

-Ficar tranqüila como, se não sei o que está acontecendo?

-Mãe, não está acontecendo nada, eu já lhe falei, me deixe em paz, por favor.

Augusto terminou de anotar a sessão que tivera com Eugênia. Com mais de vinte anos de profissão ele achava cedo ter algum diagnóstico sobre o paciente. Sempre foi cauteloso em seus diagnósticos, primeiro estudar, buscar maiores informações através de investigação, como ver durante as sessões o comportamento de seu paciente, suas expressões, atitudes ao relatar suas dúvidas, medos, a maneira que expõe seus sentimentos. Já havia diagnosticado vários maníacos depressivos, com transtornos bipolar, fobias e acima de tudo, pessoas com esquizofrenias, o quadro mais delicado, por se tratar de uma doença crônica de difícil definição. Seus sintomas variam e as pessoas portadoras de esquizofrenias têm “dificuldades de reconhecer a realidade”, de raciocinar e não conseguem interagir com a sociedade. A esquizofrenia é a junção de mais de vinte genes defeituosos e pertence a um grupo de doenças chamadas "psicóticas”. A psicose é definida de várias maneiras, mas os principais sintomas são: incapacidade de reconhecer a realidade, “alucinações”, “visões” e a pessoa apresenta um comportamento desorganizado. Sendo ele um psiquiatra, tinha que analisar e estudar o caso e por isso, ter maiores informações para poder estudá-las. No caso da esquizofrenia, ela também é uma doença liga ao espiritismo e deveria estudar com mais afinco, pois para a medicina, ver e falar com espíritos é alucinação, desencadeada por um distúrbio mental ou comportamental. Mas ele era um médico e também um conhecedor e adepto do espiritismo, e tem muito cuidado e conhecimento para não deixar que um interfira no outro ao diagnosticar seu paciente. Por essas razões, ele geralmente levava mais tempo do que o normal para dar algum parecer. Sempre tinha grandes resultados com o seu modo de atuar, pois muitos dos seus pacientes não eram esquizofrênicos e sim médiuns. Ele possui o conhecimento da doutrina e vem inserindo nos jovens da casa de reabilitação de drogas e álcool. Os resultados estão sendo animadores. Ele era muito grato a Deus pela oportunidade que teve nesta existência, de conciliar a medicina e a ciência com a espiritualidade. Desta forma, ele pode auxiliar as pessoas que são descrentes no espírito. O espírito não morre e existem várias existências e com o auxilio da espiritualidade e de provas cabíveis que a ciência vem ao longo dos anos é que novas portas vão se abrindo. Mas ainda precisa evoluir muito, pois há muito que se entender e se compreender. A ciência precisa se expandir, porque há fatos que até hoje não se consegue explicar. Graças a Deus que o médico pode se amparar aos dois lados, um auxiliando o outro, sempre com Deus. Ele ama sua profissão que é muito gratificante. Ver seus irmãos aceitarem Deus e todas as coisas maravilhosas que oferece o recompensa. Ver seus irmãos em Cristo, rumo ao caminho, assim como ele está para a evolução, para a perfeição moral, é gratificante pra ele. Pensou como Deus é bondoso e o auxilia e ampara os outros. Esse amor que ele tem por nós é algo sublime e caridoso. Agradeceu a Deus mais uma vez e foi atender a seu próximo paciente que lhe aguardava.

 

Já era tarde quando Dalva terminou seu trabalho junto ao pacientes antes de subir ao quarto de Vera. Passou pela U.T.I. a fim de saber como estava Raul, leu seu último boletim médico, que não relatava complicação e ficou feliz, pois se ele estaria fora de perigo. Saiu da sala mais confiante e acreditava que ele conseguiria, tinha fé em Deus e nos seus irmãos da espiritualidade. Subiu até o quarto de Vera, abriu a porta e entrou.

-Boa noite, minha querida.

-Boa noite, Dalva. Já terminou seu trabalho?

-Sim, saindo daqui vou pra casa. Como você sabe, amanhã estarei de folga.

-Sim, eu sei, vou sentir a sua falta, gosto muito de conversar com você.

-Estará em boa companhia, logo terá alta e poderá voltar para sua casa. O que aconteceu, não ficou feliz com a notícia?

-Não é isso.

-O que foi, então?

-Eu não tenho para onde ir quando sair daqui. Como a senhora sabe, minha filha é do interior e eu morava na casa onde trabalhava, não tenho mais ninguém aqui.

-Esse é o problema, então fazemos o seguinte, você fica na minha casa até conseguir um lugar para morar.

-Não posso aceitar, a senhora já fez tanto por mim.

-Vera, minha querida, eu moro sozinha, os dois filhos já são casados, um mora em Brasília e o outro está morando nos Estados Unidos. Meu marido já descansou faz dez anos e minha casa é bastante grande. Gostaria muito de ter uma companhia jovem novamente em casa, você me faria companhia e eu a você, o que acha?

-Não sei... não quero lhe incomodar.

-Pois não irá, está resolvido. Assim que sair daqui irá ficar comigo, até conseguir um lugar para morar, que não será nada difícil pois já tens um emprego.

Vera a abraçou e agradeceu, pois se não fosse sua ajuda, não teria onde morar, nem trabalho e também não teria como pôr seu plano em prática.

-Eu estava aqui pensando que foi uma besteira tentar me matar. Se isso tivesse acontecido, só traria alívio a Raul e sua família. O mais certo a ser feito é continuar a viver e fazer a todos pagarem pelo mal que me causaram.

-Minha filha, você tem que tirar essa raiva de dentro de seu coração, tem que perdoá-los e se perdoar, só assim poderá ter paz.

-Perdoar-me, por quê? Não tenho por que me perdoar, e quanto a eles, nunca os perdoarei. Vou me dedicar a isso, enquanto eu estiver viva me vingar deles.

-Você não sabe o que está falando, não deixe esta mágoa lhe cegar. Não deixe que esta raiva a impeça que você evolua dentro do amor de Deus, não permita destruir a oportunidade que tem para se aperfeiçoar e aprender as máximas que o perdão, a paciência, a caridade e o amor dão a nós e ao nosso próximo. Você só entenderá o que te falo, quando se permitir a aceitar que não há culpados pelos nossos sofrimentos, dores, aflições. O único culpado somos nós mesmos, pois quando reencarnamos temos a lei do esquecimento. Para que possamos evoluir temos que resgatar o mal que fizemos em outras existências. Se hoje sofres perseguição e injustiça é porque também o fizeste e estais exatamente no meio das pessoas que deves. Se vocês conseguirem se entender e aceitar a modificar seus corações, evoluíram juntos e conseguirão perdoar um ao outro. Dê tempo ao tempo. Gostaria que você fosse a uma reunião comigo, assim que tiveres condições.

-Dalva, você é uma pessoa muito boa. Não consegue entender o que sinto, porque não vê maldade nas pessoas e acredita que elas são assim, como você. Mas a realidade é outra, mais cruel que você imagina. Você faz caridade a todos sem se importar a quem e vive realmente o amor fraternal, mas não consigo, não sou assim como você, mamãe. Sinto mesmo.

-Tenho meus defeitos também, não sou perfeita, me deixo abalar, também sofro e choro. A única diferença é que sei que tudo isso é passageiro, que tudo isso é necessário para que eu cresça e evolua. Não fiz nada, tenho muito que fazer para evoluir moralmente. Tudo que faço e sofro tem a presença de Deus, tenho o amor dele para comigo, os ensinamentos e exemplos para me auxiliarem quando eu não poder mais suportar as minhas aflições, com paciência, tolerância e acima de tudo fé. Uma coisa de cada vez. Vamos concentrar nossas energias em seu trabalho, em seu filho. Preciso ir, pois fiquei de passar amanhã em um centro de recuperação de drogados e álcool e preciso deixar algumas coisas organizadas lá em casa, ligar para meus filhos e alimentar meu gato. Fique com Deus e se precisar de alguma coisa está aqui o número do meu telefone, e só me ligar.

-Obrigada por tudo mesmo, nunca vou esquecer o que a senhora tem feito por mim.

-Não me agradeça e sim, a Deus.

 

Seguiu pensando nas palavras que Vera havia lhe tido e estava muito magoada. Ainda não conseguia pensar direito, pois a revolta e o ódio lhe consumiam. Teria que ter paciência com ela e pedir muito auxílio à espiritualidade maior, que lhe intuísse a fim de proceder da melhor maneira possível com ela. Confiava muito neles e sabia que eles a conduziram para que ela também cumprisse a sua missão. O mais sensato a ser feito era ir com calma ter paciência e tudo seria resolvido no seu devido tempo. Ficaria ao lado de Vera para ajudá-la e juntas, ela e espiritualidade maior, orariam para que Vera seguisse o seu verdadeiro caminho: para a redenção e a evolução.

Vera se deitou e decidiu ler um pouco. Pegou um livro, abriu em uma página qualquer e leu o título que falava sobre a dor. Resolveu ler, pois era esse o sentimento que tinha no momento.

Sejamos fortes diante da dor...

Sejamos plácidos e ávidos diante da mais profunda luta por nós já vivida.

Que somos nós, senão um reflexo do que fomos ontem?

Sejamos sábios para transformar as nossas provas em “evolução”.

Os nossos “defeitos” em conhecimentos.

As nossas fraquezas em experiências.

Sejamos sábios diante da mágoa, da desilusão, da impaciência e da tristeza.

Sábios em toda harmonia com os planos por nós traçados.

Sábios para lidar com as injustiças e saber torná-las exemplos benéficos a nós e aos nossos irmãos injustos.

Sábios para não sermos condizentes com a nossa imperfeição e do nosso próximo.

Sábios para sabermos modificar a mágoa por nós sentida em exemplos ao nosso próximo.

Sábios para deixar de sermos vítimas e passarmos para a condição de perdoar o nosso próximo.

Ávidos de qualquer resquício terreno.

Sábios para transformar o mais tórrido sentimento em puro perdão e amor.

Sábios para deixar de ser, para poder fazer...

Sábios para não julgar e sim exemplificar com o nosso amor, nossa paciência e nosso entendimento.

A sabedoria adquirida através das lutas constantes que esta ou outra existência nos salientou.

Sábio de amor, paz e caridade. Sábios não em instruções lúdicas, mas sábio da mais pura de todas as sabedorias...

Seremos sábios quando transformarmos tudo de maléfico em luz, amor e perdão. Seremos sábios quando assim pudermos ver além de nós e decodificar, desmistificar as dores, vicissitudes, mágoas e a premissa de ser injusto, para se tornar o que aqui viemos cumprir, que é apreender, evoluir e perdoar a nós e ao nosso irmão. Se diante de nós está a nossa prova, devemos cumprir com sabedoria, deixando a situação de vítima para passar a grilhão da evolução, do nosso próximo. Aí podemos dizer "Pai, a sabedoria por mim adquirida é continuar com os mesmos dogmas: perdoar ao próximo e com ele permitir que forçosamente sejamos falhos em nossa evolução". Pois, perdoar é sinônimo de aceitar, orientar a instruir e juntos evoluiremos. Perdoar é o maior dos ensinamentos. O verdadeiro perdão sai da condição de injustiça para a condição de não permitir que um de nós continue a seguir no mesmo erro. A evolução gera a evolução do seu próximo. Sejamos sábios com nossos inimigos, filhos, irmãos... Pois, a maior de todas as lutas encontra-se dentro de nossos lares. De sua máxima sabedoria, Deus possa nos instruir e nos iluminar para quando retornarmos ao plano espiritual e o pai nos perguntar: "o que tu fizeste do espírito que a ti confiei", dizemos juntos: "evoluímos paulatinamente".

Ao terminar de ler estas páginas, ela se indagou.

-Será que é mesmo assim como está escrito nesta mensagem? Se for exatamente assim como Dalva havia lhe falado... não vou ficar pensando nisso agora, tenho mais o que pensar. Essas coisas de bondade não é isso o que eu desejo agora, quem sabe num futuro, mas agora não.

Tinha outros objetivos para a sua vida e perdoar não estava em seus planos neste momento. Fechou o livro e pensou como iria agarrar essa oportunidade que lhe surgira. Iria mesmo colocar todas as suas forças neste trabalho, cresceria dentro do escritório, iria estudar, seria alguém com dinheiro e poder, então começaria pôr em prática a sua vingança.


Capitulo VI

Renato está entusiasmado com a notícia de que Vera aceitou a sua oferta de trabalho. Somente o fato de ela estar por perto já era o suficiente. Estava ansioso para tê-la todos os dias ao seu lado. Era mesmo uma notícia muito boa, era tudo o que ele mais desejava, desde que a conheceu. Tinha que se controlar, pois não poderia deixar que alguém percebesse seus sentimentos vir à tona, precisava ter controle e ser discreto. Mas como se controlar? Não conseguia se concentrar no caso que estava estudando, só pensava como seria bom estar ali junto dela. Esperava ansioso a hora de ir ao centro espírita para contar ao Gustavo que ela aceitou o emprego. Ele estava feliz com o fato de poder estar junto dela. Fixou seus pensamentos no caso que estava estudando. Precisava se concentrar no seu trabalho, pois estava diante de um caso muito importante, tinha que examinar bem as provas que havia colhido e todos os autos. No resto da tarde se concentrou no trabalho. Eram quase seis horas da tarde quando terminou. Continuaria no dia seguinte, pois tinha que ir para casa comer alguma coisa e ir ao centro espírita como fazia todas as quartas-feiras, impreterivelmente. Despediu-se de Lurdes foi para sua casa. Estava mesmo ansioso com o fato de saber que a teria sempre ao seu lado. Entrou em casa, tomou um banho, comeu alguma coisa, leu suas correspondências como fazia sempre que chegava em casa e resolveu sair um pouco mais cedo, pois assim teria tempo de falar com Gustavo antes de começar a reunião. Pegou suas chaves e saiu. Chegou ao centro trinta minutos antes de iniciar os trabalhos, procurou por seu amigo, cumprimentou alguns membros da casa. Foi quando avistou Gustavo, que conversava com uma senhora. Fez sinal de que precisava conversar com ele, sentou para aguardá-lo. Quando Gustavo terminou sua conversa foi até Renato.

-Oi Renato, que bom vê-lo.

-Oi Gustavo, preciso conversar com você, seria possível?

-Claro que sim, amigo, vamos até a sala de passe, lá podemos conversar mais à vontade.

-Você já está sabendo que Vera aceitou trabalhar em meu escritório.

-Não. Que noticia boa que você me deu, pois Dalva não tinha um emprego e ainda por cima está grávida...isso tornava mais difícil para ela conseguir um emprego.

-É verdade, ninguém vai querer empregar uma mulher grávida, pois é muito complicado para a empresa. É um gasto a mais.

-Você foi muito generoso, teve uma grande atitude ajudando-a e oferecendo um emprego para ela se sustentar seu filho, pois pelo visto o pai não vai assumí-los...

- Você sabe por que tomei essa atitude, amo essa mulher e a quero junto de mim, se ela quiser vou criar seu filho como se fosse meu. Sei que é ela que eu quero ficar para o resto de minha vida.

-Renato, fico feliz por você, mas como seu amigo, tenho que advertí-lo, pois você sabe que ela está passando por um momento muito difícil. Tentou o suicídio e está muito magoada e revoltada com os que lhe magoaram e lhe feriram. Terás que ser muito tolerante com ela e também muita paciente, terá que ampará-la até que ela possa se desprender desse sentimento. Mas, sei que você conseguirá, pois essa é sua missão: ajudá-la e juntos evoluírem.

-Estou disposto a passar por tudo isso por ela, estou disposto a superar tudo que for para fazê-la feliz e esquecer todo o mal que lhe causaram, estou disposto a lutar muito por nós dois.

-Então não há nada mais a fazer, se não orar por vocês dois e pedir que a espiritualidade maior os ampare e os guie. Quero que saibas que estarei sempre pronto para ajudá-los nesta caminhada rumo à evolução. Este é o verdadeiro amor, Renato, aquele que auxilia e ampara, dá sem nada a receber. Seu amor por essa moça é algo sublime, tenho certeza que serão muito felizes e que cumprirão o que se comprometeram lá no plano espiritual um com o outro. Ela está ainda muito magoada e sem condições de entender e aceitar, mas é você quem tem que auxiliá-la e ajudar a voltar ao seu verdadeiro caminho. Isso será feito com paciência, amor, dedicação e exemplo. Sei que tudo dará certo e acima de tudo confie na espiritualidade que tudo sabe e que tudo auxilia.

Dito isso se retiram, pois já estava quase na hora de começar a sessão daquela noite. Avistaram Dalva, se dirigiram até ela e a cumprimentaram.

-Boa noite, Dalva.

-Boa noite, rapazes.

-Renato acabou de me contar a novidade, fiquei muito feliz por ela ter aceito, isso lhe ajudara muito.

-É sim, também estou muito feliz por ela, por começar a ter novamente esperança na vida e acreditar principalmente nas pessoas. Ela até aceitou morar comigo até conseguir um lugar para ficar.

-Que coisa boa, assim ela ficará sob seus cuidados. Você é a pessoa mais indicada para estar ao lado dela, pois ela confia em você e será uma grande ajuda. Assim teremos como auxiliá-la. Vejam como a espiritualidade conspira a favor. Nada é mesmo por acaso, tudo tem uma razão.

-Quero lhe agradecer por tudo que tens feito a Vera, pelo amor e dedicação que tens com ela. A senhora e mesmo uma pessoa muito generosa.

-Renato, não me agradeça, e sim a Deus, faço apenas o que recebo, não tenho méritos nenhum nisso. Deus, ele sim, é generoso e amoroso para com nós.

 

A reunião começou no horário de sempre, foi anunciado o palestrante da noite que falou sobre a ingratidão. Foi uma palestra muito instrutiva e esclarecedora, pois assim entendemos um pouco desse sentimento que muitas vezes recebemos e não sabemos por que. Renato estava pensando nas palavras do palestrante e como sofremos e não entendemos por que. Quanto mais ele aprendia, mais ele conseguia ver que não somos vítimas, pois colhemos exatamente o que plantamos e agora que estamos aqui, novamente temos a oportunidade de consertar. Mas para que isso fosse possível, teríamos que nos modificar e evoluir, sermos mais amorosos e caridosos, pois só assim poderíamos galgar rumo à evolução. A palestra começou com uma mensagem que dizia mais ou menos assim:

Se hoje sofres com a ingratidão de um ente querido.

Se hoje vives a lamentar, por tanta ingratidão sofrida.

Se hoje lutas, lutas e nada consegues...

Se choras, se lamentas e gritas.

Seja paciente e sábio.

Seja caridoso com quem te fere.

Seja paciente com quem te magoa.

Seja amoroso com quem te causa dor.

Tenha calma e resignação.

Tenha fé e sabedoria para enfrentar as adversidades.

Quando a dor nos consome

Quando a dor nos desorienta.

Acredite, a ingratidão é um mal necessário para que possamos evoluir e sair da condição em que nos encontramos.

Muitas vezes nossa caminhada evolutiva é árdua e penosa.

Muitas vezes nossas dores e aflições se apresentam mais difícil do que imaginamos suportar e desejamos desistir por acreditarmos não suportar tamanha dor. Mas se passamos por tudo isso com fé e paciência e com amor dentro de nossos corações, conseguiremos cumprir nossa jornada evolutiva.

E se semearmos boas sementes nesta jornada, colheremos bons frutos nas jornadas vindouras. Não se evolui sem dores, aflições e sem regatar dívidas anteriores. Não se reforma sem corrigir erros cometidos no passado. Então, se hoje passamos por tudo isso foi por causa da semeadura que o fizeste em outras existências. Deus te deu outra oportunidade de corrigí-las junto daqueles que tu prejudicaste. Siga em frente e semeie bons frutos.

Se acreditares na promessa de Deus, vencerás o invencível.

Superarás o insuperável

Que possas ser exemplo a ti e aos outros.

Tire apenas coisas instrutivas dos seus erros.

Tire lições de suas dores e aflições, vivencie a palavras de Cristo e elas se tornaram mais amenas.

 

Renato pensava que só assim nós encarnaríamos e poderíamos seguir com nossas vidas aqui na terra. Sem essas explicações, sucumbimos, por não suportar tantas injustiças. Desejava que Vera também aceitasse essas máximas: a verdade, o conhecimento que ele está tendo para auxilía-lo.

-Tenho que ter fé e acreditar que ela também vai aceitar e vivenciar tudo isso que Deus nos oferece, pois ele não desampara ninguém.

Também é possível contar com a ajuda da espiritualidade maior. Fazendo a sua parte, Renato pensava que tudo se encaminharia, seguindo a vontade de Deus. Estava feliz por tudo que aprenderia, por tudo que estava vivendo. Mesmo ele sendo um homem rico e de boa família seu pai sempre lhe ensinou que todos são iguais perante Deus, devem ser tratados com respeito e dignidade e que não deixasse o dinheiro e o poder serem mais importante. O dinheiro pode trazer tudo, mas não traz a paz de espírito se nós o utilizamos para destruir nosso próximo. Ele sempre via o dinheiro como uma forma de ajudar os menos favorecidos e tratava seus empregados como se fossem da família. Era um homem generoso e correto, sempre pronto a auxiliar o próximo. Por essa razão, Renato continua a fazer o que seu pai lhe ensinou e aprendeu que o amor auxilia. Os resultados não são somente para aqueles que foram ajudados, mas sim para nós mesmos, retornando em forma de auxilio espiritual, em forma de bálsamos e luz, mostrando que ser bom é melhor que ser ruim. Seu pai era um homem sábio, pois ele nunca deixou que o dinheiro que possuía o corrompesse e sempre o utilizava em prol do próximo. Esses exemplos de bondade e generosidade de amor ao próximo, Renato herdara do pai. Ele tinha que agradecer a Deus por tê-lo como pai, por poder aprender tudo o que ele ensinou. O mais importante de tudo na vida de um homem são seus feitos em prol do próximo e não as riquezas que ele acumulou, pois não levará nada consigo de material. Seu pai não conhecia o espiritismo, mas mesmo assim praticou a caridade, deixando aqui somente coisas boas e um grande ensinamento a todos, principalmente a ele.

Quando voltava a sua casa Renato desejou ir ao hospital, mas achou melhor não ir, pois já estava tarde. Resolveu ir no dia seguinte para agradecer Vera, por ter aceitado sua oferta de emprego. Seria uma boa desculpa para vê-la. E iria fazer isso amanhã antes de ir para o escritório. Entrou em casa, tomou um copo com água e foi direto para o seu quarto, pois estava cansado. Trocou de roupa e logo adormeceu.

Ele estava em um lugar onde nunca estivera antes, onde se podia ver a pureza das flores, a brancura das nuvens, um tom de verde que as árvores possuem e que ele jamais havia visto antes, onde o canto do passarinho era alegre e se podiam ver os animais livres a correr. Ele também percebia pessoas conversando, algo diferente nelas, eram mais leves, mais iluminadas e resolveu ir até um grupo que estava sentado diante de um hospital enorme. Só poderia ser um hospital, pois ele podia ver pessoas entrando e saindo, uns de macas, outros caminhando com o auxilio de outras pessoas. Mas o que mais o chamou a atenção era por ser um hospital. Não lhe parecia algo triste, onde pessoas morriam ou sofriam de doenças. Era muito mais do que um hospital, pensou ele. Aproximou-se de um grupo de quatro pessoas, todas vestidas de uma túnica branca de um branco inexplicável. Eram duas mulheres de mais ou menos uns 50 a 60 anos e dois homens que também aparentavam a mesma idade. Ao ver que Renato se aproximava, um senhor veio ao seu encontro e o saudou com muito amor e paz.

-Estávamos te esperando, Renato. Esperávamos que você adormecesse para lhe trazer até aqui. Primeiro quero apresentar nossos irmãos, que trabalham na missão de auxiliar vocês e que por razões de desejo se evoluíram e retornaram a terra para poder todos juntos se perdoarem e irem juntos a caminho de perfeição moral. Eu me chamo Felício e aquele é Teobaldo. Junto dele, estão nossas irmãs Teresa e Lúcia. Todos nós recebemos a espiritualidade maior, a missão de auxiliar vocês em sua jornada evolutiva. Mas não podemos interferir no livre arbítrio dos encarnados, o que podemos fazer é intuir os pensamentos bons que os guiem no cumprimento de suas missões na terra. Também precisamos ajudá-los a nos unirmos em um só pensamento e com o mesmo desiderato podemos concluir com grande êxito nossa missão. Pedimos que tu viesses até aqui hoje, porque estamos preocupados com o rumo que nossa irmã Laura, encarnada com o nome de Vera, está tomando na terra. Ela está se desviando cada dia mais de sua jornada e indo pelo caminho da raiva, vingança e ódio. Precisamos orar muito por ela e auxiliá-la, pois existe um irmão a sua espera, que por vibrações negativas de Vera a encontrou e se uniu a ela com o intuito de destruir Jonas. Esse irmão causou mal a ambos em outras existências e ainda é muito atrasado, não deseja se perdoar e nem a Jonas, que hoje é Raul. Ela está se deixando levar pelas intuições e intervenções dele, a conduzindo para o mal e levando-a assim a sucumbir em sua missão. Ele pode interferir diretamente sobre o encarnado, pois tem a permissão, que permite fazer o que deseja. Somente Raul e Vera poderão se ajudar para não ficarem mais sobre o domínio dele. Então, ele não terá mais forças contra eles. Sendo assim, precisamos muito de orações e do auxílio de vocês para lhes mostrar o caminho a seguir. Acreditamos que juntos conseguiremos, pois Deus não abandona seus filhos. Você, que já aceitou, está se modificando e evoluindo e será um grande aliado. Tens que ter muita fé e paciência nesta tua missão. Sabemos que o amor tudo vence e você vencerá. Continue sua caminha rumo a tua perfeição moral. Seu pai que muito nos auxilia tem tido grandes alegrias, por saber que seu filho é um grande homem dentro dos princípios da moral e de Deus. Ele tem orgulho do filho bom e generoso que pratica a caridade e que se apodera da verdade e do amor. Seu pai também está aqui na jornada, que começou na terra, levando a muitos irmãos da escuridão a luz e o amor. Pediu que transmitisse isso a você e disse que se orgulha de você, continua sendo uma benção em sua vida, que sente saudades de você e assim que for permitido, irá visitá-lo.

Renato chorou ao ouvir o recado de seu pai, ele sentia falta da presença dele. Sabia que ele continuava vivo e hoje realmente teve certeza disso. Permaneceu ali por mais algum tempo.

Enquanto isso no plano inferior, Carlos conversava com seus novos aliados, que também odiavam Jonas. Eles planejavam a sua vingança, contando agora com a ajuda de Lúcia, encarnada. Seria mais fácil porque ela é muito influenciável e está tomada pelo ódio e querendo destruí-lo.

-Essa é a nossa chance, temos que unir nossas forças e começar a agir, temos que ter muito cuidado, pois há outras interferências em nosso trabalho. Não permitiremos que eles interfiram em nosso plano, temos que aproveitar o fato de que eles não podem interferir no livre arbítrio das pessoas encarnadas. Essa é nossa vantagem contra eles. Nós tudo podemos, eles são fracos em seus vícios, levando os cada vez a mergulhar em suas vicissitudes.

Começaram a rir e seguiram para o plano terreno, onde estavam naquele momento Lúcia e Jonas, que agora eram Raul e Vera. Dividiram-se, uns foram ver Vera e outros a Raul. Chegaram no quarto e Vera estava dormindo profundamente. Nesse estágio do sono o espírito se desprende do corpo e vaga pelo plano astral, uns trabalhando, outros se instruindo. Juntos começaram a planejar sua vingança.

-Viemos até aqui para nos juntar a você, pois temos os mesmos objetivos e sentimos o mesmo desejo de vingança. Agora é começar pra valer, já está passando da hora e temos que agir. Ele está vulnerável e frágil. Vamos ajudá-la a conseguir tudo que deseja a fim de poder pôr em prática nosso plano. Conseguirás poder e dinheiro, terás uma arma que é o filho que carregas no ventre. Faça tudo que te mandarmos, que te intuímos e assim terás êxito. Será mais fácil do que imaginamos, sempre te visitarei e passarei tudo em sonhos. Faça assim como te digo e tenha cuidado com essas pessoas que querem lhe enganar dizendo que tens que perdoar. É tudo mentira, não os ouça.

Dizendo isso se retirou, deixando Vera com aqueles pensamentos de vingança e ódio.

Chegou ao quarto de Raul.

-Olá, Jonas, sentiu minha falta? Achou mesmo que eu iria permitir que estragasse meus planos, deixando que você morresse? Ainda não é o momento, farei você sofrer muito e quero que pagues por tudo o que me fizeste. Andei sumido, pois estava vagando à procura de mais aliados e não é que eu achei? Você é mesmo um cretino, sem escrúpulos, um verme que só leva dor e tristeza por onde passa. Não foi difícil, pois você é muito odiado por aqui. Vamos te atormentar e levá-lo ao mais sombrio de todos os sentimentos.

-Deixe-me em paz, não sei do que você está falando, não fiz nada para você e tão pouco a eles. Sei que agi errado com muitas pessoas, mas não com vocês.

-Só vim aqui te dizer que seus maiores temores estão acontecendo, ela nunca o perdoará e nunca voltará para você.

-Ela me ama e vai me perdoar, deixa-a em paz. Não vou permitir que a machuquem.

-Você a machucou e abandonou. Nós só aproveitamos a chance que você nos deu, Jonas.

-Vão embora, me deixem em paz.

-Paz é o que você nunca terá.

Enquanto Jonas gritava, pedindo-lhes que fossem embora, o deixassem em paz, Teobaldo e Felício vieram socorrê-lo. Enviaram muita luz e oração e lhe transmitiram intuições, força e fé. Mas Raul não conseguia perceber, pois estava muito assustado e com medo. E foi através dos passes dos irmãos que ele recuperou seu equilíbrio.

-Por que perde seu tempo com isso? Por que querem ajudá-lo? Não percebes, que não adianta nada seu esforço? Não deverias estar aqui e se preocupar. Acreditas mesmo que ele mudará? Acredita mesmo que com esses passes energéticos e intuições, ele mudará? Quanta besteira, pessoa como ele nunca muda, pois a maldade está dentro dele. Ela esta lá adormecida esperando que ele regresse à vida terrena para despertar e se tornará cada vez mais forte. As encarnações não são para evoluir, e sim, para salientar e fortificar cada vez mais seu caráter e juntarem mais inimigos.

-Não devemos julgar e condenar ninguém, pois Deus não faz isso. Nós somos imperfeitos, cheios de erros e vicissitudes, não temos esse direito. Não nos competem criticá-lo e condenado por suas fraquezas, pois somos todos imperfeitos diante de Deus. Uns se encontram mais evoluídos, outros a caminhos e não podemos condenar aqueles que ainda não aceitaram. Devemos auxiliar quantas vezes for preciso com paciência e fé. Fomos ajudados por outros irmãos que também não desistiram de nós. Cada vez que auxiliamos fica uma semente e ela virá um dia a germinar, a de Jonas também brotará e dará bons frutos. Tens que deixá-lo, tens que perdoá-lo, pois causas mal. Ninguém é feliz fazendo maldades. Irmão Jonas está tentando e conseguirá, pois Deus sempre o ampara.

-Não quero saber dessa história, nem perdoar, ser bonzinho... não caio nessa história, de que sofro mais fazendo maldades. Isso é tolice, pois só tenho satisfação e glória quando vejo um ser encarnado se deixar levar por minhas intuições. Como são fracos! É fácil enganar, basta saber exatamente onde agir e a pessoa se torna presa fácil. Eles fazem o resto e só ficamos assistindo daqui. Isso é bom! Vocês acreditam ainda que o amor vence tudo, que pessoas frias mudaram e se evoluíram, e não direi ao contrário. Vocês mesmo descobriram sozinhos, já perdi muito tempo junto a vocês.

-Espero, meu irmão, que possas um dia entender os desígnios de Deus e perceba que o bem é melhor e mais gratificante de fazer do que o mal. Deixamos dentro de seu coração essa sementinha, que um dia também germinará e dar bons frutos. Quero que saibas que tens amor, pois és filho dele também. Que possas ver o quanto é bom amar! Vá em paz e leve com você a certeza de que Deus te espera, ama e se preocupa com você.

Sem dizer mais nada, partiram com a promessa de voltar. Eles sabiam que seus corações estavam endurecidos e cheios de ódio, desejam que eles pudessem ver o quanto é bom se libertar, perdoar e aprender, para um dia também auxiliarem. A caminhada deles começaria hoje, pois cada um levou dentro de si a semente do amor e da caridade. Agradeceram a Deus por fazerem parte de um trabalho tão benevolente e instrutivo, pois a cada experiência eles aprendiam muito.

 

Dalva acordou cedo, pois era seu dia de folga e precisa organizar algumas coisas em sua casa, depois iria na casa de sua amiga saber como ela estava. Mais tarde iria visitar a casa de recuperação de drogas e álcool para participar da reunião e conhecer os trabalhos que o Dr. Augusto e Dorival desenvolvem com os jovens internados. Queria que Teresa estivesse com ela, mas não foi possível. Ela não a acompanhou na reunião de quarta-feira e na de hoje também, por impedimentos. Ela irá na próxima semana.

 

Teresa aguardava ansiosa por Eugênia no local onde haviam combinado. Ela já estava atrasada vinte minutos e pensou que ela poderias não conseguir ir ao encontro e pensou em ligar. Achou melhor não. O que diria a Eulália? Esperaria mais uns vinte minutos e se ela não chegasse iria embora. Quando a viu vindo em sua direção, ficou feliz ao vê-la.

-Desculpe por meu atraso, Teresa. Foi difícil convencer mamãe a me deixar sair sozinha.

-Tudo bem, Eugênia.

-Não posso demorar muito, tenho que voltar logo se não mamãe me mata.

-Tudo bem, Eugênia, fique tranqüila quanto a isso.

-Pedi que a senhora me encontrasse aqui por que tenho muitas perguntas para fazer.

-Perguntas? Sobre o quê?

-Ontem a senhora falou sobre coisas que eu nunca ouvi e me chamaram atenção. Você falou com tanta certeza como se conhecesse bem a espiritualidade.

-Eugênia, minha querida, eu aprendi muito com a atitude de Raul. Aprendi que existem mais coisas que podemos imaginar e nada é por acaso. Não sei de tudo, pois estou descobrindo. Mas acredito na vida após a morte. É possível falar e ver espíritos. Tudo isso é muito vago ainda, mas sei que existe, compreendo o que você diz sobre se comunicar com eles e que não é louca como achávamos. Acredito em você, tenho muito que aprender e para isso preciso buscar auxílio no lugar certo... Dalva me falou de um centro espírita onde teremos todas as respostas às nossas dúvidas.

-D.Teresa, por mais que eu tenha buscado explicações, a senhora em poucas palavras conseguiu me ajudar muito. Preciso descobrir o que Deus quer de mim.

-Preciso lhe dizer algo muito importante e sei que você vai acreditar em tudo o que eu lhe disser. Raul corre perigo, ele tem um homem junto dele que deseja destruí-lo e que faz ele agir assim. Eu sempre o vejo e sinto muito medo dele, mas ontem eu o enfrentei. Posso vê-lo e sentí-lo. Não sei como, mas precisamos ajudá-lo.

-Raul precisa de nossa ajuda, se não ele não conseguirá.

-Obrigada por confiares em mim e por me falar o que está acontecendo com Raul. Posso ajudá-lo de verdade. Você ajudou muito me falando isso.

-Assim como você eu estou aprendendo, seria bom que você também fosse a essas reuniões que Dalva me falou. Darei um jeito para que você consiga ir.

-Mas precisamos ter cuidado... você conhece muito bem como é sua mãe. Se ela descobrir alguma coisa, me proibirá de vê-la, por essa razão precisamos tomar muito cuidado.

-Agora vá, eu vou combinar tudo e depois te ligo.

-Obrigada, D. Teresa, gostei muito de conversar com a senhora, Vou esperar ansiosa a sua ligação.

-Eu também e obrigada por me avisar sobre Raul, não sei direito o que isso significa mas você nos ajudou muito. Vá com Deus e depois nos falamos.

Despediram-se e agora estava mais claro. Começaram a entender o que estava acontecendo e ambas se fortaleceram com a conversa. Era só seguir o caminho que juntas descobriram mais a respeito e como deveriam proceder. Com o auxilio de Dalva e Dr. Dorival está muito feliz por Deus colocar essas pessoas em sua vida e na vida de seu filho. Tomou um táxi e seguiu para a Santa Casa, pois desde que Raul estava internado não saía do seu lado. Pensou consigo mesma que tudo iria dar certo, estavam no caminho certo. Por outro lado, Eugênia também estava feliz, pois começava a entender muitas coisas e não via o momento de poder ir em uma reunião dessas que Teresa lhe falou. Lá, ela teria as respostas para as tantas dúvidas que juntou ao longo dos anos. Estava louca para falar com Lucas e contar tudo a ele o sobre o que acabava de descobrir, estava mesmo satisfeita com o que conversou. Isso era o começo para compreender o que acontecia com ela desde criança. Seria o remédio que ela tanto precisa para a cura, na verdade. Chegou em casa, subiu as escadas correndo e entrou no quarto de Lucas.

-Lucas, estou tão feliz!

-Estou vendo, entrou aqui feito um furacão. O que aconteceu que te deixou tão feliz?

-Vou te contar tudo desde o começo, mas você vai ter que me prometer que não vai contar nada para mamãe. Você promete?

-Sim, claro, me fale logo. Estou com curiosidade.

-Espere, vou fechar a porta. Assim ficaremos mais sossegados.

-Lucas, eu estava até agora com a D.Teresa.

-Não entendo... o que ela te falou que te deixou assim? Eu não sabia que você tinha intimidade com ela. Nunca me contou nada.

-Não era, mas agora tudo mudou.

-O que mudou, Eugênia? Não estou entendendo nada, me fale logo, se não morrerei de curiosidade.

-Escuta, você lembra que ontem fomos ao hospital ver Raul?

-Sim, o que tem isso?

-Lembra como Teresa falou a respeito do que Raul fez e a forma como colocou os fatos?

-Mas ou menos, fala de uma vez, por favor.

-Ela falou sobre a imortalidade da alma, que o corpo morre, mas o espírito permanece vivo. Tem pessoas que podem ver e falar com eles.

-Sim, mas o que isso tem a ver com você?

-Eu sou assim, sempre os vi, então quer dizer que estou certa. É mesmo verdade tudo que vejo e ouço. Posso vê-los e não é loucura minha! Ela me falou sobre uma casa onde podemos aprender mais sobre isso, onde teremos as respostas das nossas perguntar e disse também que vai me levar lá para que eu possa descobrir por que eu vejo os mortos. Você percebe o quanto isso vai me ajudar daqui pra frente? Não terei mais medo.Também falei para ela do homem que sempre vejo junto com Raul, do que ele me fala e o mais incrível é que ela acreditou em mim e me agradeceu.

-Você sabe o que mamãe acha de tudo isso, ela não vai aceitar você ir a esse lugar. Ainda mais quando ela descobrir que Teresa está te incentivando, vai ficar uma fera. Não quero nem estar por perto quando isso acontecer.

-Mas você sabe que eu quero o melhor para você. Se isso te fizer feliz eu te apoiarei sim.

-Obrigada, Lucas. É bom saber que posso contar com você sempre. Preciso saber por que eu posso ver os mortos e me comunicar com eles, isso é muito importante.

-Você sabe a minha opinião sobre isso, já ouvi falar muito a respeito desse assunto e conheço pessoas que são espíritas. Não posso lhe dizer se é verdade ou não, se isso existe ou não, mas respeito. Você deve procurar as respostas para todas essas suas dúvidas. Espero que você as encontre, vou ficar torcendo por você. Tenha cuidado com mamãe, pois vai ser muito difícil se ela desconfiar de alguma coisa, é capaz de interná-la.

-Eu sei disso, Lucas, por isso preciso que me ajude.

-Como posso te ajudar?

-Ainda não sei, mas na hora certa saberei. Só quero saber se posso contar com você quando for preciso.

-Claro que sim, sempre vou ajudar a minha irmãzinha querida, podes contar comigo sempre que for preciso.

-Valeu, Lucas, isso é mesmo importante e eu sempre soube que poderia contar com você.

-Deixa eu estudar, pois tenho prova.

-Mais uma vez obrigada. Se mamãe perguntar ande fui e por que me tranquei aqui com você, diga a ela que eu estava te ajudando a estudar e que fui na casa de Márcia. Ela te mandou um recado e eu vim te dar.

-Entendi, deixa comigo, agora suma, já tomou muito do meu tempo.

-Obrigada Lucas, eu te amo.

-Também te amo, mana.

Eugênia saiu do quarto satisfeita da conversa com seu irmão. Ela sabia que sempre podia contar com ele para tudo o que precisasse e seria muito bom. Entrou em seu quarto e pensou no que Teresa havia lhe dito. Se fosse assim como ela dissera, poderia ajudar muitas pessoas. Ela saberia exatamente o que fazer, tudo seria mais fácil e estava louco para conhecer esse lugar que Teresa falou. Estava louca para desvendar tudo isso que há muito lhe atormentava. Mas teria que ter calma e pensar no que dizer a sua mãe quando tivesse que sair para ir até esse lugar. Teria que ser uma desculpa convincente. Daria um jeito, tinha que esperar Teresa ligar e então pensaria no que fazer.

Teresa entrou no hospital e foi direto para o quarto de Raul. A enfermeira de plantão lhe avisou que seu marido havia ligado quando ela estava fora e pediu que transmitisse o recado. Assim que tivesse um tempo livre passaria no hospital para saber de Raul e que qualquer alteração ela o avisasse, imediatamente. Agradeceu pelo recado e se aproximou da cama de Raul, beijou-lhe o rosto e conversou com ele um pouco, ela sabia que ele ouvia tudo. Perguntou a enfermeira se havia melhorado desde o último boletim médico e ela disse que ele havia apresentado algumas alterações consideradas boas.

Assim que terminou a audiência, Renato seguiu direto para o hospital, já que pela manhã não havia conseguido ir por causa de compromissos. Conforme iria se aproximando do hospital, Renato sentia seu coração bater mais rápido, parecia que sairia pela boca, precisava se acalmar e pensar o que dizer a ela. Estacionou o carro, desceu e seguiu até a recepção. Respirou fundo e entrou.

-Boa tarde.

-Boa tarde, senhor, posso ajudar?

-Vim ver a paciente do quarto 402, seria possível?

-Claro que sim, a senhorita Vera Gonçalves?

-Isso mesmo.

-O senhor pode subir, fica no quarto andar.

-Obrigado.

-De nada, senhor.

Renato entrou no elevador, apertou o número quatro e esperou que o elevador chegasse ao seu destino. Durante o trajeto pensou em desistir várias vezes, mas continuou. O elevador chegou no andar, parou, abriu a porta e ele desceu logo a sua frente estava o quarto 402, parou em frente a porta e esperou um pouco, sem coragem de bater ficou ali olhando para a porta, foi quando a porta se abriu em sua frente e ele não teve outra alternativa a não ser entrar.

-Desculpe senhor, não ouvi bater.

-Eu iria bater agora, mas você abriu antes.

-Entre, já estou de saída.

Assim que entrou no quarto, Vera estava olhando pela janela. Seu olhar era distante, perdido e nem se deu conta que Renato estava parado bem atrás de si a lhe observar. Ela estava tão linda, parecia um anjo, pois a luz refletia a cor dourada dos seus cabelos. Desejou que aquele momento nunca acabasse e sem dizer nada ficou ali a contemplá-la, como se não houvesse mais nada no mundo, somente os dois. Naquele momento ele teve a certeza que a amava. Ele soube que não poderia mais viver sem ela, queria tocá-la, sentir seu perfume, seu corpo junto ao seu, beijá-la, protegê-la de tudo e de todos. Quando Vera percebeu que havia alguém atrás de si, virou-se. Pensou que era a enfermeira que tinha voltado para dar algum remédio. -Esqueceu de me dar mais algum remédio?

-Desculpe, a enfermeira estava saindo, quando cheguei ela disse que eu poderia entrar.

-Oi, desculpe, eu não percebi que o doutor estava aqui.

-Não precisa se desculpar, por favor. Não precisa me chamar de doutor, meu nome é Renato.

-Se o doutor quer assim, me desculpe. Se você assim quer, tudo bem.

-Melhor assim, me desculpe vir sem avisar. Estava passando por perto e resolvi entrar para saber como você está e te agradecer por ter aceitado a minha proposta de emprego. Pode ficar tranqüila quanto...

 

 

-Melhor assim, me desculpe vim sem avisar. Estava passando por perto e resolvi dar uma passada para saber como você está e te agradecer por ter aceitado a minha proposta de emprego. Não se preocupe com nada até que esteja bem, leve o tempo que precisar para se recuperar e assumir seu cargo. Assim que for possível, Dalva a levará ao escritório para conversarmos e acertar o salário e os horários.

-Não sei como agradecer por tudo o que estão fazendo por mim. Mesmo sem me conhecer, todos vocês têm me ajudado, deram um trabalho e uma casa para morar. Quero lhes dizer que não irei decepcioná-los, vou ser grata pelo resto de minha vida, pois foram vocês que no pior momento me ampararam e me deram um emprego e uma casa. Quando eu me joguei embaixo do seu carro foi um ato de desespero, já que não havia outro jeito, estava sozinha, sem emprego, sem casa e com um filho no ventre. Num piscar de olhos vocês me devolveram tudo, principalmente, a vontade de viver e de ser mãe dessa criança, que estava condenada à morte.

-Vera, não existe nada nesta vida que não possa ser consertado. Não há dor e dificuldade que não possa ser resolvida. Tudo nesta vida tem jeito, apenas a morte não se muda, não se conserta. Em momentos de profunda dor e desespero, decidimos que a única saída é a morte, mas ela não irá resolver nada, só piora, tira a nossa própria vida. É um ato de covardia, por sermos fracos e descrentes nas promessas de Deus. Veja bem, você poderia ter escolhido outro carro para se jogar embaixo. O tempo que ficou naquele banco, passou vários carros por você, mas você escolheu o meu, porque Deus assim quis. Eu poderia levá-la para outro hospital, mas Deus quis que fosse esse. Viu como ele nos ajuda? Mesmo quando nos esquecemos de pedir auxílio, ele nos auxilia. Dê tempo ao tempo e principalmente a você. Agora, você tem mais coisas para se preocupar, como esse filho que vai ter. Siga seu caminho, deixe o passado para trás e se reconcilie com você, depois conseguirá se reconciliar com os outros.

-Dalva me fala tudo isso, me fala desse Deus generoso, caridoso, amoroso. Tudo o que você acabou de me falar sei que não posso explicar muitas coisas que aconteceram e o que está acontecendo, mas não consigo ver as coisas do ângulo que vocês vêem. Sinto muito, gostaria que você não insistisse mais nisso e minha opinião é não acreditar em Deus e ponto final.

-Respeito sua opinião e dor, mas espero que um dia você possa ver e entender o que lhe falamos. Só assim, verás da mesma forma que nós. Bem, agora preciso ir, tenho muito que fazer no escritório e espero que se restabeleça logo.

-Obrigada por tudo, sei que seremos bons amigos. Não vejo a hora de ficar boa e começar a trabalhar.

-Então, até breve.

-Até e mais uma vez obrigada.

 

Vera não havia se dado conta como Renato era um homem atraente e bonito, que possuía um corpo atlético. Ela pensava que ele era casado ou tinha um monte de mulheres correndo atrás dele, pois ele possuía tudo o que eu mulher desejava. Era rico, bonito, gentil e educado. Não seria difícil se apaixonar por ele, mas achou melhor desviar o pensamento, pois assim como Renato, Raul tinha também todas as qualidades e aconteceu o pior. Esse tipo de homem não se casaria com mulheres pobres, ela pensava. Melhor era se concentrar na sua vingança e mais nada. Passou o resto da tarde construindo seu plano de vingança.

 


Capitulo VII

Já passavam das seis horas da tarde quando Dalva chegou ao centro de reabilitação de drogas e álcool. Entrou e foi procurar o doutor Dorival, que já deveria estar a sua espera. Entrou na recepção e se identificou.

-Boa noite, meu nome é Dalva, o doutor Dorival me aguarda.

-Boa noite, ele lhe aguarda sim, vou levá-la até a sala dele.

-Obrigada.

-A senhora pode me seguir.

-Sim, claro.

-Doutor Dorival a senhora Dalva chegou, está ali fora a sua espera.

-Por favor, manda-a entrar.

-Sim, doutor.

-A senhora pode entrar.

-Obrigada, minha querida.

-Dalva, que bom que você chegou.

-Resolvi vir um pouco mais cedo, assim terei tempo de conhecer melhor os internos e o programa que é desenvolvido para a recuperação dos dependentes. Quero saber tudo, conhecer cada detalhe desse trabalho abençoado.

-Terei o maior prazer em lhe mostrar, só me dê um minutinho, por favor.

-Sim, sem problemas, vou aguardar na outra sala e assim já aproveito e dou uma olhada.

-Faça isso, sim.

Ao sair caminhou pelo corredor e parou em frente de uma janela e pôde ver um jardim tão bem cuidado...com árvores e flores. Havia muitas espécies de flores e plantas e também bancos, onde os internos podiam sentar e ler, ou simplesmente, contemplar a natureza. Resolveu ir até lá e sentar um pouco, sentir o perfume das flores, respirar ar puro e saudável. Abriu a porta que dava para o jardim e caminhou entre as flores, sentiu o perfume maravilhoso que delas espargiam pelo ar, sentou-se no banco e ficou a observar um lago que passava por entre as árvores. Sentiu uma paz enorme, serenidade, harmonia e pensou como é linda e perfeita a obra de Deus. Fechou seus olhos e elevou seus pensamentos a Deus, agradeceu por tudo que ele nos deu, por nossas vidas, por nossas lutas e dores. Pediu a ele que intercedesse por Vera e Raul, que lhes desse força e fé para juntos evoluírem, e que ele abençoasse ainda mais esses jovens que lutam contra os vícios terrenos. Para que ele os fortalecesse ainda mais nessa jornada, que começaram a trilhar. Agradeceu a espiritualidade amiga e proferiu uma prece. Ao abrir os olhos percebeu que não estava mais só, junto a um outro banco em frente ela pode ver uma moça de aproximadamente uns vinte anos, não mais do que isso, de traços bonitos, muito magros e com uma aparência frágil. Foi quando ela se levantou e veio em sua direção.

-Boa noite, me desculpe a intromissão, mas não lhe falaram na recepção que hoje não é dia de visitar?

-Boa noite, querida, na verdade eu não vim ver um paciente, mas a convite de doutor Dorival, para conhecer a casa e participar da reunião que é realizada.

-Desculpe, meu nome é Célia, e faz apenas três dias que eu cheguei e não sei muito sobre essa reunião. Alguns internos me falaram sobre ela, mas muito vago.

-Meu nome é Dalva, trabalho com o doutor Dorival na Santa Casa, sou enfermeira lá e hoje estou de folga. Resolvi vim para participar da reunião e conhecer as novas instalações.

-Meu pai falou que esta clinica é a melhor da cidade quando me internou aqui, no domingo. Mas eu quero ir embora, já liguei para ele e disse que se não vir me buscar eu vou fugir, não vou ficar aqui. Ele deseja se livrar de mim para poder ficar com o dinheiro que era da minha mãe, que eu herdei quando ela morreu. Para que ele possa ficar com o dinheiro ele tem que se livrar de mim.

-Célia, seu pai só quer o melhor para você, por essa razão ele a colocou aqui, para se livrar do vício de drogas ou álcool. Essa é a verdadeira intenção dele, não há outra razão, você é que está brava com ele, acha que ele quer se livrar de você. Eu acho que ele a ama e quer que você consiga vencer o vício.

-A senhora não conhece meu pai, ele matou a mamãe e agora quer me matar também. Eu prometi a minha mãe quando ela estava morrendo que não iria deixar que ele fizesse o mesmo comigo, eu prometi a ela que viveria e provaria que ele a matou.

-Bem, minha querida, você está muito nervosa e fora de si, provavelmente isso ocorre pela falta da substância em seu organismo. Isso se chama de abstinência, tenha calma.

-Se estou passando por isso, isso é culpa dele, ele me viciou dessa maneira, ele me dava as drogas, mas ninguém acredita em mim, tem medo dele.

-Bem, você precisa se acalmar um pouco, não devia resolver nada nervosa, você tem que se recuperar em ficar forte. Só poderá provar que está falando a verdade assim, pois enquanto estiver usando a droga ninguém lhe ouvirá. Mostre a todos que está limpa e se recuperou. Tenha calma e fé em Deus que tudo auxilia e ampara. Aqui é o lugar que te ajudará a se livrar do uso de drogas, onde você achará as respostas às suas perguntas em como agir dentro da sabedoria de Deus. Você é tão jovem, tem muito que descobrir e viver. Mas para isso tem que dar uma chance para que possa provar que é verdade tudo o que diz, tem que se livra das drogas. Depois Deus a guiará pelo caminho, confie nele. E também no doutor Augusto, ele é um ótimo psiquiatra e irá ajudá-la muito nessa nova jornada, minha querida. Todos aqui irão te auxiliar e amparar, confie neles e principalmente em Deus.

-A senhora não sabe o quanto sinto falta da minha mãe, o quanto eu sofro com a falta dela, por que ela me deixou, Deus permitiu que ela morresse, isso não é justo...ele deveria ter morrido, não ela. Que justiça é essa que permite que se mate por dinheiro? Que permite que os bons vão e deixem impunes os ruins? Será mesmo que ele é justo?

-Não chore, minha querida, tenha fé em Deus tenha paciência. Confie e tudo será esclarecido. Deus é bom, ele não pune ninguém, não condena ninguém, ele é amoroso e bondoso. Tudo que passamos não é responsabilidade de Deus, os únicos culpados somos nós. Só colhemos o que plantamos se passamos o que passamos, porque fizemos em outras existências...

Dalva abraçou-a neste momento e Célia pode sentir o perfume de sua mãe. Abraçou Dalva mais forte e lhe disse:

-Mãe, que saudade e falta me faz, preciso de você comigo, por favor, não me abandona mais. Posso sentir seu perfume e novamente o toque dos teus lábios em meu rosto, por favor, não vá mãe, não me deixe sozinha. Chorava com toda a sua alma e junto a ela estava sua mãe, também a abraçá-la e a ampará-la. Chorava também, por ver sua filha sofrendo e pediu à espiritualidade que a ajudasse e foi assim, que a espiritualidade maior permitiu que ela visitasse Célia e ajudasse a seguir seu caminho rumo à evolução e a luz do entendimento e do perdão. Ela intuiu Célia para que fosse forte e perdoasse seu pai, que acreditasse em Deus e na espiritualidade que ela não havia abandonado. Sempre estava ao seu lado, não mais na carne, mas em espírito. Ela a amava e se orgulharia sempre dela.

-Você é a minha garotinha, filha. Ouça, por mais dolorosa que seja a tua jornada eu sempre estarei com você, pois o amor não morre, apenas se transforma em algo mais sublime quando voltamos ao plano espiritual. Seu pai precisa muito de sua ajuda, ele precisa muito do seu amor e perdão, não o abandone nunca, fique na paz de Deus. Quando precisares, peça ajuda à espiritualidade, que virá socorrê-la e confie nestas pessoas que Deus colocou em seu caminho, elas irão te ajudar muito. Estarei sempre ao seu lado, te amo, minha garotinha.

Sentiu as mãos de sua mãe em seu rosto secar as suas lágrimas. Ela se acalmou e desejou que este momento nunca mais terminasse, fechou seus olhos e pode ver sua mãe ali a abraçá-la. Chorou. Quantas vezes desejou ver o rosto sereno de sua mãe? Olhou-a, pois queria gravar essa imagem tão bela e linda. Ficou feliz por ela, pois agora sabia que sua mãe não mais sofria e não sentia mais dores, estava feliz. Disse o quanto a amava e quanto sentia a sua falta, e que de agora em diante não choraria mais. Sabia que a morte lhe trouxe alívio às dores e lhe devolveu novamente a felicidade. Célia esta atordoada com o que aconteceu. Será mesmo que era sua mãe que ela tinha acabado de ver? Sentou-se no banco e chorou, mas não de tristeza, de alegria.

-Você sentiu sua mãe, não foi?

-Desculpe, por um momento pensei que era ela, pois seu perfume é igual ao que ela usava.

-Filha, eu não uso perfume, o que você sentiu era mesmo sua mãe que veio lhe visitar e lhe confortar. Só o corpo físico morre, e levamos nossos sentimentos com nós.

-Como isso é possível?

-Calma, você terá toda a explicação que precisa para entender, agora se concentre na sua recuperação do vicio e tudo dará certo, confie em Deus.

-Obrigada, mas agora eu preciso entrar, pois estou cansada e me sentindo fraca, preciso deitar um pouco.

-Vá, minha querida, e lembre-se, Deus nos ama, nunca esqueça disso. Virei mais vezes aqui para conversarmos.

-Vou esperá-la e mais uma vez obrigada.

Célia seguiu em direção a seu quarto enquanto Dalva permanecia ali agradecida pela auxilio que teve da espiritualidade maior, orou e viu quando se afastavam os irmãos que a auxiliaram e permitiram que ela percebesse sua mãe. Estava entrando quando viu que Dorival lhe procurava.

-Imaginei que estaria aqui, meu lugar favorito quando preciso me isolar é aqui, venho buscar orientação espiritual, paz, serenidade.

-É sim, este lugar é mesmo renovador, nos traz novas energias, nos deixa mais próximos de Deus. É na natureza que vemos o quanto Deus é perfeito. Eu penso que nós também poderemos ter um dia perfeito, pois assim como a natureza, somos obras dele.

-Vi que conheceu Célia.

-Sim, é uma excelente moça, mas, precisa conhecer o porquê do seu sofrimento. A vida aqui na terra é feita de aprendizado e crescimento, nos dá oportunidade de reparar erros de outras existências. Nós, seres humanos, somos os únicos responsáveis pelo que nos acontece e pelo nosso destino, é por isso que o futuro está em nossas mãos. Se conduzirmos o sofrimento pelo caminho do conhecimento e da força, poderemos amenizá-lo. Se assim pudermos fazer, será mais fácil e sensato enfrentarmos as nossas dificuldades com resignação e coragem para compreender o que se passa, modificar e evoluir. Célia tem agravado seu sofrimento fazendo uso de drogas e tem que entender que só o amor pode ser o remédio para aliviar nossas aflições aqui na terra, que só o amor pode nos ajudar a enfrentá-los e sobrepujá-los, com sabedoria e resignação.

-Você tem razão Dalva, espero que ela consiga ver isso tudo, quanto Deus é generoso e amoroso com seus filhos. Espero que ela saia da condição de vítima, pois enquanto permanecemos assim, não evoluímos e aprendemos.

-Bem, agora vamos, já está quase na hora de começar nossos trabalhos, estou feliz em contar com sua ajuda e com a sua larga experiência na espiritualidade.

-Nunca saberemos tudo, sempre aprendemos mais do que ensinamos. Sempre há o que aprender, ouvir e ver. Estamos aqui para ajudarmos um ao outro, auxiliar e amparar. Na verdade, eu aprendo mais do que ensino.

-Mais uma vez você tem razão, mas agora vamos, porque doutor Augusto já nos espera.

Seguiram em silêncio até à sala, onde já lhe aguardavam os participantes dos trabalhos mediúnicos da noite. Dalva foi apresentada a todos os membros da mesa mediúnica, que lhes deram as boas vindas e seguiram com os trabalhos. A sessão foi aberta com uma oração e em seguida foi lida uma página do evangelho, segundo o espiritismo que falava sobre a perturbação espiritual. Foi explicado para os membros da mesa que os irmãos desencarnados não sabem que já desencarnaram, por essa razão ficam presos aqui na terra procurando falar com seus familiares e vivendo seus últimos momentos. Eles se atormentam porque ninguém os vê ou ouve, porque muitos acreditam que a morte é o fim e como eles, ainda ouvem e sentem dores, frio, fome, medo... acham que estão vivos. Na verdade, estão sozinhos em outra dimensão, porque o corpo morre e o espírito permanece. Muitos ainda vivem perturbados, sem saber o que fazer, para onde ir após a morte do corpo físico. Sanadas as dúvidas dos membros, seguiram para a segunda parte dos trabalhos, as luzes foram apagadas e foi dada às boas vindas aos irmãos que foram trazidos pela espiritualidade maior para serem atendidos aquela noite. No final dos trabalhos todos compreenderam que perdoar é o caminho que leva para a evolução e o ódio e a raiva só desvirtuam o ser humano, levando cada vez mais para longe da sua evolução e afastando do conhecimento e crescimento moral. A culpa só traz mais aflições e dores e a raiva só nos leva a sucumbir. Deus ama a todos, incondicionalmente. Um dos participantes da mesa falou que só começou a entender o que lhe acontecia quando começou a entender a si mesmo e isso lhe ajudou a lidar com as drogas e com a sua espiritualidade, ter consciência e ensinamento de tudo o que lhe acontecia. Também, que o conhecimento em si é a chave de todo o processo do ser humano é só assim ele deixou de se ver como vítima e passou a se ver como causador de muitas dores e sofrimentos, que ele veio para se redimir e consertar tudo o que fez. O conhecimento e o aprendizado podem entender muitas coisas e estava grato a Deus por tudo isso.

Outros também deram seus testemunhos, falaram sobre o quanto aprenderam e entenderam. Assim, terminou a reunião da noite. Dalva estava maravilhada com os acontecimentos daquela noite, com a participação dos irmãos desencarnados que participaram da reunião e deixaram uma grande lição, que tudo pode mudar e não importa o que fomos e o que fizemos e sim o que desejamos: ser melhores humanos e mais amorosos. Agradeceu a Deus por poder participar de um trabalho tão lindo, austero e poder aprender cada vez mais com esses irmãos.

-Obrigada a todos vocês por deixarem participar de uma reunião tão esclarecedora e caridosa como essa. Aprendi mais hoje do que em toda a minha vida, conheci o verdadeiro amor e a fraternidade que é o amor ao próximo.

-Todos nós aprendemos com esses espíritos que nos trazem sabedoria e entendimento e nos mostram o quanto ainda temos que galgar, o quanto somos egoístas e temos que aprender. Eles nos ensinam com seus exemplos e nos mostram o caminho, por que através deles, muitos de nós encurtamos nossos sofrimentos e aflições. Através de seus exemplos, aprendemos o quanto é maravilhoso se perdoar e perdoar a quem nos magoou. Todos nós vamos ter esse entendimento um dia, essa compreensão. Teremos alívio às nossas dores e aflições, não passaremos por isso, teremos a fé em Deus que tudo pode e modifica. Por isso estamos aqui, para aprender e modificar nossos pensamentos. Bem, irmãos, que a paz de Deus esteja sempre com nós.

-Dalva, quer uma carona para casa?

-Quero sim, Dorival, iria pegar um táxi mas já que ofereceu, vou aceitar.

-Então, vamos, no caminho conversamos melhor já que não tivemos muito tempo hoje. Meu carro está estacionado em frente à clínica.

Despediram-se de todos e seguiram até o estacionamento, conversaram coisas banais do dia-a-dia, entraram no carro e seguiram. Foi Dalva quem quebrou o silêncio que havia entre eles.

-Gostaria que Vera, Raul e Teresa estivessem hoje aqui para presenciar a maravilha que é o perdão, o bem que ele nos proporciona e o alívio que traz para as nossas dores, fazendo delas algo que nos leva para a luz e o aprendizado.

-Dalva, minha querida amiga, tenha paciência, que na hora certa eles virão. Tudo tem seu tempo e o deles já está chegando, não foi por acaso que eles se encontraram, sabes que nada é por acaso. Vera ainda está muito magoada e sentindo muito ódio em seu coração, sabemos que o ódio não nos deixa ver nada além das nossas dores. Enquanto ela se sentir vitima e injustiçada, nada poderemos fazer. Ela tem que ver o quanto está enganada. Poderemos orar em seu favor e lhe explicar, convidá-la para vir às nossas reuniões e ter paciência e fé para que ela aceite se perdoar e perdoar seus opressores, pois o perdão traz mais benefícios a quem pede perdão, do que para aquele que perdoa.

-É uma grande verdade o que me falas, Dorival, tenho certeza que eles entenderam tudo o que passamos para nos tirar da condição de opressores e nos levar à condição de evolução e entendimento. Como nós sanamos todo o mal que causamos aos nossos irmãos em outras existências. Acredito que só quando entendemos por que sofremos é que poderemos modificar nossos pensamentos e atitudes. A doutrina espírita nos exemplifica tudo isso e nos mostra, ensina, fortalece e nos guia. Sem conhecê-la não teremos tanto êxito, sem praticá-la não seremos felizes e evolutivos.

-Bem, Dorival, é aqui. Obrigada pela carona e por me proporcionar uma noite de grandes esclarecimentos. Amanhã nos veremos no hospital.

-De nada. Deus é que nos proporciona tudo isso, Ele nos privilegia com essas máximas de amor e caridade. São deles todos os méritos, não meus, apenas compartilho esses exemplos benevolentes que a espiritualidade nos proporciona. Dê a Deus todos os méritos e dádivas.

-Boa noite, então Dorival, e que Deus te acompanhe até sua casa.

-Boa noite, Dalva.

Dalva entrou e ficou pensando nas palavras que Dorival havia lhe dito. Que homem de grande coração, sempre humilde e prestativo no intuito de auxiliar em nome do amor e da caridade ao seu próximo. Estava feliz por conhecê-lo, por poder aprender com ele tantas coisas boas, trocou de roupa e foi se deitar, pois no outro dia teria que se levantar bem cedo. Seu plantão iniciava às sete horas da manhã. Orou e mais uma vez agradeceu a Deus e a espiritualidade por tudo que aprendera, pediu auxílio para Vera e adormeceu.

Era quase sete horas quando Dalva chegou ao hospital e se dirigiu até à sala de plantão, assinou o ponto e pegou sua escala do dia. Era assim que ela procedia desde que entrou ali há quinze anos. Nunca se lembrou de ter chegado atrasada ao trabalho e era sempre bem dedicada, pois amava o que fazia. Passou pela sala dos medicamentos, preparou- os com todo o cuidado, pois um erro poderia ser fatal. Conferi-os mais uma vez e se dirigiu aos quartos dos pacientes, Raul era o primeiro que ela deveria medicar. No caminho ao centro de tratamento intensivo encontrou Teresa, que também seguia na mesma direção, se cumprimentaram e seguiram juntas.

-Bom dia, Teresa, que bom vê-la. Como você está?

-Bom dia, Dalva, estou bem obrigada, Raul apresentou melhoras, fico mais aliviada.

-Graças a Deus! Tenho certeza que ele vai ficar bom, pois acredito nos desígnio de Deus. Agora sei o que você está falando, pois também acredito no amor de Deus para com seus filhos, isso tudo me fez ver o quanto é bom ter e viver tudo o que o pai nos ensinou. Sem isso nossa vida e um martírio, sofrimento, tormento. Com essas máximas que Deus nos dá, tudo é mais tênue e construtivo e se torna mais fácil o aprendizado. Não se aprende sem dor e aflições, isso se faz necessário para que busquemos a nossa modificação moral e para que modifiquemos e reparemos o mal que causamos aos outros. Fico feliz por você, Teresa. Está conseguindo ver as coisas por esse ângulo, esse é o caminho para a sua perfeição, crescimento espiritual. É se auxiliando que se auxilia, é amando que se é amado, é ajudando que se é ajudado, é perdoando que se é perdoado, se tiveres isso dentro de você é um grande auxílio. Raul precisa muito de sua ajuda, exemplos e seu amor, você estará se evoluindo a consequentemente ajudando a Raul para que se evolua. A propósito, ontem eu estive em uma reunião mediúnica que o doutor Dorival teve junto com o doutor Augusto na casa de recuperação de drogas é álcool. Esta reunião é direcionada para auxiliar os irmãos desencarnados que necessitam de ajuda. Para isso é necessária a presença de irmãos que possuem a mediunidade ou que estão desenvolvendo. Ontem eu percebi que nós aprendemos mais do que ensinamos. É de um esclarecimento imaginável, nunca havia participado de uma mesa mediúnica. Ontem aprendi tantas coisas que eu jamais imaginaria. Essa reunião ajuda tanto os desencarnados como os encarnados, ela é possuidora de grandes exemplos e nos mostra o que é amar incondicionalmente, o que é perdoar...nos fornece tantos caminhos que nos leva ao aprendizado e a melhorar nossa condição aqui na terra, a aprimorar cada vez mais nosso espírito para a luz e a perfeição. Seria bom que você também fosse a uma reunião dessas, assim teria suas próprias explicações e aprendizados e também se fortificaria e se aprimoraria dentro do evangelho de nosso irmão Jesus Cristo.

-Que bom você me falar sobre esse assunto, realmente estava querendo falar com você sobre isso. Tem uma amiga de meu filho que também deseja muito ir a uma reunião dessas, ontem mesmo eu me encontrei com ela, e disse que me informaria com você de como poderíamos fazer para participar. Por que assim como eu, ela não entende muito, ela vê os espíritos e a mãe dela acha que ela é louca. Por essa razão, tenho que tomar todo o cuidado para levá-la junto comigo, pois se Eulália desconfiar ela me proíbe de ver Eugênia. Ela está levando a coitadinha em um psiquiatra amigo do meu marido, me sinto culpada, pois fui eu quem pedi ao Lauro que falasse ele

-Doutor Augusto Prata?

-Sim, você o conhece?

-Sim, ele faz os trabalhos junto com o doutor Dorival, como lhe falei. Se for mesmo o médico que está cuidando da filha de sua amiga, ela está em boas mãos, pois ele é um ótimo psiquiatra. Também é um espiritualista, acredita na vida após a morte. Ela está no caminho certo.

-Dalva, cada vez mais eu me convenço de que nada é por acaso, que tudo é mesmo feito para que nós encontremos o verdadeiro caminho, que nós trilhamos a escada que decidimos afim de nos aperfeiçoarmos. Tudo é regido por uma força, um universo que nos guia ao rumo certo para não nos perdemos dele por diversas razões.

-Tudo isso só é possível quando nós decidimos nos perdoar e ao próximo. Só é possível ver, quando nós realmente deixamos de acreditar que somos injustiçados, maltratados, e quando começamos a perceber o que recebemos. Hoje somos aquilo que damos ontem, se hoje passamos por tudo o que passamos é unicamente nossa responsabilidade. É isso é o que está acontecendo com você. Está buscando seu crescimento moral, tentando se modificar. Não é nada fácil, Teresa, a gente se modifica, deixa de pensar ou de fazer coisas que até pouco não eram corretas ou que na nossa visão éramos as vítimas. Agora que sabemos que é bem ao contrário, torna ainda mais difícil a nossa jornada, pois sabemos que só depende de nós mesmos.

-É isso mesmo, modificar o que cometemos de errado não é nada fácil mesmo. É algo quase impossível, pois trazemos isso gravado em nosso espírito e precisamos dissolver tudo o que há de ruim e maléfico dentro de nós. Fica difícil e quase insuportável, mas tenho a oportunidade cada vez que encarnamos. É uma grande ajuda saber que podemos evoluir lentamente e vamos conseguir. Para isso necessitamos começar em algum ponto da nossa existência. Comecei a minha, sei que não será fácil continuar, sofrerei, mas não tão intenso, pois agora terei a ajuda da espiritualidade e de Deus. Tudo que estou passando é para a minha evolução e isso é muito confortante.

-Teresa, que bom, fico muito feliz por você ter essa visão dos fatos. Você está no caminho, siga-o com fé e resignação que tudo se resolverá da forma mais amena possível. Como disse Jesus: quem tem ouvidos que ouça, isso que dizer que toda pessoa pode mudar, crescer e evoluir, basta aceitar. Isso exige que escutemos nós mesmos e tenhamos coragem de mudar. Jesus quis dizer que para mudar tem que ter coragem e também querer esse crescimento, pois a coragem é a certeza da evolução e do aprendizado. Sabemos, que se quisermos crescer temos árduo trabalho pela frente. Jesus disse que a transformação espiritual é algo que deve ser feito dia a dia, não se muda instantaneamente, só podemos nos modificar se o fizermos no momento certo. Deveríamos seguir o caminho mais difícil.

-Tudo isso que eu estou aprendendo é algo confortante para mim, que me dá forças para continuar e lutar cada vez mais por mim e meu filho. Antes eu não sabia o que fazer, mas agora eu sei que é isso, um alívio, mesmo sabendo que será muito difícil. Isso que me conforta, por que sei que não estarei mais sozinha, tenho Deus, a espiritualidade e vocês.

Dalva entrou no quarto de Raul para medicá-lo enquanto Teresa foi falar com doutor Dorival para saber do último boletim médico. Ficou imensamente feliz com o que o médico lhe informou, a cada dia que passava Raul apresentava mais melhoras. Ele correspondia à medicação, escutou tudo atentamente o que o médico lhe dizia e não via a hora que seu filho acordasse para lhe contar tudo o que ela aprendeu nessas últimas semanas.

-Mas doutor, por que ele ainda não saiu do coma?

-Teresa, é muito delicado o estado de Raul. A medicação que ele está recebendo está fazendo efeito, seu quadro esta instável. Hoje mandei desligar o respirador artificial e ele correspondeu bem, já está respirando sem aparelho, isso é um bom sinal, estou bem otimista.

-Obrigada, doutor, por tudo que o senhor tem feito por nós, não sei como lhe agradecer...

-Não agradeça a mim, e sim a Deus.

-Dalva me falou sobre a reunião, eu gostaria de saber se posso ir e levar uma amiga.

-Claro que sim.

-Essa amiga se chama Eugênia, ela é uma pessoa incrível e me parece que possui o dom da vidência. Eu não entendo muito, mas a conheço desde criança. Na época eu não acreditava em vida após a morte, tinha uma visão distorcida, achava que ela era louca e até mesmo tinha medo de me aproximar de Eugênia, mas agora sei que tudo isso era uma ignorância de minha parte.

-Teresa, assim como você, existe muitas pessoas que não acreditam na vida após a morte, acham que quando morrem tudo acaba e nada mais existe. Esse é o maior erro que cometemos, achar que a morte é o fim de tudo.

-Agora eu sei que Eugênia realmente pode falar com os espíritos, que não é louca como eu pensava.

-Isso é muito bom, assim poderá auxiliá-la também, já que sua família ainda não tem o entendimento como você. Será muito bom vocês duas freqüentarem as reuniões, é lá que encontrarão as respostas que precisam.

-Obrigada, doutor Dorival, vou ligar para Eugênia e contar as boas novas, pois ela está muito ansiosa em participar dessas reuniões. Ela me pediu que conversasse com o senhor a seu respeito. Só preciso de uma desculpa boa para falar à Eulália, mas não vou me preocupar, na hora surgirá, com certeza.

-Isso mesmo, Teresa, faça isso, já que Eugênia precisa estudar e desenvolver sua mediunidade.

-Bem, doutor Dorival, agora vou ver como está Raul e deixar que o senhor trabalhe um pouco, pois já tomei seu tempo demais.

-Não me atrapalha em nada, pode vir na hora que necessitar. Estarei sempre aqui.

-Mais uma vez obrigada por tudo, vou ligar para Eugênia. Assim que ver Raul, ela ficará contente com a notícia.

-Faça isso e diga a ela também, que se eu puder ajudá-la em alguma coisa, não hesite em me procurar.

Teresa se retirou da sala de Dorival confiante. Ela e Eugênia estavam no caminho certo e teriam as respostas que procuravam. Elas conseguiriam vencer seus obstáculos. Entrou no quarto de seu filho, pode perceber que ele estava mais corado e com uma expressão mais amena, beijou seu rosto e conversou com ele por algum tempo. Contou o que ela estava aprendendo, o quanto era bom se sentir amada e amparada. Falou também que nunca mais iria deixá-lo, que juntos seriam felizes e caminhariam na mesma direção.

-Confie, meu filho, e lute pra se recuperar, eu te amo muito.

Permaneceu ali por mais algum tempo segurando a mão de seu filho, ela não conseguia entender por que Lauro não vinha ver seu filho. Será que ele algum dia mudaria? Se ela está tentando por que ele também não tinha que confiar em Deus e fazer a sua parte? Resolveu ir para casa, pois desde que seu filho foi internado não ia em casa. Só ligava e falava com Rosa, que lhe mandava roupas limpas. Conversou com Dalva dizendo que iria para casa e voltaria mais tarde, e para ser informada se acontecesse algo com Raul.

-Você faz bem ir para casa. O perigo de Raul já passou e você também está cansada, não é hora de ficar doente,precisa ter saúde para ajudar Raul com a dependência do álcool. Pode ficar tranqüila, ligo para você, descanse um pouco que eu cuidarei de Raul como se fosse meu filho.

-Obrigada, você é muito gentil, vou seguir seus conselhos, você tem razão. Não posso ficar doente agora, e além do mais, preciso saber como está Lauro, só tenho ligado para ele para informar sobre a saúde de Raul, também preciso dar atenção a ele, afinal ainda é meu marido.

-Vá sim, Teresa, resolva tudo e descanse, tente não se preocupar muito com Raul, vá com Deus.

-Obrigada mais uma vez, Dalva. Conversei com o doutor Dorival sobre a reunião que você me falou, disse que gostaria de assistir uma e que levaria uma amiga, falei sobre Eugênia para ele, que nos convidou para ir na próxima semana, depois eu combino com você para irmos juntas, pode ser?

-Claro que sim.

-Até mais Dalva.

-Até mais Teresa.

 

Vera esperava ansiosa a chegada de Dalva para lhe contar sobre a visita de Renato, quando ouviu os passos dela no corredor. Ela sabia que era Dalva, pois conhecia seu caminhar, e não pode esperar ela abrir a porta. Correu até ela e abriu.

-Bom dia, Vera. Que aconteceu para vir me esperar na porta?

-Bom dia, Dalva, é que estava ansiosa para ver você, pois ontem foi sua folga e eu senti saudades. Também queria lhe contar sobre a visita de Renato.

-Bem mocinha, então entre e deixe eu dar os medicamentos, então conversamos.

-Sim senhora.

-Fico feliz em ver que você esteja bem e agora me conte tudo, sim.

-Dalva, o Renato é um homem muito bom e generoso, não vejo a hora de poder começar a trabalhar com ele. A propósito, ele me falou que a senhora me levará quando eu tiver alta.

-Sim eu fiquei de levá-la, acho que será mais breve do que imaginávamos. Dorival me falou que irá passar por aqui para examiná-la e que se você continuar assim logo terá alta em mais ou menos de dois a três dias.

-Que bom Dalva já estou cansada de ficar por aqui, sem fazer nada.

-Você não tem lido os livros que eu trouxe?

-Comecei mas parei nas primeiras páginas.

-Você tem que se ocupar com alguma coisa, ler é uma ótima leitura e irá lhe ajudar muito.

-Tá bom eu vou ler, Dalva. Eu estava aqui pensando que um dos motivos que me fez vir para São Paulo foi o desejo de estudar e ser uma doutora, mas agora que estou grávida acho que não vai dar. E além do mais, sou pobre e com o que vou ganhar mal dá para me virar com as despesas de aluguel e comida.

-Vera, você ainda é muito nova e tem uma vida inteira pela frente, tem dezenove anos, pode sim realizar esse seu sonho ainda que não seja por agora. Se realmente deseja e lutar para isso é possível. O que você quer fazer? Advocacia ou Medicina?

-Eu queria ser uma médica, pois quando eu era pequena sempre que possível minha mãe me levava no posto de saúde. Eu ficava imaginando o dia que eu teria uma placa na porta escrito doutora Vera Gonçalves. Ficava horas e horas olhando, às vezes até podia ver escrito, mas isso era um sonho de criança.

-Vera, minha queria, sonhos são feitos para serem realizados, para isso tem que se trabalhar em prol e construí-los passo a passo, desenvolvê-los se é isso que você realmente deseja. Eles podem ser adiados, mas não esquecidos. Confie em você e em Deus, trabalhe para isso e siga em frente.

-Dalva, ouvindo você falar parece ser tão fácil, você tem uma forma tão diferente de ver os obstáculos e os torna mais fácil.

-Fácil, não. Obstáculos são feitos para serem transpassados e dores são feitas para serem compreendidas, erros são feitos para serem consertados. Tudo aqui tem um objetivo, uma finalidade e eles se tornam menos dolorosos quando temos o entendimento e a compreensão do que eles não mostram no momento em que estamos enfrentando, então serão mais fáceis e brandos.

-Tudo isso que você me fala eu não consigo entender e por hora também não posso ficar querendo entender muitas coisas. Tenho que pensar em coisas mais úteis, como trabalhar, ter meu filho, viver a minha vida e também por meu plano em prática.

-Vera, minha querida, não se deixe levar pelas raivas da vingança. Isso só fará muito mal, procure perdoar a quem te fere, a maldade que cometemos faz mais mal a nós do que aqueles que machucamos. Vamos mudar de assunto, não gosto de falar sobre isso, não consigo entender isso não é tão pouco. O Renato é muito bonito, você viu?

-É sim, um homem bem bonito, inteligente, educado, generoso e caridoso, uma pessoa de uma índole boa e uma honestidade inabalável, eu diria.

-Você tem razão. Que outra pessoa faria o que ele tem feito por mim? Veio me visitar, me oferecer um emprego, pagar as despesas do hospital, tem que ser mesmo muito bom e generoso.

-Ele realmente é muito prestativo, gosta de ajudar os outros, mas tudo sem ostentação. Faz por que ama seu próximo e divide com os menos afortunados, aquilo que lhe é abundante nos diversos aspectos, seja na parte material ou espiritual.

-Acho que não existe quem não goste dele, eu mesmo já tenho um grande carinho por ele por sua atenção comigo e para com meu filho, tenho mesmo muita sorte em encontrar pessoas como vocês em um momento tão difícil de minha vida.

-Nada é por acaso Vera, tudo tem uma explicação e uma razão, você precisou passar por tudo isso para poder ver que existem pessoas que estão seguindo no caminho do amor, do perdão e da caridade.

-Foi a melhor coisa que me aconteceu nestas últimas semanas, depois do meu filho. Até agora eu não tinha razão para querer viver mais, as coisas mudaram e tenho várias coisas que me motivam a viver e a lutar.

-Isso mostra que você pode ver algo além dos seus sofrimentos, que existem coisas que podemos tirar do sofrimento e do desespero e você já começou a reconhecê-los, a separar o joio do trigo. Lembra-se que eu te falei e você já começou a separar o seu? A conversa está boa, mas eu tenho que ir trabalhar, quando tiver um tempinho eu passo por aqui para conversarmos. Fique com Deus, minha querida.

-Até mais Dalva.

-Até mais, minha querida.

Vera pensou como Dalva podia ser assim tão simples, não ver maldade nas pessoas e ainda conseguia ver e transformar as dificuldades em aprendizado. Acreditava que sua mãe era boa e generosa. Ao conhecer Dalva, pode também descobrir que existem pessoas que pensam igual a sua mãe. Sentiu vontade de descer e ver como Raul estava, se havia melhorado, pois desde que fora vê-lo pela última vez não havia mais noticias dele, mas excitou com medo de encontrar Teresa novamente. Achou melhor não ir, seria melhor assim, se afastar deles era a coisa mais sensata a ser feita. Logo ela teria alta e não poderia colocar em prática a sua vingança, ela destruiria todos daquela família e a usaria. Esperava ansiosa esse dia, seria o melhor de sua vida. Enquanto não pudesse ver os Mendonça e Albuquerque no chão, humilhados e destruídos, não descansaria. Neste momento, Vera não percebeu que seus pensamentos eram emanados pelos espíritos inferiores que a intuíam mais e mais forte, conforme a energia negativa que Vera emanava com o sentimento de raiva e ódio. Eles começavam a controlá-la cada vez mais forte, usando seus sentimentos ainda envoltos pela obscuridade da injustiça e raiva, fazendo-a com que ela cada vez mais se afastasse do seu caminho. Seus pensamentos estavam envoltos em sentimentos ainda perniciosos e os unia cada vez mais na sua obstinada vingança. O espírito opressor falou cada vez mais na intenção, lhe intuindo sentimentos vingativos e de ódio, de muita raiva, cegando-a e impedindo que recebesse auxílio da equipe espiritual. Foi enviada para socorrê-la. Ali permaneceram enviando pensamentos de paz e luz, orando para que ela elevasse seus pensamentos a Deus, na busca de se aprimorar e se perdoar. Eles nada poderiam fazer enquanto ela não aceitasse a palavra e os ensinamentos. Neste instante, os pensamentos de Vera foram interrompidos com a chegada do doutor Dorival. Os irmãos opressores se retiraram do quarto, deixando apenas a equipe espiritual que espargiam gotas de luz e paz ao coração revoltado de Vera, cheio de ódio e mágoas.

-Bom dia, Vera.

-Bom dia, doutor Dorival.

-Como se sente hoje? Muitas dores?

-Não, doutor. Sinto-me cada dia melhor, quase já não sinto mais dores.

-Isso é muito bom, vamos examiná-la. Pode se sentar na cama, por favor? Vera, está tudo bem com você, vou solicitar mais alguns exames para me certificar que não há algum problema interno. Se os exames não apresentarem nada lhe darei alta, mas você tem que ir procurar um obstetra para fazer o pré-natal, posso lhe indicar um se você quiser.

-Que noticia boa, doutor, já não agüento mais ficar presa neste hospital sem nada para fazer. Já me sinto bem melhor e quero seguir minha vida o mais rápido possível, estou louca para começar a trabalhar e seguir com minha vida.

-Então não serei eu quem lhe impedirei, vou solicitar agora mesmo os exames e amanhã eu passo para ver os resultados. Se tudo estiver certo, amanhã mesmo terá alta. Mas tem que me prometer que irá procurar um obstetra aqui no hospital. Posso indicar um se não puder pagar. Ele atende em uma clínica onde presta serviços comunitários, posso falar com ele para você.

-Prometo sim. Quero que meu filho seja saudável e forte, se o senhor puder me fazer mais esse favor vou ficar agradecida. Como sabe, não tenho condições financeiras para pagar um médico.

-Então, vou passar seu caso ao doutor Cláudio e pedir que ele venha lhe visitar, assim que for possível.

-Muito obrigada, doutor, por tudo o que o senhor tem feito por mim e por meu filho.

-Não precisa me agradecer em nada, só siga seu caminho com sabedoria e amor. Aproveite o que lhe é oferecido, não coisas materiais e sim coisas espirituais. Aproveite o auxilio e o amparo, tudo o que oferecemos a você não é nada diante do que o pai nos oferece. Basta que nós aceitarmos o que é nosso de direito, o amor, a paz, a serenidade e a confiança em um pai amoroso.

Vera não disse nada, apenas escutou em silêncio, não queria mais falar sobre esse assunto que tanto lhe aborrecia. Cada um acreditava no que queria, só não conseguia entender como pessoas instruídas e cultas acreditavam em coisas assim tão tolas e fúteis. Não resolveria nada ela ficar questionando, o mais certo a ser feito era escutar e não dizer nada. Dorival se despediu de Vera, deixando-a com seus pensamentos. O que ela mais desejava no momento era ter alta e poder começar sua vida novamente, o mais rápido possível. Já estava cansada de ficar ali sem fazer nada, só pensando. Teria que começar a agir o mais rápido possível, assim que saísse do hospital iria iniciar a sua vingança. Ela estava muito agitada com a idéia de se vingar das pessoas que a humilharam e a maltrataram, queria mesmo começar a pôr em prática. Ficar ali só pensando não resolveria nada. Bem, mas teria que aguardar alta amanhã para saber se iria ou não ter sair. Resolveu deitar um pouco até a hora do almoço.

Já passava do meio dia quando Teresa chegou em casa, abriu a porta e pela primeira vez observou que não se orgulhou de ver suas obras de artes, suas porcelanas e móveis antigos que comprou em leilões, dando uma fortuna por eles. Nunca havia visto sua casa como agora, era uma casa cheia de luxo, desprovida de amor e paz. Tudo que estava ali durante muito tempo foi o mais importante, mais que seu próprio filho. Raul precisou atentar contra a sua vida para poder chamar a atenção dela. Mas como Dalva lhe falou, nada é por acaso, tudo tem um propósito e em seu caso foi para ver que não se encontra felicidade em bens materiais e sim no amor e na caridade. Estava ali pensando quanto Rosa lhe chamou a atenção.

-Dona Teresa, que bom vê-la, como está Raul?

-Graças a Deus, Rosa, fora de perigo, está melhorando a cada dia. Achei melhor descansar, pois não posso ficar doente, tenho que estar bem pra cuidar de Raul quando ele sair do hospital. Agora, mais do que nunca, ele vai precisar de mim, do meu apoio e amor, já que Lauro não se importa com ele. Nestas duas semanas que Raul está hospitalizado, Lauro só foi um dia vê-lo. Sua maior preocupação era que a imprensa soubesse que seu filho tentou se suicidar. Como ficaria sua reputação e seu prestígio de médico? Foi mesmo só para pedir para o diretor do hospital não deixar vazar nada sobre o assunto a imprensa. Por essa razão ele esteve lá, não por que estava preocupado com seu filho.

-Eu errei com Raul, mas eu o amo mais que Lauro. Parece que não gosta do filho.

-Dona Teresa, claro que o doutor Lauro gosta de Raul, só que não sabe demonstrar seus sentimentos. Ele é mesmo assim, durão, fechado, mas dentro suas limitações ele os ama. Bem, vamos vou pedir para servir o almoço para a senhora, pois o doutor Lauro avisou que não viria para o almoço, pois tinha várias reuniões hoje.

-Obrigada Rosa, mas estou sem fome, depois vou até a cozinha e como alguma coisa, agora vou subir e tomar um banho, descansar um pouco. Mais tarde eu como alguma coisa. Se ligarem do hospital me avise imediatamente.

-Sim senhora, pode deixar que eu lhe aviso, estou feliz que Raul esteja bem, rezei muito por ele.

-Obrigada, Rosa, por se lembrar dele em suas orações, sei que você o tem como um filho e durante muitos anos você é quem foi mãe dele. Não sei como te agradecer pelo que fizesse ao meu filho, pelo amor e carinho que teve com ele. Sou imensamente grata a você, agora deixe eu subir, pois tenho que dormir um pouco.

Depois de já ter tomado banho e se trocado, Teresa decidiu ligar para Eugênia, que provavelmente esperava ansiosa a sua ligação. Sentou-se na cama e ligou.

-Alô, boa tarde, a senhorita Eugênia se encontra?

-Boa tarde, quem gostaria de falar com ela?

-Sou eu, Clara, a Teresa.

-Sim, dona Teresa, vou chamá-la, pode aguardar um instante.

-Obrigada, Clara.

-Não por isso, Dona Teresa.

-Eugênia, dona Teresa está ao telefone.

-Obrigada. Vou atender aqui no meu quarto.

-Olá, dona Teresa, tudo bem com a senhora? E como está Raul.

-Está tudo bem, graças a Deus, Raul já está fora de perigo.

-Que bom, dona Teresa.

-Bem Eugênia, eu liguei para te falar sobre aquele assunto que fiquei de averiguar, conversei com o doutor Dorival e com Dalva. Eles nos convidaram para irmos a uma sessão na quinta-feira. Por telefone não posso te explicar melhor, mas vamos ter que arrumar uma desculpa para dar a Eulália.

-Não se preocupe, dona Teresa, que eu conversei com Lucas. Ele ficou de nos ajudar.

-Que bom, Eugênia, então você conversa com ele e combina tudo. Depois me liga para informar como ficou combinado, pois a reunião é nesta próxima quinta-feira às oito horas da noite.

-Certo, então vou falar com ele assim que chegar em casa. Depois ligo para a senhora, mais uma vez obrigada por tudo, Dona Teresa.

-Meu bem, não precisa me agradecer, vou ficar esperando sua ligação então.

-Eu ligo para a senhora assim que tiver uma resposta. Até mais então.

-Até mais, Eugênia.

-Até mais, dona Teresa.

Assim que Eugênia desligou o telefone sua mãe veio lhe perguntar quem era ao telefone.

-Clara me falou que você recebeu uma ligação? Quem era? Pois você nunca recebe ligação alguma. Estou até estranhando...

-Ora mamãe, o que tem de estranho alguém me ligar?

-Pois é isso que é estranho, ninguém liga para você. Não vai me dizer quem era?

-Mamãe, era a dona Teresa.

-Teresa? O que ela queria falar com você?

-É que pedi a ela que me avisasse sobre o estado de Raul.

-E por que ela te ligaria e não falaria comigo?

-Ah! mamãe eu já lhe falei que eu havia pedido a ela, talvez estava com pressa, sei lá. Não vejo por que tanto interrogatório só por causa de uma ligação.

-Não é um interrogatório, só achei estranho, nada demais. Vou ligar mais tarde para Teresa e saber como está o estado de Raul, já que liguei para o hospital e não consegui falar com ela.

-Faça isso mesmo, mamãe, ela precisa de nossa força, já que o doutor Lauro é muito ocupado, não tem quase tempo para ajudá-la.

-Eu sei, seu pai me falou que ele está cheio de compromissos, o encontrou outro dia em um restaurante. Foi falar com ele, pensou que o estado de Raul havia piorado, ele não deu muita ênfase, só respondeu o que seu pai perguntou e depois se retirou.

-Mamãe, o doutor Lauro é muito estranho mesmo, papai ainda não se acostumou com isso.

-Estranho ele é mesmo, não sei como Teresa pode ter se casado com ele. Quase nunca está em casa e não se preocupa com sua família, não participa de nada, é calado e misterioso.

-Mamãe, talvez ele seja assim só com os outros, em casa ele pode ser uma outra pessoa.

-Você pode ter razão, Eugênia.

-Mamãe, agora tenho que estudar um pouco mais, pois tenho prova amanhã. Sabes me dizer se Lucas já chegou em casa?

-Não, ele me ligou dizendo que iria passar na casa de Márcia e depois iriam ao cinema, só chegaria bem mais tarde em casa.

-Havia me esquecido disso, ele tinha me falado que iria visitá-la hoje, pois ela já estava reclamando que já fazia uma semana que eles não se viam.

-Não sei por que Lucas vive fugindo de Márcia, ela é de uma ótima família, tem dinheiro e nome, será ótimo para ele, se eles se casarem.

-Mamãe, Lucas não ama Márcia, sabes que ele ama Lúcia.

-Já falei que não quero saber dessa moça aqui em casa, ela é pobre. O que pode oferecer ao Lucas? Nada. Ele tem que se relacionar com pessoas de nosso nível social e não com pobres. Afinal, amor não existe.

-A senhora não sabe mesmo o que é amar, pois se casou com papai por interesse e acha que todo mundo tem que ser assim, viver infeliz. Por que não deixa que Lucas seja feliz ao lado de quem ele ama?

-O que você sabe de amor, se vive neste quarto trancada, não sai para nada, não tem amigos ou namorado, hein?

-Mamãe, o fato de viver aqui, não me impede de conhecer coisas e fatos, de saber sobre o amor e de outras coisas, não tenho namorado por que ainda não me apaixonei de verdade, não quero namorar sem gostar da pessoa. E tão pouco me casar com alguém por dinheiro e status.

-Eugênia, você não sabe o que fala. Eu e seu pai sabemos o que é melhor para vocês, se não aceitamos o namoro de Lucas com Lúcia é por que sabemos que não iria dar certo e ele só se machucaria. Ela não gosta dele, só quer seu dinheiro.

-Como podes dizer uma coisa dessas de Lúcia, mamãe? Ela é uma garota incrível, honesta e de bom coração, sei que ama muito Lucas e está sofrendo muito com a separação.

-Como sabes? Ela procurou Lucas?

-Não, eu a encontrei na faculdade esses dias e conversei com ela, não me falou nada e tão pouco perguntou por ele, mas percebi em seu olhar tristeza.

-Triste por que perdeu a chance de ficar rica, isso sim.

-Mamãe, agora tenho mesmo que estudar, por favor, não vou descer pra jantar. Depois eu desço e como algo na cozinha.

-Eu vou pedir para Clara lhe preparar um lanche mais tarde e levar para você.

-Obrigada, mamãe.

-Agora vá estudar, sim, pois não quero que você se prejudique por minha causa.

-Até mais, Eugênia.

-Até mais, mamãe.

Eulália beijou sua filha e se retirou do quarto, deixando para trás Eugênia. Estava muito feliz com a ligação de Teresa e também ansiosa para contar a Lucas a novidade, ficaria acordada até que ele chegasse em

casa, para falar sobre a reunião que iria na quinta-feira. Como ele disse que iria ajudá-la, é bem provável que ele teria uma boa desculpa para dizer a sua mãe. Ficou ali pensando no que acabou de falar com sua mãe, o quanto seu irmão sofria por amar Lúcia. Ela torcia que ele tivesse a coragem de enfrentar a família e se casar com Lúcia, pois eles nasceram um para o outro. No que fosse necessário ela o ajudaria, só queria que ele fosse feliz ao lado da sua amada.

Era quase onze horas da noite quando Eulália escutou o barulho do carro se aproximar, correu até a porta do seu quarto para aguardá-lo.

-Até que enfim chegou, estou te esperando já faz algum tempo.

-Aconteceu alguma coisa?

-Sim, tenho uma ótima notícia para te contar, não pude esperar até amanhã.

-Então, me conta, já estou ansioso.

-Entra, não quero que ninguém escute o que vamos conversar. Hoje a Teresa me ligou para falar que vamos nesta quinta-feira a uma reunião mediúnica. Estou tão feliz, Lucas, vou aprender tudo sobre esse meu dom e poder ajudar mais.

-Que bom, mana, fico feliz por você, sei o quanto isso é importante para você. Temos que pensar numa desculpa para darmos à dona Eulália. Deixa comigo que arrumo uma bem convincente, pode deixar comigo.

-Obrigada, Lucas, por tudo o que você tem feito por mim, pelo seu carinho, por sua compreensão, por realmente se preocupar com meus problemas.

-Não precisa me agradecer, afinal somos irmãos, e é pra isso que servem os irmãos, para ajudar e amparar o outro. Quero que me desculpe se não tenho tido mais tempo para conversarmos, é que estou cheio de provas e trabalhos na faculdade e tenho que estudar muito. Não sou como você que só tira notas boas.

-Eu tenho percebido que você anda triste.

-É por causa de Lúcia, semana passada eu a encontrei na faculdade, ela também está muito abatida.

-Sei que os dois estão sofrendo por estarem longe um do outro, Lucas. Vocês se amam. Por que ficarem separados? Eu não entendo por que você insiste com isso. O que o impede de procurá-la e serem felizes?

-Se fosse fácil assim, juro que eu faria, pois quase não suporto mais ficar longe dela, estou sofrendo. Não consigo pensar em outra coisa a não ser em Lúcia. Mas o que tenho a oferecê-la, senão trabalho? Não tenho dinheiro e você sabe que mamãe vai cortar minha mesada se eu procurá-la. Como vamos vive? Tenho que primeiro me formar e ter um trabalho, assim poderia ficar com ela, mas tenho medo que até esse dia chegar ela já não me queira mais.

-Então, por que não fala isso para ela. Não a deixe pensando que você não a ama, que não se preocupa com ela. Diga o quanto a ama e que tudo é uma questão de tempo até você se formar.

-Você tem razão, Eugênia, vou fazer isso mesmo. Tenho que deixar de ter medo do que ela vai me responder. Se me amar mesmo, vai entender a razão por que estamos separados, obrigada, mana, por me fazer ver isso. Não tinha tido a coragem suficiente pra pensar ou agir mas agora eu tenho. Amanhã vou procurá-la e dizer tudo o que sinto e que não posso mais viver sem ela.

-Vou orar para que tudo dê certo entre vocês, afinal, merecem serem felizes. No que puder fazer pra ajudá-los...

-Você já ajudou muito mesmo, mana, eu te amo mesmo, agora vou dormir, pois estou ansioso que chegue amanhã para falar com Lúcia.

-Vai dar tudo certo, confie em Deus e peça ajuda à espiritualidade, eles te auxiliarão.

-Sabes, mana, já estou até me simpatizando com esse seu lado místico, tem me ajudado muito sabia? No que for possível, farei tudo para ajudá-la para ir a essas reuniões. Fica tranqüila quanto a isso. Boa noite.

-Boa noite, Lucas, tenho uma coisa para te dar. É uma psicografia minha, gostaria que você lesse isso, vai te ajudar muito.

-Vou ler sim, obrigado por tudo.

 

Conflito

 

Meus queridos irmãos, que a paz de Deus esteja sempre convosco.

Meus irmãos: se sofrem a dilaceração da alma, se têm angústia, se sofrem e choram,

Se hoje vivem em conflitos,

Se vos perseguem,

Se vos humilham,

Se vos caluniam,

Se vos ferem,

Se vos fazem sentir que não sois amados,

Se tudo que fazem, de nada tem valia,

Se vos sentem sozinhos,

Aflitos,

Angustiados,

Se vos lamentas e chora,

Se as vossas lutas e dores não são vistas pelos vossos irmãos,

Esses conflitos...

Essas lágrimas,

Essas dores,

São uma premissa.

É uma jornada para a evolução, é um caminho árduo e austero.

É a estrada do conhecimento.

É a escola da indulgência e do perdão.

É a subida para o entendimento,

Para a luz.

Essas aflições nada mais são, do que o saber.

Colhemos o que plantamos.

Nos redimimos de nossos erros e voltamos para corrigí-los.

Se sofrermos diversas dores é porque assim o espalhamos em outra existência.

Se temos pais e mães incompreensíveis, porque assim já fomos.

Se temos um filho portador de moléstias porque ontem levamos alguém a cometer o suicídio.

Se temos um esposo ou esposa conturbada e doente, a nos exigir a infatigável tolerância é porque ontem o abandonamos.

Tudo que aqui passamos,

Tudo o que aqui sofremos é a conseqüência do que vivemos ontem.

As dores que semeamos ontem, colhemos hoje.

As lágrimas que derramamos hoje é o que ontem deixamos cair.

As calúnias e ódios espalhados, recebemos hoje.

Portanto, meus queridos irmãos, ninguém é castigado,

Ninguém é injustiçado,

Perseguido,

Maltratado,

Ninguém é vitima.

E sim, somos o que plantamos ontem,

Somos aqueles que ontem causamos dores e sofrimentos,

Por não entendemos o que é o amor,

O perdão,

A caridade,

A paciência,

A austeridade,

Humildade.

Enfim, se hoje passamos por conflitos dentro e fora de nossos lares é porque ontem causamos.

Meus queridos irmãos, se hoje estão nos lares que estamos,

Na condição de pai ou mãe,

De filho ou filha,

De esposo ou esposa,

De irmão ou irmão,

Se hoje sofremos,

Se hoje choramos,

Se hoje nos afligimos,

Se hoje espalhamos o bem, nada advém dele.

É porque ontem, só o ódio e a dor espalham.

E por essa razão que estamos aqui,

Para dar o que ontem tiramos,

Para construir o que destruímos ontem,

Para consertar onde erramos,

Para amar aqueles que odiamos ontem,

Para perdoar aquele que nos fizeram mal.

Simplesmente a vida...

É assim...

Sempre um ir e vir

Colher e plantar...

Sorrir e chorar...

Irmãos: que possamos entender o que esses ensinamentos nos querem dizer,

Que não há dor sem razão,

Que não se pode colher o que não plantou,

Lamentar-se,

Digladiar-se,

Odiar-se,

Não nos faz melhor.

Não nos coloca na condição de vítimas.

Não...

Que esses irmãos de luz e sabedoria possam nos auxiliar com esses bálsamos de paz e amor, que ele continue a nos enviar essas gotas de benevolência, perdão, amor, caridade, luz e fé.

Que Deus, nosso pai, possa nos auxiliar nesta nossa jornada para o entendimento e perdão de nossos irmãos.

Que assim seja.


 

Capitulo VIII

 

Vera aguardava ansiosa a chegada do doutor Dorival com os resultados dos exames. Se os resultados fossem bons, ela teria alta hoje e poderia começar sua vida de novo. Estava torcendo que tudo estivesse bem, não havia mais razão para ela permanecer no hospital. Há tempos não sentia, mas as dores estavam cada dia mais fortes. Queria mesmo era começar a trabalhar e voltar a estudar para ser alguém na vida e começar sua vingança. Agora as coisas começavam a se ajeitar. Já tinha um trabalho, uma casa para morar, mesmo que seja por pouco tempo. Era a oportunidade que estava esperando para se vingar. Estava com pressa em seus pensamentos, quando escutou a voz do doutor Dorival.

-Bom dia, Vera.

-Bom dia, doutor Dorival. Estava lhe aguardando, ansiosa para saber dos resultados dos exames, está tudo bem?

-Tenho boas notícias, você está ótima. Hoje mesmo vou te dar alta, mas se lembre que tem que fazer o pré-natal, já falei com meu amigo, vou encaminhar você para ele.

-Que bom doutor. Já não agüentava mais ficar presa aqui neste quarto. Vou agora mesmo arrumar minhas coisas e falar para Dalva que estou de alta. Muito obrigada mesmo doutor, por tudo o que o senhor faz. Estou imensamente agradecida ao senhor.

-Desejo a você e a seu filho toda a felicidade. Que possam caminhar juntos na estrada do bem e do amor. Espero que você possa entender os desígnios de Deus e cumprir sua tarefa aqui na terra. Seja muito feliz, pois Deus quer isso, não importa o que passamos ou sofremos, o mais importante é o que aprendemos com isso. As dores e dificuldades que temos nada mais são do que um aprendizado, uma forma de nos evoluirmos e corrigimos nossos erros de existências passadas. Portanto, quando compreendemos na íntegra as dificuldades, nós podemos passar por elas com grande sabedoria e austeridade, transformando-as em bálsamos de luz e evolução. Se soubermos compreender o porquê de tudo que enfrentamos, nossas provas e lutas se tornariam mais fáceis e menos dolorosas. Mas, se ao passarmos por elas com desespero, revolta e lamentações, não teremos a capacidade de entendê-las, de corrigí-las, pois estamos completamente desorientados. Só assim poderemos ser felizes, pois sabemos que tudo isso se faz necessário para que possamos evoluir e crescer, modificar nosso espírito ainda atrasado. O dia que pudermos ver essas coisas, tudo será mais fácil e ameno.

-Doutor Dorival, eu não entendo como podemos ser felizes sofrendo. Isso não é certo. Como podemos aceitar essas coisas sem reclamar? Eu não posso entender, quem sabe um dia, mas agora não.

-Vera, tudo tem seu tempo. Não se pode do dia para noite mudar. Isso requer tempo e paciência, feito dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. É uma luta constante que travamos com nós mesmos, pois não se consegue modificar nossas vicissitudes do dia para noite. Isso requer um longo e árduo trabalho de aperfeiçoamento moral, de muita resignação. Se assim procedermos, um dia conseguiremos evoluir e entender como funciona a lei de Deus. Hoje te parece algo inaceitável, mas amanhã você terá uma nova visão e compreensão do que eu te falo hoje. Deus faz tudo para que possamos ouvir o que ele nos fala, tudo o que é melhor para nós basta que possamos ouví-lo. Devemos ser humildes e amorosos, dar o que recebemos, sermos mais caridosos conosco e nosso próximo. Esse é o caminho. Não é o mais fácil...

-Quem sabe um dia eu possa ver as coisas como o senhor, quem sabe um dia eu possa entender se é assim como o senhor diz. Nada é impossível.

-Sim, basta que deseje realmente.

-Até mais, Vera.

-Até mais, doutor.

Vera estava imensamente feliz com a notícia de sua alta. Começou a arrumar as coisas e quando estivesse tudo pronto iria procurar Dalva para lhe contar que já tinha recebido alta e poderia marcar o encontro com o doutor Renato. Estava ansiosa para começar a trabalhar. Quanto tudo já estava arrumado, saiu à procura de Dalva. Andou pelos corredores do hospital, perguntou para várias enfermeiras que encontrou no caminho, mas ninguém sabia informar-lhe ao certo onde Dalva estava. Sem se dar conta, percebeu que estava diante do quarto de Raul. Parou ante a porta, olhou para os lados e se retificou que ninguém estava ali. Resolveu entrar para ver como Raul estava, andou até a cama dele e parou para observá-lo. Aproximou-se e falou no seu ouvido:

-Não tenho pena de você, está tendo o que merece. Não desejo que você morra, quero que vivas para sofrer tudo o que me fez passar. Não descansarei sequer um instante de minha vida enquanto não destruir você e sua família. Hoje começa a minha vingança, vou fazer de tudo para tornar a sua vida um inferno. Quero que você sofra bastante, se rasteje feito um réptil, pois é isso que você é. Neste momento os inimigos de Raul estavam ao lado de Vera e passavam mais ódio e raiva, intuindo para que ela dissesse cada vez mais palavras de ódio e rancor, fortificando cada vez mais o desejo de vingança de Vera. Ela sorriu com prazer, pois sabia que iria conseguir colocar em prática seu plano. Saiu da sala.

-Espero que se recupere rápido, só assim posso me vingar de você.

Ao sair, viu que Dalva estava parada na porta do quarto.

-Oi Dalva, estou lhe procurando para dizer que recebi alta hoje.

-Que bom, minha querida, vou te dar meu endereço e chamar um táxi para levá-la até minha casa, pois hoje estou de plantão e não sairei tão cedo. Vou ver se consigo ir até em casa com você para acomodá-la.

-Dalva, não quero te atrapalhar, deixe que vou sozinha. Não tem problema algum.

-Não será incômodo, Vera. Tenho uma hora de folga, posso pedir agora, só me da alguns instantes, está bom?

-Se é assim que deseja... vou te esperar na recepção.

-Está certo, então.

 

Dalva achou melhor não comentar nada com Vera sobre o que acabou de escutar. Seria melhor esperar um pouco mais, pois não adiantaria falar nada. Ela ainda estava muito magoada e com ela morando em sua casa teria a oportunidade de conversar sobre o assunto. Resolveu tudo e subiu informando à recepcionista que iria se ausentar por uma hora. Pediu para chamar um táxi. Dirigiu-se até onde Vera a aguardava, no caminho até sua casa a conversa transcorria normalmente. Conversam sobre sua ida ao escritório de Renato para começar a trabalhar o mais rápido possível. Acomodou-a e informou a Vera que assim que chegasse ao hospital ligaria para Renato para combinar a hora que ela poderia ir ao seu escritório. Assim que tivesse alguma notícia ligaria para informar. Mostrou toda a casa para ela e se despediu de Vera com um beijo.

Vera estava imensamente feliz com o rumo que sua vida deu, com as novas oportunidades que surgiu, com os novos amigos. Pessoas realmente muito boas e generosas e tinha que aproveitar essa chance que a vida lhe ofereceu e não desperdiçar essa chance. Estava mesmo feliz por não ter morrido. Se isso tivesse acontecido, não teria a chance de se vingar deles. Todos a humilhavam e desprezavam. Resolveu comer algo e descansar um pouco, pois havia ficado um pouco cansada, mas isso era normal, pois estava grávida.

Ao chegar no hospital Dalva, foi direto ligar para Renato, marcar o encontro conforme havia sido combinado.

-Olá, por favor, poderia falar com o doutor Renato?

-Quem deseja falar-lhe?

-Diga que é Dalva, ele sabe quem é.

-Só um momento, por favor.

-Doutor Renato, a senhora Dalva está no telefone.

-Sim, claro, pode passar a ligação Lurdes.

-Alô Dalva, que bom que você me ligou, ia mesmo ligar para você e pedir desculpas por não ter falado com você nas reuniões no centro. Estou com muito trabalho e saio correndo assim que termina os passes para poder trabalhar mais um pouco nos casos.

-Não precisa se desculpar doutor Renato, sei que é um homem cheio de compromissos a cumprir, entendo perfeitamente. Liguei para marcarmos a ida de Vera ao seu escritório a fim de começar seu trabalho hoje. Ela teve alta e já esta lá em casa muito ansiosa para começar a trabalhar.

-Que notícia ótima, Dalva. É bom para começar a se ocupar, assim ela esquece um pouco seus problemas. Podemos marcar para amanhã, no primeiro horário se você puder, pois à tarde eu tenho audiência e não poderei atendê-las e nem explicar qual será a função de Vera aqui na empresa.

-Combinado então doutor Renato. Amanhã às oito horas da manhã estaremos aqui. Vou ligar para Vera, que deve estar ansiosa esperando a minha ligação com a resposta.

-Até amanhã, doutor Renato.

-Até amanhã, Dalva.

 

Renato ficou imensamente feliz com a notícia que Dalva acabava de dar, não via o momento de estar junto de Vera. Era só uma questão de horas. Para ela seriam as horas mais longas de sua vida, faria de tudo para conquistar a confiança e o amor de Vera, pois amava aquela mulher como nunca amou ninguém na vida. Seria muito bom tê-la por perto, mesmo que na condição de patrão e empregado. Chamou Lurdes para informa que sua assistente começaria amanhã, pediu que providenciasse tudo que fosse necessário. Explicou também que teria que passar todo o trabalho que ela iria exercer, pediu que tivesse paciência com ela, pois não tinha experiência na função.

-Não precisa se preocupa doutor Renato, ensinarei tudo a ela com a maior paciência. Afinal, não sabemos tudo, sempre temos o que aprender, e a paciência e a dedicação são exemplos.

-Sei que você terá muita paciência e dedicação com Vera, afinal você é uma pessoa muito boa e caridosa. Já está aqui comigo há anos e é para mim como se fosse uma irmã. Sou sozinho, não tenho irmãos e tão pouco parentes.

-Também gosto de você como um irmão, doutor Renato. Quero que sejas muito feliz, pois é uma pessoa íntegra e correta, tem uma coração enorme, bondoso e caridoso. Desejo a você toda a paz possível. Bem, agora deixe eu ir providenciar as coisas para receber a nossa nova funcionária.

-Obrigado por tudo, Lurdes.

-De nada, doutor Renato, essa é minha função aqui na empresa.

 

Dizendo isso, Lurdes se retirou para providenciar tudo o que Renato lhe havia pedido. Ela sabia que essa moça era mais do que uma funcionária, conhecia muito bem Renato e sabia que mesmo sendo atencioso e caridoso podia ver em seus olhos o brilho quando falava dela. Ela percebia a dedicação e o carinho que ele desprendia ao falar dela, mas não quis tocar no assunto. Afinal, mesmo ele sendo um amigo de sua família, era seu chefe. Estava feliz por ele, sempre desejou que ele se apaixonasse por uma moça boa que o fizesse feliz. Mesmo sem conhecê-la já sabia que se tratava de uma moça de boa índole. Ficaria torcendo para que tudo desse certo entre eles, afinal, Renato merecia ser feliz e o que dependesse dela, faria tudo para que isso acontecesse.

 

Dalva ligou para Vera, que lhe aguardava com ansiedade. Foi logo perguntado o que aconteceu.

-Dalva, o que o doutor Renato falou?

-Calma, menina. No seu estado não é bom se agitar muito, não faz bem ao bebê.

-Como posso ter calma se você não me diz nada?

-Falei com doutor Renato. Amanhã às oito horas da manhã temos que estar no escritório para que você comece a trabalhar.

-É verdade, Dalva?

-Sim, portanto descanse bem hoje para que esteja com uma aparência boa amanhã.

-Vou sim, estou tão feliz que quase não agüento de tanta felicidade!

-Agora se acalme e aproveite o resto do dia para descansar e colocar as suas coisas em ordem. Não me espere porque chegarei tarde em casa.

-Está bem, dona Dalva. Vou fazer tudo o que me pediu e mais uma vez muito obrigada. A senhora tem sido um anjo para mim, não sei como agradecer por tudo.

-Então não agradeça, só quero que você seja muito feliz, minha querida. Agora me deixe trabalhar, pois tenho muito que fazer por aqui hoje.

-Até mais, então.

-Até amanhã, minha querida. Tenha uma ótima noite.

-Para você também, dona Dalva. Até amanhã.

 

Ao desligar o telefone, Vera estava feliz com o fato de começar seu trabalho e portanto, iniciar sua nova vida e vingança. Resolveu fazer algo para comer e depois iria descansar um pouco. Foi até a cozinha, preparou algo para comer, lavou a louça e subiu para descansar. Ao entrar em seu quarto viu sobre a cabeceira da cama um livro que lhe chamou a atenção. Sentou-se e resolveu ler um pouco. O nome do livro era "Mensagens Psicografadas". Leu o índice e resolveu abrir na paginas 54, pois era uma mensagem que falava sobre os desafetos. Achou interessante e decidiu ler.

 

 

Os desafetos

 

Muitas vezes os desafetos nos assolam.

Muitas vezes não entendemos o porquê de tantas dores e sofrimentos.

Muitas vezes é difícil aceitar o sofrer.

Muitas vezes até nos perguntamos e nos indagamos por que são tantos desalentos.

Esses são os nossos desafetos.

O sofrimento é um alerta de que algo que não está certo.

É a forma que Deus, nosso pai, nos fala a alma.

Devemos então perguntar ao pai, onde é que estamos errando.

Sem lamentações,

Sem revoltas,

Sem se pôr na condição de injustiçado,

Sem ranger de dentes.

Apenas ouvir o que o pai nos fala.

Pois a justiça divina é conciliadora e reparadora.

Os desafetos que sofremos,

Os desafetos que espalhamos.

É o que plantamos em outras existências.

Temos responsabilidade com as dificuldades de filhos problemáticos.

Se somos injustiçados,

Se somos humilhados,

Se somos perseguidos,

Temos as nossas responsabilidades, devemos reparar esses erros.

Vivemos em uma família problemática, temos responsabilidades com eles.

Talvez na condição de amparar ou reparar.

Às vezes nos sentimos fracos, desorientados e desprovidos de forças.

Muitas vezes até pensamos que Deus nos esqueceu.

Muitas vezes pensamos em desistir.

Mas, queridos irmãos, Deus não nos dá o fardo maior do que possamos carregar.

Nós escolhemos passar isso, para que possamos evoluir,

Para que passamos perdoar,

Para que passamos amar,

Para que possamos redimir,

Para que possamos corrigir,

Para que possamos amparar,

Para que possamos acolher.

As dificuldades por nós vividas são bálsamos de fé e aprendizado,

São pétalas na estrada da evolução,

São luzes na escuridão que vivemos.

As dores e lamentações são correntes direcionadas que nos eleva para o entendimento e compreensão.

Deus sabe que podemos sermos melhores humanos, mais austeros e caridosos.

Portanto, meu querido irmão, Deus não nos abandona nunca.

Deus não nos castiga.

Deus não nos condena.

Deus nos dá esta maravilhosa oportunidade para nos perdoarmos e aprendermos.

Essa lição benevolente que nos fazem amar, perdoar, para sermos humildes e caridosos.

Mas, assim como ele nos dá essas lições que vem através de nossos desafetos,

Ele nós dá o entendimento, o conhecimento, o amor ao próximo, o perdão.

Acima de tudo, esses irmãos espirituais amparam e intuem nas nossas dificuldades.

Ele nos deixou esses exemplos conciliadores e benevolentes que o Cristo nos encimou.

Deixou toda essa imensidão de exemplos benéficos a nós.

Ele nos ampara nas dores, nos confortando e auxiliando.

Que Deus continue a nos enviar esses irmãos benevolentes e austeros para nos auxiliarem nessas jornadas.

Que eles continuem nos deixando essas palavras confortantes e apaziguadoras.

Que em nossos momentos de desespero possamos elevar nossas cabeças para o céu e dizer: Pai, em que estou errando? Auxilia me.

Que possamos passar nossas dificuldades com Deus.

Para que possamos nos elevar e nos fortificar, para que passamos transformar as dores em aprendizados.

Que assim seja.

 

Ao acabar de ler essa mensagem, ela pensou em tudo que acabou de ler. Sempre que lia um livro ou sempre que conversava com o doutor Dorival ou a Dalva, eles sempre mencionavam as mesmas coisas que acabou de ler. Será que isso realmente era verdade? Será que se agisse assim ou mesmo fizesse como estava escrito seria mais fácil? Isso era tolice, estava se deixando levar por essas besteiras, teria que tomar cuidado para não se deixar levar por eles. Era o mais sensato a ser feito naquele momento. Ela não estava sendo errada, nunca havia matado ou roubado, nunca havia mentido ou enrolado alguém. Como poderia estar pagando alguma coisa? Mas se eles queriam pensar assim, nada poderia fazer, a não ser deixá-los com suas crenças. Mas não queria se envolver, queria mesmo era seguir sua vida e colocar em prática suas idéias. Folheou o livro e leu mais uma mensagem que era sobre o amor.

 

 

 

O AMOR

 

 

O amor...

Que sentimento é esse que move a humanidade?

Que muitas vezes nos faz tão sublimes e outras vezes tão odiosos?

O amor é o antônimo do ódio.

Que amor é esse que nos faz aprisionar quem amamos?

Que nos faz odiar quando não somos correspondidos?

Que amor é esse que muitas vezes nos leva a persistir na escuridão?

Que amor é esse tão lúdico e devastador?

Tão promissor e ao mesmo tempo destrutivo?

O amor e um só.

Nós é que deturpamos o significado e o sentido verdadeiro desse sentimento que o pai nos deu.

É o mesmo amor que nosso irmão Jesus Cristo sentiu e sente,

Só que por nós ainda não conhecido na sua máxima plenitude e sua real denotação.

É simples o amor.

O complicado é compartilhar e aceitar as diversas faces desse sentimento.

Ou por assim dizer, as formas de transpormos a ele.

A maneira que o vivenciamos, que compartilhamos.

O amor esta aí e aqui.

Sinto por todos nós encarnados e desencarnados,

Vivenciados dia a dia, hora a hora, minuto a minuto.

Amor é palavra que descreve, que dá sentido a este sentimento tão sublime e caridoso.

Amor é simplesmente caridade, humildade, paciência, desprendimento, compreensão, perdão.

Amor é simplesmente austero,

Benigno,

Desprovido de qualquer sentimento de troca.

Amor...

É leve...

É desmedido...

É somente amor.

Palavra esta, que antecede ou nos dá uma bifurcação de sentidos opostos.

Amor este, que convivemos e nos leva a ter sentimentos e atitudes errôneos, que nos leva a desviar do verdadeiro sentido do amor.

Este amor aqui vivenciado por nós é uma tangente, de desorientação, desespero, dor.

Mas...

Este amor aqui por nós vivenciado, pode ser o amor que Cristo nos ensinou a vivenciar.

Amor desprendido, amor caridoso, benevolente, austero.

Que não julga e condena.

Simples...

Humilde...

Exemplo a nos levar a ver e ouvir nossos irmãos.

É dar e compartilhar

Não é receber e dividir.

Não é esperar nada em troca.

É simplesmente amor,

É fazer por fazer,

Ouvir por ouvir,

Ajudar sem ser ajudado,

O sorrir quando assim nos fazem chorar.

É amar quem nos odeia,

É amparar aquele que nos causou dor,

É perdoar que nos humilhou e perseguiu,

É entender as razões dos nossos próximos,

É levar aquele que não tem conhecimento ao conhecimento,

É dar luz a todos que estão na escuridão do ódio e rancor,

É levar a todos o verdadeiro significado do amor.

Esse amor que o pai nos deixou.

É tão simples e tênue,

Tão desprovido de dor e ressentimento,

E ódio e mágoas.

Que nos leva a tantos sofrimentos e lágrimas.

Mas que está aqui nesta existência a tantos milhões de anos.

E ainda não o entendemos.

Não vivenciamos na sua totalidade.

Na sua essência tão singela.

Que é amor.

Assim como Deus, nós amamos, nos aceitamos,

Sem nunca ter julgado.

O verdadeiro amor será encontrado, quando deixarmos de ser egoístas e orgulhosos.

Quando entenderemos e compreenderemos o amor sublime na sua íntegra,

Ver sempre nosso próximo,

Ver nossas fraquezas e dificuldades,

Abandonarmos elas,

Evoluiremos,

Aprenderemos,

Compreenderemos,

Perdoaremos,

Colheremos.

Sermos pacientes e humildes,

Ouvir e falar,

Aceitar,

Modifica a nossa essência e fraquezas.

E acima de tudo, faz-nos amar e a nossos irmãos.

Abandonamos a idéia de que merecemos sofrer,

Por ter sido isso ou aquilo.

Abandonamos

Quer dizer...

É caminhar na estrada da evolução e aprendizado.

Caminhar para a luz,

Caminhar para a benevolência,

Caminhar para a minha jornada que é tão simples, mas para nós ainda ocultas.

Que esse amor de milhões de anos atrás,

Possa ainda ser sentido e vivenciado por nós e nossos irmãos.

E que outros possam também encontrá-los e sentir através de nossos exemplos de fé e humildade.

Que esta possa ser a direção para o desprendimento do nosso coração.

Que assim seja.

 

Ao terminar de ler essa mensagem Vera pode entender um pouco do que estava sentindo, por que sentia tanto ódio e raiva. Resolveu dormir um pouco, pois estava confusa e com medo, não sabia mais o que era certo ou errado. Não iria mais ler isso, pois estava deixando-a meio perdida e sem rumo. Não permitira que nada a desviasse do seu destino e planos, bem no momento que ela estava se orientado se organizando. Fechou o livro, deitou na cama e adormeceu. Novamente se viu no mesmo jardim, sentada em baixo da árvore imensa. Contemplava a beleza do lugar e a paz jamais sentida, o perfume das flores, a pureza do ar, a leveza do ser... Era isso mesmo que ela sentia ali, leve como se flutuasse na paz e harmonia que ali se encontrava. Sentia-se bem ali, protegida, amada e livre de todo o sentimento pernicioso que a sufocava. Mas ao mesmo tempo, quanto mais sentia paz, algo dentro dela lutava contra isso e dizia que amor não compensa, que as pessoas que lhe causaram mal teriam que pagar.

Neste instante Vera ouve uma voz tênue e amorosa. Era estranho e parecia que conhecia aquela voz que lhe dizia para seguir seu coração.

-Ouça a voz dentro de você, essa é a voz de Deus a lhe dizer que fazer o bem é mais gratificante que fazer o mal e perdoar é o melhor remédio para curar as feridas da alma. Pois a vingança e o ódio só abrem mais as mazelas da alma. Perdoar quem lhe causou o mal é o caminho para a evolução e o aprendizado é deixar o ódio de lado e dar lugar ao amor, sentimento que nos eleva é nos fortalece. Esse é o caminho para a felicidade, não existe outro. Somente através da caridade, do perdão e do amor. O ódio só nos afasta e não permite que evoluamos e aprendamos. O ódio é um sentimento que afasta de nosso caminho, vendando nossos olhos para o entendimento e leva à escuridão, à amargura e ao sofrimento. Escuta o que Deus te fala. Ame em vez de odiar, ajude em vez de aniquilar, auxilie em vez de destruir e perdoe.

Vera permanecia ali escutando aquela voz tão familiar e ao mesmo tempo se perguntava como podia esquecer o que fizeram com ela, como podia perdoar tudo o que lhe causaram. Neste instante, a espiritualidade veio em seu auxilio para confortá-la e intuí-la.

-Vera, minha querida, isso só se será possível quando entender os desígnios de Deus. Somos todos culpados, isso você terá que entender, estudar e aceitar mudar seus pensamentos e sentimentos. Mas, para que isso seja possível, você tem que perdoar e o primeiro passo é ter fé no que te dizem. Acredite no que lês e siga em frente, lembre-se que estarei ao seu lado orando e pedindo por você, junto à espiritualidade amiga.

Ela permanecia ali escutando aquela voz tão conhecida, só não se recordava de quem era, acordou com o barulho dos carros na rua e viu que já era tarde, desceu e foi preparar algo para comer. Estava com fome e tinha que comer por dois, passou a mão pela barriga e fez um carinho e disse ao seu filho:

-Vai ficar tudo bem, meu amor, seremos muito felizes. Mamãe agora está no caminho certo, tenho um emprego e uma casa para morarmos, até podermos pagar uma só pra nós. Agora tenho que arrumar umas coisas para amanhã, pois inicio no meu novo emprego. Estou tão feliz meu filho! Você vai sentir muito orgulho de mim, vou voltar a estudar e ser médica como sempre sonhei. Aquelas pessoas que nos desprezaram e nos humilharam vão pagar tudo a nós dois.

Neste instante pensou em Raul, em tudo o que ele lhe causou e sentiu mais raiva dele. Estava pagando tudo naquela cama de hospital, mas era pouco. Sentiu a sua raiva aumentar, eram os espíritos que se uniram a ela para destruir Raul.

-Isso mesmo, sinta mais raiva e ódio, ele não merece seu perdão. Você irá conseguir destruí-lo, enquanto você sentir esse sentimento não se afaste dele em momento algum e cuidado com essas pessoas que querem afastar você de sua vingança. Agora tenho que ir fazer uma visitinha a nosso querido Jonas.

Dizendo isso se afastou e foi até onde Raul se encontrava hospitalizado.

-Olá, Jonas, pensou que iria se livrar de mim? Estava ocupado, mas agora que já resolvi tudo voltei para te torturar um pouco mais. Estava com a tua amada que agora está junto nesta minha vingança contra você. Não preciso fazer muito esforço, pois você mesmo vai trazendo aliados, por onde você passa vai levando a destruição, semeando ódio e destruição. Está sendo mais fácil do que eu imaginava.

-Eu já te falei que não sou Jonas, me chamo Raul. Nunca te vi antes, por favor, me deixe em paz, por favor.

-Deixar você em paz, você lá sabe o que é isso? Só tem arruinado a vida das pessoas, é egoísta medíocre e só prejudica as pessoas com sua arrogância, sua ruindade. Você é um ser desprezível, não merece perdão de ninguém. Vamos acabar com você, não vamos descansar enquanto isso não acontecer e quero que você pague por tudo que me causou.

-Por favor, me deixe em paz, não sei do que você esta falando, já lhe disse que não te conheço, vá embora, me deixe em paz, por favor.

-Isso, se desespere, grite, agora não tem ninguém que possa te ajudar. Será só nos dois aqui. Vou ajudar a sua amada a conseguir tudo o que ela deseja para pôr em pratica a sua vingança também.

-Deixe a Vera em paz, ela já sofreu muito. Se você a machucar, acabo com você.

-Você não tem condições de me ameaçar, não tenho mais medo de você, Jonas. Eu mando e você obedece. Bem, agora tenho que ir, tem mais pessoas para fazer uma visitinha. Vou te deixar por algum tempo sem me ver, mas pode me esperar, que voltarei.

Raul estava com muito medo, gritava e se batia. Estava apavorado com o que acabou de ouvir e temeu por Vera, precisava se recuperar rápido. Ela corria perigo, teria que ajudá-la de qualquer maneira. A enfermeira que estava de plantão naquela noite ficou assustada com a agitação de Raul e resolveu chamar o doutor Dorival, para que ele o examinasse.

-Doutor, o paciente da U.T. I está muito agitado, já o mediquei e ele continua a se bater, não está bem.

-Como “agitado”?

-Ele parece estar assustado, sei lá, não é normal. Nunca vi isso antes, está soando muito e fica gritando “vá embora”, “me deixe em paz”.

-Ele falou? Isso é ótimo! Que dizer que já saiu do coma, vou imediatamente vê-lo.

Ao chegar ao quarto onde Raul estava, pode observar que estava acordado, assustado e com muito medo.

-Por favor, me ajude, não posso mais ficar aqui, ele me achou.

-Calma, Raul, sou o doutor Dorival, seu médico. Você estava em coma, tem que ficar calmo. Não tem ninguém que quer pegá-lo, tente se acalmar.

-Mas, ele estava aqui, falei com ele. Acabou de ir embora, tenho que sair daqui, preciso ajudar Vera, ela corre perigo.

-Por favor, se acalme, vou aplicar em você um calmante. Assim você se acalmará um pouco mais.

-Não quero dormir, ele vem quando eu estou dormindo.

 

Aplicou o calmante e pouco a pouco Raul foi se acalmando e adormeceu. Com Raul adormecido, o médico pôde examiná-lo com mais calma. Ao ver que estava tudo bem com ele, pediu que a enfermeira o chamasse se ele apresentasse qualquer alteração. Mas, antes de sair, o médico fez uma oração a fim de afastar aquele espírito obsessivo que atormentava Raul. Pediu que a espiritualidade lhe fortalecesse e que o intuísse para que ele tivesse forças para lutar. Saiu do quarto e foi direto para a sua sala, pois queria avisar à Teresa que Raul tinha saído do coma.

-Alô, aqui é o doutor Dorival, poderia falar com a dona Teresa, por favor?

-Claro, vou chamá-la, só um instante, por gentileza.

-Obrigado.

-Dona Teresa, é do hospital, o doutor deseja falar-lhe.

-Aconteceu alguma coisa com Raul?

-Não sei dona Teresa, o médico não me disse nada, só pediu a que chamasse.

Teresa queria andar, mas suas pernas não se mexiam, estava assustada e com medo. Será que aconteceu alguma coisa ruim a Raul, pensava ela, enquanto tentava caminhar até o telefone.

-Dona Teresa, a senhora está bem? Quer um copo com água?

-Obrigada, Rosa, preciso atender ao telefone, seja o que for tenho que ter forças.

-Alô doutor Dorival, por favor, aconteceu alguma coisa com Raul? Fale-me a verdade.

-Calma, Teresa, está tudo bem com ele. Estou te ligando para te avisar que ele acabou de sair do coma, estava um pouco agitado. Tive que aplicar um calmante, mas agora já está calmo e está dormindo.

-Que notícia boa, doutor Dorival! Graças a Deus ele saiu do coma, agora realmente ele está fora de perigo. Será que posso vê-lo, agora doutor?

-Melhor não, ele agora está dormindo. Amanhã você poderá vê-lo.

-Está bom, doutor, até amanhã. Obrigada por me avisar.

-De nada Teresa, até amanhã. Fica com Deus.

-Boa noite, doutor.

 

Ao desligar o telefone, Rosa entrou na sala onde Teresa estava e foi perguntando.

-Como está Raul, dona Teresa? O que aconteceu? Está tudo bem com nosso menino?

-Calma Rosa, ele saiu do coma e já está acordado. O doutor ligou para me avisar amanhã cedo, vou vê-lo.

-Graças a deus dona Teresa, rezei tanto para isso. Até fiz uma promessa à santa de minha devoção, agora tenho que pagá-la.

-Obrigada por se preocupar com Raul, como se fosse seu filho.

-Para mim é como se fosse. Estou aqui desde que ele era bem pequenino e o amo como meus filhos. Quando estiver de folga vou visitá-lo, diga isso a ele por mim dona Teresa.

-Digo sim, Rosa e mais uma vez obrigada por tudo.

-Boa noite, dona Teresa.

 

Teresa ficou ali vendo Rosa se afastar, e ficou imensamente feliz por tê-la para ajudar. Era uma pessoa de sua total confiança e fez um bom trabalho com Raul enquanto ela se preocupava com coisas fúteis. Devia muito mesmo a ela, por tudo o que ela fez a seu filho, o carinho e amor que lhe deu. Foi até o escritório onde Lauro examinava alguns papéis. Entrou correndo feito uma louca na sala.

-Lauro, você não sabe o que aconteceu.

-O que foi Teresa?

-Ligaram do hospital avisando que Raul saiu do coma, estou tão feliz por ele!

-Até que enfim ele não morreu, e vê se agora tente controla-lo para que não faça mais nenhuma besteira.

-Lauro, como pode ser assim? Meu Deus! É seu filho, não se preocupa com ele.

-Ora Teresa, ele só me causa problemas, não imagina o trabalho que tive para não deixar que vazasse e tentativa de suicídio. Você sabe que tenho uma reputação a zelar.

-É só com isso que se preocupa mesmo, com sua carreira. Mais vou rezar a Deus que você possa entender que existe algo mais do que dinheiro e fama.

-Nossa Teresa! Você falando em Deus e orar? Estou estranhando sua atitude, nesse tempo que passou no hospital fizeram uma lavagem cerebral em você.

-Não, apenas percebi que existe mais do que isso aqui, que o amor e o perdão e o nosso próximo são o tesouro maior que juntamos aqui na terra. Vou orar por você também para que possas ter esse entendimento.

-Ora Teresa, não me venha com essas bobagens, por favor, me deixe trabalhar, pois é com meu trabalho que eu sustendo seus luxos e do seu filho também.

-Vou deixá-lo com seus trabalhos, quero dormir cedo, pois quero ir bem cedo ao hospital para ver nosso filho.

 

Teresa saiu da sala, estava mesmo triste com Lauro. Se ela está mudando e tendo uma nova visão das coisas, ele também poderia mudar. Como Dalva falou, tinha que falar tudo isso com ele. Então, fica a sementinha que Dalva sempre fala, e um dia ela germinará e dará bons frutos, pensou ela. Teresa subiu para seu quarto, trocou de roupa e foi se deitar. Mesmo com toda a ansiedade adormeceu rápido.

 

Não era ainda seis horas da manhã, quando Vera se levantou. Estava ansiosa, não conseguia mais permanecer na cama. Tomou um banho, escolheu uma roupa com todo o cuidado e passou uma leve maquiagem. Estava um pouco pálida devido a sua permanência no hospital e quando se olhou no espelho gostou do que viu. Saiu do quarto para preparar o café, pois sabia que Dalva havia chegado tarde do plantão e como ainda era muito cedo, resolveu deixá-la dormir mais um pouco. Ao entrar na cozinha, percebeu que Dalva já estava acordada.

-Bom dia, Dalva. Acordou cedo.

-Bom dia, minha querida, tenho o hábito de levantar cedo, mesmo quando chego em casa tarde do trabalho. Você que acordou cedo demais. Eu fiz muito barulho?

-Não. Quase não consegui dormir, estou tão nervosa que a cama parecia que tinha pregos. Pulei cedo da cama.

-Então podemos tomar nosso café com calma, pois ainda temos muito tempo, antes de sairmos. Estou vendo que você caprichou em sua roupa, está muito bonita.

-Essa é a melhor roupa que tenho e quero causar uma boa impressão no meu primeiro dia de trabalho. Não e muito, mas é tudo que tenho.

-Você é muito bonita Vera. Não se preocupe com a vestimenta, pois ela não faz a pessoa, e sim, a sua conduta, o seu pensamento. De nada adianta vestir roupas caras e andar na moda, senão tivermos um coração generoso e bondoso. Nada disso tem valor. Podemos ter tudo o que a vida nos proporciona, mas não podemos deixar que esses valores sejam os mais importantes em nossas vidas, devemos ter outros conceitos como o amor o perdão e a caridade. Isso sim é de grande valia, pois é só isso que levamos quando retornamos ao plano espiritual. Não levamos roupas e jóias carros e casas. Só levamos nossos atos, àquilo que praticamos durante a nossa permanência aqui na terra.

-Eu sei disso, dona Dalva, é aqui que vivemos, aqui que sofremos, depois tudo se acaba e não tem mais valor. Por isso devemos viver intensamente a nossa vida enquanto pudermos. Ninguém voltou para nos dizer se existe vida após a morte, eu nunca ouvi dizer que sim. Morreu, acabou, vira pó, não acredito que vivemos em outro lugar, isso é uma crendice, uma ilusão, mentira. Não tenho nada contra a senhora acreditar, pois cada um acredita no que quer. Isso é a sua crença, mas eu não posso aceitar isso.

-Vera, não é questão de aceitar e sim, de entendimento, conhecimento. Não podemos ter uma fé cega, temos que procurar entender e estudar. Deve ter uma fé raciocinada, isso sim. É para isso que temos que aprender a analisar, estudar. Para que isso seja possível, temos que ponderar e analisar tudo o que nos falam, tudo o que lemos. Vamos tomar nosso café antes que esfrie, pois ainda tenho que acabar de me arrumar, não quero que você chegue atrasada por minha causa.

-Estou com medo de não conseguir desempenhar a minha função lá no escritório, pois a senhora sabe que quase não tenho estudos e ainda por cima não possuo experiência alguma em escritório. Sempre fui empregada doméstica.

-Vera, minha querida, nós não nascemos sabendo tudo, sempre aprendemos algo novo. Basta que você confie em você mesmo, só você pode superar suas limitações, é normal termos dificuldades no começo. Nada que paciência e dedicação não resolvam, acredite em si mesma e tudo dará certo. Você pode voltar a estudar, tem apenas 19 anos.

-Será mesmo que posso? Eu gostaria muito de voltar a estudar, fiz até o segundo ano do Ensino Médio. Posso voltar e terminar.

-Vera, posso ver isso para você. Se desejar voltar a estudar, quanto mais rápido melhor. O que achas de fazer um cursinho? Assim você já termina. Ao mesmo tempo faz um cursinho pré-vestibular, o que acha?

-Posso fazer isso?

-Claro que sim, mas o que você pretende fazer?

-Bem, eu queria mesmo era ser médica, mas isso é impossível, pois preciso estudar muito e ter dinheiro para pagar e não disponho de nada disso.

-Minha querida, nós temos que correr atrás de nossos sonhos, nada é impossível meu anjo, quando se acredita e luta para isso.

-Dalva, as coisas na sua visão são tão fáceis, que muitas vezes eu queria acreditar que fosse assim.

-Muitas vezes criamos os problemas, por não acreditarmos em nossas capacidades ou por não sermos fortes e persistentes o suficiente. No primeiro obstáculo que aparece desistimos. Bem, agora vamos terminar nosso café porque senão vamos nos atrasar.

 

Tomaram seu café em silêncio, Vera tinha tantas perguntas para fazer a Dalva, mas achou melhor esperar outra ocasião. Como ela tinha as respostas para todas as suas perguntas, quem sabe poderia lhe explicar esses sonhos que tinha.

 

Eugênia acordou com o barulho de telefone, pensou quem poderia estar ligando tão cedo, pois ainda não eram oito horas da manhã. Levantou-se, tomou um banho e desceu. Como hoje era quarta-feira, dia de ir ao médico, resolveu levantar cedo para estudar um pouco mais. Ao descer escutou sua mãe ao telefone, não sabia com quem ela conversava. Por essa razão passou direto, pois não queria interrompê-la. Certamente o café já estava sendo servido, era um hábito tomar café cedo. Entrou na sala e sentou na mesa.

-Bom dia, papai.

-Bom dia, Eugênia. O que aconteceu para acordar tão cedo hoje? Quase não tenho notado a sua presença no café da manhã.

-Acordei com o barulho do telefone e como hoje é quarta-feira, dia de consulta, resolvi levantar mais cedo para estudar um pouco mais.

-E como estão as suas sessões com o doutor Augusto?

-Pai, ainda não sei, porque fiz apenas duas, estamos indo devagar.

-Com essa sua fixação descabida com o fato de ver e falar com os mortos, espero que isso possa te ajudar. Isso não é normal, Eugênia.

-Pai, eu preferia não tocar nesse assunto por enquanto, estou indo ao psiquiatra como você e mãe pediram, vamos ver se é verdade ou não, alucinação minha ou se realmente existe.

-Está bem, então vamos tomar nosso café. Estava esperando sua mãe, mas ela está demorando muito e preciso sair logo, pois tenho uma reunião logo cedo e não posso me atrasar.

-Pai, você tem trabalhando tanto, quase não o vejo em casa. Será que é válido tudo isso? Será que não está dando valor demais às coisas materiais? Precisa ficar mais com a gente, participar da nossa vida, isso sim é mais importante: a sua família.

-Se Lucas se interessasse mais pelas empresas... mas percebo que ele só quer mesmo é boa vida. Meu pai lutou muito para fazer o patrimônio da família e eu não posso deixar que ele se dissipe. Eu tenho que trabalhar feito um louco.

-Pai, o senhor sabe que Lucas não quer assumir o seu lugar nas empresas.

-Como não quer? Meu pai assumiu o lugar do meu avô eu assumi o lugar de meu pai. Isso é uma tradição. Ele sabe que tem que ser assim e além do mais, está na hora de Lucas ter responsabilidades. Vou conversar com ele e colocá-lo na empresa. Terá que trabalhar para pagar suas despesas, só assim ele terá responsabilidades na vida. Não quero cometer o mesmo erro que Lauro cometeu e você sabe no que deu.

-Bem, quanto ao fato de Lucas trabalhar, isso será muito bom para ele. Terá seu próprio dinheiro e aprenderá a dar o devido valor. Se quiser, posso falar com ele para você.

Foram interrompidos, quando Eulália entrou na sala para tomar café. Surpreendeu-se ao ver que Eugênia já estava na mesa tomando café e conversando animadamente com seu pai.

-O que aconteceu para termos a honra de tomar o café com sua presença? Isso é um fato raro nesta casa e mais raro ainda é você conversar mais que duas palavras comigo ou seu pai. Já estou começando a acreditar que a sua ida ao psiquiatra está sendo útil.

-Eu acordei cedo hoje, porque tenho que estudar e ir ao psiquiatra.

-Está certo, tenho boas notícias. Era Teresa ao telefone, ligou para avisar que Raul já saiu do coma e está fora de perigo. Está indo agora para o hospital, mas antes ligou para nos avisar. Claro que eu falei que iria ao hospital fazer uma visita, logo após deixar Eugênia no consultório. Afinal, ela sempre esteve ao meu lado nos piores momentos de minha vida, sempre me dando força. Não posso abandoná-la agora.

-Ela precisa mesmo que você esteja sempre ao seu lado neste momento, já que Lauro não esta lhe dando nenhum apoio nesta hora tão difícil. È uma barra enfrentar o que ela enfrentando sozinha. Bem, agora vocês me dão licença, tenho que ir. Eulália, você poderia pedir ao Lucas que vá hoje à tarde na empresa? Preciso ter um conversa com ele, vou esperá-lo após o almoço. Diga a ele que não se atrase.

-O que aconteceu? Você nunca pediu para Lucas ir à empresa, sempre resolveu os problemas de família aqui em casa...é algo sério, Francisco?

-Não é nada sério, decidi que ele tem que trabalhar para poder ter mais responsabilidades, não quero que aconteça com ele o que aconteceu a Raul, por essa razão resolvi dar a ele um emprego na empresa.

-Mas Francisco, isso não vai prejudicá-lo nos estudos?

-Não, tem muitas pessoas que trabalham e estudam. Aliás, a maioria das pessoas faz isso. Agora tenho que ir.

-Eugênia, Teresa me comentou alguma coisa sobre você ir amanhã à noite à sua casa, explicar como são as suas sessões com o Dr. Augusto.

-Ela me pediu que eu lhe explicasse como eram essas sessões com o Dr. Augusto. Ela disse que precisa levar Raul a um médico, pois ela precisa urgentemente de ajuda. Tentou se matar e está bebendo feito um louco e quer saber se o médico que está indo é de confiança. Disse que poderia ajudá-la e quando precisasse era só me avisar que iria sem problemas.

-Fico feliz que você esteja se interessando por outras coisas. Bem, agora tome seu café.

Eugênia estava aliviada, pois sua mãe acreditou no que disse sem questionar. Foi mais fácil do que ela pensou que seria. Isso era um bom começo, mas teria que ter cuidado, pois sua mãe não é fácil de enganar. Tomou seu café e subiu para seu quarto a fim de terminar seus estudos.

 

Era quase oito horas da manhã, quando Dalva e Vera chegaram à frente do edifício onde ficava o escritório de Renato. Vera desceu do carro e ficou maravilhada com o luxuoso edifício onde iria trabalhar. Estava tão nervosa, que quase não conseguia caminhar. Estava mesmo com medo, pois nunca imaginaria que iria trabalhar em um lugar assim, tão luxuoso. Sentiu um medo terrível e por alguns instantes pensou em desistir, mas Dalva lhe encorajou, entraram no prédio, pegaram o elevador e subiram até a cobertura onde ficava o escritório de Renato. Quando o elevador parou e abriu, Vera pode ver a imensa sala em sua frente, parou um pouco e respirou fundo. Não tinha mais como desistir, queria poder pôr em pratica sua vingança. Não poderia pensar em recuar, entraram e se apresentaram à secretária, que lhe atendeu muito bem.

-Bom dia meu nome é Dalva e essa é Vera.

-Bom dia, essa é a nossa nova funcionária. Seja bem-vinda, Vera, o doutor Renato lhe aguarda. Podem se sentar enquanto eu vou avisar a ele que vocês chegaram.

Renato estava impaciente aguardando a chegada de Vera, não tirava os olhos da porta, por mais que tentasse se controlar era visível seu nervosismo. Não conseguia entender por que ela causa esses sentimentos. Estava perdido em seus pensamentos, à procura de uma resposta para essas perguntas, quando ouviu a voz de Dalva vindo da sala de Lurdes. Neste momento seu coração disparou, pois sabia que Vera havia chegado e no mesmo instante, Lurdes apareceu comunicando que elas lhe aguardavam na recepção.

-Com licença doutor Renato, Dalva e Vera lhe aguardam na recepção.

-Sim, peça a elas que entrem, por favor.

-Sim, senhor.

Quando Lurdes se retirou da sala, Renato estava totalmente agitado, precisou se acalmar para não deixar que elas percebessem seu nervosismo. Respirou fundo, se ajeitou na cadeira e pegou uma pasta para disfarçar seu estado. Escutou a batida em sua porta.

-Com licença doutor Renato Lurdes, disse que podíamos entrar.

-Sim, claro, entrem, por favor, fiquem à vontade.

-Que bom vê-las! Você se recuperou bem do seu acidente, Vera. Fico feliz!

-Obrigada, doutor Renato. Não lhe agradeci direito por tudo que o senhor fez por mim enquanto eu estava no hospital. É muita gentileza sua.

-Não precisa me agradecer. É o mínimo que eu poderia ter feito, já que fui eu quem lhe atropelou, não fiz nada demais. Bem, mas vamos deixar isso de lado. Ontem Dalva me falou ao telefone que você estava ansiosa para começar a trabalhar. Vamos ao que interessa para que possas assumir seu cargo aqui na empresa. Você vai trabalhar diretamente com Lurdes, ela será a sua assistente e explicará melhor a sua função, assim como ensinará o serviço. Em suma, seu horário será de segunda a sexta-feira em horário comercial. Como você esta grávida, terá o tempo que for preciso para ir ao médico e fazer seu pré-natal. Em relação ao seu salário, nos primeiros meses de experiência não será muito, mas depois que passar a experiência, terá um reajuste. Tudo isso, claro, se você concordar.

-Para mim, ótimo.

-Então vou chamar Lurdes para que ela lhe apresente o resto dos funcionários e que você possa começar agora mesmo. Sejas bem-vinda ao nosso escritório e tudo que precisares e só pedir. Dá um instante que vou chamar Lurdes.

-Lurdes, por favor, você pode vir até minha sala?

-Sim, senhor, já estou indo.

-Lurdes, como você sabe, essa é Vera, a nossa mais nova funcionária. Gostaria que você mostrasse tudo a ela.

-Pode deixar, doutor Renato, ela está em boas mãos, vou explicar tudo sim. Vamos Vera, temos muito que fazer.

-Vamos sim. Dalva, falo com você em casa.

-Vou te esperar para me contar como foi seu primeiro dia de trabalho. Boa sorte, minha querida.

-Obrigada, Dalva, até mais.

-Até mais, Vera.

 

Quando Vera se retirou da sala, Dalva estava imensamente orgulhosa dela. Voltou para Renato e lhe disse:

-Quero lhe agradecer por você ter dado essa chance à Vera, é muito importante para ela.

-Ela merece, é uma boa moça. Vai conseguir superar tudo isso, ainda mais com a ajuda da senhora e do doutor Dorival. Ela se sairá bem, se depender de mim, não medirei esforços para isso.

-Eu sei que sim, doutor Renato, sei que o senhor tem um grande carinho por ela, e sei também que se for isso que Deus traçou você e Vera serão muito felizes, pode ter certeza.

-Dalva, não sei te explicar direito, mas só sei que, desde o dia em que vi Vera pela primeira vez, tive essa impressão, de conhecê-la antes. Sei que a amo, mas não sei como isso pode ser possível, sinto que a conheço mais do que a mim mesmo.

-Isso acontece porque você e Vera já se conheciam em outras vidas e por algum motivo resolveram voltar juntos para resgatarem e se evoluírem juntos. Você me parece que irá ajudá-la a evoluir, amparando-a e fortalecendo-a, sua missão é essa, por isso esse desejo de ajudá-la, de estar perto sempre.

-E farei tudo o que for possível para estar com ela e juntos seguirmos nosso caminho agora que encontrei não quero perdê-la.

-Confie em Deus e continue a sua jornada que tudo dará certo. Temos amigos espirituais que nos auxiliam e ajudam. Confie neles! Agora tenho que ir, preciso descansar um pouco. Tenho algumas coisas para fazer.

-Mais uma vez obrigada por tudo que estás fazendo por nós. Serei imensamente agradecido por tudo.

-Até mais, Renato, se precisares de mim para qualquer coisa, sabes onde me encontrar. Fique com Deus.

-Até mais, Dalva.

Retirou-se da sala e foi se despedir de Vera, que estava em sua mesa, envolvida em seu novo trabalho. ficou agradecida a Deus por ela ter tido mais essa oportunidade de aprender com seus erros. Saiu satisfeita do escritório de Renato, pois sabia que a jornada de Vera e Renato começava. Pegou um táxi e foi direto para a sua casa, pois estava muito cansada, não havia dormido direito. Chegou à frente de casa, pagou o táxi e foi direto se deitar. Logo adormeceu, pois estava mesmo muito cansada. Acordou com o telefone tocando e levou um susto ao ver que já eram quase duas horas da tarde, levantou e foi atender ao telefone.

Eugênia já aguardava na sala de espera para iniciar a sua seção. Não gostava daquilo, mas era assim que seus pais queriam... Não confiava em médico, pois eles eram bem céticos em relação a tudo que não fosse provado pela ciência. Hoje deixaria bem claro que não estava ali por livre e espontânea vontade, que não era louca e que realmente acreditava em tudo que via. Seus pensamentos foram interrompidos, quando o doutor lhe chamou para que entrasse.

-Entre Eugênia e sente-se onde se sentir melhor.

-Obrigada doutor.

-Como você se sente?

-Na verdade, doutor, quero lhe dizer uma coisa antes de tudo. Acho tudo isso uma besteira, não concordo com essas sessões e acho que o senhor não poderá me ajudar em nada. Meus pais insistem nisso e venho para que eles me deixarem em paz. Aceitei, mas não quero que o senhor perca seu tempo comigo.

-Para eu poder te ajudar seja lá no que for, preciso saber qual é o motivo que lhe trouxe aqui. Isso é você que vai decidir, só estou aqui para lhe ouvir nada mais. Então, o que achas?

-Minha mãe já deve ter contado o motivo que me obrigou a fazer análise.

-Bem, ela não me falou que você apresentava um comportamento anormal. Que você me fale por que sua mãe acha que você tem se comportado dessa forma.

-Não sei se deveria lhe dizer essas coisas, pois o senhor é um psiquiatra, tem uma visão igual dos meus pais.

-Por que não tenta? Não poderá saber se não tentar, não é mesmo?

-Não sei nem por onde começar.

-Podemos começar pelo começo ou por onde você se sentir melhor em falar.

-Bem, as pessoas me vêem como anormal, pelo fato de eu poder ver os mortos, falar com eles. Isso acontece desde que eu sou pequena, não tenho como controlar, muitas vezes eu tenho medo e me assusto mais. Eles insistem que eu fale o que eles querem e não posso conter isso. Esse fato fez eu me isolar de todos, não tinha amigos na escola por que eu era vista como uma louca. Não era convidada para a festa, todos tem medo de mim, me ridicularizam. Eu vivi a vida inteira achando que era mesmo louca, que era anormal porque só eu via o que mais ninguém podia ver. Com o passar do tempo eu resolvi pesquisar e ver se isso realmente era verdade ou insanidade minha. Pesquisei, li livros, o que encontrei era tudo muito vago, sem maiores esclarecimentos. Existe algo dentro de mim que me faz acreditar que isso é verdade e que em algum lugar eu encontrarei as respostas para todas as minhas perguntas. Sei que sim, mas percebo que quanto mais eu insisto, mais as pessoas me vêem como uma louca. Sei que o senhor deve estar pensando o mesmo que eles, não o culpo por ser médico. Eu sei que tudo isso realmente existe e até já encontrei um lugar onde posso obter todas as respostas e ajuda, mas preciso mesmo é saber o porquê disso tudo, qual a finalidade dessas visões, em que elas são úteis e onde aplicá-las. É só isso que eu preciso.

-Eugênia, existem pessoas que são incrédulas por desconhecerem ou até mesmo por ignorância sobre o assunto. Acreditam ser uma coisa anormal, fora da realidade que eles estão inseridos. O fato de existir pessoas que podem ver aquilo que muitas pessoas não podem, não quer dizer que não exista. Eles foram educados dessa forma, com esses conceitos, por isso não acreditam. Mas, já é possível explicar muitas desses fatos, que para muitos é visto como algo sobrenatural, inexistente e impossível de aceitar e explicar. Na ciência já se tem algumas explicações plausíveis para esses fatos, ditos como fenômenos sobrenaturais. Eles podem ser compreendidos pelo espiritismo, que não deixa de ser uma ciência, porque estuda a razão. Para ciência não existe nada sobrenatural, por mais estranho que pareça. Sempre haverá uma explicação científica para esses acontecimentos, e sendo eles explicados, são de ordem natural. É também uma filosofia, porque nos é uma forma de entender a vida, respondendo muitas de nossas perguntas e nos fornecendo uma visão própria do mundo. E visto que podemos ter uma concepção dos fatos, não deixa de ser uma filosofia. É uma religião, porque tem por finalidade a reforma do ser humano e sua evolução moral, encimando o verdadeiro amor e a manifestação da caridade com o nosso próximo. Também explica a imortalidade da alma, que só o corpo físico morre, mas a inteligência permanece viva no plano espiritual. Ela também nos dá um outro paradigma, que é a reencarnação, que somos nós, os responsáveis pelo nosso próprio destino. Isso se dá através do livre-arbítrio, tendo nós a capacidade de escolher entre o bem e o mal. Dessa forma, temos a chance de nos modificar, evoluirmos e nos tornarmos seres humanos melhores. Isso se dá com o aprendizado, e só podemos alcançá-lo encarnando no mundo, quantas vezes forem necessárias para nosso aprendizado e perfeição moral. Só adquirimos isso por inúmeras existências. E dessa forma, nos aproximamos cada vez mais de Deus. E todas as vezes que retornamos a terra não lembramos das nossas existências anteriores. Temos então, a sabedoria de Deus. Se pudéssemos lembrar do mal que causamos ou dos sofrimentos que passamos dos inimigos não teríamos condições de viver, pois na maioria das vezes nossos inimigos do passado são, hoje, nossos pais, filhos, irmãos, amigos, que estão juntos de nós para que possamos nos reconciliar, para podermos corrigir erros do passado que cometemos. A reencarnação é maneira que temos de reparar nossos erros, que causamos a alguém e também a forma que temos de evoluir. Ela mostra o porquê de tantas desigualdades, e com isso aprendemos que Deus não castiga ninguém, que somos nós, os causadores de nossos sofrimentos. Ela também nos esclarece sobre a nosso fé. Precisamos ter uma fé raciocinada, compreender o que falamos, aceitarmos tudo aquilo que nós dizemos e analisar bem. Não devemos crer em tudo que falamos, sem primeiro estudar, analisar e compreender. Não sei se pude te esclarecer alguma dúvida que você tenha, mas o que quis lhe dizer é que existem espíritos assim como existem pessoas que podem se comunicar com eles. Mesmo sendo médico, que estudei a ciência e nela acredito, também acredito que existe um lado espiritual e pessoas que podem se comunicar com espíritos. Claro que sendo médico, tenho que separar as duas coisas e estudar bem o caso. Sendo conhecedor de ambos os lados, tenho que ter muito cuidado em diferenciá-los. Por essa razão estou expondo a você que existem pessoas dotadas de mediunidade que podem se comunicar com pessoas que já partiram. Assim como existem pessoas que são esquizofrênicas e vivem em um mundo imaginário ou mesmo acreditam que vêem e falam com pessoas que não existem. mas isso se acontece devido a problemas de fundo psicológico e genético do indivíduo. Veja bem, não estou dizendo que você é uma médium ou mesmo uma pessoa com problemas psicológicos. Só estou lhe dando as devidas explicações das duas hipóteses. Devemos ter o cuidado de identificá-las, mas meu intuito foi deixar bem claro a você as duas versões. Por esse modo, temos que ter muito cuidado ao analisá-las para que uma não se confunda com a outra. No seu caso é muito prematuro dar algum parecer.

-Mas como diferenciar uma da outra?

-Para tal distinção é fundamental estudar o caso.

-Como lhe expliquei na primeira sessão, a esquizofrenia é uma doença da personalidade, afeta a zona central do eu, alterando a sua estrutura e causando vários fatores que fazem com que esse indivíduo seja estereotipado pelos outros como louco. Isso se dá pelo fato de desprezar a realidade e menosprezar a razão, causando lhe vários sintomas: alucinações, delírios, distúrbios, entre muitos outros sintomas, que, se eu for lhe explicar na íntegra, ficarei aqui o dia todo. Esses são os mais comuns da esquizofrenia.

- Mas por que tanta ênfase sobre a esquizofrenia? Por ela possuir os mesmos sintomas que tenho?

-Você se acha uma pessoa que desconhece a sua realidade, vive fora de sua razão?

-O que é realidade, o que é real? A realidade para uns não é a realidade de outros.

-No meu ponto de vista, a realidade é uma variante, pois existem várias maneiras de interpretação do que realmente existe.

-Então, qual a forma mais correta de lidar com tudo isso?

-Conhecer a si mesmo, se compreender, entender certos padrões do mundo.

-Há momentos em minha vida que eu não sei mais o que é normal, pois eu não me enquadro dentro dos parâmetros do normal. Sou uma jovem totalmente diferente dos outros jovens, tenho pensamentos e conceitos que não condizem com um jovem da minha idade, e não entendo por que essa diferença. Essas diferenças me isolaram, distanciaram das pessoas por não gostar das mesmas coisas, por pensar e agir de outra maneira que eles. O fato de ser diferente, afasta as pessoas, nos isola do mundo.

-A finalidade da diferença é exatamente essa, definir e distinguir um ser do outro, você não concorda?

-Em partes.

-Que você não concorda?

-Quando ela distancia um ser do outro, quando identifica atitudes como fora dos padrões da normalidade, quando padroniza que ter uma visão ou opinião fora do que conduz ser normal.

-Veja bem, no mundo existem várias culturas e crenças. Se formos inseridos em uma cultura diferente a que estamos acostumados ela nos será vista como diferente. Isso se dá porque não estamos acostumados, não fomos criados dentro dessa forma de agir e pensar, não temos conhecimentos dessa cultura. Mas, não quer dizer que seja errada ou anormal. E só deixa de ser diferente quando convivermos, apreendermos mais sobre o assunto. Sei perfeitamente como você se sente com relação a isso. Os seus medos e ansiedades são normais. Isso acontece pelo fato de estar vivendo experiências e sentimentos novos, totalmente desconhecidos por nós e pelas pessoas que nos cercam. E esses fatos novos e desconhecidos que não compreendemos, não sabemos como lidar e agir, gera dentro de nós um enorme conflito, medo.

-É exatamente como me sinto, desorientada, perdida, sem saber de nada.

-Para que haja uma cura temos que saber a causa. Quando estamos doentes, vamos ao médico, lhe informamos o que estamos sentindo. Para saber exatamente o que está causando essa enfermidade, o médico tem que fazer exames para poder dar um diagnóstico preciso, então poderá saber qual medicação usar para combater a enfermidade. Assim é com a mente, hoje começamos com os exames para descobrir o que realmente sentimos e nos perturba, o primeiro passo para reconhecer o que nos afeta, angustia e perturba.

-Não vou lhe dizer que me sinto melhor com tudo que conversamos e foi explicado, mas estou aliviada por falar o que senti, o que me incomoda e quais são as minhas dúvidas e medos.

-É exatamente essa a função de um psiquiatra: ouvir, ajudar a identificar o problema, ajudar a resolver seus problemas. Isso só e possível se vocês fizerem assim, aceitarem seus medos e dúvidas e realmente quererem se ajudar, porque não podemos fazer nada se não quiserem a cura.

-Mas como isso é possível?

-Explico na próxima consulta, por hoje chega.

-Então até quarta-feira.

-Até quarta-feira Eugênia.

Ao sair da sala Eugênia se sentia melhor. Ainda tinha as mesmas dúvidas, mas se sentia mais confiante com tudo que estava sentindo e vivendo. Até mesmo já estava tendo uma nova opinião sobre os psiquiatras. Descobriu muitas coisas, e poderia afirmar que tinha certa afinidade com ele, isso tornaria as coisas mais fáceis para os dois. Sentou-se para esperar sua mãe que foi visitar Raul no hospital, quando a secretária lhe informou que sua mãe ligou pedindo que tomasse um táxi e fosse até ao hospital.

-Posso pedir um, se você quiser.

-Sim, obrigada.

Enquanto aguardava o táxi, seus pensamentos permaneciam no que foi dito, o que pôde descobrir sobre o fato de ver e falar com os mortos. Isso a tranqüilizou. Tomou o táxi e segui até o hospital, onde sua mãe lhe aguardava. Ao chegar desceu do táxi e foi direto no quarto onde Raul estava. Estava louca de vontade de compartilhar com Teresa tudo que descobriu hoje, mas tinha que esperar até estarem sozinhas. Ao chegar ao quarto avistou sua mãe e Teresa conversando animadamente. Cumprimentou Teresa, que lhe deu um forte abraço.

-Que bom que você veio.

-Mamãe me contou que Raul saiu do coma e já esta fora de perigo.

-Sim, graças a Deus. Eu até conversei com ele, mas o médico pediu que não forçássemos muito, por isso resolvi deixá-lo descansar um pouco.

-É melhor assim, pois ele ainda está muito fraco. Temos que evitar cansá-lo.

-Como foi sua consulta?

-Bem, o mesmo de sempre, ainda é cedo para dizer alguma coisa. Para falar a verdade, estou gostando muito.

-Você pode ir até minha casa amanhã para me informar, preciso levar Raul e quero primeiro ter mais informações.

- sim pode contar como no que for preciso.

-Você é muito gentil. Obrigada. Poderia ser às sete e meia da noite?

-Sim, pode ser sem problemas.

-Então combinado, vou esperá-la. Mais uma vez obrigada por tudo.

-Não precisa me agradecer, dona Teresa.

-Teresa, agora temos que ir.

-Obrigada, amiga, por toda a força que estás me dando.

-Amigos são para isso, Teresa, ligo para você mais tarde.

-Até mais amiga.

-Até mais Eulália, te espero amanhã lá em casa Eugênia.

-Então, até amanhã, minha querida.

-Até amanhã, dona Teresa.

 

Quando Teresa retornou ao quarto de Raul ele estava acordado, ela se aproximou da cama e o beijou.

-Oi filho, que bom que acordou. Eugênia e Eulália acabaram da sair, vieram te visitar, mas estavas dormindo.

-Vieram ver o coitado?

-Não fale assim, meu filho, vieram porque gostam de você e se preocupam.

-Mãe, será que existe alguém que se preocupa comigo?

-Eu me preocupo com você, meu filho. Você é a melhor coisa que tenho neste mundo e eu te amo muito.

-Desde quando?

-Filho, ouça: sei que agi errado com você, sei que cometi vários erros, mas mesmo errando, eu te amo. Quando quase o perdi, vi o quanto você é importante, o quando errei com você e se pudesse voltar atrás eu faria tudo diferente. O que me resta é tentar consertar os erros que cometi com você.

-Mãe, não estou te reconhecendo, não precisa ficar com pena de mim, não precisa toda essa encenação, estamos somente nós dois aqui.

-Filho, aprendi muito com a sua atitude. Pode ver os erros que cometi, onde falhei, eu mudei. Sei que é difícil você entender, sei que é algo estranho a minha atitude e entendo o seu comportamento, mas aprendi e quero mudar, quero reconquistá-lo, ser sua mãe de verdade e para que isso estou aqui, diante de você, lhe pedindo que me perdoe e me dê mais uma oportunidade para que eu possa mostrar que mudei. Isso não irá apagar tudo o que lhe fiz, todo o mal que lhe causei, mas estou aqui agora para ser sua mãe, coisa que nunca fui.

-Mãe eu não sei mais de nada, estou perdido, vazio, sem rumo, mas eu te amo muito. Apesar de tudo, dos erros que cometemos, eu sempre te amei e admirei. Podemos começar de novo e consertar todos os nossos erros, reparar todo o mal que causamos.

-Filho, aprendi tantas coisas neste tempo que você estava em coma... Aprendi que existem coisas mais importantes na vida que o dinheiro e bens materiais. Aprendi a dar valor ao ser humano e a outras coisas que são mais importantes aos olhos de Deus. Só preciso que você me deixe explicar e te mostrar que sou uma nova pessoa, que tenho outros objetivos e valores. Por favor, me dê essa chance, me deixe compartilhar com você tudo isso que aprendi, consertar tudo o que cometi de errado com você.

-Mãe, existe conserto para tudo isso?

-Filho, eu não sei. Mas, o pouco que aprendi quando você estava em coma é que tudo tem uma explicação e um porquê, tudo pode ser modificado, corrigido. Eu não sei de muitas respostas, mas sei onde encontrá-las e vou à busca disso.

-Mãe, te amo, perdôo. Mas não acredito em nada disso que me falou, não acredito em mais nada, sou um ser vazio.

-Não diga isso meu filho, tudo pode ser mudado, basta que nós desejemos a mudança.

-Desejar mudar isso é lindo no papel, mas na realidade não é concreto, não se faz assim do dia para a noite.

-Filho, uma coisa de cada vez, espere e confie que acontecerá, estarei sempre a teu lado de agora em diante.

-Não tenho todas as respostas para as suas dúvidas, para as suas dores, mas juntos buscaremos. Estarei sempre a te auxiliar.

-Mãe, será que existe ainda uma razão para viver? Se perdi tudo o que mais tinha de importante se desprezei a mulher que me amou e abandonei ela e o filho que ela carregava no ventre?

-Não sei responder essas perguntas, mas sei te dizer que podemos reparar o mal que causamos e podemos consertar nossos erros. Você também poderá. Para que isso aconteça terá que se modificar, evoluir e aprender a perdoar a todos aqueles que me causaram mal.

-Mãe, não estou entendo o que estás falando. Eu preciso de perdão por tudo que fiz a Vera.

-Filho, tudo tem seu tempo.

-Mãe, na realidade eu não quero mais viver, não quero saber de mais nada. Já cansei de tudo, não acredito em nada, não tenho paz. Se durmo, sofro com a perseguição de um homem que me chama de Jonas, se estou acordado, sofro também.

-Tudo isso vai passar, filho, estou no caminho certo, basta que tenhas fé em Deus e deixe eu te ajudar.

-Deus, o que é isso?

-Sei que lhe é estranho tudo o que lhe digo, mas peço que confies em mim.

-Mãe, o que me pedes é algo além de minhas forças.

-Não falaremos mais nisso, descanse filho. Apenas pense e pondere no que foi dito aqui, o resto será feito conforme nossos méritos.

-É disso que eu preciso, descansar.

-Então faça e confie em Deus, que tudo dará certo.

-Mãe, eu quero que saibas que eu te amo muito, que mesmo tendo errado comigo, não tenho raiva de você, porque como se diz para o filho: mãe é seu Deus, a única coisa que me prende aqui é você.

-Filho, eu te prometo que tudo dará certo, não desista da vida, não desista de nada, precisamos aprender com os nossos erros e os sofrimentos. Estou aqui para te ajudar, amparar. Nunca mais se sentirás sozinho.

-Obrigado por tudo e lembre-se, mesmo estando errada, eu te amo.

-Eu também te amo meu filho, e agradeço a Deus por ter me dado um filho tão especial como você. Bem, agora procure descansar, não pode se esforçar muito e quando você estiver bem, vamos ajudá-lo com tudo.

-Mãe, não existe mais solução para todos os meus problemas, não há mais esperança para mim, só quero morrer para ter paz.

-Não fale assim meu filho, descanse, depois falamos sobre isso. Quero que saiba: para tudo o que passamos existe solução e juntos vamos encontrar.

 

Desejou mesmo que sua mãe estivesse certa, pois o que mais desejava era que Vera lhe perdoasse, que lhe desse mais uma chance de ele poder consertar os erros que cometeu. Mas isso era impossível, algo que não aconteceria. Não tinha sequer um momento de paz, vivia atormentado dia e noite. Acabou adormecendo pensando em Vera. Ao se retirar do quarto, Teresa estava com o coração apertado por ver que seu filho sofrendo. Teria que ter muita paciência e muita dedicação e sempre ficaria ao seu lado para ajudá-lo e auxiliá-lo neste momento de grande dificuldade. Mas ao mesmo tempo estava agradecida, pois agora não estava mais sozinha, poderia contar com Dalva e Dorival, pois eles tinham um grande conhecimento espiritual. E isso era uma grande ajuda, pois dava muitas explicações. Assim que Raul estivesse recuperado, procuraria um psiquiatra para auxiliá-lo na luta contra o alcoolismo.

 

Vera conversava animadamente com Lurdes. Havia se identificado muito com ela, apesar do pouco tempo que a conhecia. Era como se a conhecesse há muitos anos. Estava inteiramente à vontade, escutava atentamente o que Lurdes lhe explicava e procurava ter a máxima atenção para executar as tarefas que lhe era passado. Estava gostando do que estava fazendo, tudo era muito novo e cheio de novidades. Ficou tão envolvida em seu trabalho que nem percebeu o tempo passar, quando olhou ao relógio se deu conta que era quase seis horas da tarde. Quando entregou o documento que havia sido solicitado por Lurdes comentou:

-Nossa já e quase seis horas, fiquei tão envolvida com o trabalho que nem percebi o tempo passar.

-É que você estava tão concentrada no trabalho que nem viu o tempo passar. Você é muito inteligente, pega tudo muito rápido. Só precisei lhe explicar uma vez, e também é muito dedicada no que faz.

-Você é muito gentil, obrigada.

-Estou feliz por tê-la como ajudante, percebi que você é uma pessoa boa, gostei de você no primeiro momento que a vi. Espero que sejamos amigas, pois sinto falta de uma irmã, já que sou filha única.

-Pode lhe parecer estranho o que vou lhe dizer, mas eu tenho a impressão que já te conheço de algum lugar. -Quem sabe já nos conhecemos antes, e agora nos reencontramos... por isso essa sensação que sentimos de já termos nos conhecido antes. Agora chega de conversa, tenho que ir embora senão me atraso, pois tenho que pegar meu filho na escola e ele fica apreensivo se me atraso.

-Só me deixa organizar a mesa, deixar tudo em ordem para amanhã, senão ficarei perdida neste monte de papel.

-Você irá se acostumar com essa papelada, é uma questão de costume.

-Nossa! Realmente você precisava de uma assistente, pois vejo que mesmo me passando um monte de serviço, ainda está sobrecarregada.

-Realmente você me veio em boa hora, já estava quase ficando maluca. É muita coisa para se fazer, muita responsabilidade, pois doutor Renato tem uma excelente reputação e credibilidade.

-Doutor Renato é um homem de bom coração, generoso, não sei como agradecer por tudo o que tem feito por mim.

-É sim, um homem íntegro, de grande generosidade e bondade, herdou isso de seu pai.

-Sinto que você tem uma grande admiração por ele.

-Sim, além de ser meu chefe, ele é um grande amigo. Eu o tenho como um irmão, pois quando casei com Gustavo ele nos ajudou muito, pagou a faculdade de Gustavo. E quando se formou, também ajudou com o emprego que ele está até hoje. Quando nosso filho nasceu, pedimos que ele fosse o padrinho. Pedro o adora, vive falando nele e diz “quando eu crescer quero ser igual ao tio Renato”.

-Não tinha noção de quanto ele era bom, achei que ele sentia culpa por me atropelar, mas agora estou vendo que me enganei profundamente. Por falar nisso, ele não veio hoje à tarde ao escritório.

-Á tarde geralmente ele tem audiência e raramente aparece por aqui.

Despediram-se e cada um seguiu uma direção diferente. Vera resolveu pegar um táxi para chegar mais rápido, pois estava louca para contar a Dalva como foi seu dia de trabalho. Ao entrar em casa foi logo gritando por Dalva estava tão eufórica que não queria esperar mais nem um minuto para lhe contar tudo o que aconteceu em seu primeiro dia de trabalho.

-Dalva, cheguei, onde você está?

-Estou aqui na cozinha, preparando o nosso jantar. Você deve estar com fome, não vai demorar muito para estar pronto.

-Não estou com muita fome.

-Me conte como foi seu dia lá no escritório.

-Vim o mais rápido possível para lhe contar tudo o que aconteceu.

-Então, enquanto eu termino o jantar você vai me falando.

Começou a contar tudo o que ocorreu, o que tinha aprendido e as coisas que fez. Relatou tudo o que havia ocorrido em seu primeiro dia de trabalho, o quanto Lurdes é boa. Conforme falava era visível a felicidade em seus olhos, havia nascido uma esperança, uma nova descoberta, um novo caminho. Dalva gostou do que viu, se sentiu agradecida. Durante o jantar Vera falava com empolgação sobre o que tinha acontecido, elas conversavam animadamente. Ao terminaram o jantar lavaram a louça e conversaram mais um pouco, mas como ambas estavam cansadas, foram logo se deitar, se despediram e foram para seus quartos. Pela primeira vez depois de tudo que passou, ela pôde se sentir feliz. Novamente adormeceu rápido, pois estava muito cansada.

 

Eugênia esperava por Lucas em seu quarto para contar como foi sua consulta, o que descobriu e o que aprendeu. Enquanto esperava por seu irmão, pegou um livro para ler, mas não conseguia se prender na leitura. Seus pensamentos estavam na conversa que teve com o médico sobre o fato de poder falar com os mortos, na existência real. O que mais lhe intrigava nesta história era que sempre que conversavam com alguém sobre o assunto, tinha uma reação negativa das pessoas, certa repulsa. Mas com ele não, isso era o mais intrigante, pois ele era um médico, psicanalista, uma pessoa totalmente descrente nestes assuntos sobrenaturais. O mais incrível é que ainda lhe deu uma explicação plausível para tal, era estranho da parte dele, mas isso lhe tranqüilizou. Não sabia direito qual era a intenção dele, teria que esperar e analisar os fatos. Ouviu o barulho do carro de Lucas e correu até a janela para se certificar que fosse ele, esperou que ele entrasse e correu até seu quarto.

-Lucas, posso entrar?

-Eugênia, você ainda está acordada? Já é tarde. Por que ainda não foi deitar?

-Queria lhe contar como foi a consulta de hoje.

-Não poderia esperar até amanhã?

-O que aconteceu para você estar chorando?

-Nada, por favor, poderíamos conversar amanhã? Hoje estou cansado.

-Por favor, me fale por que você esta chorando, o que houve?

-Fui procurar Lúcia para lhe dizer o quanto eu a amo e pedir que me esperasse, mas ela não me ouviu e disse que fosse embora, que não queira mais nada comigo e a deixasse em paz, pois nunca me amou e estava mesmo interessada no meu dinheiro. E que já tinha outra pessoa que era mais rica do que eu... você pode imaginar o que estou sentindo? A dor que me consome por ouvir tudo o que ela me falou, por dar razão à mamãe?

-Lucas, você acredita mesmo nisso?

-Eugênia, ela me disse. Não foi outra pessoa, ouvi isso dela mesmo.

-Lucas, deixe de ser infantil, não vê que ela está magoada e com medo? Agiu assim para fazer com que se afastasse dela, pois tem medo que você lhe dê esperanças de novo e depois a deixe como sempre fez. Quando mamãe lhe aperta e lhe diz que vai cortar a sua mesada.

-Eugênia, como eu queria que isso fosse verdade mesmo, pois não suporto a idéia de perdê-la para sempre. Estou sofrendo muito, sinto a falta dela, não quero acreditar que ela seja assim... Lúcia é tão doce, meiga, carinhosa, uma pessoa voltada aos valores sentimentais, aos direitos, não pode mesmo ser uma interesseira, não poderia ter me enganado tanto com ela.

-Você não se enganou, ela está apenas magoada com você. É a melhor forma de afastá-lo e fazer com que você acredite que ela só queria seu dinheiro, pois sabe exatamente como você é influenciável.

-Eugênia, agora que me acalmei, acho que você tem razão mesmo, ela me ama, eu sinto. Só está magoada comigo e com toda a razão.

-Lucas, você conversou com mamãe hoje?

-Não, estou chegando agora em casa.

-Então não foste conversar com papai lá na empresa?

-Não sei do que você está falando.

-Hoje conversei com papai no café da manhã e ele me falou que quer conversar com você.

-Comigo? Sobre o quê? O que fiz dessa vez?

-Nada, se acalme e me ouça com atenção. Essa é a oportunidade que você tem que voltar com Lucia e se casar com ela.

-Do que você está falando? Que oportunidade, fale logo, por favor.

-Papai me disse que vai te dar um emprego na empresa para que você possa ganhar seu próprio dinheiro, entende o que isso quer dizer? Que terá seu próprio dinheiro e não dependerá mais dele, assim poderá casar com Lúcia e ser feliz.

-Isso é verdade Eugênia. Não posso acreditar no que está me dizendo. Amanhã mesmo vou acordar cedo e conversar com ele, se for possível começarei a trabalhar amanhã. Não acredito no que estou ouvindo, meu Deus isso é muito bom! Obrigado mana, eu te amo muito! Estava tão triste, arrasado, mas você me ajudou e me mostrou as coisas que eu não conseguia ver. E me desculpe por eu ter sido insensível com você, sou mesmo um egoísta, só penso em meus problemas.

-Não diga isso, você é um ótimo irmão. Está sofrendo muito com a sua situação, isso é normal. Bem, agora trate de dormir para que possas levantar cedo amanhã para ter tempo de conversar com papai antes dele sair.

-Mas você queria me dizer algo.

-Amanhã eu te falo. Não era nada importante, pode deixar para manhã.

-Tem certeza?

-Sim, tenho. Boa noite, Lucas.

-Eugênia, obrigada por tudo mesmo, eu te amo, você é a melhor pessoa que existe na face da terra.

-Deixe de tolice e vá dormir, amanhã nos falamos, boa noite.

-Boa noite, mana, durma bem.

Eugênia beijou seu irmão e voltou para seu quarto, estava feliz por ver que Lucas tinha a chance de ser feliz ao lado de Lúcia. Tudo estava dando certo para que isso se realizasse e se sentiu bem por poder ajudá-lo, mesmo que não tenha tido a oportunidade de contar o que queria. Entrou em seu quarto e foi se deitar, pois estava cansada com os acontecimentos do dia e amanhã seria mais um dia agitado, pois era o dia de ir à sessão com Teresa. Pegou no sono rápido.

Os irmãos da espiritualidade estavam todos confiantes com o progresso que estava ocorrendo, com as mudanças que surgiriam, agradeceram a Deus por poderem participar de uma missão tão instrutiva e benevolente como essa. Ver o quanto as pessoas podem mudar seus pensamentos e atos e repararem o mal que fizeram aos outros, o quanto se pode aprender com os erros. Era o começo de uma nova fase na vida de todos para o esclarecimento e evolução moral de cada um. Depois de visitar todos e proferir uma prece, regressaram ao plano espiritual.

Raul estava dormindo quando seu inimigo entrou em seu quarto. Mesmo não podendo ver, sentia a sua presença, estava com medo, assustada, seu corpo tremia e suava.

-Olá Jonas. Seja bem vindo ao meu mundo. Esperei você hoje com muita ansiedade. Vejo que está com medo, és mesmo um covarde, fraco. Onde está todo seu poder? Agora você sabe que não pode me enfrentar, pois estamos em condições diferentes, não tem como me prejudicar agora, não tem controle sobre mim. Posso fazer tudo o que quiser com você, está sobre meu controle agora. Isso te faz sentir medo. Estás sozinho e aterrorizado, agora é minha vez de destruí-lo, aniquilá-la de uma vez por todas, sei como fazer porque sei quais são os seus pontos fracos, seus vícios. É exatamente por eles que começarei.

-Não sei do que você está falando, por favor, me deixe em paz, já estou sofrendo muito com tudo que fiz e não sei mesmo quem é esse Jonas. Vá embora, me deixe.

-Sabe sim, não adianta mentir para mim, pois eu sei tudo. Até seus pensamentos mais íntimos, mais escondidos, posso ver tudo.

-Se podes mesmo ver tudo, sabes do que eu estou falando, meu nome é Raul. Sei que errei muito, que cometi muitos erros, mas não com você.

-Deixe de ser cínico, Jonas, não adianta dizer que não se lembra, isso não atenua em nada o que me fez. Sabes muito bem que ainda continua fazendo as mesmas coisas, você é uma pessoa arrogante, mesquinha, prepotente, egoísta. Usa as pessoas e depois as joga fora feito um lixo, destrói tudo o que tem de bom, engana, iludi. Você pode ter a aparência que quiser, mas sempre levará a sua índole, pois seu espírito é podre e assim permanecerá. Você pode enganar a eles, mas a mim não. Pode pedir quantas vezes for possível para voltar e tentar se modificar, mas não conseguirá porque não desejas, não consegues se livrar dessa sua índole maléfica, ruim. Cada vez que retornas a terra, mais dores e sofrimentos você causa, gerando mais e mais inimigos, ajudando assim, a mim.

-Por favor, me deixe em paz eu lhe suplico, por favor, vá embora.

Neste instante uma equipe espiritual veio ao socorro de Raul, intuindo para que ele tivesse forças e orasse, para que perdoasse aquele irmão e se perdoasse também por tudo o que tinha feito. Assim também diziam a esse irmão que perdoasse a si e seu inimigo. Que deixasse que ele cumprisse sua missão, estava tentando se modificar, evoluir e assim também teria que proceder.

-Não me interessa nada disso, não quero nada de vocês, não interfiro no trabalho de vocês ...por que insistem em se meter no meu? Já estou ficando cheio disso, como sabem, cada um faz o que quer, cada um escolhe o caminho que quiser.

-Mas você sofre também fazendo mal aos outros.

-Eu sofro? Vocês não sabem o que estou dizendo, não sofro em nada. É muito gratificante fazer com que paguem tudo àquilo que me devem, é muito bom ver o sofrimento, o desespero e revolta deles, não vejo o porquê de eu sofrer.

-Tente se perdoar e a Jonas, então você entenderá o que dizemos e se sentirá melhor.

-Já chega! Estou cansado disso, não quero perdoar ninguém, principalmente a ele. Não gosto que se intrometam no meu serviço, ele é meu, entenderam? É meu, não vou deixar que se metam, não vou permitir que se intrometam. Entenderam? Não vou. Por hora, vou deixá-lo, mas voltarei outras vezes e a cada vez, estarei mais forte, mais decidido.

-Você sempre será bem-vindo, esperamos que leve com você essa semente do bem e do amor que lhes falamos. Leve consigo e um dia ela germinará dentro de você, pois todos nós somos portadores do bem, mesmo que ainda não saibamos disso. Permaneceram com Raul por mais algum tempo, lhe transmitindo energias e palavras de conforto e força. Quando ele já estava mais tranqüilo, antes de voltarem ao plano espiritual, visitaram Renato, que se encontrava dormindo profundamente. Quando as pessoas encarnadas dormem, seus espíritos se desprendem do corpo e se tornam mais fáceis à comunicação entre encarnados e desencarnados. Depois de cumprirem o que tinha vindo fazer, retornaram ao plano espiritual deixando que seguisse o percurso que cada um tinha a cumprir.

 

Renato se levantou ainda não eram sete horas da manhã, pois queira estar antes das oito horas no escritório, tinha muitas coisas para resolver. Queira resolver antes que Vera chegasse para poder ter um tempo a mais com ela. Tomou seu banho, trocou de roupa, desceu, tomou café e foi direto ao escritório. Entrou em sua sala, pegou as pastas que tinham que ser examinadas e fez as alterações que deviam. Revisou mais uma vez, antes de mandar ao fórum. Queria ter certeza de estar tudo certo, pois ultimamente estava tento dificuldades de concentração e seu trabalho não poderia ter falhas, poderia acarretar na condenação dos seus clientes. Vendo que estava tudo correto, fechou as pastas e deixou em cima da mesa. Assim que Lurdes chegasse pediria que encaminhasse ao fórum para serem juntadas ao processo. Aproveitou também para estudar mais um pouco os casos, que teria que defender hoje. Através da porta, o som doce e tênue da voz de Vera. Seu coração acelerou, parecia que iria sair pela boca, seu corpo todo tremia, sua voz estava trêmula. Uma sensação de calor subiu até seu rosto e invadiu todo o seu ser, tentou se acalmar, controlar. Por isso lhe parecia algo inútil. Quanto mais ele tentasse, mais nervoso ficava. Era algo que não podia controlar, por mais que tentasse. Ficou ali parado apenas ouvindo o som doce de sua voz, que soavam como uma linda canção. Poderia permanecer ali o resto do dia, sem se importar com mais nada. Estava agindo como um adolescente que descobriu o amor pela primeira vez e teria que parar com isso. Tinha que agir como um adulto responsável, que tinha total e pleno controle de suas emoções. Claro que, mesmo que tudo aquilo para ele fosse previsível, nunca tinha vivido aquela sensação e não sabia como lidar. Agir com tranqüilidade e paciência, ter a noção e a capacidade de tratar essas novas emoções. Só assim saberia conduzí-las da melhor maneira possível. Como aprendeu nas reuniões espíritas, tudo em demasia é prejudicial. Isso também se aplica no amor. Tem que ter o controle e equilíbrio e era exatamente isso que ele não estava tendo: o equilíbrio. Pegou o telefone e pediu a Vera que viesse até sua sala, pois queria que ela despachasse alguns documentos pra ele. Vera ficou insegura, não sabia se tinha a condição de executar tal tarefa. Olhou para Lurdes pedindo que a socorresse, e com toda a calma do mundo lhe disse:

-Você consegue, não tenha medo, você é inteligente. Basta que acredite em si mesma. Como lhe disse antes, ninguém nasce sabendo tudo, aprendemos todos os dias e estou aqui para te ajudar no que for preciso. Para que isso aconteça você tem que tentar. As palavras que ouviu deram a coragem que ela precisava. No mesmo instante se levantou e se dirigiu até a sala de Renato. Bateu na porta e esperou que ele a mandasse entrar.

-Entre, por favor.

-Bom dia, doutor Renato.

-Bom dia Vera, sente-se, por favor. Quero que peça ao mensageiro que entregue esses documentos ainda hoje pela manhã no fórum. Eles tem que estar ainda hoje lá para que possam ser juntados ao processo.

-Sim, senhor, farei isso imediatamente que sair daqui.

-Gostaria também que pedisse ao doutor Clóvis que me passasse o relatório, como anda a causa das empresas norte-americanas, para que eu possa me interar mais sobre o assunto. A audiência está marcada para o mês que vem e eu ainda não fui informado dos fatos. Depois que tiver de posse dos relatórios poderia deixar em cima da minha mesa que estudarei assim que voltar da audiência.

-Sim, senhor, mais alguma coisa?

-Ontem não tive tempo de conversar com você direito, gostaria de saber o que está achando do trabalho. Está gostando? Tem algo que posso fazer para ajudá-la?

-Como o senhor sabe é tudo muito novo para mim. Nunca fiz nada disso, mas estou adorando, sim. Ainda tenho muito que aprender, afinal comecei ontem e tudo é totalmente estranho. Mas Lurdes é uma excelente professora e tem muita paciência comigo.

-Fico feliz que você esteja gostando do trabalho e que está se dando bem com Lurdes. Ela é uma excelente pessoa, tenho como uma irmã.

-Sim, apesar de conhecer pouco, já aprendi a gostar dela, e quero lhe dizer que estou muito feliz por esta trabalhando com pessoas tão boas e atenciosas. O que mais posso desejar a não ser isso?

-Bem, mas quero que saibas que se precisares de algo, não hesite em me pedir. Estava conversando com Dalva e ela me falou do seu desejo de voltar a estudar.

-Sim, gostaria muito, mas no momento não será possível.

-Por que não?

-Bem, senhor, não tenho como pagar... não estou reclamando do que o senhor vai me pagar não é isso...

-Existem muitas escolas públicas e não é necessário pagar, por que não procura uma e se matricula?

-Será mesmo que eu conseguiria voltar depois de tanto tempo sem estudar?

-Você ainda é muito nova, claro que consegue, basta que tenha força de vontade e isso você tem.

-Vou pensar no assunto com carinho doutor Renato.

-Se você quiser posso ajudá-la a procurar uma próxima a sua casa.

-Não, mas muito obrigada pelo interesse. Dalva ficou de ver isso para mim, fico muito agradecida por sua delicadeza e atenção.

-Mas como já lhe disse... no que precisar podes contar comigo, sem problemas.

-Mais uma vez obrigada doutor Renato, deixe-me ir, senão perco tempo em despachar os papéis.

-Sim, claro, pode ir.

-Com licença, doutor.

 

Quando Vera se retirou, Renato estava confiante. Parecia que algo ou alguém lhe dava forças dizendo que tudo acabaria bem, que tudo seria resolvido no seu devido tempo e todas as coisas seriam esclarecidas. Deveria ser sábio ao conduzir sua missão, ter paciência e coragem de seguir em frente, mesmo que em determinados momentos da vida encontre-se perdido, fraco, desanimado. Mesmo diante disso, devemos seguir em frente, lutar contra essas condições adversas que a vida nos apresenta, seguir em frente na nossa jornada. Ele não sabia o porquê, mas estava mais confiante, forte. Era como se ele estivesse conversando com seu pai, que muito lhe encorajava, apoiava em suas decisões e orientava a seguir no caminho certo, da bondade e da caridade. Lembrou-se de seu pai com carinho e sentiu saudades das conversas, dos conselhos que ele lhe dava. Sentia muita falta de seu pai, pois já que foi criado por ele e sua mãe morreu quando ele ainda era muito pequeno, mal se lembrava dela. Mas sabia que era uma pessoa também de bom coração, muito querida por todos e possuidora de uma bondade enorme, tinha sempre a disposição de ajudar quem fosse, sem olhar quem. Agradeceu a Deus por ter pais assim, por ter sido amado por eles e orientado sempre a seguir no bom caminho, ser íntegro e bondoso. Isso ele deve aos seus pais. Agora eles deveriam estar juntos, pois se amavam muito e de onde eles estavam, com certeza, olhavam por ele. Isso ele aprendeu com o espiritismo, sabia que mesmo que não pudesse vê-los, estavam sempre a seu lado e às vezes até podiam sentir isso. Agradeceu mais uma vez a Deus e a seu pai por ajudá-lo quando ele se sentia sozinho e inseguro. Neste momento seus pais que estavam com ele se fortalecendo, lhe amparando e auxiliando. Abraçaram-se e juntos seguiram ao plano espiritual.

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Atualizado em: Ter 13 Out 2009

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