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Horror Vermelho

Creio que você, meu caro amigo desconhecido, seja o único que irá entender o porquê de eu estar indo por fim a minha vida miserável, a morfina já não me traz um alivio temporário para a minha dor, pelo contrário, ela agrava meu sofrimento, já que acrescentou um vício a minha miséria. Não entenda esse meu vício recém adquirido como uma fraqueza ou perversão, quando você terminar de ler meus rabiscos irá entender porque eu escolhi trilhar essa rota.
Foi nas regiões mais abertas e menos frequentada do deserto de Sonora que o carro que eu dirigia para minha viagem enguiçou. Era as minhas férias, então eu usei um atalho pelo deserto para chegar até às fronteiras.
Quando percebi, que meu celular, não tinha sinal para eu chamar um guincho, e que eu não tinha uma noção exata das minhas coordenadas. Por horas fiquei no sol; procurando algum sinal no celular ou se alguém poderia passar pela rota que eu segui. Mas não consegui encontrar nenhum lugar com sinal de celular nem alguém que por ali transitava, e então, comecei a entrar em desespero com a solidão em meio a grandeza opressiva de terre e areia infinita.
Eu voltei ao meu carro que tinha suprimentos para caso algo do tipo acontecesse, e no meio da noite a mudança surgiu. Não irei entrar em detalhes, até porque eu não sei o que aconteceu; pois meu sono foi interrupto devido ao cansaço mental e físico que senti durante o dia. Quando enfim acordei, fui assolado por um imenso cheiro pútrido de carne em decomposição e de outras coisas indescritíveis, a terra, antes cheia com uma variedade de plantas e animais agora se encontravam monótonas e com uma cor avermelhada que lembrava sangue seco.
Mesmo que se possa imaginar a minha reação de surpresa diante uma transformação tão súbita no cenário, a verdade é que eu sentia mais terror do que espanto; pois no solo e no ar pútrido havia algo sinistro que congelava a minha alma de medo. Talvez eu não devesse tentar pôr em palavras o horror indescritível que o silêncio absoluto e a imensidão estéril podem proporcionar. Não se ouvia nada, não se via nada fora a vista extensão de terra vermelha; mas era a perfeição do silêncio e a constância do cenário o que me oprimia com um terror nauseante.
O sol refletia em um céu escarlate, como se refletisse o sangue fresco recém escorrido. Vaguei ao redor para ver até onde essa mudança se estendia, e enquanto eu andava, percebi que só havia uma teoria para explicar a minha situação. Por conta do estresse, do sol e da falta de agua eu estava alucinando.
Por motivo que não sei explicar, eu senti vontade de vagar por aquela imensidão de terra vermelha, preparei um suprimento de comida e agua para mais uma vez procurar resgate ou sinal de celular.
O odor de carne em decomposição era enlouquecedor; mas eu estava ocupado pensando em outras coisas para me incomodar com algo tão insignificante e assim, parti para os confins do desconhecido.
Andei o dia todo para a direção em que eu julgava ser o norte, guiando-me pela posição em que o sol nascera. Acampei a noite e, no dia seguinte, me certificando que eu estava seguindo o norte, continuei minha jornada.
No terceiro dia cheguei perto do pé de uma elevação, no alto um vale destacava seus contornos. Cansado demais para escalar, dormi na sombra que a elevação projetava.
Não sei por que meus sonhos foram desconexos naquela noite; mas antes que a lua subisse, acordei, suando frio, determinado a não dormir, vaguei mais uma vez. Eu não seria capaz de aguentar mais uma vez aqueles sonhos horripilantes. O luar me mostrou o quão idiota eu fui ao andar durante o dia. Sem o brilho do sol escaldante, minha jornada teria consumido menos energia; em verdade, naquele instante eu sentia-me apto a realizar a escalada que me vencera ao pôr do sol. De posse dos meus suprimentos, parti em direção ao pico daquela elevação.
Antes, eu pensava que a imensidão vermelha e solitária me inspirava medo, mas nada que se comparava ao horror que eu senti quando vi o que residia no topo daquela elevação. Uma enorme vila cujo os raios da lua não alcançaram o suficiente para iluminar. Me senti encarando um abismo com um mal desconhecido à espreita, uma sensação que eu não conseguia imaginar de onde vinha.
A medida que a lua subia, notei uma catedral. Saliências e relevos na rocha proporcionavam uma descida relativamente fácil e, após algumas dezenas de metros, o declive tornava-se bastante gradual. Tomado por um impulso que não sou capaz de explicar, desci pelo caminho de pedra e segui em direção a vila inabitada, olhando aquela catedral infernal onde ninguém havia entrado a um bom tempo.
Na vila encontrei um poço artesiano ainda funcional e com agua limpa, bebi até matar minha sede e enchi as garrafas que eu carregava, mas minha felicidade não durou muito, passando pelas casas inabitadas, resolvi entrar na catedral.
O cheiro de carne podre nessa vila era enorme, como se todo o miasma que infectava a terra vermelha viesse dali, mas até esse ponto, eu já tinha me acostumado com o cheiro.
Dentro da catedral, minha atenção se dirigiu a uma enorme e singular gravura que eram exibidas com orgulho naquela catedral, iluminando com a lanterna do meu celular, percebi que se tratava de diversas histórias. A escrita usava um sistema de hieróglifos que eu desconhecia. Muitos hieróglifos representavam criaturas desconhecidas ao mundo moderno, mas cuja a aparência em estado decadente me enchia de arrepios.
Era um estilo pictórico, mas me hipnotizava completamente. Havia um conjunto de figuras que representavam homens, ou pelo menos um tipo de homem; no entanto, as criaturas apareciam divertindo-se realizando uma espécie de massacre e bebendo sangue de pessoas aparentemente vivas ou rendendo homenagens e realizando um ritual de canibalíssimo em um templo monolítico. Os rostos e as formas eu não ouso descrever em detalhe, pois a simples lembrança me faz tremer de medo. Era grotesco além da imaginação, o contorno geral das figuras era muito humano, apesar das mãos e pés de tamanhos anormais e das unhas anormalmente grandes, dos impressionantes lábios carnudos e dentes serrilhados saltados para fora da boca, dos olhos vidrados, arregalados, e de outros traços de lembrança desagradável. Pensei que aqueles seriam apenas os deuses ou criaturas folclóricas daquele local. Estupefato com o vislumbre de lendas que extrapolava a imaginação de qualquer um, comecei a meditar enquanto a lua lançava reflexos de luz, possibilitando ver mais claramente o ambiente ao meu redor.
Havia uma única porta nos fundos da catedral, de lá vinha vozes, que parecia estar cantando. Assombrado com o que eu tinha visto, mas com a esperança de conseguir ajudar, eu fui em direção as vozes. Abrindo a porta me deparei com uma entrada subterrânea, iluminando com meu celular eu me joguei mais uma vez para o desconhecido. A caverna era coberta por uma espécie de lodo negro, mas uma análise mais atenta me revelou que era sangue...sangue negro, isso cobria a caverna em toda a sua extensão. Eu já estava extasiado pelo medo, tinha total ciência que a decisão que tomei foi a mais estupida da minha vida, mas eu continuei, coisa que me arrependo profundamente.
Seguindo em frente e me esgueirando para não ser percebido por ninguém, eu vi uma cena que nunca iria esquecer, um ritual estava sendo executado, diversas pessoas estavam rodeando o altar, cantando e adorando em línguas que eu desconhecia, eles estavam cortando seus pulsos, oferecendo seu sangue para o altar. No altar havia uma pessoa deitada, pressa por correntes e se debatia furiosamente, numa tentativa fútil de se libertar, a pessoa que conduzia o ritual começou a cortar o “sacrifico” em diversos lugares, até que finalmente cotou-lhe a garganta e clamou para um enorme coração negro pulsando.
Eu subi o olhar em direção a aquele grande coração preto acima do altar sacrifical, que estava batendo furiosamente e pingando o sangue negro que preenchia as paredes e o chão da caverna. Ele parou de bater, estava completamente imóvel. E foi aí que percebi, a movimentação das paredes da caverna, o sangue negro que parecia com lodo, os tentáculos se movendo. A caverna toda parece rastejar para um certo local, um espaço, logo a minha frente, um espaço onde o corpo está deitado, o corpo no altar que algum dia pertenceu a um habitante do vilarejo. O sangue negro escorre para cima, subindo pelo altar em direção aos dedos e entrando profundamente na carne pelas feridas feitas pelos cultistas. O sangue, subindo pelas pernas, flui por cima da pele do cadáver, ele parece buscar alguma coisa em seu peito. Então, tomando a forma de uma enorme mão preta com garras bestiais afiadas, ele perfura o peito, arrancando o coração e deixando um enorme buraco horrendo. O lodo sobe pelo pescoço, rasgando e puxando o rosto do homem, revelando seu crânio exposto. O sangue rasteja, subindo pelo crânio, como lágrimas pretas, invadindo os olhos vazios. E foi nesse exato momento que eu soube que o que estava na minha frente não era mais humano, mas sim uma das aquelas criaturas entalhadas no mural na parte superior da catedral, as criaturas sem mente que comiam a carne e bebia o sangue de suas vítimas ainda vivas.
No momento em que sua transformação foi completa, a coisa se libertou de suas amarras e se ajoelhou ao coração negro que voltou a pulsar. Vasto como um ciclope, horrendo, aquilo grunhia como um pavoroso monstro saído de algum pesadelo, ele agitava os braços desproporcionais mesmo tempo que inclinava a cabeça hedionda e emitia sons compassados em sinal de adoração e submissão. Acho que foi naquele instante que perdi a razão.
Sobre a saída da caverna, e a jornada desesperada de volta ao meu carro eu não me recordo de quase nada. Em minha loucura e desespero lembro vagamente de rir ruidosamente, também me lembro de uma tempestade com chuva negra e enfim meu retorno ao carro.
Quando recuperei a consciência, eu estava em um hospital; quem me resgatou foi um motorista que também pegou o mesmo atalho que eu. Enquanto eu estava inconsciente falei coisas desconexas, mas descobri que ninguém tinha prestado atenção em mim. Ninguém sabia sobre as terras vermelho sangue e sobre a catedral com um coração negro em seu subsolo, e desistir de insistir em algo que sabia que seria inacreditável.
É à noite, em especial quando a lua está minguante, que vejo a coisa, escuto as vozes em adoração, e o coração batendo fortemente. Tentei morfina; mas a droga mostrou-se um alívio apenas temporário e me prendeu em suas garras como a um escravo sem esperança. Agora, tendo escrito um relato completo para informar aos meus parentes ou para quem quer que queira saber, pretendo pôr um fim a tudo. Às vezes me pergunto se isso não foi apenas uma ilusão por causa da desidratação e pela insolação, mas sempre tenho uma nítida visão do terror como resposta. Não consigo pensar no deserto sem imaginar as coisas indescritíveis que nesse exato momento podem estar nascendo naquelas cavernas, rendendo homenagens ao coração negro e fazendo rituais canibais como foi descrito naquelas gravuras. Nos meus pesadelos eu vejo um dia que essas criaturas irão sair do deserto e das profundezas da catedral, arrastando a humanidade com suas garras fétidas e transformando os mortos em bestas horrendas, a terra e a humanidade vão cair e uma terra vermelha irão surgir usando cadáveres de homens, mulheres e crianças como seus alicerces.
O meu fim está próximo. Ouço um barulho na minha porta, como o de garras contra a madeira. Jamais irão me pegar. A porta se abre e na escuridão uma mão surge...meu deus aquela mão com garras bestial que nunca esquecerei! Eu olho para a faca e selo meu destino.
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Atualizado em: Ter 16 Nov 2021

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