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Eu coleciono brinquedos

Eu acho que já faz um mês. Eu coleciono brinquedos
Acordei como mais um dia, a rotina de sempre; despertador às seis da manhã, um bom banho e um café reforçado antes de ir para o trabalho.
Provavelmente você não saiba, mas eu tenho um hobby estranho (pelo menos o chamam assim), amo colecionar brinquedos antigos, amo acordar de manhã e olhar para a velha estante de madeira que fica no meu quarto com os brinquedos expostos, tenho diversas peças; carros, bonecos de ação, carrinhos de controle remoto, bonecas de pano… você entendeu... naquele dia eu jurei que havia algo diferente nela, como se alguns objetos houvessem sido mudados, mas a noite foi de um sono péssimo, a chuva na madrugada insistiu em balançar tudo lá fora e fazer todo barulho possível, se eu dormi 3 horas eu dormi muito, um homem com sono não consegue raciocinar direito, não é mesmo?
A semana foi excêntrica. As madrugadas tiveram muitas chuvas, mas, graças a Deus, mais fracas que daquele dia, só que meu sono havia piorado, piorou tanto que as poucas horas que dormia eram a base de remédio, eu estava tomando doses cavalares de calmantes e durante o dia vivia a base de energético e remédios para dor de cabeça, todos os dias isso.
Por sorte a semana terminou e finalmente era sábado, meus amigos viriam para tomarmos uma cerveja, jogarmos um pouco e conversar, costumávamos fazer isso toda semana, minha casa era considerada um “santuário” dos rapazes, sou o único que aos trinta anos ainda era solteiro, não tenho mais meus pais e nem irmãos, então minha casa era nosso lugar de ficar de boa, eu também gostava um pouco da ideia de quebrar a solidão do resto da semana com os amigos no sábado. Porém, quando estavam indo embora uma chuva forte começou, eles já haviam bebido então preferiram não correr riscos dirigindo no asfalto molhado, com isso decidimos fazer uma boa e velha “noite de adolescente”, posso dizer que foi uma noite incrível, nunca rimos tanto, nem bebemos tanto, quanto essa noite, mas como a chuva não passou dormiram em minha casa, deitamos as quatro da manhã e, diferente das últimas noites, logo eu dormi, apenas para ser acordado duas horas depois com um forte barulho e um grito. Saltei da minha cama para dar de frente com meu amigo caído no chão com a estante de brinquedos sobre sua perna, eu e os outros rapazes tratamos de tirar a prateleira, por sorte a chuva havia passado, apesar das ruas molhadas já estávamos mais sóbrios após o susto, então saímos para o hospital, por pouco ele apenas quebrou a perna, a prateleira era pesada, mas ele se livrou de algo mais sério, depois de tudo isso cada um foi para sua casa. Mais uma noite sem sono.
Domingo foi um dia para arrumar minha coleção, por conta dela aprendi algumas coisas para o reparo dos brinquedos e para manter eles sempre em bom estado. Com a queda da prateleira alguns ficaram danificados, por isso passei o dia consertando alguns detalhes, sempre bom pegar aquelas relíquias que já foram de alguém e consertar, saber que além da sua história com aquilo, tem a história de outros, isso é algo que poucos podem sentir, pegar aquele velho Action Man e saber que… desculpe, me perdi em devaneios, não estou aqui para falar sobre meu hobby. 
O que me chamou atenção foi encontrar uma velha boneca de pano, costurada a mão, ela já estava meio acabada, fiz questão de restaurar ela, apesar de eu não lembrar de ter ela, eu não vi problema, talvez fosse alguma boneca antiga da família da mulher do meu amigo que derrubou a prateleira, até porque, como ela cairia sem ninguém mexer nela? Bom, guardei esse pensamento para quando encontrar ele agradecer pessoalmente. Terminei os ajustes e já estava tarde, então fui dormir, tentar dormir para ser mais exato, mas a noite foi do mesmo jeito, regada a calmantes, não preciso nem dizer que passei mal o próximo dia inteiro, saí no meio do expediente direto para o hospital, o médico me disse que com o tanto de remédio que eu tomava teria uma overdose logo, ou como ele mesmo disse “Senhor, ansiolítico não é balinha, muito menos pílula mágica do sono.”, pouco me importei com isso, o cansaço me destruía, cheguei em casa rezando para poder dormir, mas me deparei com todos os brinquedos caídos no chão, eu vi, mas eu ignorei, deitei na cama e busquei dormir, estava morto de sono, mas não dormia, meu celular vibrou e vi a mensagem do meu amigo da perna quebrada, a mensagem era “Ei, eu acabei esquecendo de me desculpar. Eu vi aquela sua nova boneca de pano, sabe aquela meio antigona e surrada? Eu fiquei tão interessado que queria olhar de perto, espero que não tenha quebrado nada. Sinceras desculpas, qualquer coisa eu pago por o que quebrou.” fui perguntar aos meus amigos se alguém era dono da boneca e deixou lá, mas ninguém a conhecia, nunca viram ela antes, o resto dos dias foram eu digerindo o choque, acabei por não tocar nos brinquedos caídos… ainda nessa semana meu chefe quis conversar comigo, meu desempenho havia diminuído drasticamente e eu estava agindo estranho com os colegas de trabalho… fui demitido.
Tudo isso em um mês… duas semanas? Eu nem sei mais que dia é… mas após essa notícia cheguei em casa destruído, meu corpo doía, minha cabeça doía, estava cansado, eu não sabia mais se tudo isso era real ou só um pesadelo, mas quando cheguei no meu quarto eu vi, no chão, os brinquedos que antes estavam caídos agora estavam destruídos, com exceção daquela boneca, minha mente se desligou, eu pisei nos brinquedos e rasguei tudo que fosse de pano, juntei em um saco plástico e joguei no lixo, quando voltei pro quarto percebi ter esquecido aquela boneca desconhecida, minha mente queria soltar suas frustrações, ela queria culpar essa boneca por algo, então peguei uma caixa de sapato, coloquei a boneca dentro e enrolei com fita adesiva, quando terminei me olhei no espelho do meu quarto e vi aquele homem estranho, cabelo bagunçado, olheiras profundas, sorriso cínico… era eu, peguei a boneca e corri para o carro, fui juntar o útil ao agradável, dirigir pra me acalmar e arremessar aquela caixa no rio mais distante possível, ela não merecia o fim no lixo, eu queria fazer algo mais… dramático… é. Depois disso dirigi mais um pouco e voltei para casa, vi que o correio havia jogado uma caixa para dentro do quintal de casa, provavelmente algum dos brinquedos novos que havia pedido “o primeiro Max Steel, finalmente” pensei para mim, agarrei a caixa e levei para a minha mesa de reparo, meu objetivo era consertar o Max Steel e dar para uma criança, talvez juntar outros brinquedos e doar…
Agora eu estou escrevendo isso, espero que alguém possa ler… eu abri o pacote… eu estou olhando para essa merda de caixa ensopada cheia de fita adesiva sobre minha mesa, eu não consigo fazer mais nada a não ser registrar o que penso, como fizeram isso? Quem fez isso? Eu não vou mais encostar nessa caixa, vou tomar meus remédios e dormir.
Homem. 32 anos. Causa da morte: Overdose.
Uma caixa encharcada foi encontrada vazia em seu quarto.
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Atualizado em: Qui 10 Set 2020

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