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SEM SOL

De dentro do boteco podia-se espiar a nuvem grande e cinzenta que flutuava em direção ao sol que reinava soberano sobre o céu azul desde alguns anos. Haviam tantos dias que seguidamente o sol bailava seguro, intacto e inexorável sobre o azul celeste que os moradores já não mais sabiam ao certo a sua cor. Uns diziam que de tão cansado estava azulado como o céu, outros diziam que houvera desbotado de tanto brilhar e, por fim, haviam aqueles que afirmavam que ele continuava lá, vermelho como sempre fora e cada vez mais vermelho. No entanto, dado o que estava por vir, a cor do sol importaria bem pouco para aquelas pobres almas que moravam em algum vale esquecido por Deus no centro do sertão baiano. O que sucedeu foi o que a maioria desejava. A nuvem grande e cinzenta abraçou o sol e derramou água como jamais houvera derramado naquele vale.
Serafina que habitava o vale desde sempre, tal qual seus ascendentes que forjaram o povoado em épocas esquecidas, quando fugir de seus senhores era a tónica de seu povo, sabia que aquelas chuvas eram anormais. No entanto, ela, como qualquer outro campesino, não estava preocupada em discutir as mudanças climáticas. Toda preocupação que por ventura subsistisse, no entanto, era dirimida pelo fato de que a chuva era anúncio de que poderia plantar com a certeza inequívoca da colheita. Fato raro na vida de qualquer agricultor do sertão.
A medida em que os dias passavam a planície na qual foi erigida o povoado, vista de cima, transformava-se em um imenso estepe verde e amarelo. Porém, da mesma maneira que o milho dava uma nova coloração ao vale, uma série de eventos estranhos começou a fazer parte do cotidiano dos moradores que habitavam o vale. As armadilhas dos preás estavam sempre vazias. Apesar da chuva torrencial ter enchido os açudes, em suas águas não fecundaram os peixes. Os patos selvagens que se alimentavam de pitus e pequenos peixes nas margens dos açudes quando os mesmos estavam cheios, jamais chegaram como de costume. Nem as lagartas atacaram as folhagens dos pés de milho. Por alguma razão os animais desapareceram.
No boteco alguém dizia que havia visto uma “ruma de aves migrando para o litoral”, mas eram só conversas fiadas de boteco, pois há muito não se via ave nenhuma por aquelas bandas. No centro da praça alguém alertava sobre os sinais, sinais de alguma profecia ou de alguma maldição prestes a ser cumprida. Mas, ninguém dava ouvidos, pois, cada qual estava preocupado com sua plantação de milho e o quão generoso seria a colheita daquele ano.
Quando o milho finalmente floriu, trazendo consigo bonecas de cabelos coloridos, o sol cuja cor já não mais estava sob debate, se escondeu pela última vez na montanha que ficava a oeste do vale. Estranhamente anoiteceu e não amanheceu. A princípio creram ser algum fenômeno climático. Entretanto, os dias avançavam e a noite teimava em permanecer. A plantação que era colheita certa, sucumbiu. Os pés de milho secaram e as bonecas não granaram, devolvendo a coloração original ao vale que, sob a luz da lua, deixava tudo dourado.
Diante do sinistro os habitantes do vale resolveram enviar os seus mais corajosos moradores para buscar respostas ou mesmo o sol em algum povoado vizinho. Partiram Serafina, a mais velha, baleia sua cachorrinha e fiel escudeira, Joaquim, o mais sábio e Josefa e Salvador que eram os mais jovens.
Caminharam incansavelmente. Naquele breu infinito a única coisa que diferenciava o dia da noite era a lua. Haveriam de inverter, portanto, a lógica que sempre guiou a humanidade: caminhando à noite e repousando durante o dia. No primeiro quarto minguante, porém, Salvador enfiou o pé em um cacto de espinho e tal fato o impedia de caminhar perfeitamente. Um mau cheiro invadia o ambiente, contudo, diante da escuridão pouco se sabia o que estava acontecendo.
O silêncio administrava as informações necessárias para aquilo que deveriam saber. Uma dor desatinada percorria o lado direito do corpo do enfermo e pelo orifício aberto em seu calcanhar pelo espinho de cacto, salivava uma secreção de coloração incerta devido a escuridão da lua minguante. Às vezes, baleia vinha lamber sua ferida em uma certa relação de reciprocidade, pois a língua da cadela amenizava a dor do moribundo ao passo que a secreção lubrificava sua garganta que tivera a água negada pelos humanos há algum tempo.
Quando a lua nova forneceu uma brecha de claridade, revelou que a perna do infeliz que houvera pisado no cacto, havia gangrenado. Bastou, portanto, que um olhasse para o outro para que todos entendessem o que aconteceria ali. Joaquim, que herdou dos avós o conhecimento das propriedades medicinais das ervas da Caatinga, logo trouxe um amontoado de folhas espremidas por suas grossas mãos de debulhar o milho e deu-as para que o doente as ingerisse.
A comida já havia acabado desde a outra lua e a água não duraria muito enquanto a escuridão reinava absoluta sem nenhuma luz no horizonte. Ainda assim eles caminhavam, sabiam que detrás de algum monte haveriam de encontrar um sol vermelho escaldante. Aonde teriam terras férteis, cortadas por rios e lagos nas quais todos teriam a oportunidade de cultiva-las e colheriam exatamente o que plantassem, nem mais nem menos.
Àquela altura do caminho a fome deixava-os lentos e a sede calados. Baleia, em contrapartida, entre um sumiço e outro com os lábios ensanguentados, mantinha a forma física, embora não habitassem uma viva alma naquele sertão consumido pelo breu. Enquanto o cão adormecia sobre os pés da dona, bastou, portanto, que um olhassem para o outro - aquele mesmo olhar que selou o destino do amigo há três dias - para que todos soubessem o que aconteceria ali. Uma pequena gota d’água, há muito economizada, rolou pelo rosto enrugado e carcomido pelo tempo de Serafina. Contudo, no alto de sua experiência, ela sabia que não restava nenhum outro caminho. Sentiu mais pela cadela do que pelo amigo é verdade, mas foi um segredo que soube disfarçar em meio a sua costumeira rabugice.
Baleia não durou até raiar o dia como talvez tivessem desejado. Talvez como tenha desejado Serafina ao aceitar tamanho sacrifício. Durou, entretanto, o bastante para prolongar o sofrimento de todos. Josefa, a mais nova que restava daqueles quatro que partiu para a jornada designada pelo povoado, apresentava sinais de desesperança que só se via a noite. A velha rabugenta acompanhava a angústia da menina em silêncio. Queria consolar suas dores, mas sabia que haveria de poupar saliva para suportar os incertos dias sem água que deveria atravessar até encontrar o que beber. Não poupou, entretanto, palavras que encomendassem a alma da garota quando a mesma deu cabo à vida em uma ribanceira qualquer.
Restava agora apenas dois: Serafina e Joaquim. Eles talvez encontrassem o sol que certamente estava escondido em algum horizonte não alcançado ainda. Antes, porém, deveriam contornar a sede que lhes roubavam a mente de forma gradativa, provocando frequentes episódios de delírio.
Joaquim acordou Serafina aos gritos. A lua estava grande e dourada.
- Pode ouvir? – Disse ele – como soa sereno. Vês como respinga gelada a cachoeira que só agora a luz da lua nos revela.
Ela olhava incrédula, enquanto ele pulava sobre a cachoeira. O vento fazia assobios enquanto corria a toda pressa, rodopiando entre os mandacarus e levantando poeira da terra árida e seca.
Joaquim afogava-se na poeira levantada pelo vento. Serafina olhava até aonde as vistas alcançavam. Era um tempo sem sol e sem água.
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Atualizado em: Sáb 4 Jan 2020

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