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A praça dos suicidas

A praça era movimentada. Transpirava alegria. Nunca tristeza, exceto pelas madrugadas, onde algumas pessoas estranhas e maltrapilhas passavam constantemente por lá. Mexiam no lixo que tínhamos acabado de ajeitar. Mas não faziam mal a ninguém. Só nos assustavam. Pedrinho e eu resolvemos nos estabelecer ali. Fazer morada.
Sentia-me feliz, apesar das circunstâncias. Havia um campo de futebol onde brincávamos com os garotos da vizinhança. As mulheres da barraca nos davam comida à vontade. Éramos seus garotos de recado. Limpávamos a praça todos os finais de noite. Ajudávamos o pessoal do parque e em troca ganhávamos cortesia. Contribuíamos com tudo e todos. Não nos faltava nada, só uma casa e uma família . A Alimentação era farta. Ali era o point do bairro. Namoros, paqueras, afetos e desafetos começavam ali. As escolas públicas e particulares circundavam a praça. Os alunos matavam aula namorando nos bancos . Às vezes víamos os pais indo buscar seus filhos(as) pelos cabelos por não estarem na escola. Festas de São João, Carnaval e diversas apresentações culturais aconteciam na quadra da praça.. Tudo acontecia ali, ou ao seu redor. Era um lugar tipicamente de família, mesmo com alguns garotos, eventualmente, usando drogas. À noite, a criançada invadia o local. Pedrinho e eu adorávamos a noite. Brincávamos no parque com as outras crianças. Depois íamos ler os gibis na banca de Jornal. O seu Furtado, senhor idoso, cuidava da banca. Em troca de favores, eles nos deixava ler. Em frente à Praça havia uma Igreja  evangélica que mensalmente distribuía sopões e trazia filmes para a comunidade. Os obreiros e os pastores também gostavam da gente. Nós dormíamos dentro da igreja, exceto nas vigílias, quando varavam a noite rezando.
   A partir das 4h da manhã, a Praça já começava a lotar. Trabalhadores dos diversos lugares vão para suas respectivas paradas de ônibus, de um lado a outro da praça. Outros iniciavam sua caminhada matinal. Muitos transeuntes iam em direção ao Metrô, cuja estação ficava a alguns metros. Até uma academia ao ar livre havia. Assaltos e sinais de violência eram raros. Pedrinho, ao dormir, costumava falar. Não sei como os especialistas chamam isso. Ele sempre falava da nossa irmã, do pai, da mãe e de nossa tia, que nos paparicava. Ele acordava chorando. Aquilo me machucava tão profundamente que eu entrava numa profunda prostração por alguns minutos.
- Pesadelos de novo, Pedrinho? acho que a gente precisa de um médico.
- Sonhei com nossa família. Sonhei que eles nos resgatavam daqui.
- A ficha não caiu, Pedrinho? nossos pais morreram junto com nossa irmã, e a tia fugiu e nos deixou nesta praça. E nos ensinou como se comportar. Temos roupas e o que precisamos para viver.
- Foi só um sonho.
- Vamos, o seu Furtado quer os jornais dele antes da banca abrir.
Eles saem da Igreja e esperam o entregador dos jornais chegar, que passava na praça antes do seu Furtado abrir sua banca. Eles pegam o material e voltam.
- Estão com fome, garotos? pergunta seu Furtado.
- Já merendamos na igreja com o vigia, mas obrigado.
- Se quiserem ler as revistinhas infantis podem ficar à vontade, não podem pegar aquelas, que aparecem as mulheres do carnaval.
Cinco anos se passaram desde que apareceram na praça. São gêmeos, mas bem diferentes um do outro: Um branco, outro negro.
Pedrinho, por que a tia não nos levou com ela e nos abandonou neste lugar?
- Depois de tanto tempo, você não entendeu aquilo, e morando praticamente nas ruas?
- Não.
- Ela fez isso porque nos amava
- Não sei se você lembra, mas nossos pais foram assassinados e a tia estava sendo perseguida aquela noite. Conseguiu desviar a atenção do carro que a procurava. Ela arranjou um tempo para nos colocar abaixo do palco desta praça.  Depois voltou para o carro. Mas ainda ouvi os tiros de longe. Ela está morta, Pedrinho. Se não tivesse desviado seu caminho para nos esconder, certamente estaria viva. Mas seu carinho por nós era tão grande que se sacrificou por nós.
- Por que?
- Ela disse que nós recomeçássemos a vida. Que não fôssemos como a esposa de Ló, que olhou para trás. Caso contrário, morreríamos. Jamais olhe para trás. Vai enfraquecê-lo. Vai o prostrar. Isso vai jogá-lo nas drogas ou na depressão. Depois de tudo que passamos ainda vai querer passar pela cadeia ou o manicômio? E então? não vai honrar a memória dela?
- Quem os matou?
- Não ouviu o conselho da tia?
- Esquece! são apenas curiosidades.
Dois dias depois...
_ Que pena , Pedrinho.  Vamos ter que sair daqui. Gosto tanto dessa Praça.
_  De onde tirou isso?
- Uma mulher veio nos avisar ontem que deveríamos partir  hoje.
- E quem é ela? era daqui?
-  Não sei. Era um  tipo engraçada. Parecia uma alma. Brilhava e falava como se eu  fosse uma criança.  Disse que nossa partida se daria à noite. Ela me disse que  esta praça vai ser transferida. O parque, as traves do campo, a banca e as barracas. As igrejas também passarão a funcionar em outro local. E todos que moram e trabalham aqui virão conosco.
- E o que farão com a praça?
- Também não sei. Vão destruí-la, talvez para construir grandes prédios. Aqueles que a gente via na TV.  Ela só me disse que o ciclo da comunidade  neste espaço expirou.  Segundo ela, era o momento de sairmos daqui. Acrescentou também que não deveríamos estar juntos. Só estivemos juntos durante esse tempo por concessão temporária de Deus. Nossos destinos não mais se cruzarão, depois da mudança. As crianças, segundo elas,  tem esse direito, mas logo se separam em decorrência de nossa raiz desencarnatória.
- Raiz  desencarnatória? nunca ouvi essa palavra. Acho que nem existe. É gente maluca. Não ligue.
- Fico triste. Toda vez  que parte de uma cidade ou bairro morre, aqueles que viveram ali morrem um pouquinho também. Os objetos, as paredes e os concretos guardam um pouco da nossa vida e história. Tantas amizades, tantos sorrisos, tantos namoros. A buzina do metrô que  passa. O homem do peixe com seu assobio. As mulheres das barracas mandando recadinhos para seus amantes. Os jogos de futebol. A praça é quase um organismo vivo.
-  Eu prefiro morrer a viver fora dessa Praça. Aqui é o meu mundo.
-  O mundo muda, nada permanece. Agora a praça pertence a outras pessoas. Deixe-as viver seus momentos como nós vivemos os nossos. São seres humanos. Um dia também estarão conversando sobre essa praça. Suas aventuras. As mortes, o lixo e tudo que ainda tem por aqui. Cada tempo carrega sua glória e cruz. É o momento para outros.
   Anoiteceu na praça. Os garotos veem as barracas sendo desarmadas. O parque também é desmontado. Duas mulheres aparecem:
- Olha Pedrinho, é a mulher de quem eu falava.
- Olá, Crianças.
- Crianças? nós? indaga Pedrinho.
- Sim, meus amores É hora de partir. Vocês também precisam partir ou ficarão presas aqui, para sempre.
- Por que não nos deixa em paz?  por que estão retirando tudo?
- Porque  outras pessoas precisam do lugar, meus anjinhos,
- E quem é a senhora?
- Sou a tutora espiritual deste local. Mas não se preocupem. Aonde vamos viverão da mesma maneira.
- Ficaremos. E a  senhora é uma louca com essa roupa de bruxa boazinha.
- Vocês que sabem.
   Todos partem, exceto os gêmeos. Aos poucos os objetos e as casas começam a sumir. E tudo se transforma num completo deserto. Não há nada nem ninguém. Só um forte vento sobre a areia. E um penhasco enorme à frente deles.
- Pedrinho, não me sinto bem.
- O que tem?
- Uma angústia, um vazio, uma vontade de chorar. Faz tempo que venho sentindo isso.
- Eu também. Não vejo mais sentido em viver.
- Não temos pai, mãe e nossa tia. Tantas saudades.
- Eu também.
- Quero ir para onde eles estão. Quero visitar minha irmãzinha!
- Pedrinho, deixa eu escrever uma mensagem à tia caso não as encontremos:
-  Não temos mais canetas. Não temos mais nada. Só um ao outro neste imenso deserto.
- Vou orar a Deus para que ele nos leve:
"Deus,estamos sem força. a praça e seus moradores foram embora. Estamos sozinho, igualmente quando chegamos. A vida sem ela não tem sentido,  é um fardo que não aguentamos carregar. Suportamos por cinco anos enquanto essa praça tinha vida. Agora tudo acabou. Tenho saudades dos bons tempos em que me diverti aqui. Porém, a saudade éda minha família é maior, que aqui nos deixou aos seus cuidados. Tenho saudades das brincadeiras da minha tia , de seus mimos, da voz da minha irmãzinha e de seu sorriso, dos beijos da minha mãe quando ela nos deixava na escola, das nossas conversas no campo quando todos se reuniam nos finais de semana. Daquela bagunça, daquele falatório onde todos atrapalhavam a fala um do outro. Saudades do papai e de sua mansidão ao nos ensinar a tarefa de casa. Saudades do meu quarto, do meu notebook e dos meus pais  brigando comigo. Não quero ficar mais aqui. Quero ficar com eles. Por favor, Deus, coloque-nos perto de nossa irmãzinha e de nossa querida tia. O aperto no coração é forte."
   Os gêmeos estão desesperados. Choram. Mas só há deserto, areia e vento. Sobem num grande penhasco e de lá se jogam.  Eles caem  e desaparecem com o impacto. .
- Acorda, Pedrinho!!!!
- onde estou?
- está no parque para onde iríamos transferi-lo.
- E o meu irmão?
- Ele está bem, não se preocupe, porém bem distante. Ele não pode ficar entre nós, infelizmente. Mas tenho uma surpresa para você. Olhe:
- Mamãe , papai, titia, diz pedrinho chorando!
- Cadê minha irmãzinha, mãe?
- Está aqui, meu amor.
- Mas ela não cresceu?
- Meu lindo filho, aqui ninguém cresce ou envelhece.
   Algum tempo depois....
- Marcão, o que são essas duas cruzes abaixo do parque dessa praça?
- Colocaram aí por causa das duas crianças encontradas mortas, perfuradas de bala. Eram gêmeos.
- E por que fizeram isso com elas?
- Os pais eram envolvidos com drogas. E tudo indica que a facção inimiga, essa que domina a atualmente nossa área, invadiu a casa do casal. Mas antes, o casal se matou junto com a filha pequena. A tia das crianças tomou um troço para se matar, mas  que demorava a fazer efeito. Fugiu com os meninos.  Eles tinham dez anos. A tia deles morreu dirigindo. Já estava morta quando bateu no poste, bem ali, perto do viaduto. Mesmo assim, deram trinta disparos nela. As crianças ficaram aqui sob aviso: se escutassem disparos de longe tomassem as pílulas que ela os deu. Deu um comprimido a cada garoto.  A perícia constatou que uma das crianças já estava morta quando recebeu os tiros. A outra estava dormindo.  Encontraram na roupa de um deles uma pílula, geralmente usada por suicidas.
- Que loucura. Eu conhecia esse casal, mas pareciam tão normais. Cada coisa. E como sabe desses detalhes?
- As Câmeras da praça. Veja. Gravaram tudo.
- Que bizarro.
- Pois é. E tem mais: uma médium inglesa me disse que essa história de reencarnação é mentira. Na verdade,  os espíritos ficam dispersos por vários mundos, espaços e colônias espirituais, de acordo com o que fizeram na vida encarnada.  Alguns estão condenados a vagarem eternamente pela terra, sem rumo. Ninguém os ouve nem os vê. Nem os outros espíritos. Ela também me afirmou que os suicidas estão condenados a vagarem por praças,  bem parecidas com esta aqui. Ela até me mostrou uma miniatura. Era uma especialista nessas coisas de espíritos, céu, inferno etc..
-  E os bebês, o que ocorre com eles?
- Ficam as mães, para sempre.
- Você  acredita nisso, Marcão?
- Não, sou um  curioso, apenas. Mas gosto do assunto, confesso.
- Vai uma cervejinha depois do expediente?
- combinado
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Atualizado em: Qui 12 Jul 2018

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