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O falso bruxo

   Há três dias caminhava por ruas, becos e vielas. Sem rumo e sem destino, desnutrido e desidratado, fazia sete dias que não tomava banho. Meu único interesse e horizonte era conseguir dinheiro e recursos para saciar meu vício diariamente. Sexo, comida, família, amigos e trabalho não mais me motivam desde que experimentei a "pedra", apelidada por uns de "Maldita", "Droga do Diabo". Passados três dia de surto, dormi, alimentei-me, bebi água e passei um dia sóbrio refletindo sobre um sonho que tive. Sonhei com o primeiro dia que usei. Eu conheci o crack sob pressão psicológica na casa de um amigo (um representante de Deus na terra) que era médium e incorporava duas entidades: "Zé Pilintra" e "Pomba-Gira". Eu Sofria de um tipo específico de esquizofrenia. Não podia tomar estimulantes, nem mesmo café, porque meu cérebro respondia com uma descarga desproporcional de adrenalina e dopamina. E logo vinham as alucinações e paranoias. Porém, tomava minhas medicações regularmente e as crises se tornaram raras.
   Todas as noites de sexta-feira, o Zequinha, um conhecido gay da comunidade, chamava a turma da rua para beber e escutar um som. Reuníamos em sua sala, que me causava medo: havia imagens de santos, entidades da Umbanda e do Candomblé e um pentagrama no meio da sala. As paredes da sala eram repletas de frases da Bíblia Satânica de Anton Lavey, caveiras e imagens de bruxas. Embora temesse aquele cenário típico de filmes de horror da pior qualidade, eu me sentia seguro no local porque muitas pessoas participavam da festa. Mas numa sexta-feira, ocorreu algo atípico que surpreendeu a muitos. Quando deu exatamente meia-noite, Zequinha pediu silêncio. Solicitou que todos os presentes ficassem sentados e fizessem um círculo em torno de si. Ele, no centro, sobre o pentagrama e de joelhos, fumava seu cigarro e guardava as cinzas numa caixa de fósforo. Terminado o cigarro, tirava de seu bolso um cachimbo e uma barra de cor branca, semelhante a uma cocada. Era Crack puro, forte , potente e saboroso. Zequinha então despedaçou o crack no chão. Formaram-se diversos grãos no chão, semelhantes à pipoca. Então ele jogou as cinzas no cachimbo, recolheu do chão três pedras e acendeu o isqueiro. Todas as luzes foram apagadas. Só víamos o brilhar do isqueiro. A luz novamente era ligada. Agora com o isqueiro ligado em uma mão e o cachimbo com a cinza e crack na outra, Zequinha diz em voz alta e alterada, como se estivesse possuído: este é o momento mais importante da noite. O elixir da juventude, do prazer e do mundo espiritual será servido. Silêncio! dizia ele com a voz grossa de um demônio. Um dos rapazes que estavam ao meu lado, o Rafinha, deu no pé chamando pelos seus pais. Era supersticioso e nunca havia presenciado tamanha dramatização, exceto em filmes de terror, dos quais tinha bastante medo. O silêncio continuava. Ele dirigiu o isqueiro aceso à marica, e tragou as pedras até derretê-las em nossa frente. Depois apagou as luzes, deixando o isqueiro ligado. Ligou novamente a luz. Seu aspecto havia mudado. Pupilas dilatadas, olhos arregalados e um ar de extremo autoritarismo. Desligou o isqueiro e segurou suas narinas com todas as suas forças para aproveitar o máximo a fumaça da marica. Depois soltou a fumaça, fechou a luz e disse : Grande Satã, dentre todos os presentes, dê-me o mais belo e bem dotado para uma noite de prazer intensa, em troca entrego uma alma a ti
   Quase todos os presentes do local se evaporaram, restando apenas quatro no circulo. Uns correram para o quintal e lá se esconderam, outros correram para a rua e alguns brigavam por espaço de baixo da cama. Dos quatro no círculo, o Lafaete, acostumado a essas situações, esbaldava-se de rir. Era um cético aproveitador, marcava presença nas sextas-feiras só para beber e cheirar pó de graça. Não levava a sério o teatro do Zequinha, a quem considerava um sociopata típico. Um aproveitador sem consciência e remorso. Depois ele me disse o que estava por trás de toda essa palhaçada. Mas não acreditei, sempre fui um crédulo inveterado.
   Pois bem. Depois da frase de arrepiar e expulsar por susto quase todos os presentes, ele abriu a luz e ofereceu a marica com um crack gigante aos quatro restantes. Eu rejeitei, depois ele passou a marica para o Lafaete que agradeceu, porém rejeitou. Os outros dois aceitaram. O primeiro fumou e saiu sem rumo, correndo rua afora desesperado, achando que demônios o perseguiam O segundo, um jovem bonito e com um pênis de 25 cm e bastante grosso, fumou. Não era viciado. Fumou a primeira vez. No mesmo instante que tragou a pedra gigante, o jovem levantou-se com as pupilas dilatadas e um olhar esquisito. Tirou as roupas e começou a se masturbar intensamente, o Zequinha ajoelhou-se e chupou o pênis do rapaz enquanto este fumava compulsivamente várias pedras seguidas. Lafaete continuava a rir que chegava a chorar da cena grotesca que via. Eu estava assustado, mas sem forças para sair. Antes de ejacular, Zequinha disse ao rapaz: eu devo oferecer sua semente àquele a quem ofereci ao mestre. Ejacule nesta vasilha. Depois da ejaculação, Zequinha se dirigiu a mim e incorporou o Zé Pilintra, que expressou estas palavras: "Beba o esperma e fume as cinco pedras restantes. Tua missão és vagar pelo mundo e espalhar o evangelho do elixir do prazer. Serás um exemplo de vida que Cristo tanto pregou. Abandonarás a família e renunciarás a este mundo em nome de uma causa maior." Sob pressão, bebi o esperma e fumei as pedras. Achei a sensação da pedra sensacional. Deu-me um tesão incrível. No mesmo instante, levantei-me e tirei as roupas. O rapaz e eu transamos com Zequinha a noite inteira.
   No entanto, houve um problema. Havia pessoas nos quartos, no quintal e na sala escondidos ouvindo e vendo tudo. O fato se espalhou e Zequinha foi assassinado e vingado pelos pais de alguns dos jovens que marcaram presença na curiosa sessão macabra. Os pais acusaram Zequinha de induzir seus filhos ao vício. Lafaete, eu e o rapaz bonito fugimos. Durante a fuga, Lafaete, o cético, confessou a mim que Zequinha pretendia viciar e contaminar o máximo de pessoas possível, pois era soropositivo e estava viciado, e muito revoltado com a situação. Não acreditei. Meu vagar pelo mundo era missão dos guias espirituais. Vou cumpri-la até minha morte. Meu companheiros serão a marica, o cigarro, a pedra e o isqueiro. Encontrei o sentido de minha vida e serei recompensado por Deus quando desencarnar.
Nutrido e hidratado, após três dias de uso constante e  concentrado no sonho que tivera, agora ponho minha mochila e inicio novamente minha jornada pelas ruas, avenidas, becos, favelas, viadutos, prédios e casas abandonadas. Tenho uma longa noite de devoção a Deus. Amém
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Atualizado em: Qui 12 Jul 2018

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