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O Palhaço do Quindim

Esta história aconteceu no bairro onde eu cresci e poderia muito bem ser uma daquelas lendas urbanas, mas não é. Era 1995, eu tinha oito anos e, como toda criança feliz, brincava muito na rua e tinha uma turminha: eu, a Lulu, a Tati, a Nina, o Gui, o Luquinhas e o seu irmão mais velho, o Piolho. Formávamos um grupo de crianças entre oito e onze anos. Sempre depois da escola, nos encontrávamos na Praça Central para brincar de pega-pega e comer picolé da carrocinha do Tio Maneca. Bons tempos. Ou nem tanto.
No final da Rua Brasil, na casa amarela (que nossa turma apelidou de O Quindim), morava o Palhaço Roseta. Um artista circense muito misterioso: divertido como todo palhaço, mas meio macabro - como todo palhaço, também. Nunca alguém da vizinhança viu o Roseta sem sua vestimenta ou maquiagem de trabalho, nem jamais foi vista outra pessoa naquela casa, senão o próprio palhaço.  Segundo boatos, apesar de sua profissão, Roseta não gostava de criança e, se alguma ousasse entrar em sua casa ou roubar as laranjas da árvore do seu quintal, ele a comeria viva.
Como toda criança, nossa turma adorava histórias estranhas. E também morria de medo do Roseta, apesar dele ser - pelo menos aparentemente - muito simpático com todo mundo. Incontáveis foram as vezes que marcamos (escondidos de nossos pais) de irmos à casa do Roseta para investigar o mistério do Quindim. Sempre desistíamos no meio do caminho – seja por medo do Roseta ou receio de sermos pegos por algum outro adulto.
Foi em uma noite de sexta-feira treze, enquanto brincávamos na rua e contávamos histórias de terror que o Piolho, o mais velho do nosso grupo, anunciou:
- É hoje! Vou invadir O Quindim, comer todas as laranjas do Roseta e descobrir o que tem lá dentro.
- Você sempre diz isso, mas no final se borra de medo. Debochou a Nina.
- Aposta quanto? Perguntou o menino.
- Todas as minhas figurinhas da Copa 94, com álbum e tudo. Provocou o Gui.
- Então tá bom. Vai buscar seu álbum, porque em menos de uma hora, ele e todas as figurinhas serão meus!
Fomos todos em direção ao Quindim, vigiando se nossos pais não nos flagrariam. Quanto mais chegava perto, mais adrenalina sentíamos. Um misto de medo e curiosidade tomou conta de todos – menos do Piolho, que parecia estar muito confiante. Já o Luquinhas estava muito assustado:
- Mano, tem certeza?
- Tenho sim. Vou pular o muro, entrar pela janela, vejo o que tem lá dentro e  depois abro a porta para vocês entrarem.
- Tá bom, só não vai sujar sua camisa polo nova, ou mamãe vai te matar!
E lá se foi nosso amigo. Rindo muito e caçoando do irmão que estava quase chorando, o Piolho pulou o muro. Escutamos quando, já do outro lado, ele avisou que a janela estava aberta, portanto seria muito fácil entrar. Foi questão de segundos para ouvirmos nosso amigo falar: “entrei!”.
O que ocorreu depois ficará eternamente em minha memória, pois nunca mais eu vi ou ouvi uma coisa tão assustadora. Acenderam-se todas as luzes da casa e do pátio, em um clarão fora do normal. A única luz apagada foi a da janelinha de cima, provavelmente de algum tipo de porão ou algo parecido. Nessa janelinha, vimos a sombra de um homem com nariz de palhaço. Apesar da escuridão do cômodo, conseguíamos enxergar algumas feições daquele ser estranho, por causa da iluminação externa. O homem era completamente deformado, com olhos saltados e mandíbula exposta, pois sua pele do queixo era totalmente corroída.
Em uma das mãos, o homem segurava um menino pela gola do que parecia ser uma camisa polo. Na outra, ele apertava uma coisa com formato igual ao de um coração humano. Neste exato momento, um grito muito alto invadiu a rua:
- Me ajudem!
Com aquele grito estridente, toda a vizinhança saiu para ver o que estava acontecendo. Fomos obrigados a contar o que fazíamos em frente à casa do Palhaço Roseta, assim como o que havíamos acabado de presenciar. Adultos entraram na casa. A polícia chegou logo depois.
Até hoje Rodrigo Farias – o Piolho - consta na lista de crianças desaparecidas da cidade. Diversas buscas foram feitas, pessoas deram depoimentos, mas sem sucesso algum. O Quindim ficou isolado por dias, semanas, mas nunca encontraram sequer uma pista. O Palhaço Roseta foi interrogado na mesma noite em que tudo aconteceu. Ele alegou que não viu ou ouviu coisa alguma, pois na hora do ocorrido, estava jantando no andar de cima.
Tempos depois, Roseta se mudou e O Quindim nunca mais recebeu um novo morador. A casa tornou-se abandonada e, até hoje, é conhecida como mal-assombrada por crianças e pessoas que acreditam em maldições.
No ano de 2013, li uma notícia na internet sobre a morte do velho Palhaço Roseta. Aposentado, ele vivia há alguns anos em uma região isolada de uma cidade litorânea. A causa da morte não foi informada completamente. Na notícia, constava apenas que o homem possuía “estranhos hábitos alimentares”.
Desde aquela noite, eu e meus amigos nunca mais passamos em frente ao Quindim. Nem falamos no assunto. A única pessoa que ainda vive por aquelas bandas é, por incrível que pareça, o Luquinhas. Agora um homem casado e com um filho pequeno, fiquei sabendo que ele diz a todos que seu irmão foi engolido por um demônio e que, para evitar uma nova maldição, ele precisa se manter perto de onde tudo aconteceu. Por enquanto, está funcionando.
FIM
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Atualizado em: Qua 22 Jun 2016

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