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Apenas uma visita

Certo dia cheguei de surpresa na moradia de um velho conhecido meu. Ele, espantado por minha incomum visita perguntou:
− Aconteceu algo?
Eu, fingindo espanto, disse:
− Boa noite para ti também.
− Oh, perdoe-me por minha falta de educação, mas deve concordar que uma visita sua (sobre tudo a esta hora) é um tanto que estranha.
− Sim, de fato – estampei um sorriso em minha face tipicamente seria e desacostumada a sorrir. – Não vai me convidar para entrar?
− Oh, mas uma vez devo pedir desculpas, desta vez por minha falta de atenção: Por favor, entre. – Dando espaço para que eu pudesse passar pelo pequeno e velho portão enferrujado.
− Obrigado.
Claro que a essa altura ele ainda estava acostumando-se novamente com a minha presença. Percorri lentamente aquele pequeno e defecado quintal ouvindo seus pedidos humilhantes de “oh desculpe-me por isso, desculpe-me por aquilo”, sinceramente não me importava nem um pouco com toda aquela sujeira ou a presença dele implorando asneiras triviais humanas.
− Posso entrar em sua casa? – Perguntei parando diante a entrada principal que dava aceso a uma cozinha mal arrumada.
− Sim, sim – disse ele – Aproveite e sente-se, vou passar um café... Ah sim, acabei de lembrar que você não toma café, né?!
− Agora eu tomo sim, descobrir que ele é melhor do que álcool destilado. – Tentei ser mais amável enquanto arrastava uma cadeira. – Mas não precisa se dar ao trabalho, eu bebo esse que está aí na garrafa térmica mesmo.
− Ela está vazia, aqui em casa café nunca sobra, mas não é trabalho nenhum, na verdade antes de você chegar já estava me preparando para passar um.
− A essa hora da noite?
− Sim, sim. Café sempre me faz dormir bem. – Sorriu.
– Você não é tão normal quanto me lembrava.
− Ah, mas quem é normal?! Ser estranho é tão mais divertido. Aliás, se todo mundo fosse normal o mundo estaria uma bosta.
− Oras, mas o mundo não está uma bosta?
− Pois é, não havia pensado nisso.
Ele passou o café e nossa conversa ficou girando em torno desses assuntos banais que nunca levariam a lugar nenhum. De fato, era só uma conversa amigável entre velhos conhecidos.
Fiquei por lá cerca de duas horas, observei que uma mulher estava dormindo em um sofá na sala, e que haviam crianças na casa por conta dos inúmeros brinquedos jogados pelo chão da cozinha e pelo belo volume de louça suja na pia.
Pensei no motivo de estar ali naquela noite, no quanto eu estava sendo ruim com aquele que, de certa forma, me considerava um amigo, mas infelizmente não podia fazer nada para mudar o que já estava traçado há tempos...
− Então, casou?! – Repentinamente perguntou-me.
− Eu?! Não, não.
− Por que não homem?
− Ah, minha vida não dar espaço para uma família.
− Bobagem. – riu. – Minha vida também sempre foi corrida, você sabe, mas mesmo assim encontrei o amor da minha vida e não deixei escapar, quando menos notei já estávamos casados e com o pequenino a caminho. Sei que minha casa é humilde, e que não moro no melhor bairro da cidade, mas sou infinitamente feliz, pois tenho uma família que amo e sempre que estou triste me alegra. Não seria esse o sentido da vida?! Digo; ser feliz?
− Sim, você está correto. Lembro que eu sempre dizia que para um homem ser completo tem que ter sua família e de repente olha-me aqui, não seguindo o próprio conselho.
− Acontece cara, normal. O que importa é ser feliz. – deu duas batidinhas em meu ombro.
− Sim, sim.
− E você é feliz? – Perguntou com um ar realmente preocupado.
Fiquei sem saber o que responder e um tanto quanto perdido em meus pensamentos:
− Bom, creio que seja a hora d’eu ir embora. – Mudei de assunto, levantando-me da cadeira. – Muito obrigado pelo café e pela conversa.
− Ora, mas tão cedo? Ainda nem são onze horas.
− Sim, sim. Amanhã preciso acordar cedo. – caminhando para a porta.
− Entendo, mas espera um pouquinho, quero te apresentar alguém. – foi para sala.
Da porta da cozinha pude ouvi-lo falando bem baixinho “Amor, Amor, acorde, vamos acorde quero te apresentar a um amigo meu”. Alguns poucos minutos depois ele reapareceu seguido de uma mulher com rosto levemente marcado pelo tempo.
− Veja. Essa é minha esposa Adriana. –Disse-me olhando-a carinhosamente e sorrindo.
− Olá – disse ela. – Meu lindo sempre falou muito de você. – um pouco envergonhada.
− Ah sim, espero que tenha falado bem ao menos. – estendi a mão para cumprimentá-la.
− Sim, sim – sorriu – Sempre muito bem, até me dava ciúmes. – gargalhou.
− Sem motivos, sempre fui homem. – disse ele agarrando-a por trás levemente e lhe dando um amoroso beijo.
Sinceramente fiquei contente em ver um casal tão feliz e apaixonado.
− Bem, foi um prazer conhece-la Adriana, mas realmente preciso ir agora.
− Ah, tudo bem, mas ver se volta aqui mais vezes.
− Nem espere, esse aí só aparece uma vez a cada século só para avisar que ainda estar vivo.
− Não é bem assim – envergonhei-me. – Pode deixar que em breve venho aqui com mais tempo (menti, a pobre mulher não sabia a razão d’eu estar ali)
Enfim me despedi com um amigável abraço em ambos e fui em direção à rua acompanhado pelo meu velho conhecido.
− A gente conversou tanto e você acabou esquecendo de dizer o porquê veio aqui esta noite.
− Ah, não se preocupe, era um assunto trivial. Já me bastou ter passado esse tempo contigo, ter posto a conversa em dia e relembrado o passado mesmo pesado.
− Pode voltar aqui quando quiser. A Adriana sempre está em casa, se eu não estiver é só esperar com ela que chego.
− Sim, sim pode deixar. Bem, até algum dia então. – Disse já começando a andar pela rua.
− Até, vê se toma cuidado por aí.
− Pode deixar. – acenei de costas.
Alguns dias depois seu primogênito morreu de uma doença até agora não confirmada, sua mulher entrou em depressão logo depois (e até no exato momento em que digito estes fatos ainda não se recuperou) e a vida daquele meu velho conhecido nunca mais foi a mesma.
Sou um dos portadores da Morte, como ninguém a deixaria entrar de bom grado em sua casa ela usa pessoas como eu para poder invadir os lares e deixar sua marca.
É assim que vivo...
Sou feliz?
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Atualizado em: Qua 28 Nov 2018

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