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O Processo de Suicídio de Uma Atriz

Cena 1 A Terceira Margem do Palco
Abre - se a cortina, palco vazio, apenas um feixe de luz coberto por uma neblina de fumaça que esconde o ambiente mergulhado em completo silêncio. A luz vai subindo gradativamente.Em meio à cortina de fumaça que se espalha, surge um homem vestido com um, sobretudo preto, cabelos desalinhados, barba por fazer, seu olhar perdido busca um encontro. Permanece imóvel, observa atento, parece procurar por um cúmplice.
Marcus: A pior e melhor lembrança da minha vida foi exatamente aquele momento em pisei num tablado que rangia a cada passo que eu dava em direção à boca de cena. Quando as cortina se abriram as luzes fortes dos canhões me cegaram. E eu não conseguia pensar em nada. Era uma espécie de vazio profundo que tomava conta de mim e que aos poucos aquela sensação foi se transformando em alguma coisa... O rangido das velhas madeiras parecia um Leviatã me assombrando, meu corpo todo estava espasmódico, uma tremedeira, um formigamento, um frio na barriga, era tudo tão confuso, não conseguia distinguir as emoções diversas que invadiam a minha alma já tão obscura. Foi como se eu tivesse aberto a caixa de Pandora e vários espectros sobrevoavam sobre a minha cabeça me aterrorizando... Tentei correr, inutil. Tinha chegado ao limite depois havia apenas um precipicio. E eu loucamente, nobremente, saltei... Blecaute
Cena 2 Três vezes Helena
Primeiro dia de testes para a montagem da peça Helena de Eurípides. Marcus assiste atento aos testes das atrizes, a cada cena uma reação aprovando ou desaprovando. (Os testes poderão serão gravados)
Atriz 1 Interpreta Maria de Eles Não Usam Black Tie:
“Sei muito mais. Tu era um grande mentiroso. Dizia pra menininha que era estudante, contava uma porção de vantagem,até que um dia ela ia te pegando servindo de babá.Aí, quando tu viu ela, quis escondê o carrinho da criança atrás do murinho da praia. O garoto caiu, machucou a cabeça e tu levou uma bruta surra de teus padrinhos, e a menina não quis mais nada com você!”
Marcus: Bonitinha... Mas como dizia Nelson, tão ordinária!
Atriz 2 Interpreta Sra. Smith de A Cantora Careca:
“Iogurte é excelente para o estomago, para os rins, para apendicite e para apoteose. Quem me disse foi o Dr. Mackenzie-King que trata dos filhos dos nossos vizinhos, os Johns. Ele é um bom médico. Pode-se confiar nele. Só receita remédios que já experimentou nele mesmo. Antes de mandar o Parker se operar, primeiro ele mandou operarem o seu próprio fígado, sem nem estar doente.”
Marcus: Iorgute também é bom para outras coisas, bem melhores que este seu teste de merda!
Atriz 3 Interpreta Ofélia de Hamlet:
“Que nobre inteligência assim perdida! o olho do cortesão, a língua e o braço do sábio e do guerreiro, a mais florida esperança do Estado, o próprio exemplo da educação, o espelho da elegância,o alvo dos descontentes, tudo em nada! E eu, a mais desgraçada das mulheres, que saboreei o mel de suas juras musicais, ter de ver essa admirável razão perder o som, qual sino velho, essa forma sem par, a flor da idade, fanada pela insânia! Ó dor sem fim! Ter já visto o que vi, e vê-lo assim!”
Marcus: Talvez... Não, acho que não, ela é dramática demais. Impetuoso A produção esqueceu de divulgar que este era pra ser um teste para atrizes. Eu não deveria ter aceitado dirigir essa peça, isso não é um desafio é um suicidio. Fala juntando uns papeis e fotos que estavam sobre a mesa, deixa cair uma velha fotografia de mulher que lhe despertas lembranças.
Cenas de flashback de Marcus e Helena são projetadas.
A cena é cortada bruscamente por outra personagem que chega, é Liz, uma bela mulher, jovem de seus 30 poucos anos, carrega uma sensualidade embutida de inocência, veste um casaco branco que imita pele de animal, esta com um vestido curto azul e botas pretas, no pescoço uma echarpe completa o seu figurino destacando ainda mais o seu charme.
Liz: Olá!
Marcus olha para a mulher com certo espanto, admirando como se fosse um porta- retratos que o despertasse boas lembranças, caminha até ela desejando tocá-la. Liz se sente desconfortável.
Liz: O senhor esta bem? Pausa. Marcus continua a olha-la. Desculpa ter entrado assim, mas a porta estava aberta e lá fora tem um cartaz dizendo teste de elenco para o espetáculo Helena de Tróia. Silêncio. E eu vim fazer o teste... O senhor esta bem mesmo?
Marcus reage estranho: O teste já acabou! Começa a revirar os papeis que estavam sobre a mesa.
Liz: Mas como acabou? Eu acabei de chegar!
Marcus: Está atrasada!
Liz: Fala apressada: Mas o senhor sabe como é esse transito de São Paulo, uma loucura, eu moro lá em Ferraz, é longe pra cacete, é uma batalha pra chegar até aqui. Trem, metro, às vezes ônibus, ai anda mais um pouco a pé, e pra voltar é pior ainda, parece uma marcha ré lenta. É foda, é muita foda! Ai me desculpa, eu não sou desbocada não, mas às vezes acaba me saindo, um porra, um caralho, mas é só de vez em quando. Eu não sou sempre assim.
Marcus com desdém: Tanto faz!
Liz: O senhor é sempre assim? Marcus: Assim como?
Liz: Assim desse jeito.
Marcus: Você pode ser mais especifica?
Liz: Mal humorado, indiferente, apático, estranho...
Marcus: Esta incomodada pode ir embora, alias como eu já disse o teste acabou e eu preciso fechar o teatro.
Liz: Mas pela sua cara ainda não encontrou uma atriz.
Marcus: De fato... Fala com descaso. Mas com certeza não é você!
Liz Interpelando: O senhor não sai daqui!
Marcus: Como assim? Por acaso esta louca?
Liz: Não é nada disso, eu só acho que não custa você ver o meu teste, já que estamos aqui, poxa eu vim de tão longe, esse tempo todo que nós estamos aqui, discutindo, já teria dado tempo de fazer.
Marcus: Eu devo estar mesmo louco, mas enfim, pior não pode ficar.
Liz: O senhor é um cara esperto!
Marcus: Ok , vamos lá, deixe-me ver o seu currículo.
Liz: Eu não tenho, quero dizer eu não trouxe. Mas posso falar tudinho se precisar. Eu me lembro de cada trabalho que fiz... Ansiosa. Eu já fui garçonete, frentista, tentei ser secretária, mas não deu muito certo, aquele velho desgraçado ficava passando aquela coisa mole na minha bunda, só de lembrar já me dá nojo.No teatro não tem nada disso não, né? Grita. Ah, lembrei de outro eu já fui revendedora do Avon “Avon chama”, lembra... Ri imitando uma garota propaganda.
Marcus (Impaciente): Chega!
Liz: Desculpa, eu sei que falei de mais, quando fico ansiosa eu falo sem parar, antes eu soluçava, era uma loucura.
Marcus Incrédulo: Você esta de brincadeira comigo? Liz age como se não compreendesse. O que você veio fazer aqui?
Liz Ingênua: Arrumar um emprego!
Marcus: Arrumar um emprego para fazer o que?
Liz: Para trabalhar no teatro.
Marcus: De atriz?  Por acaso você é atriz?
Liz: Não... Na verdade não, eu estava passando ali na calçada, e ai eu me lembrei da minha tia, que sempre sonhou que eu fosse atriz, então eu pensei, porque não?
Marcus Coloca as pasta numa bolsa: Pois pensou errado. Eu não sei exatamente qual era a visão que a sua tia do teatro, mas eu te garanto que é muito mais que apenas um merchan de produtos de cosméticos. Vai saindo.
Liz: Não, por favor, me da uma chance, eu posso te provar que vai valer a pena, eu nunca fiz teatro, mas sou uma ótima atriz, eu sempre menti a minha vida inteira, eu finjo bem, deixa eu te mostrar. Marcus se mantém reluntante, sempre dizendo não. Eu posso ser quem você quiser. Quem você quer que eu seja hoje? Pergunta puxando a fotografia da mulher que ele segurava. Essa aqui, eu posso ser ela.
Marcus: Pausa. Ela você não pode ser nunca. Não é nada pessoal... É só uma questão de tempo, de cronograma, agenda, você entende?
Liz permanece em silêncio.
Marcus vai saindo, quando Liz começa a cantarolar uma música. Ele para, volta-se para ela, caminha em sua direção quase que num ritual hipnótico.
Marcus Sussurro: O que você esta fazendo? Silêncio de Liz, que não houve, ou fingi não ouvir. Marcus insisti. O que você esta fazendo?
Liz: Estou pegando minhas coisas.
Marcus: Não. Não perguntei isso. Estou falando da desta música que estava murmurando.
Liz Pegando seu casaco e saindo nervosa: Cara, não precisa invocar, já estou de saída, já entendi você me explicou tudo Repetindo a justificativa anterior de Marcus. Você não tem tempo a perder, não é nada pessoal, é só uma questão de cronograma, entende? Entendo, entendo sim, é claro que entendo. Pausa. Quer saber eu não entendo porra nenhuma, vocês diretores são todos iguais, eu sei bem como rolam as coisas por aqui. Já ouvi varias histórias, vocês vem com esse papo furado, com essa conversinha de atriz sem talento ou você não atinge a essência cataclísmica da personagem, você não tem psique du role. FODA-SE! Isso tudo é só pra ver se conseguem um boquete, teste do sofá, faz assim faz assado, tira a blusa, tira a saia, tira a roupa toda, vem aqui, senta aqui, quero te ver melhor, sentir a sua energia de mais perto, e ai quando a gente percebe pumba! E você ouve a clássica resposta, parabéns, você foi ótima, a produção te liga e você já era neverrr, nunca mais!
Marcus Interrompe sereno: É bonita!
Liz: O que?
Marcus: A música que estava cantando, eu disse que ela é bonita, eu só estava falando da música.
Liz desconcertante A música?
Marcus: Sim. A música é linda!
Liz: Então quer dizer que isso não é um jogo?
Marcus: Não.
Liz: Então você não esta a fim de me comer?
Marcus: Nãooo! Sim, quer dizer, você entendeu.
Liz: Desculpe, eu estou te deixando desconfortável. Mas não é de propósito não, eu já te falei né, é aquele meu problema, que quando eu...
Marcus Interrompendo: Já sei. Repete a fala dela. Quando você fica ansiosa, você fala sem parar, antes você soluçava. Pausa. Estou tentando imaginar a cena de você nervosa, ansiosa, falando rápido e soluçando sem parar. Devia ser engraçado.
Liz Seria: Honestamente eu não acho nada engraçado!
Marcus: Calma é só uma observação, sem nenhuma intenção de te ofender.
Liz: Sei tudo é engraçado desde que aconteça com outro, não é?
Marcus: Porque você é assim?
Liz: Assim como?
Marcus: Assim... Vive na defensiva!
Liz Concordando: Desculpe.
Marcus: Você não deveria pedir tantas desculpas.
Liz: Mas então, você me falava antes daquela música, àquela música que você acha bonita.
Marcus: Acalanto para Helena. É do Chico!
Liz: Sim, eu sei. Minha mãe costumava cantar ela para mim.
Marcus: Esta musica me traz muitas recordações.
Liz: Espero que sejam recordações boas

Marcus: Os sonhos que vivem em mim, os sentimentos que ninguém conhece as memórias que jamais serão esquecidas... São os meus fragmentos de vida! É como se eu ficasse cercado o tempo todo por porta-retratos e eles fazem o passado continuar sempre tão presente.
Liz: Nunca tentei bloquear as memórias do passado, embora algumas sejam dolorosas. Não entendo porque as pessoas que se escondem ou tentam fugir de seu passado. Tudo o que você viveu fez de você a pessoa que você é agora.
Marcus: Você já imaginou a dor de perder quem você ama? Tenho certeza que é como se levassem um pedaço de você, como se te batessem sem dó. Você já parou pra pensar que neste momento há milhões de pessoas se despedindo e tendo seu ultimo momento com quem ama?! Despedidas não são fáceis, elas doem sim! Mesmo quando sabemos que aquela pessoa pode voltar, nós ficamos sem rumo, sem saber pra onde correr ou no colo de quem chorar. São vários os motivos de uma despedida, mas e se o motivo for sua fraqueza? Você vai agir de que maneira, sabendo que a culpa é sua
Liz: E porque você não vai atrás, explica, conversa, quem sabe...
Marcus: Se eu soubesse onde encontrar, talvez eu fizesse isso.
Liz: Você precisa de terapia. Marcus a olha com recriminação. É serio, eu mesma fiz durante anos, a terapia fez um bem enorme pra mim, me libertou. Você é um homem preso dentro de sim mesmo.
Marcus ri.
Liz: Porque esta rindo?
Marcus: A sua frase é muito clichê... Você é um homem preso dentro de si mesmo. Parece um dramalhão.
Liz: Olha com base em tudo que você me disse até agora, esta frase pode até ser clichê, ou parecer uma cena de novela mexicana, mas que representa bem como você esta no momento, isso você não pode negar.
Marcus Sarcástico: Obrigado doutora, a sua terapia me fez muito bem, me sinto totalmente curado e liberto, não sou mais um homem preso dentro de mim mesmo.
Liz: Nossa, não sabia que você tinha senso de humor, agora você quase me convenceu que é engraçado.
Marcus: Olha Pensativo. Façamos o seguinte, vamos deixar esses ataques para depois e fazer o teste.
Liz: Você vai me deixar fazer?
Marcus: Sim, não tem outro jeito mesmo.
Liz comemora.
Marcus: Já ouviu falar do mito de Helena de Troia?
Liz: A mulher que provocou uma guerra. Marcus se surpreende. Esta surpreso? Intimidando. Também acha que eu sou burra.
Marcus desvia se de Liz tentando escapar evitando um confronto, corre para a sua mesa de trabalho e começa a projetar na parede varias imagens de Helena de Troia enquanto narra à história em de forma dramática. Além das imagens, efeitos de luz, sombras podem ser incluídos a cena.
Marcus: O rapto de Helena, que a mitologia grega descrevia como a mais bela das mulheres, desencadeou a lendária guerra de Tróia. Personagem da Ilíada e da Odisseia, Helena era filha de Zeus e da mortal Leda, esta esposa de Tíndaro, rei de Esparta. Ainda menina, Helena foi raptada por Teseu, depois libertada e levada de volta para Esparta por seus irmãos Castor e Pólux. Para evitar uma disputa entre os muitos pretendentes, Tíndaro fez com que todos jurassem respeitar a escolha da filha. Ela se casou com Menelau, rei de Esparta, irmão mais novo de Agamenon, que se casara com uma irmã de Helena, Clitemnestra. Helena, contudo, abandonou o marido para fugir com Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. Os chefes gregos, solidários com Menelau, organizaram uma expedição punitiva contra Tróia que originou uma guerra de sete anos de duração. Após a morte de Páris em combate, Helena casou-se com seu cunhado Deífobo, a quem atraiçoou quando da queda de Tróia, entregando-o a Menelau, que a retomou por esposa. Juntos voltaram a Esparta, onde viveram até a morte. Foram enterrados em Terapne, na Lacônia. Segundo outra versão da lenda, Helena sobreviveu ao marido e foi expulsa da cidade pelos enteados. Fugiu para Rodes, onde foi enforcada pela rainha Polixo, que perdera o marido na guerra de Tróia. Helena foi adorada como deusa da beleza em Terapne e diversos outros pontos do mundo grego. Sua lenda foi tomada como tema de grandes poetas da literatura ocidental, de Homero e Virgílio a Goethe e Giraudoux. Marcus recita em tom trágico.
Paris raptou Helena
E em Tróia se refugiou Menelau pai da melena Toda Tróia sitiou...
Era grande a fortaleza Que a Grécia tanto atacou Pra resgatar a princesa Que Paris escravizou...
Por fim, deram em retirada. Deixando Helena guardada.
E um cavalo de madeira... Na entrada da cidade Provoca curiosidade
Nos troianos sem bandeira...
Liz Aplaude efusivamente: Bravo, bravo!
Marcus Retraído: Bobagem, não foi nada demais.
Liz: Foi sim, foi lindo, minha mãe sempre me falava que você era um grande ator.
Marcus: Sua mãe?
Liz: Sim, ela adorava teatro, sempre ia as suas peças, ela também sonhava em ser atriz.
Marcus: Sonhava?
Liz: Ela está morta!
Marcus: Desculpe.
Liz: Esta tudo bem. Morrer também faz parte do espetáculo. Marcus: Às vezes olhando pra você...
Liz: O que?
Marcus: Eu tenho a impressão de que... Nada. Liz insiste. Já disse não é nada, foi só um devaneio. Mas sua mãe tinha razão quando dizia que eu era um grande ator, qualquer visão otimista sobre mim ficou no passado.
Liz: Alem de pessimista você também é um tanto mórbido em suas escolhas dramatúrgicas. Marcus não entende a colocação. Essa sua preferência em montar peças trágicas carregadas de personagens femininas cheias de complexos e psicologicamente perturbadas.
Marcus Interessado: Por exemplo.
Liz: Ema Bovary, Capitu, Nastácia Filíppovna, Molly Bloom, Ofélia, a própria Macabea que final mais trágico foi aquele.
Marcus: Pelo visto você leu o meu curriculo.
Liz: Esta é uma das funções da atriz, estudar a pesonagem.
Marcus: Sim. Mas te respondendo, todas elas me fascinam, são personagens que nos emocionam, confundem- nos e que pelas quais nos apaixonamos. Até Flaubert ao se defender em tribunal, quando perguntado quem era a sua protagonista de Madame Bovary, disse: “Ema Bovary sou eu”. Ri e conclui reflexivo. Essas mulheres todas me causam um efeito arrebatador, a mulher em sua natureza é a substância tal, que, por mais que a estudes, sempre encontrarás nela alguma coisa totalmente nova.
Liz: Também é um galanteador. Insinuante. Esta tentando me seduzir diretor.
Os dois estão bem próximos, corpo a corpo, cara a cara.
Marcus: Isso é uma pergunta ou é uma sugestão?
Liz: Qual das duas respostas poderá me garantir o papel?
Marcus: Isto aqui é teatro, você é uma mulher tentando ser atriz, terá que encontrar um caminho e decidir por ele... Afasta-se.
Liz: Estou intrigada. Pausa longa.
Marcus: Se deseja me perguntar algo pergunte.
Liz: Você disse que as personagens femininas te fascinam, te emocionam, te confundem e que depois se apaixona. Isso já aconteceu com você?
Marcus: Quer saber se eu já me apaixonei por uma atriz? Ri. Mas é claro, isso é quase um clichê.
Liz: Você fala de um jeito como se em toda peça você tivesse tido um caso com umas das atrizes de seu elenco. Esse tipo combina bem com você!
Marcus: Não que isso seja da sua conta, mas nunca fui um cara de muitas mulheres.
Liz Inquisidora: Não acredito, você tem aquele estilo Bukowski de ser, só que de uma forma glaumorizada, fascinante, atraente eu diria que é um charme. Gosta de criar a imagem do homem que tem uma predisposição para o fracasso, uma ternura pelos perdedores e excluídos. Vive com um cigarro e um copo de uísque na mão.,. Mas tudo isso é uma representação, a poética marginal só é bonita na literatura, no cinema, no mundo real ninguém gosta de pobreza e fracasso. Tá se escondendo do quê?
Marcus: Eu não vivo a minha vida como num palco, não sou um personagem. Você não me conhece, não pode chegar aqui como no tribunal me acusando de ser um fingidor.
Liz: E não somos todos?
Marcus: Aonde exatamente você quer chegar com tudo isso?
Liz Debochada:O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
Marcus: Você comete o mesmo erro de tantos outros, a sua capacidade de comunicação dos homens é muito relativa, a linguagem, em vez de ser o elo entre as pessoas, pode se transformar em uma terrível fonte de mal entendidos.
Liz: Disso você entende bem, fez da sua própria vida uma tragédia humana.
Marcus: Garota, a tua opinião ao meu respeito é dispensável. Se um dia eu achar que preciso de terapia, pode deixar que procuro os conselhos de uma profissional.
Liz: Deveria levar em consideração os meus, pelo menos são de graça.
Marcus: Você é a típica psicóloga de botequim, entre uma bebida e outra, adora cuspir sabedoria, mas não entende porra nenhuma de nada. Fala que tenho problemas, gostos peculiares, mas e você? Entrou por essa porta sem saber ao certo o que veio fazer. Daí você começa a me confrontar sem nenhum motivo aparente, fica tentando me analisar como se fosse a própria Emma Jung. Acho que talvez você precise de ajuda, só que veio ao lugar errado, teatro não é terapia, isso aqui não cura nada. Pausa. É só olhar para mim. Marcus vai saindo.
Liz: Aonde você vai?
Marcus: Embora, eu já estava fazendo isso quando você chegou.
Liz: Mas e o teste? Você me prometeu.
Marcus: Eu não te prometi nada, eu disse que te daria uma chance eu te dei e você jogou fora.
Liz: Poxa, não seja tão radical, a gente só esta se conhecendo, faz parte do primeiro contato. Tentando descontrair. Era pra quebrar o gelo, no teatro tem isso não tem?  Essas coisas que vocês fazem pra ter mais entrosamento, como chama mesmo?
Marcus: Jogos
Liz: Isso, a gente esta jogando. Imita um drible. Batendo uma bola.
Marcus: É o seguinte, se você esta afim mesmo de fazer o teste é para levar a serio, sem esse papo de psicanálise.
Liz: Eu prometo que agora eu vou focar, sem distração, só foco, foco. Começa a fazer uma sequencia de respiração de forma exagerada. Uma vez eu estava assistindo TV e vi uma atriz fazendo isso antes de entrar em cena, ela disse que era bom para manter a concentração.
Marcus: Ok, mas agora esqueça o que essa atriz falou e vamos começar pelo começo, tudo bem?
Liz: Claro você é o diretor.
Marcus: A Helena que vamos retratar no palco é a Helena descrita por Eurípides que foge totalmente da maneira que outros dramaturgos a representaram. Esta peça de Eurípides baseia-se numa curiosa premissa, a possibilidade de Helena, a esposa de Menelau, nunca ter ido para Tróia. Através da influência divina de Hera foi criada uma segunda "Helena", um espectro da original, e teria sido essa a levada por Páris, enquanto que a verdadeira estava a viver no Egito. É nesse local que, após o final da Guerra de Tróia, Menelau viria a reencontrá-la, e é desse reencontro que fala o texto.
Liz: Eu fico tentando imaginar qual poder essa mulher possuía para ter provocado uma guerra.
Marcus: Em 1885 o pintor inglês Edwin Long concluía certa tela intitulada A cinco escolhidas na qual dava cores a cena em que Zeuxis, conhecido pintor do século V a.C preparava-se para pintar um retrato de Helena de Troia para o templo de Hera. Para tanto o artista solicitara as cinco mais belas jovens da região para servirem de modelo, pois acreditava que a soma da beleza delas poderia aproximar-se da de Helena.
Liz: Nossa quanto exagero, a julgar pelas imagens que eu vi o padrão de beleza daquela época era bem baixo.
Marcus: Long materializou a busca por aquela que é conhecida há milênios como um símbolo de beleza e também como advertência sobre as terríveis consequências que a beleza é capaz de trazer. Pelos seus belos olhos de morte, os homens não acabaram ainda de se matar nem ainda as cidades de arder.
Liz: E porque não mataram ela de uma vez e evitaram toda essa tragédia.
Marcus: Porque é justamente isso que torna Helena uma personagem fascinante, o mistério que envolve a sua história, ela tinha uma alma contraditória, não se pode chamá-la de devassa, tampouco virtuosa. Não era sábia, mas nada tinha de obtusa. Embora passasse por muitos momentos de fragilidade e de culpa, imediatamente se recompunha para afirmar a sua independência. Submetida à lei dos homens, criava e afirmava seus direitos de mulher. Daí ser difícil, senão impossível, contê-la em uma definição suscita e coerente, ou tentar entender porque não tomaram tal decisão contra ela. É complexa porque são três Helenas, a princesa, a deusa e a prostituta.
Liz: Tem uma pergunta que queria muito fazer.
Marcus: Pergunte.
Liz: É pessoal.
Marcus: Discrição não é o seu forte, pergunte logo.
Liz: Você ficou 20 anos sem trabalhar, fora dos palcos, sem dirigir nada. Por quê?
Marcus se abala com a pergunta, esta incomodado, olha de um lado para o outro.
Liz: Desculpe, não precisa responder, é claro que você deve ter tido um bom motivo para se manter afastado. Isso não é da minha conta.
Marcus: Para quem não é atriz, para quem estava só passando por aqui e resolveu entrar, você esta muito bem informada sobre mim.
Liz: E eu já disse que estudei bem a personagem e também tinha a minha mãe que era sua fã. Ela sabia tudo de você.
Marcus: Quem exatamente era sua mãe?
Liz: Minha mãe adorava ficar observando a chuva cair. Gostava de ver como as gotas caiam uma depois da outra e se espalhavam no chão. Poucas vezes eu a vi sorrindo e quando ela sorria era porque o céu já tinha começado a chorar. Eu também nunca a vi chorando, quando a chuva vinha ela corria pra dançar no meio dela, eu acho que as lagrimas se misturavam as gotas e eu não percebia, porque tudo era muito igual. Um dia a chuva parou e não choveu mais e eu nunca mais voltei a ve-la sorrindo.  Ela foi embora junto com a chuva.
Marcus percebe que Liz esta emocionada e tenta provoca-la.
Marcus: Aproveita este momento e leva isso pra cena que vamos fazer agora. Conduz Liz a um praticável que esta no palco. Não condene ou julgue Helena, este não é o seu papel, saber se ela foi vitima ou culpada não é o caminho. Entrega um papel a Liz.
Liz Respira profundamente:
Ó despojo de barco bárbaro, Jovens filhas de Hélade, Um marinheiro aqueu
Veio até aqui, aqui veio e trouxe-me lágrimas sobre lágrimas. Os escombros de Ílion
Pasto do fogo destruidor,
Por causa de mim, fonte de tanta morte,
Por causa do meu nome, que tanta dor provoca:
Leda por enforcamento, Deu-se a morte, torturada.
Marcus a interrompe irritado e pede para que ela faça de novo. Esta cena deve ser repetida umas duas vezes e sempre numa crescente tensão. Liz esta nervosa e quase chorando.
Marcus: Mas que porra, não consegue nem ler a droga de um texto.
Liz: Eu disse que eu não era atriz.
Marcus: Então veio fazer o que aqui? Hã, chorar, pra ver se sinto pena do drama da minha amada mãe morta? Que foi embora e não voltou? Isso aqui é teatro porra, é vida, é movimento, suor, sangue.
Liz: Deixa a minha mãe fora disso, ela não teve culpa!
Marcus: E a culpa então é minha?
Liz Solta um grito magoado: É... É sua culpa, é sua culpa, é sua culpa...
Longa pausa, um silêncio fúnebre, os dois se entreolham, Liz volta a repetir o texto com uma força esmagadora.
Liz Respiração ofegante:
Ó despojo de barco bárbaro, Jovens filhas de Hélade, Um marinheiro aqueu
Veio até aqui, aqui veio e trouxe-me lágrimas sobre lágrimas. Os escombros de Ílion
Pasto do fogo destruidor,
Por causa de mim, fonte de tanta morte,
Por causa do meu nome, que tanta dor provoca:
Leda por enforcamento, Deu-se a morte, torturada.
De mágoas com vergonha de mim,
O meu marido, que longo tempo errou No mar, teve morte funesta,
E Castor e o seu irmão, Gêmea glória pátria,
Desapareceram, desapareceram, deixando
As calçadas, que ressoam com os cavalos, e os ginásios Que marginam as correntes do Eurotas
E onde se afadiga a juventude
Vozes de um coro em off, Marcus inebriante repete cada palavra
Coro/ Marcus :
Ai! Ai! É divindade cheia de lamentos, A tua sorte, mulher.
Vida infortunada
Te destinou, te destinou a sorte, quando em tua mãe te gerou, Sob a alva cor de cisne,
Zeus que fendia o ar.
E quantas desgraças te aconteceram! Quanta desfortuna ao longo da vida! Tua mãe esta morta. Repete três vezes.
Liz grita e cai de joelhos em prantos. Marcus caminha em sua direção e a toma em seus braços. Liz o abraça forte de um jeito que sempre desejou. Toca música. Os dois ficam abraçados por um longo tempo.
Marcus: Um dia Helena entrou por aquela porta, estava vestida de raio de sol, como o seu próprio nome já diz. Helena era atriz e sonhava um dia ir para Hollywood ser estrela de cinema. Eu ria de Helena, achava bonita a forma como falava do seu sonho e achava mais bonito ver como ela lutava pelo seu sonho. Eu tentava fazer ela desistir dessa ideia de ir embora do Brasil ser artista. “Poxa Helena fica” eu dizia, e ela me pedia para sempre repetir: “Pede para eu ficar, pede” gostava de ouvir e eu repetia todas as vezes que ela pedia: “Fica, fica”. Helena era vaidosa, adorava receber elogios e ouvir o quanto ela era importante para alguém. “Se você quiser eu fico” ela dizia e eu respondia: “Para sempre?”, “Pelo tempo que durar.” Ela me falava beijando o meu nariz. Helena adora dançar bolero me tirava pra dançar sempre que ouvia a sua música favorita Perfídia: “Amor esta tocando a minha música, vem.” em qualquer lugar, ela parava tudo para eu dançar com ela: “Dança comigo Marcus, meu amor” e a gente ficava grudadinho dançando por horas como se o mundo ao redor não existisse.
3ª Cena
Enquanto minha guitarra gentilmente chora
Liz e Marcus dançam ao som do bolero. A cena é carregada de romantismo e sensualidade, principalmente por parte de Liz que o mantém envolvido em um jogo de sedução a cada passo erotizado. A dança é interrompida por Marcus.
Marcus: Um dia começamos a ensaiar essa mesma peça Helena de Eurípides, eu tinha a atriz perfeita para o papel. Helena era uma grande atriz, e fazia tudo com muita verdade cênica, vivia intensamente cada papel, às vezes era difícil distinguir a atriz da personagem, eu não sabia onde começava uma e terminava outra. Foi um processo doloroso e complicado, Helena começou a achar que não era a atriz ideal para o papel que ela não conseguiria atingir a essência do personagem. Helena era o tipo de atriz que se despia de si mesma para entregar-se de corpo e alma. Ela dizia: Eu preciso morrer para viver. Brigamos e discutimos varias vezes, e palavras são palavras, elas não se vão com o vento e nem se apagam como uma nuvem de fumaça. Nunca tínhamos brigado daquele jeito, mas ela estava atrasando toda a montagem com suas crises, seus atrasos, sua ausência, ela dizia que só começaria a ensaiar quando conseguisse encontrar a personagem. Mas essa descoberta demorou muito e cada dia era pior que o outro. Até que cheguei ao meu limite e tomei a decisão que me arrependerei para o resto da minha vida, eu coloquei outra atriz em seu lugar, quando Helena soube saiu quebrando tudo que estava a sua volta, me agrediu e gritava: “Traidor, traidor... Você me fez acreditar que eu podia ser quem eu quisesse!”.
Liz: Você foi muito cruel, se preocupou apenas com a sua pecinha ridícula, Helena tinha toda razão quando te chamou de traidor. Você a envolveu no seu espetáculo de mentira, a fez acreditar que poderia e depois a descartou como se fosse um objeto qualquer. Não respeitou o seu tempo, o seu espaço.
Marcus: Você não sabe o que esta dizendo, não estava lá, não viveu o que eu vivi.
Liz: Eu já estava lá sim, eu vivi cada momento, cada instante, passei as noites sem dormir junto com ela, eu chorava junto com ela, sofria junto com ela, eu podia sentir.
Marcus: Você esta louca, quer saber vai embora daqui, vai embora, perdi tempo demais com você.
Liz: Não, não. Dessa vez, não!
Marcus Cínico: Ok, então vou eu.
Liz Entrando na frente dele: Você não ouviu o que eu disse? Você fica!
Marcus: Garota você esta perturbada, eu não posso ajudá-la.
Liz começa a falar como se fosse a Helena tentando confundi-lo.
Liz: Você nunca me ajudou, você deixou que eu escapasse tão facilmente. Por que Marcus, por que você não me pediu para ficar? Eu te amava tanto, eu só queria ser atriz, porque você me dizia que eu era boa, que eu era a sua estrela, você lembra Marcus? Lembra quando passávamos horas aqui neste teatro, brincávamos de personagens românticos foram tantas as Julietas que vivi, morríamos e renascíamos o tempo todo era tão bom.
Marcus: Você que é cruel. Como ousa brincar com minhas lembranças?
Liz: Você brincou com os meus sentimentos, acha que isso é pouco? Você me matou, tem sangue escorrendo pelas tuas mãos, na tua boca, nos teus olhos. Eu não pulei daquele prédio, você me empurrou.
Marcus: Porque você esta fazendo isso, porque você esta fazendo isso! Marcus empurra Liz que sai rodopiando rindo com uma doce loucura e começa a cantarolar uma canção de ninar. Enquanto ele cai de joelhos em prantos e implora para que ela pare.
Liz Frenética: Marcus me ajuda eu estou caindo, eu estou caindo, me ajuda Marcus. Liz rodopia cada vez mais forte, ergue os braços para que ele a segure. Marcus sai correndo em sua direção e a abraça forte.
Marcus Entrega-se: Pronto meu amor, você esta segura agora. Não vou deixa-la cair não vou deixar você partir nunca mais.
Liz: Lembra-se do nosso último encontro? No cruzamento da Rua da Despedida com a Avenida Saudade? Aquela foi a nossa última vez.
Marcus: Sim, um dia depois do ensaio recebi um bilhete seu para que a encontrasse mais tarde naquele local. Era um dia frio e caia uma garoa fina, você estava com a mesma roupa que você veste agora e segurava um guarda chuva vinho, estava linda como sempre foi. Quando me avistou, fez uma pose e eu registrei com a minha Polaroid modelo 95. Aquela fotografia foi à última lembrança que guardei de você. Não podia imaginar que aquele seria o nosso último encontro, se eu pudesse...
Liz: Você teria me pedido para ficar?
Marcus: Eu não teria feito nada do que fiz, apertaria-te em meus braços como agora e não deixaria você escapar.
Liz: Você lembra por que eu fui te procurar?
Marcus: Você foi se despedir, estava triste, sem aquele seu brilho costumeiro, aquele seu jeito de falar que me encantava você disse que iria fazer uma longa viagem. Perguntei para onde iria e você respondeu.
Liz: Kiribati.
Marcus: Achei engraçado e sorri. E ai você me perguntou?
Liz: Você sabe onde fica Kiribati? Kiribati é uma ilha que fica no meio do oceano Pacífico, cortado pela Linha do Equador. Você sabia que este é o país menos visitado do mundo e que por causa do seu fuso horário o ano novo sempre começa primeiro lá? Dizem que daqui a alguns anos Kiribati irá desaparecer por causa o aumento do volume do mar, talvez este seja um bom lugar para eu me esconder.
Marcus: Depois de me dizer isso, você fechou o guarda chuva e cruzou a esquina e desapareceu no meio da multidão. Pausa. Ah, Helena você não imagina como eu me arrependo de tudo aquilo, fui egoísta demais, me perdoa meu amor. Mas agora estamos juntos novamente e poderemos recomeçar.
Liz Afastando-se: Seu pedido de perdão veio tarde demais para apagar tudo que você me fez e essa mágoa guardada aqui dentro do meu coração me mostra a cada dia o quanto me enganei por ter confiado que você.
Marcus: Eu sei que nos magoamos. Eu sei que você guarda essa mágoa que eu lhe causei, mas eu também guardo algumas suas. Não importa saber quem errou. No amor, não tem culpados. E sim, erros a serem concertados. A mágoa passa, o amor fica. A dor que fica o amor modifica. A tristeza que nos transparece, um abraço simplifica. Não adianta se afastar fugir de mim, vou até você, vou te encontrar. Vou olhar nos teus olhos, sorrir, dizer um "oi" tímido, talvez eu te ligue avisando que cheguei talvez eu tente encontrar você por aí. Ou nem isso nem aquilo...
Liz volta a ser ela. Desta cena em diante Liz assume uma postura de vingança explicita em suas falas e ações.
Liz: Chega, chega... Helena esta morta!
Marcus: Não você esta aqui meu amor, você voltou para ficar comigo!
Liz: Não seja estúpido. Eu não sou Helena eu sou parte dela.
Marcus: Tudo bem eu aceito, eu mereço este castigo, mas agora podemos recomeçar. Olha estou montando a sua peça, aquela que só você poderia ter feito mais ninguém, mais ninguém. Liz da um tapa em Marcus.
Liz: Quando ela partiu e você não fez nada para impedi-la, alguns meses depois... Pausa. Eu nasci. Marcus a olha com um assombro espantoso vai se afastando. Ela me contava histórias do tempo em que era atriz, me falava de você com ternura e rancor. Você sabia que Helena não gostava dos domingos “Os domingos à tarde são horríveis!”, ela dizia. “Insuportáveis!” Você sabia que Helena desistiu de ser atriz, porque você a fez desistir? Você sabia que Helena passou anos e anos tomando remédios atrás de remédios porque não conseguia mais viver sem eles? Você sabia que você não matou apenas Helena, mas também me roubou o direito de conhecê-la por inteiro.
Marcus: Eu não sabia, eu não sabia...
Liz Sádica: Não tem problema eu vou te contar como aconteceu como Helena morreu.
Marcus Tapando os ouvidos: Eu não quero ouvir. Liz começa a contar a história, Marcus caminha de um lado a outro, tentando abstrair o que ouve. Liz permanece insistente o perseguindo o tempo inteiro. Marcus num ímpeto, junta Liz pelos braços e grita de forma monstruosa. Eu não quero ouvir! Liz continua com frieza.
Liz: E lá estava ela. Olhando a chuva cair pesadamente da janela de seu quarto, no décimo quinto andar. E sobre a cama estavam fotos espalhadas, cartas rasgadas, cinzas de cigarros, copos de bebidas... E no radio tocava 'While My Guitar Gently Weeps', dos Beatles. Ela subiu na janela do décimo quinto andar com o cabelo desgrenhado, a roupa molhada de vodca e lágrimas, Helena saltou. Alguns segundos depois o seu corpo  estava estirado no chão da cidade, com a chuva a lavar seu sangue.
Marcus cai de joelhos aos pés de Liz.
Liz: Eu passei esses anos todos querendo saber o porquê, Pausa, mas isso agora não me importa mais. A vida nos reservou outro desfecho este drama tinha que terminar assim. Você me perguntou o que eu exatamente vim fazer aqui. Liz se agacha segurando o rosto de Marcus. Eu só queria olhar para você por uma única vez e descobrir que aquela velha fotografia desbotada correspondia a um pai.
Marcus: Será que o silencio pode responder as perguntas falantes que se calam? Qual indagação tem o poder de conseguir arrancar as respostas que insistem em ficarem sepultadas em covas fundas de desprezos rasos? Liz levanta-se vai até sua bolsa e retira um envelope.
Liz: Eu encontrei nas coisas dela uma carta endereçada a você que ela nunca entregou esta aqui. Entrega lhe a carta. Espero sinceramente que depois você faça a única coisa digna que se espera. Sorri sarcástica. Boa noite, papai!
Liz caminha lentamente para a porta olha para trás volta e pega o guarda chuva vinho que tinha esquecido.
Liz Abrindo o guarda-chuva: Esta chovendo lá fora.
Alguns instantes depois some na escuridão do palco. Marcus ainda transtornado pelas emoções das revelações que acabara de receber senta sobre um praticável e se entrega a tragicidade que a vida lhe reservou. Marcus abre a carta e começa a ler. Helena esta no fundo do palco com apenas um feixe de luz a iluminando como uma figura sublime.
Helena: O amor definiu-me. Fechos os olhos e tudo em mim é amor, tudo são memórias, tudo são recordações. Fui amaldiçoada à nascença com este temperamento que me bloqueia as artérias, por momentos o oxigênio escasseia e o amor morre, mas o meu amor é uma fênix, morre e renasce com a mesma intensidade de segundos atrás. Entrei num carrossel desconhecido e descobri que afinal o desconhecido é o meu abrigo, não pertenço a lado nenhum e ao mesmo tempo pertenço a todo o lado. Tenho o corpo preso e a mente liberta. Escalei os picos mais altos do carrossel e não me aguentei, entrei em queda livre sem ponto de chegada, perdi o meu rumo e os meus sentimentos mergulharam nas trevas. Dominava-me a angústia, a tristeza e a vergonha,tinha vergonha daquilo que me tornei. Aprendi que realmente eu queria-te muito, mas na verdade nunca precisei de ti. Hoje encontrei a resposta – não preciso de ti, o amor deve acalmar e não fazer-me morrer como tu me fizeste. Um segundo antes de morrer, a minha vida passou-me pela frente, pelo menos imaginei isso. Espero que seja verdade, espero que seja verdade todos os álbuns de fotos que passaram de cada segundo que vivi, para saber que realmente eu estive ali, que existiu, que eu vivi. Todos esses segundos repetidos ao longo de todas as minhas mortes serviram para me preparar, ninguém pensa que vai morrer, pelo menos acho que ninguém pensa. Aquele segundo é o tempo para dizer adeus, estou farta de dizer adeus, não quero este amor que morre e renasce, não quero este amor que me mata. Finalmente esta peça acabou é triste quando a personagem morre no final, você não acha?
Marcus mergulhado nas profundezas da alma humana onde o desespero habita, retira do envelope que Liz o havia entregado junto com a carta uma arma. Olha fixo para plateia.
Marcus Para a plateia: Façam soar as trombetas da morte e anunciem a minha passagem. Um grito ecoa pelo teatro. Helenaaaa!
Luz apaga gradativamente. 
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Atualizado em: Qui 19 Mar 2020

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