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Mirus

Tragédia em um ato

PERSONAGENS



Mirus da Silva – Poeta do morro Ítaca que luta por paz
Antônio da Silva – Pai de Mirus
Ulisses – Milionário que manda no morro Ítaca durante o dia
Morfeu – Traficante que manda no morro Ítaca à noite
O mestre - Conselheiro velho do morro Ítaca
Natcha – Inocente e tímida, a mais linda mulata do morro Ítaca, paixão platônica de Mirus
Carola – Mulher vulgar do morro Ítaca, apaixonada por Mirus
Mano – Melhor amigo de Mirus
Zé Trinda – Homem de Ulisses no morro Ítaca
Nelson – Dono do botequim
Xavier, Juca e Chico – trio de sambistas e boêmios do morro Ítaca
Maria – Lavadeira do morro Ítaca, compositora de valsinhas improvisadas


TEMPO

Presente


AÇÃO

Uma morro chamado Ítaca














Cena

O morro Ítaca, com um botequim à esquerda, com portas fechadas, e três cadeiras à porta. Várias casas ao fundo e uma com a luz acesa bem no fundo, como se fosse no alto do morro. À direita do palco um casebre com uma cadeira de balanço, solitária , de frente ao bar. Ao fundo a luz do resto da cidade. Três bêbados vindos do botequim cantarolam um sambinha, tropeçando morro adentro.

Xavier, Juca e Chico(cantarolando)

Aquela mulher não vale nada
Minha vida, minha paixão
Queria vê-la morta e enterrada
Pra modi chorar com razão.

(entra Morfeu, com passos lentos, enquanto soa uma música sombria)

Morfeu

Vão para seus casebres, antes que eu os faça dormir para sempre. Na noite do morro Ítaca quem manda sou eu.

(os sambista boêmios se calam, correm numa disparada e somem morro adentro. A luz escurece, Morfeu reina sozinho na noite. Escurece completamente. Amanhecendo, e Morfeu não está mais em cena)

Voz de Mirus

De tanto procurar uma paixão
Enfim a encontraste, e tu
Lapidaste meu frio coração
Trovas e poesias ofereço,
Envaideço ainda mais a tua beleza.
Alimento a esperança de ter
Minha pequena amada ao meu lado.
Ósculos e Amplexos, meu amor!

( Nelson entra em cena vindo do fundo do morro, e abre o botequim, logo o Mestre aparece e senta na velha cadeira de balanço à frente de sua casa)
Nelson

Fala aí Mestre, algum conselho bom pra mim ficá mais rico hoje? (ri ironicamente)

O Mestre

Rico é o homem que sabe que nada sabe e vive como o mar, está sempre abaixo de todos os rios, e exatamente por isso recebe tudo que eles tem para lhe ofertar. (respira fundo) A cada dia está maior, recebendo sempre algo novo.

Nelson

É verdade, Mestre, que você foi professor no Municipal, e ensinou para Mirus literatura e aquela baboseira de poesia? Hoje de manhã logo cedo deu pra ouvir ele gritando algo.

O Mestre

É verdade, lecionei no Municipal sim, e ensinei um pouco de literatura e poesia ao jovem Mirus. Passei-lhe alguns de meus livros de Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Alvares de Azevedo, Cecília Meireles.(pausa) Ah! Foram tantos, a maioria ele nem me devolveu. Só não admito ouvir você se referir a essa maneira da poesia, uma das formas do coração falar.(tira do bolso um cachimbo, coloca o fumo, dá uma forte inspirada para limpar o catarro do pulmão e acende o cachimbo) Ouvi Mirus (com ênfase) recitando uma linda estrofe hoje de manhã, (dá uma forte tragada no cachimbo) deve ter acordado apaixonado, com o coração cheio de vontade de se manifestar. (para si mesmo) É jovem Mirus, se tira essa idéia idiota de querer acabar com a briga do morro, saía daqui e ia morar num lugar decente, logo seria um grande poeta consagrado.


(chegam do fundo do morro Mirus e Antônio, indo em direção ao botequim)



Antônio

Esquece dessa idéia de se apaixonar meu filho, só traz angústia e sofrimento. Num vê o meu caso, depois que sua mãe morreu a minha vida não faz mais sentido. Ah! Quem dera nem tê-la conhecido.

Mirus

Fala assim não velho Silva, assim cê até me magoa, se não tu tinha tido esse teu filhão maravilhoso aqui que te ama tanto. (beija a testa do pai e sai correndo em direção ao mestre)

Antônio

Nelson, me dá uma daquelas arretadas!

O Mestre

O que há de novo meu jovem discípulo? Por que de tanta alegria? Ouvi recitando hoje antes mesmo do galo cantar.

Mirus

São duas notícias ótimas Mestre. Tem um senhor, dono de uma editora, me procurando pra publicar um livro meu. Ele ficou sabendo, sabe-se lá como, de algumas coisas que escrevi e acha que isso pode dar muita grana,(sorri ambiciosamente) bufunfa. Só que pra isso ele quer que eu saia do morro Ítaca e vá morar num apartamento, lá na zona Sul.

O Mestre

Agarra-te a essa oportunidade como um filhote agarra-se ao colo da mãe.





Mirus (irritado)

Do morro eu não saio, tenho que lutar de alguma forma pra acabar com essas brigas de tráfico. E é exatamente, nesse morro que está a minha outra razão de tamanha felicidade, ou melhor, a maior razão.

O Mestre (sorrindo, após um tragada no cachimbo)

Amor!

Mirus

É Natcha, linda, maravilhosa, inenarrável, indescritível (suspira) ah, são tantos adjetivos que ficaria o dia inteiro a falar dela. Moreninha tímida, meiga... (olha para o Mestre e sorri) Já vou eu me empolgando e falando desenfreadamente dela.

(entra mano, correndo e apavorado)

Mano

Mirus! Mirus!

Mirus

Calma, Mano! Por que de tanta correria e tanto grito?

Mano

É o Zé Trinda, tá brigando com um dos homens do Morfeu na quebrada de baixo ali. Deve ter tiroteio aqui perto.

Mirus (ao pai)

Pai, entra pro botequim, agora.

Antônio

O que tá havendo meu filho?
Mirus

Entra logo e não discute! É tiroteio que vem por aí!

Voz de Zé Trinda (enquanto Antônio procura um lugar pra se esconder atrás do bar e Mirus e Mano tentam levar o Mestre para dentro de casa)

Seu traidorzinho de merda. Anda fazendo moví pro Morfeu, e no meu ponto. Tu vai levá chumbo nos córneos. Pode começa a rezar que hoje tu vai visitá o teu pai, vai ter um encontro em particular com o Diabo.

(um tiro, após algum tempo, seguem-se mais dois tiros)

Voz de Zé Trinda

Adeus seu merdinha!

(vários tiros, um deles acerta o Mestre enquanto era levado para dentro de sua casa por Mirus e Mano. Cessam os tiros e tem início uma música fúnebre, que começa baixo e vai aumentando ao decorrer da cena )

Mirus (apavorado)

Mestre! Não! Você não pode morrer, ainda há tanto a me ensinar, tanto a viver, tantos cachimbos ainda haveria de fumar.

O Mestre (agonizando)

Meu jovem discípulo, parece que a minha hora chegou, preciso lhe ensinar apenas mais uma lição. Essa lição não há escola no mundo que ensine, foi meu pai que me ensinou.( Pausa. Respira fundo) O maior conhecimento do mundo está na humildade, seja sempre humilde e terá tudo o que sonhares.(Morre)

Mirus (chorando)

Não! Mestre , não vá!

(Mano e Antônio se aproximam de Mirus e procuram consolá-lo, assustados com a cena do Mestre morto. Ao fundo passa Maria com uma trouxa na cabeça, cantarolando em tom triste)

Maria

Um bom homem se foi
Quantos mais terão que ir
Pro meu morro de novo
Voltar a sorrir

Mirus

Essa guerra de tráfico entre Zé Trinda e Morfeu tem que acabar.

( Antônio, Mano e Nelson levam o corpo do Mestre para dentro de sua casa. Mirus se volta para Maria)

Mirus

Maria! Você que mora nesse morro há tanto tempo, já viu tamanha violência? Tanto desprezo com o ser humano?

Maria

Pequeno Mirus, desse morro você não conhece nada. Ele um dia já foi um lugar cheio de paz. Onde eu Juca, Xavier e Chico fazíamos música por pura alegria, mas depois que essa briga de traficantes começou, já nem me assusto mais com as mortes. E também já não acredito mais em fazer música como Juca, Xavier e Chico. Só a tristeza me inspira agora.

(Maria sai de cena. Mirus sozinho, chorando enquanto escurece. Os três sambistas chegam ao botequim vestidos de preto)

Juca

Hoje não tem samba, não!



Xavier

É verdade, com a morte do Mestre não dá pra ter inspiração nenhuma.

Chico

Vamô então bebê em homenagem a alma do sábio Mestre. Nelson, traz aquela branquinha pra gente.

(Nelson aparece a porta da casa do Mestre e caminha em direção ao botequim)

Nelson

Não respeitam nem a morte do Mestre, ficam gritando por aí. (pega a cachaça e coloca na mesa deles) Toma. (puxa uma cadeira de dentro do botequim) Também vou beber com vocês hoje.

(Anoitece por completo)

Juca

Vamos embora. O Morfeu aparece por aí, e eu não quero encontrar com ele hoje não. Deve de tá zangado porque morreu gente dele.

(Nelson fecha o botequim as pressas e os quatro saem em disparada, Mano também sai da casa do velho)

Mano

Vamu embora Mirus, daqui a pouco o Morfeu tá na área !

(Mirus permanece inabalável enquanto Mano sai numa corrida para sua casa. O velho Antônio sai da casa do Mestre)

Antônio

Filho!

(Mirus nem se mexe. Antônio vai caminhando vagarosamente para sua casa, olhando vez ou outra para o desespero de Mirus)
Mirus(gritando)

Guerra de droga!

(Entra Morfeu, com passos lentos)

Morfeu

O que faz aqui até essa hora, não sabe que na noite desse morro quem manda sou eu!

Mirus

O Mestre morreu hoje por causa dessa Guerrinha de merda sua com o Zé Trinda.

Morfeu

Olha como você fala comigo.(saca a arma) Posso fazer fosse dormir pra sempre.

Mirus

O que há com você Morfeu, quando eu era criança via você jogando bola nesse morro na hora que eu saía pra ir pra escola.

Morfeu

Aí é que tá a nossa diferença, você foi pra escola e tem talento. Eu sou burro, só sei vender droga.(abaixa a arma) Poupo tua vida hoje em respeito ao Mestre, agora vá.

( Mirus vai para sua casa triste, escurece totalmente enquanto Morfeu reina sozinho na noite)

Morfeu

Aqui mando eu!

(Amanhece. O galo canta .Natcha e Carola entram em cena. Conversam enquanto atravessam o palco)

Carola

Sabe Natcha, se eu pego o Mirus, não deixo nada, transava com ele até cessar as minhas energias.

Natcha

Credo! Num fala assim não Carola. Vê se isso é maneira de falar.

Carola

Ai, ele é tão lindo, quero ele pra ser o pai dos meus molequinhos, por bem ou por mal.

Natcha

Chega de papo furado, Carola. Vamos logo senão a gente perde o ônibus.

(saem de cena cruzando com Nelson entrando)

Nelson

É, lá vamos nós pra mais um dia difícil! (abre o botequim)

(Ulisses entra em cena)

Ulisses

Fala Nelson, como vão as coisas por aí?

Nelson

Cada dia mais difícil. Ontem morreu o Mestre por causa de um tiroteio de tráfico. Mas nós vamos nos reunir hoje para apoiar Mirus na luta contra o fim dessa guerra.

Ulisses

Não se metam onde não podem saber as consequências. (sai de cena)

( Maria entra em cena)

Maria

Há de haver um dia
Que essa vida vai mudar
Vou ganhar na loteria
E nesse morro vou mandar

(Entra Mirus e Mano)

Mirus

Sabe, Mano, tive um sonho estranho essa noite. Estava o Mestre, eu e a Carola, num lugar diferente, não havia chão, nem paredes. Não precisávamos respirar e nem falar, bastava pensar para nos comunicarmos. Podíamos voar. Tudo era muito surreal e estranho.

Mano

Credo! (faz o sinal da cruz) Você deve é de estar impressionado com a morte do Mestre. E a Carola, o que ela tem a ver com isso, você num tá nem aí para ela, e olha que ela é doidinha por você, tá ligado?

Mirus

É, eu sei, mas eu estou completamente apaixonado pela melhor amiga dela.

Mano

Natcha?!




Mirus

Fala baixo, alguém pode ouvir. (pausa) Ah, pode gritar para esse morro inteiro ouvir. (grita) Natcha, eu te amo.

Mano

Tu tá maluco, meu irmão. Onde já se viu estar apaixonado por Natcha, aquela mulatinha tímida.

Mirus

Já dizia um grande pensador que o coração tem razões que nem a razão explica.

Mano

Eu , hein! Vô é tomando meu rumo que tenho mais o que fazer que ouvir um sonhador maluco. (sai)

Mirus

Vá e espalhe para o mundo que estou louco sim, loucura do coração. (Senta no bar, pega um guardanapo e começa a escrever)

Nelson

É poetinha, num esquece que hoje tem reunião.

(Mirus nem responde, está concentrado nas letras que escreve. Entra Zé Trinda)

Zé Trinda

Olha aí Nelson, sabe de onde que é essa chave aqui? (Balança um chaveiro)

Nelson

Não sei nem quero saber.
Zé Trinda

Tudo bem, eu lhe conto mesmo assim, (irônico)vizinho. A partir de hoje a antiga casa do Mestre é meu novo ponto. Comprei logo cedo, paguei uma mixaria pra filha do mestre. Ela disse que não queria nada que lhe trouxesse lembranças desse morro.

Nelson

Abre teu olho Zé Trinda.

Zé Trinda

Ah, bobagem! ( vai para a antiga casa do Mestre)

(Entra , Juca, Xavier e Chico e sentam no botequim junto a Mirus)

Juca

E aí poetinha, o que está escrevendo?

Mirus

Só um segundo.

Xavier

Ah, mostra pra gente vai.

Mirus

Terminei. É uma poesia pro meu grande amor, escuta só. ( dá uma forte limpada na garganta, levanta e põe-se a recitar.)


A tristeza, o veneno
A madrugada, o sereno,
O amor no coração.
Na noite, a solidão.

No bar, só e lhe esperando.
Mais um copo se esvaziando.
Mais um trago no cigarro.
Lá fora não vejo seu carro.

Procurando sinônimos.
Pensamentos platônicos.
Um solitário sonhador
Tenta dar fim a essa dor.

Chico

Quem é a bem aventurada?

Mirus

Uma deusa, vinda diretamente do Olimpo para o morro Ítaca, a mais bela das belas, cuja beleza há de ser invejada por todas as outras do mesmo sexo, seu nome retumba de dentro do meu coração, Natcha.

Juca (entusiasmado)

A amiga de Carola. Ah! Como temia que você tivesse algo com Carola.

Mirus

Por quê?

Chico

Ele é apaixonado por Carola.(gargalhadas) Nelson traz aquela branquinha aí pra nós.

Mirus

Ah! Por mim você pode ficar tranqüilo. Com ela nada quero. Minha musa é Natcha

(entra Natcha e Carola)

Natcha

Ai, Carola, sabe tudo o que eu queria? Um homem romântico, que quisesse casar comigo. Na Igreja. Eu vestida de branco. Que ele me dissesse coisas maravilhosas, fosse o pai dos meu filhos, o meu homem. Que nosso beijo fosse uma explosão, que quando fizéssemos amor o morro todo tremeria, e quando passássemos, todos se roeriam de tanta inveja do mais perfeito casal. Podia ser...

Carola (interrompe, gritando ao olhar para Mirus)

Mirus!

Natcha(assustada)

Quem? (sorri aceitando a idéia) Mirus. Talvez sim.

(Mirus levanta correndo e se dirige as duas)

Mirus

Natcha, tenho algo para lhe mostrar, mas quero que você só leia ao chegar em casa, quando estiver sozinha. Desculpe-me estar escrito em um simples guardanapo, bordaria essas letras a ouro se assim o pudesse.

Carola

Oi, Mirus.

Natcha

Muito obrigada.

Carola

Oi, Mirus.

( um tiro sai de dentro da casa de Zé Trinda e acerta Carola, que cai)

Carola

Mirus.

(Juca corre em direção à Carola)

Juca

Oh, Carola. Não vá ainda, tenho que lhe dizer algo.

Carola

Mirus.

Juca

Tu que me inspiraste a maioria de meus sambinhas não pode partir assim, sem aviso prévio ou qualquer notificação ao meu coração que a aguarda ansiosamente.

( Carola morre nos braços de Juca. Mirus olha para o pranto de Natcha e corre em direção a casa de Zé Trinda)

Voz de Mirus

Seu desgraçado, filho da mãe!

Voz de Zé Trinda

Calma aí Mirus, eu táva só brincando com a arma.

Voz de Mirus

Seu drogado de merda, tem tanto pó nas tuas entranhas que nem sabe mais o que faz. Ontem mataste o Mestre e hoje a indefesa Carola.

( Zé Trinda é jogado para fora de sua casa)



Zé Trinda

Você não sabe com que está mexendo, Mirus.

Mirus (saindo da casa)

Você tá tão drogado que perdeu a noção de tudo. Você tá no meio do morro. Cheio de testemunhas. Atira em mim se tiveres realmente coragem.

Zé Trinda (abaixa a arma e sai numa disparada, gritando)

Você ainda vai me pagar seu poetinha de morro. Não te mato hoje, mas te mato um dia.

Mirus (a Natcha)

Isso vai acabar. Hoje nós vamos nos reunir e discutir sobre essa guerra de mando e tráfico no morro.

Natcha (chorando)

Não te mete para que não seja o próximo.

(Escurece completamente)

Voz de Morfeu

Mais um inocente morreu, e na noite quem manda sou eu.

(Amanhece. O galo canta. Nelson entra em cena e abre o botequim. Logo em seguida entra Mano e Mirus.)

Mano

Sabe Mirus, tô começando a ficar com medo daquele sonho maluco seu. Primeiro, foi o Mestre, depois a Carola. Agora só falta você para completar aquela maluquice.


Mirus

Fica tranqüilo, ontem teve reunião na casa do Xavier exatamente pra discutir uma maneira de acabar com tanta violência no morro.

Mano

Num te mete nisso não, vai acabar sobrando pro’cê.

Mirus

Alguém tem que fazer alguma coisa. Se não de que adianta eu querer uma vida linda, maravilhosa com Natcha, morando num morro cheio de violência, sem saber se quando meus filhos saírem pra jogar bola voltarão vivos ou mortos.

Mano

Sua vida com Natcha? Como assim? Tu tá com ela meu irmão, contô tudo pra ela?

Mirus(sorrindo)

Não, ainda não. Isso é só um sonho meu, uma vontade que ultrapassa os limites da realidade.

Mano

E o doutor que queria fazer um livro teu, que dia que você vai encontrar ele?

Mirus

Hoje. Mas eu só vou publicar o livro com ele se não tiver que sair desse morro. É nesse morro que tá toda a minha inspiração. A minha vida toda tá aqui, entende?

Mano

Pior é que eu te entendo. Vou nessa até mais.
Mirus (se dirigindo ao botequim)

Até.

( entra Ulisses e Zé Trinda)

Ulisses

Olha aqui seu bastardo, tenho que conversar rápido com você pra ninguém nesse morro desconfia de nada.

Zé Trinda

Pode deixar doutor, ninguém aqui desconfia que o senhor é que é o manda-chuva do tráfico aqui de dia.

Ulisses

Cala a boca seu subordinado idiota. E olha aqui, eu não comprei essa casa nova pra você pra cheirar todo o meu produto e matar mais inocentes por aí, isso pode causar revolta do povo do morro, e eu odeio o povo desse morro.

Zé Trinda

Pode deixar doutor.

Ulisses (saindo)

E pare de me chamar de doutor, não quero ter intimidades com você.

Mirus ( se dirigindo ao Zé Trinda)

O que um traficante drogado como você estava a dizer para homem tão nobre com o senhor Ulisses?





Zé Trinda (já entrando em casa)

Homem nobre? (ri como um drogado) Ulisses? Ulisses é meu patrão, ele é que o grande poderoso do tráfico aqui no morro, eu só faço aparência porque ele não pode denegrir a imagem dele.

Mirus (para si )

Quer dizer então que o manda-chuva desse morro é o senhor Ulisses?
O povo precisa saber disso. (a Nelson) Chamem todos para uma reunião amanhã à noite, porque hoje tenho que ir lá na cidade para conversar com o editor do meu livro.

(Mirus fica a escrever e beber no botequim, até que dorme, começa a escurecer e Zé Trinda fica na porta de sua casa a espera de Natcha)

Zé Trinda ( a Mirus dormindo)

Ah! Seu poetinha, hoje você vai ver o que eu faço com aquela mulherzinha que andam dizendo por aí que é sua.

(entra Natcha. Zé Trinda saca a arma e a força a entrar na sua casa)

Zé Trinda

Vai entrando aí sua vagabunda!

(Natcha entra assustada e apavorada. Nelson corre até a mesa e acorda Mirus)

Nelson

Mirus, o Zé Trinda pegou Natcha e levou para casa dele com uma arma na cabeça dela.

Mirus (meio zonzo)

O que, a minha Natcha?

(corre em direção a casa de Zé Trinda e arrasta ele pra fora)

Mirus

Corre, Natcha! Vai embora pra sua casa que esse problema com esse drogado eu resolvo.

( Natcha sai correndo com os seios para fora da blusa se recompondo)

Zé Trinda

Muito bem, (dá uma fungada, como se limpasse o pó do nariz) agora é entre eu e você, seu otário.

Mirus

Se é briga o que você quer, briga terá. Largue essa arma e briga no braço. Vamos ver se você é homem sem essa arma.

Zé Trinda

Vou lhe mostrar que sou muito mais homem que você.( joga a arma no chão). Vem cá, seu franguinho.

(brigam e Mirus sai vitorioso após dar uma cadeirada em Zé Trinda. Sai correndo atrás de Natcha.)

Mirus(gritando)

Natcha! Natcha! ( os gritos vão diminuindo até que somem. Zé Trinda levanta meio atordoado e vai para sua casa. Escurece)

Voz de Morfeu

Na noite reino eu. Durmam reles moradores do morro Ítaca, amanhã será um dia inesquecível.

(Começa a amanhecer)




Voz de Mirus

A fogueira esta acesa,
mais acesa do que antes.
Quase impossível de apagar,
mas não se deve desistir de soprar.

Porque se ela continuar acesa
e não houver reciprocidade
o sofrimento deverá vir
e será difícil resistir!

O fogo foi abaixando
sem lenha para colocar
a fogueira foi acabando
porque o tempo foi passando.


Porém sempre fica uma brasa
e basta mais lenha colocar
para ela tornar a acender
e voltar a então arder.

Nesta fogueira foi diferente,
não foi só lenha que a reascendeu
foi algo bem mais interessante
foi algo superior que a fez flamejante!

A fogueira reacendeu totalmente
algo superior a lenha foi colocado.
Esta fogueira arde mais que anteriormente
porque não é só a lenha que a faz incandescente

A fogueira está acesa, e ardendo
seu fogo insiste em não apagar
o esforço feito para apagá-la é irrelevante
devido ao tamanho da fogueira gigante

(Amanhece. O galo canta. Nelson entra em cena e abre o botequim. Logo em seguida entra Mano, Mirus e Antônio)
Antônio

Meu filho aproveita essa tua chance de ir morar na cidade e larga esse morro de uma vez.

Mano

É, mané. Escuta teu pai, sai fora daqui enquanto tu pode.

Mirus

O editor do meu livro disse que eu posso continuar morando aqui se eu quiser. E é claro que eu quero.

Antônio

Corpo de homem e cabeça de moleque.

( sentam no botequim enquanto entram Xavier e Chico)

Xavier

Tem uma reunião hoje, Mirus? Quais são as novas?

Chico

É adianta pra gente a história aí?

( Zé Trinda sai de sua casa e atravessa a cena )

Mirus

É sobre o chefão do tráfico desse morro.

Xavier

Que é que tem o Zé Trinda?



Mirus

Não é o Zé Trinda o chefão, na hora da reunião eu conto pra todo mundo.(pausa) Cadê o Juca? Porque ele não veio?

Chico

Ele disse que não vai mais fazer samba não. Depois que a Carola morreu ele num tem mais inspiração pra nada, ele diz que o elixir de sua vida esgotou-se.

Mirus

Pobre Juca. Tenho pena dele. E imaginar que ele era apaixonado por uma mulher que era apaixonada por mim.(para si) Quanta ironia, Senhor Destino.

Xavier

Vamos andando, Chico, pra avisar o resto do pessoal da reunião.

Mano

É, eu também vou andando.

(saem de cena Chico, Xavier e Mano)

Antônio

Num te mete nisso meu filho. Tu vai acabar se dando mal.

( Mirus nem dá ouvidos para o pai, vê Natcha passando.)

Natcha

Mirus, não sei nem como te agradecer de ontem.




Mirus

Ah! Não foi nada. Não precisa se preocupar que isso não vai acontecer novamente, já dei uma lição no Zé Trinda.

Natcha

Será que vale a pena comprar briga com homem tão perigoso no morro

Mirus

Por você tudo vale a pena.

Natcha

Ah Gostei muito do que você me escreveu aquele dia, tão lindo, tão profundo, tão triste, tão...

Mirus

... seu!

Natcha (envergonhada)

Bem, tenho que ir. Mais a noite gostaria de conversar um pouco mais com você, quem sabe poderíamos ir lá no alto do morro ver as estrelas.

Mirus(sorrindo)

Feito. Quero dizer, perfeito.

( Natcha sai de cena. Antônio abana a cabeça)

Antônio

Meu filho, pense com a cabeça e não com o coração.




Mirus

Mas velho Silva, pra que matutar tanto se o que está escrito nos oráculos é que ela há de ser minha e eu hei de ser totalmente dela , fundindo-nos em um só. (toma um guardanapo para escrever)

Antônio ( a Nelson)

Menino teimoso e sonhador.

Nelson

Talentoso, de garra.

Antônio

É. Talvez por isso eu tema. Me dá uma daquelas.

(o tempo passa e Antônio fica a beber, enquanto Mirus escreve)

Antônio

E aí filho escrevendo para o seu livro?

Mirus

Não pai, é pra Natcha, e falta só uma verso para acabar.

(entra Zé Trinda, começa a escurecer)

Zé Trinda

Meu chefe disse que você anda falando demais, que anda colocando coisas na cabeça das pessoas e que elas podem se voltar contra ele.

Mirus( com o guardanapo na mão)

Cala-te teu pau mandado.


Zé Trinda (saca a arma)

Nem ouse contar ao povo desse morro quem é o verdadeiro chefe do tráfico, senão tu leva bala. Hoje logo cedo, quando passei por aqui, ouvi você dizer que ia espalhar para o morro o nome do manda-chuva. Diga que é mentira e terei motivo para poupar sua vida, diga que nada sabe.

(entra Natcha)

Mirus

Direi a todo esse morro que a briga de tráfico não é entre você e Morfeu. A guerra é entre Morfeu e Ulisses, esse sim é o verdadeiro chefão do tráfico de drogas.

( Zé Trinda atira duas vezes em Mirus e corre)

Natcha( aos prantos)

Não! Mirus, eu te amo. Amo sem saber como nem porque, mas amo.

Mirus

Tem algo que escrevi para você, mas não deu tempo de terminar, falta um verso. (dá uma engolida e sente a dor da bala que o acertara)

Teus olhos cor de mel
São luz no fim da estrada
Corro pra ti minha amada
Como os anjos voam para o céu.

Penso em ti a todo instante
Quero-te a meu lado agora
E este peito em que tu mora
Fará perto o que está distante

Minha amada, tão bela
Só o que posso lhe oferecer
É tudo o que sei escrever

O teu beijo a minha vida sela
No meu jazigo então colocarão

Natcha (completa e beija-o)

O teu sepulcro é meu coração

( Mirus morre nos braços de Natcha, que põem-se a chorar e a soluçar)

Antônio (urrando)

Guerra maldita e idiota. Droga.

( começa a escurecer)

Morfeu (entra em cena com passos lentos)

Posso levá-los a um mundo onde tudo é fantasia, onde só a morte pode ser real e a vida é apenas um brinquedo nas mãos de quem não sabe controlá-la.

Maria( entra em cena cantando)

Quarta-feira de cinzas
Ou tardes de Domingo
É tudo o fim da ilusão

É o princípio da verdade,
Dá razão à tristeza,
Origem da solidão.

(escurece completamente)
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Atualizado em: Seg 27 Jul 2009

Comentários  

#6 MRToledo 27-07-2009 10:39
Excelente trabalho, parabéns!
Desejo-lhe SUCESSO e aguardo o dia em que ao assistir este filme (assim espero) lembrarei do dia em que tive o privilégio ler o roteiro.
Forte abraço;
Marcelo de Toledo
#5 MRToledo 27-07-2009 10:39
Excelente trabalho, parabéns!
Desejo-lhe SUCESSO e aguardo o dia em que ao assistir este filme (assim espero) lembrarei do dia em que tive o privilégio ler o roteiro.
Forte abraço;
Marcelo de Toledo
#4 MRToledo 27-07-2009 10:37
Excelente trabalho, parabéns!
Desejo-lhe SUCESSO e aguardo o dia em que ao assistir este filme (assim espero) lembrarei do dia em que tive o privilégio ler o roteiro.
Forte abraço;
Marcelo de Toledo
#3 MRToledo 27-07-2009 10:37
Excelente trabalho, parabéns!
Desejo-lhe SUCESSO e aguardo o dia em que ao assistir este filme (assim espero) lembrarei do dia em que tive o privilégio ler o roteiro.
Forte abraço;
Marcelo de Toledo
#2 MRToledo 27-07-2009 10:36
Excelente trabalho, parabéns!
Desejo-lhe SUCESSO e aguardo o dia em que ao assistir este filme (assim espero) lembrarei do dia em que tive o privilégio ler o roteiro.
Forte abraço;
Marcelo de Toledo
#1 MRToledo 27-07-2009 10:36
Excelente trabalho, parabéns!
Desejo-lhe SUCESSO e aguardo o dia em que ao assistir este filme (assim espero) lembrarei do dia em que tive o privilégio ler o roteiro.
Forte abraço;
Marcelo de Toledo

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